Comi o dogão de um youtuber famoso
Fui encontrar uns amigos em Maringá (PR) e, sem querer, me vi jantando na lanchonete de um youtuber.
Quem poderia imaginar? O nome do estabelecimento é Rezendog. Imaginei que fosse um funcionário público aposentado, o Rezende da contabilidade, que pôde, enfim, realizar o seu sonho de vender cachorro quente prensado. O que seria algo perfeitamente normal na capital do dogão.
Após a experiência gastronômica, busquei informações do rapaz, que também atende pela alcunha rezendeevil. Até então, meu conhecimento do sujeito se limitava em saber que ele faz (fazia?) vídeos de Minecraft. Segundo a Wikipédia (o cara tem um verbete na Wikipédia), o império do Rezende cresceu e se diversificou:
Ao longo dos anos, [Rezende] diversificou o conteúdo e consolidou-se como um dos criadores de maior audiência da plataforma no Brasil. É também fundador da ADR, agência voltada ao marketing de influência, e da rede de fast food Rezendog.
Descobri, também, que Rezende nasceu em Londrina. Há uma rivalidade transversal (futebol, universidades, qualidade de vida) entre Maringá e Londrina. A audácia do cara em abrir um dogão londrinense em Maringá…
Nesta matéria de 2023, Gabriel d’Avila, sócio do Rezendog, diz que a dupla se espelhou “no lanche londrinense, o Dog Frango, assim como na gestão e história do McDonald’s e na inovação e na criatividade do Mr. Beast Burger”. Não tem erro: a criatividade do empreendedor startupero brasileiro se limita a copiar algo que foi feito na gringa, quase sempre nos Estados Unidos.
Em outro trecho, D‘Avila explica que o objetivo da rede Rezendog é “unir experiências inovadoras e lanches deliciosos”. Será que deu certo? Veremos!
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A unidade maringaense do Rezendog fica em endereço privilegiado, no entorno do agradável Parque do Ingá. Da rua, o consumidor vê a fachada insuspeita: uma placa escrito “Rezendog Fast Food” e um pão com salsicha de óculos escuros, boné e tênis, ladeado pelo que deduzo sejam batatas fritas palito.

Esse primeiro contato com a marca é uma armadilha para gente velha que tem mais o que fazer em vez de assistir a vídeos de gente aleatória no YouTube. Adentrar o estabelecimento é como cruzar um portal mágico. Lá dentro, o pobre coitado (eu) é bombardeado por imagens do Rezende. Foi nesse momento, com a ajuda dos meus amigos mais jovens, que descobri que o Rezendog era um empreendimento das organizações Rezendeevil.
O ambiente não é dos maiores, mas é carregado de… coisas. Um Rezendog, digo, Rezende de papelão em tamanho real para tirar fotos e várias telas mostrando o youtuber comendo dogão. Rezende interage com ele próprio nesses vídeos. Meio egocêntrico. Custava contratar uns figurantes? Chamar os parças?
Estamos, afinal, no Rezendeverso. No fundo do salão tem uma área para festas, batizada de “Rezenparty”; o tipo de coisa que gente insuportável adora. Há um fliperama perto do banheiro com um letreiro aludindo ao nome Rezende também. Felizmente, o banheiro é livre de neologismos envolvendo o nome “Rezende”, uma forçação que não convence. Você já conheceu um Rezende divertido? Um Rezende com menos de 70 anos? Eu, não.
O balcão, que se estende para a cozinha e o local de retirada dos pedidos, tem uma frase em inglês, letra cursiva e estética de neon dos anos 1980, onde se lê “All you need is love and hot dog.” Tratar o querido dogão por “hot dog” é um insulto à iguaria e à população local. E brega, mas quem sou eu para avaliar a estética youtuber? Ele deve saber o que está fazendo.
É tudo muito colorido e mal planejado. As mesas têm de um lado sofás confortáveis com almofadas que lembram salsichas (amei!) e, do outro, banquetas sem encosto, uma arquitetura hostil para pessoas com mais de 20 anos. E a mesa é pequena. Mal cabem duas bandejas onde os dogões são servidos.

Nada disso tem relevância perto da comida. Afinal, o dogão do Rezendog é bom?
Pedi o “Carolzinha Veggie”, única opção de dogão vegetariano do cardápio. Quem é Carolzinha? Meus amigos jovens disseram que é a namorada do Rezende. Não verifiquei essa informação.
O lanche vem enrolado num papel, como era de se esperar. À primeira vista, fiquei temeroso de que não fosse me saciar — e olha que nem sou de comer muito — porque o pão é menor que o tradicional de dogão. Ao pegá-lo, esse receio se dissipou: é um pouco menor, sim, mas mais pesado.
Antes de descrever a degustação do Carolzinha Veggie, peço encarecidamente ao Rezendog para deixar de ser muquirana: não tem justificativa para oferecerem apenas 1 (um) sachê de ketchup e 1 (um) de mostarda. (A maionese verde, que não comi, veio num saquinho maior, pois caseira.) Faça uma publi ou sei lá o quê, mas banque pelo menos dois sachês de cada.
Achei o lanche bem gostoso. A salsicha vegana era saborosa — ainda que não tenha identificado do que ela é feita —, os ingredientes são equilibrados e da combinação deles nasce um sabor muito bom. Está no nível do saudoso Lanche do Baiano, na Zona 7, meu favorito de quando morava em Maringá.
Comeria outra vez no Rezendog, mesmo com os muitos olhos do Rezende em cima de mim o tempo todo, do papelão às telas. Cara estranho.
Se serve de informação extremamente relevante pro universo, foi o Rezende que pariu pro mundo a celebridade Virgínia
Eles foram namorados entre 2018 e 2020 e ela aparecia direto no canal dele
Me lembrou q uma época teve perto de casa uma hamburgueria do Carlinhos maia. Estava sempre vazia, nem sei se era bom pq não tive coragem
Entrei em uma sem saber quem era o sujeito, sai decepcionado. Hambúrguer seco, sem gosto nenhum. Acho que faliu, apesar do cara continuar sendo milionário.
https://revistapegn.globo.com/franquias/noticia/2023/10/hamburgueria-que-tinha-carlinhos-maia-como-socio-encerra-100-franquias-e-rede-fala-em-reestruturacao.ghtml
Anos e anos e anos acompanhando aqui e confesso que esse foi o texto mais fora da curva que vi no MdU. Excelente relato!
Oi Rodrigo, que texto divertido, adorei! Você teve um jeito inusitado de conhecer o Rezende, já eu só soube desse cara porque ele já participou várias vezes do Domingo Legal, no SBT (minha mãe adora). Agora, algumas curiosidades: o lanche que comeu tem esse nome por conta de uma parceria entre o cara e uma influenciadora, agenciada pela ADR. O Rezende é noivo de outra, advinha?, influenciadora , chamada Bruna Zaneti. Salsichas veganas, em geral, são feitas de uma massa de proteína texturizada de soja e/ou castanhas. E lanche vegano eu amo! Sucesso!
Relendo o comentário que escrevi, esqueci de mencionar que o cara participou do "Passa ou Repassa, o game dentro do Domingo Legal. Aliás, é a única parte que dá pra aguentar nesse programa de TV, diga-se.
Vez ou outra a gente coloca no Domingo Legal só para ver quais sub-celebridades estarão no Passa ou Repassa, para absorver cultura popular!!
Você viu o desse último domingo? Aquela parte em que a plateia responde perguntas me deixou preocupado…
Pois é, essa parte do pessoal respondendo é preocupante... Até o Celso ficou intrigado!
O que esperar das pessoas hoje em dia que tem como influencia pessoas que se dizem "criados de conteúdo" onde muitos não criam nem acrescentam nada para o mundo?
Texto maravilhoso. Ri alto.
Aqui na expectativa do influenciador Rodrigo Ghedin lançar a sua grife de fast-food: "Dogão do Usuário" ("Manual do Dogão", quem sabe).
O lanche do YouTuber churrasqueiro, que eu saiba, é bem ruim. Me incentivaram a não ir de tão ruim. Acho que ambos são muito inteligentes em saltar do virtual para algo físico, principalmente lanches.
2026, o ano do lanche do manual? Fica a provocação.
"Foi nesse momento, com a ajuda dos meus amigos mais jovens, que descobri que o Rezendog era um empreendimento das organizações Rezendeevil."
Li este trecho pensando no jingle do Doofensmitshz
https://www.youtube.com/watch?v=0RYgGTVP1hU
E bem, se o cara montou algo para não depender só daa mídias sociais, é um bom ponto.
Muito bom saber que o Ghedin está no lado verde da força
Mesmo sendo um maringaense de coração, tive que dar o braço a torcer. O lanche é realmente muito gostoso, e com a companhia perfeita, é melhor ainda. Grande relato!
Ghedin, esse foi um texto muito inesperado! Hahahahah
Está na linha de pessoas engraçadas que sigo e gosto de ler, mas num local fora de costume.
Ocorrências como empreendimentos (e fãs) de youtuber me lembram como eu vivo em um nicho tão limitado. Esses dias um amigo estava relatando que foi em uma feira/expo de games e não sabia absolutamente nada do que estava rolando ali, ao mesmo tempo que estava lotado: de crianças, eufóricas. Um mundo a parte.