Da web para o impresso: a reinvenção do Manual do Usuário

Mockup da revista impressa do Manual do Usuário.

O Manual do Usuário nasceu e floresceu na web, mas sempre rejeitou a celeridade que marca o ambiente digital. Trata-se de um blog Slow Web, afinal. Tem dias em que olho para o que está sendo produzido e me questiono se não seria melhor ter mais tempo para refletir sobre as pautas e, com isso, gerar um conteúdo mais coeso e perene. Ok, não vou ficar nos eufemismos: fico pensando se o blog não seria melhor no formato de uma revista impressa. E se… E se!?

Enfim descobriremos se essas suspeitas têm razão de ser. É com grande orgulho que anuncio que o Manual do Usuário está deixando, oficialmente, de ser um blog na web para virar uma revista impressa mensal, com artigos de opinião e reportagens de fôlego do que mais importa em tecnologia pessoal, entregue diretamente no seu endereço por ciclistas precarizados de aplicativos de entrega de empresas deficitárias financiadas por fundos soberanos de países do Oriente Médio com tendências autoritárias. (Sempre dê gorjeta a esses caras, por favor!)


Receba a newsletter (grátis!):


Chega de telas. Em vez de ter que olhar para mais uma a fim de ler o conteúdo daqui, você terá em mãos papel, que vem da natureza e não emite luz — seus olhos agradecem. Como parte da política sustentável desta investida empresarial, a revista será feita a partir da reciclagem de panfletos de borracharias e supermercados entregues no trânsito e de festas de Ciências Sociais distribuídos nas entradas de universidades públicas. Estimo que uma força-tarefa de cinco pessoas vivendo normalmente e passando por esses locais somente em dias úteis angariará matéria-prima suficiente para uma tiragem de cinco mil exemplares mensais.

Com isso, o site do Manual do Usuário será convertido em uma banca virtual, onde você poderá comprar as revistas impressas avulsas ou se tornar assinante. Leitoras(es) que já assinam o projeto pelo Catarse receberão instruções específicas em breve. O arquivo do site será impresso e distribuído em bibliotecas por todo o Brasil. Será o único jeito de revisitar os textos já publicados aqui — pelo menos até alguma startup estúpida inventar um tecnologia exploradora e sem o mínimo de consciência social que, sem querer ou não, gere como “externalidade” o fechamento de todas as bibliotecas do país. Quando isso acontecer, pensaremos em outra solução.

Como a tecnologia é muito dinâmica, cogito também enviar cartas semanais com as notícias mais importantes do período. Só falta definir a logística (se via Correios ou pombos-correio) e se escreverei as cartas a mão ou em uma máquina de escrever — essa última, já escolhida como a tecnologia com que os textos da revista serão redigidos antes de serem enviados à gráfica.

Aliás, este é um aspecto interessante da nova fase do Manual: quero fazer toda a minha parte com ferramentas analógicas, sem a ajuda de computadores ou celulares. As partes do processo em que o uso de equipamentos digitais é necessário serão terceirizadas. O objetivo desta medida que, reconheço, é drástica, é eliminar qualquer chance de eu abrir acidentalmente uma rede social e, com isso, arruinar o meu dia.

Investimento

Você deve estar se perguntando “mas imprimir revista é muito caro, Ghedin!!”. Primeiro que isso não é uma pergunta, mas entendi a sua preocupação. A resposta é muito simples: quando é para acontecer, o destino conspira a favor.

Dia desses estava almoçando em um restaurante crudívero com minha namorada e, enquanto tentava descascar e comer uns pinhões, explicava a ela esta grande reformulação do Manual. Por coincidência, na mesa ao lado estava um ex-executivo de empresas de tecnologia adepto do movimento FIRE que se aposentou aos 45, cansou de não fazer nada aos 47 e resolveu voltar ao mercado como venture capitalist para investir em ideias disruptivas e ficar ainda mais rico para construir uma casa de veraneio em Marte e se aposentar novamente aos 49, tornando-se o primeiro DOUBLE FIRE interplanetário da história. Enfim. Ele entreouviu a nossa conversa e ali mesmo, na hora, propôs um investimento milionário que transformou o Manual do Usuário no novo unicórnio brasileiro (obrigado! Obrigado!).

Homem de barba comprida, óculos escuros e camisa xadrez sentado.
Málvio Caruso, o novo investidor do Manual do Usuário.

“Este pivot é irado”, disse o investidor Málvio Caruso. “Ghedin é um cara visionário [ahh para com isso, vai (ノ・ω・)ノ ], essa ideia tem tudo para dar certo no Valley. Um ‘back to the basics’, dentro da tendência de circular economy, com um market fit perfeito e grande potencial de crescimento exponencial! Pensa comigo: todo mundo tem iPhone e todo mundo precisa se informar, mas todo mundo está burnt-out dos seus iPhones, logo o que sobra? Isso aí, man: revistas. Magazines”.

Caruso já deu uma boa ideia para expandir o negócio: “Podemos aproveitar o gap deixado pelos jornais e explorar o mercado secundário de forro para casinhas de cachorro e gaiolas de calopsitas. O mercado de pets movimenta US$ 986 bilhões por ano, mêu!”

Além do investimento, Málvio está tentando emplacar uma coluna de negócios na revista em que ele promete explicar o seu método para alcançar a independência financeira a partir de R$ 1,5 mil se alimentando exclusivamente de avocado, Soylent e dos sonhos e do suado dinheiro de milhares de miseráveis iludidos que compram as bobagens que ele vende por mil e quinh… opa, hahahahai ai, quero dizer, onde ele revelará suas dicas de empreendedorismo.

Ainda não sabemos se a coluna vai rolar mesmo.

Provavelmente não.

Arte do topo: Gabriel Muniz.

Acompanhe

  • Telegram
  • Twitter
  • Newsletter
  • Feed RSS

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

33 comentários

  1. Das coisas mais sensacionais que li no MdU! Acho que conseguiu extrapolar de forma muito afiada e bem-humorada quase todas as críticas que já vi fazererem ao site e ao Ghedin em si, do “ludismo” ao estilo “slow web”. Muito bom.

  2. Sim – por favor !!! A ideia do M.U. impresso eh fantastica, um icone a Slow Web. Poder consumir o conteudo em momento de falta de energia eletrica – ou mesmo durante aquela pausa de tranquilidade onde sentamos no trono, invocamos nosso Conan interior e pensamos na vida. Parabens pela iniciativa !!! Torname-ei grande apoiador e patrocinador do projeto.

  3. “O arquivo do site será impresso e distribuído em bibliotecas por todo o Brasil. Será o único jeito de revisitar os textos já publicados aqui”

    O mais engraçado é que, pensando na preservação do patrimônio digital, a melhor maneira de salvaguardar o conteúdo da web é mesmo IMPRIMINDO e preservando em mídia física!

  4. O investidor é o melhor. Vegano, apreciador de cervejas artesanais e que provavelmente trouxe a ideia depois de um intercâmbio em #London onde ele se conectou com o seu verdadeiro eu e descobriu os benefícios da leitura em papel.

    Passa os dias na Starbucks que fica do lado do seu loft com o seu MBP e escrevendo um livro que nunca vai ser terminado.

  5. Falando sério: a idéia de fazer uma revista é boa. Podia fazer um e-book com a seleção das melhores matérias.

  6. Embora tenha sido um ótimo post em prol de um 1 de Abril ainda mais engraçado, já imaginou se o Ghedin vende-se o MdU ao Tecnoblog?! HAHAHAHAH fica a dica para o 1 de Abril do ano que vem!!! Já imagino o deboche e o sarcasmo escorrendo pelo texto!!

    E com esse acordo selamos o fim do termo “notch”, dando lugar a uso do termo puramente nacional “entalhe”. HAHAHAHAHA

  7. “pelo menos até alguma startup estúpida inventar um tecnologia exploradora e sem o mínimo de consciência social que, sem querer ou não, gere como “externalidade” o fechamento de todas as bibliotecas do país.”

    HAHAHAHAHAHA e não para!!!

  8. “entregue diretamente no seu endereço por ciclistas precarizados de aplicativos de entrega de empresas deficitárias financiadas por fundos soberanos de países do Oriente Médio com tendências autoritárias”

    HAHAHAHAHAHAHA

  9. Hahahaha muito bom! Fica minha dica para o próximo ano: MdU irá fechar as portas em acordo mútuo com o Feicebooki. Para que ter um site próprio se o Feicebooki nos proporciona DE GRAÇA toda infra-estrutura para postagens e comentários que atende BILHÕES de pessoas diariamente? E você ainda pode CURTIR e COMPARTILHAR nossos posts com a sua mãe! Curta a nossa página! hahaha

    1. Cara, poderia ter feito isso com o Medium. Todo ano eles fazem um “pivot” para um novo modelo de negócio que todas as empresas de mídia do planeta já tentaram, convidam meia dúzia de publicações prometendo tudo isso aí e mais receita garantida para, seis meses depois, sem aviso prévio, mandar todo mundo embora. Oportunidade perdida.

  10. Que notícia boa!

    Estava pensando em abrir uma banca de revistas/jornais perto de uma praça aqui na cidade, e esta notícia confirma que a minha ideia de negócio está certa!

    Vou agora regularizar meu CNPJ e abrir um financiamento para viabilizar esse minha empreitada. Tenho muita convicção que esta onda de saudosismo é uma excelente oportunidade para investir.

    Conto com a sua parceria, Ghedin!

      1. concordo contigo rodrigo :D e parabéns pelo mdu :D gostei muito do mdu! hahaha adorei o piada de primeiro abril kkkkk :D

  11. O problema de acessar o MdU assim que se acorda: primeiro me assustei com o rumo que a leitura foi tomando… Suspirei, disse “Nããããããão!”, me ajeitei no sofá, me indignei, ensaiei o comentário que faria, pra só depois perceber que é 1º de abril…
    Poxa, Ghedin, a criatividade rolou solta, hein?!

  12. Brilhante.

    “Pensa comigo: todo mundo tem iPhone e todo mundo precisa se informar, mas todo mundo está burnt-out dos seus iPhones, logo o que sobra? Isso aí, man: revistas. Magazines” – Li esse trecho com o sotaque paulistano do Gregório Duvivier

Do NOT follow this link or you will be banned from the site!