Mockup da revista impressa do Manual do Usuário.

Da web para o impresso: a reinvenção do Manual do Usuário


1/4/19 às 7h48

O Manual do Usuário nasceu e floresceu na web, mas sempre rejeitou a celeridade que marca o ambiente digital. Trata-se de um blog Slow Web, afinal. Tem dias em que olho para o que está sendo produzido e me questiono se não seria melhor ter mais tempo para refletir sobre as pautas e, com isso, gerar um conteúdo mais coeso e perene. Ok, não vou ficar nos eufemismos: fico pensando se o blog não seria melhor no formato de uma revista impressa. E se… E se!?

Enfim descobriremos se essas suspeitas têm razão de ser. É com grande orgulho que anuncio que o Manual do Usuário está deixando, oficialmente, de ser um blog na web para virar uma revista impressa mensal, com artigos de opinião e reportagens de fôlego do que mais importa em tecnologia pessoal, entregue diretamente no seu endereço por ciclistas precarizados de aplicativos de entrega de empresas deficitárias financiadas por fundos soberanos de países do Oriente Médio com tendências autoritárias. (Sempre dê gorjeta a esses caras, por favor!)


As principais notícias de tecnologia e indicações de leituras no seu e-mail. Assine a newsletter (é grátis!):


Chega de telas. Em vez de ter que olhar para mais uma a fim de ler o conteúdo daqui, você terá em mãos papel, que vem da natureza e não emite luz — seus olhos agradecem. Como parte da política sustentável desta investida empresarial, a revista será feita a partir da reciclagem de panfletos de borracharias e supermercados entregues no trânsito e de festas de Ciências Sociais distribuídos nas entradas de universidades públicas. Estimo que uma força-tarefa de cinco pessoas vivendo normalmente e passando por esses locais somente em dias úteis angariará matéria-prima suficiente para uma tiragem de cinco mil exemplares mensais.

Com isso, o site do Manual do Usuário será convertido em uma banca virtual, onde você poderá comprar as revistas impressas avulsas ou se tornar assinante. Leitoras(es) que já assinam o projeto pelo Catarse receberão instruções específicas em breve. O arquivo do site será impresso e distribuído em bibliotecas por todo o Brasil. Será o único jeito de revisitar os textos já publicados aqui — pelo menos até alguma startup estúpida inventar um tecnologia exploradora e sem o mínimo de consciência social que, sem querer ou não, gere como “externalidade” o fechamento de todas as bibliotecas do país. Quando isso acontecer, pensaremos em outra solução.

Como a tecnologia é muito dinâmica, cogito também enviar cartas semanais com as notícias mais importantes do período. Só falta definir a logística (se via Correios ou pombos-correio) e se escreverei as cartas a mão ou em uma máquina de escrever — essa última, já escolhida como a tecnologia com que os textos da revista serão redigidos antes de serem enviados à gráfica.

Aliás, este é um aspecto interessante da nova fase do Manual: quero fazer toda a minha parte com ferramentas analógicas, sem a ajuda de computadores ou celulares. As partes do processo em que o uso de equipamentos digitais é necessário serão terceirizadas. O objetivo desta medida que, reconheço, é drástica, é eliminar qualquer chance de eu abrir acidentalmente uma rede social e, com isso, arruinar o meu dia.

Investimento

Você deve estar se perguntando “mas imprimir revista é muito caro, Ghedin!!”. Primeiro que isso não é uma pergunta, mas entendi a sua preocupação. A resposta é muito simples: quando é para acontecer, o destino conspira a favor.

Dia desses estava almoçando em um restaurante crudívero com minha namorada e, enquanto tentava descascar e comer uns pinhões, explicava a ela esta grande reformulação do Manual. Por coincidência, na mesa ao lado estava um ex-executivo de empresas de tecnologia adepto do movimento FIRE que se aposentou aos 45, cansou de não fazer nada aos 47 e resolveu voltar ao mercado como venture capitalist para investir em ideias disruptivas e ficar ainda mais rico para construir uma casa de veraneio em Marte e se aposentar novamente aos 49, tornando-se o primeiro DOUBLE FIRE interplanetário da história. Enfim. Ele entreouviu a nossa conversa e ali mesmo, na hora, propôs um investimento milionário que transformou o Manual do Usuário no novo unicórnio brasileiro (obrigado! Obrigado!).

Homem de barba comprida, óculos escuros e camisa xadrez sentado.
Málvio Caruso, o novo investidor do Manual do Usuário.

“Este pivot é irado”, disse o investidor Málvio Caruso. “Ghedin é um cara visionário [ahh para com isso, vai (ノ・ω・)ノ ], essa ideia tem tudo para dar certo no Valley. Um ‘back to the basics’, dentro da tendência de circular economy, com um market fit perfeito e grande potencial de crescimento exponencial! Pensa comigo: todo mundo tem iPhone e todo mundo precisa se informar, mas todo mundo está burnt-out dos seus iPhones, logo o que sobra? Isso aí, man: revistas. Magazines”.

Caruso já deu uma boa ideia para expandir o negócio: “Podemos aproveitar o gap deixado pelos jornais e explorar o mercado secundário de forro para casinhas de cachorro e gaiolas de calopsitas. O mercado de pets movimenta US$ 986 bilhões por ano, mêu!”

Além do investimento, Málvio está tentando emplacar uma coluna de negócios na revista em que ele promete explicar o seu método para alcançar a independência financeira a partir de R$ 1,5 mil se alimentando exclusivamente de avocado, Soylent e dos sonhos e do suado dinheiro de milhares de miseráveis iludidos que compram as bobagens que ele vende por mil e quinh… opa, hahahahai ai, quero dizer, onde ele revelará suas dicas de empreendedorismo.

Ainda não sabemos se a coluna vai rolar mesmo.

Provavelmente não.

Arte do topo: Gabriel Muniz.

Colabore
Assine o Manual

Privacidade online é possível e este blog prova: aqui, você não é monitorado. A cobertura de tecnologia mais crítica do Brasil precisa do seu apoio.

Assine
a partir de R$ 9/mês