Rosto de uma mulher coberto por flor amarela em foto com dupla exposição.

Realidades mescladas


17/8/16 às 16h30

Na abertura do IDF 2016, a Intel anunciou algumas coisas bem interessantes. Delas, a que chamou mais a atenção foi o Project Alloy, um capacete de realidade virtual que dispensa fios e permite interagir com o ambiente. Ou seja, ele é uma mistura de realidade virtual com realidade aumentada, tanto que o marketing da Intel cunhou um novo termo para se referir à experiência, algo como “realidade mesclada” em tradução livre.

O Project Alloy parece promissor. Ele se apresenta como o melhor das duas realidades virtuais já disponíveis comercialmente: a liberdade sem fios de produtos mais básicos como o Gear VR, da Samsung, e o poder de processamento de dispositivos mais elaborados como o Vive, da HTC, e o Oculus Rift. Na conta, ainda temos câmeras de alta definição combinadas à tecnologia RealSense, da própria Intel, que interpreta a profundidade e o volume de objetos no ambiente a fim de gerar coordenadas precisas para mapeá-los e integrá-los ao espaço virtual.

A apresentação, ou seja, o aspecto visual é importante nesse tipo de aplicação, pois é preciso convencer o usuário de que ele está de fato em outra realidade. Talvez na mesma medida, talvez em uma menor, mas não insignificante, o local e a interação do usuário com o “mundo real” (na falta de termo melhor) também são. A Intel não revelou especificações e, por isso, permanecem como incógnitas a autonomia da bateria ou que magia negra tem ali dentro para miniaturizar num espaço tão reduzido hardware equivalente ao de um computador gamer, mas… detalhes. Bônus: o projeto será liberado gratuitamente em 2017, incentivando empresas e entusiastas a ingressarem e a acelerarem o desenvolvimento dessa tal de realidade mesclada.

A promessa da realidade mesclada

O feito técnico, se for mesmo tudo isso que está sendo prometido, é impressionante, porém preste atenção na abordagem, especialmente neste comercial:

Se as máquinas de Matrix precisassem convencer os seres humanos a entrar no mundo virtual que mantém suas mentes ocupadas enquanto servem de energia a elas, o vídeo acima poderia muito bem ter sido usado na campanha publicitária. Por muito menos que isso, por um pedaço de filé mignon e algumas garantias, Cypher largou a dura realidade e traiu seus companheiros para viver numa ilusão tão confortável quanto a da Intel.

“E se a realidade virtual parecesse menos virtual e mais real?”, pergunta a narradora de voz suave do comercial enquanto o personagem (no caso, você, desde que você seja um homem heterossexual) chega em um carrão a uma festa badalada e, logo na entrada, troca olhares com uma mulher muito bonita.

Mais à frente, após vários outros “E se…”, ela vai mais fundo: “E se as suas emoções provocassem reações verdadeiras?” O personagem ali é o protagonista da história, como todos nós somos em nossas vidas. Mas ele é mais, é o protagonista idealizado, o sonho de um coletivo felizmente cada vez menos coletivo, mais fragmentado, que se torna realidade graças ao Project Alloy. Ele transita por um ambiente altamente intimidador com tranquilidade. Cumprimenta a todos, é admirado por todas, toma o microfone e se torna, em definitivo, o centro das atenções, o cara mais legal da festa. Quando algo parece sair do script, ele congela a cena, reposiciona o garçom desastrado e o que seria um evento constrangedor é convertido em uma divertida pool party. De saída, um helicóptero surge. Ao fundo, a narradora finaliza: “Você vai, com a realidade mesclada da Intel”.

Há todo um exagero de marketing ali. Mesmo que o Project Alloy seja revolucionário, não será como no vídeo, pelo menos não agora. Isso é praxe e nem é o meu incômodo. Há vários incômodos, mas o problema com a mensagem da Intel que quero abordar aqui é que ela trata a realidade mesclada como algo novo e dependente de tecnicidade. Não é. Nós já vivemos em uma, em várias, e não é de agora, nem depende de um capacete. Isso vem desde que o primeiro ser humano se pôs a pensar.

As múltiplas realidades que criamos

De tempo em tempo é preciso revisitar algumas concepções. Exemplo simples: quando fiz aquele apelo para que as pessoas filmassem com o smartphone no modo paisagem, apps que exploravam a câmera frontal e, por consequência, o formato retrato não eram tão populares. Hoje eles são, e não só: o centro gravitacional do consumo mudou. Antes, era a TV; hoje é o smartphone. Nesse, faz todo sentido que se grave e transmita vídeos na vertical. É até mais cômodo ao espectador e mais natural de se produzir conteúdo. O novo “certo”, então, passou a ser filmar com o celular de pé.

Acredito que o mesmo possa ser dito sobre o uso de telas como portais para outros locais, assuntos e relações interpessoais. Sobre o seu uso em “locais inapropriados”.  Sobre a realidade das sensações que elas nos causam em comparação às que temos no “mundo real”.

Dependendo do referencial, o que acontece na tela pode ser muito mais real que a realidade que nos rodeia. O pôr-do-Sol que eu preferiria admirar com os meus olhos pode emanar sensações mais potentes ao ser compartilhado, pela Internet, com alguém querido ou com um público mais amplo, talvez até difuso. Exemplo menos óbvio e mais profundo: uma mensagem de texto. Ela consegue provocar o riso, trazer conhecimento, gerar raiva, pode até fazer o coração bater mais rápido. Alguém pode dizer que essa mensagem tão significativa e com implicações tão íntimas e intensas aconteceu no “mundo virtual”? Creio que não.

Quando escrevi que as redes sociais estavam nos deixando mais tristes e solitários, disse, também, que estávamos num período de transição. Ainda não saímos dele. Nessa condição é difícil tirar conclusões porque nos falta o distanciamento necessário para pesar os prós e os contras. Sem isso, o empirismo se apodera da análise, comprometendo-a. Assim, talvez eu estivesse me sentindo solitário naquele momento e, sabendo o que advogados sempre souberam, o meu discurso de três anos atrás passa a ser justificável: há sempre uma teoria que embasa as nossas percepções. Poderia encontrar outras que dizem que não, que as redes sociais não nos deixam solitários, e até alguma que diga que ela aproxima as pessoas no “mundo real”. Mas, na real (mesmo), ninguém sabe ainda ao certo. É muito cedo para uma definição, o assunto ainda é inconclusivo e está totalmente aberto.

A realidade mesclada, porém, parece-me algo mais tangível, até porque ela precede a Internet — não na forma maquiada que a Intel vende a sua, mas como um conceito mais amplo. Crianças, com sua imaginação fértil e a inibição em expôr o que lhes vem à cabeça, sempre criaram universos virtuais em suas brincadeiras. Mesmo depois, já adultos, continuamos criando narrativas delirantes — umas um pouco, outras totalmente —, adequando o “mundo real” de tal forma às nossas necessidades que falar em “mundo real”, nesse contexto, chega a não fazer sentido.

Não existe mundo real. Nem virtual. Existem mundos, vários deles, disputando a nossa crença.

Merece um estudo aprofundado, porém, até que ponto essa virtualidade nos afeta enquanto humanos. A realidade mesclada da Intel e a realidade virtual que o resto da indústria empurra como o Santo Graal podem ser catalisadores de situações que ultrapassam o lúdico e o saudável e, em vez disso, deterioram o ser. Coisas como a história de Jesse, contada neste episódio do Hidden Brain, da NPR. Solitário e carente, Jesse começa a se corresponder com uma mulher que, ele descobre mais tarde, é apenas um charlatão bom de escrita que quer capitalizar em cima de gente como ele. Mas, surpreendentemente, mesmo após a descoberta, Jesse não fica com raiva nem desiludido. A atenção da mulher virtual com quem ele forjou um relacionamento à distância era tão mais viva e reconfortante que o restante da sua vida que ele prefere ignorar a realidade — aqui, num sentido mais próximo do comum. Uma realidade, pois, mesclada.

Não será o capacete ou o marketing da Intel que nos trará respostas, mas eles suscitam diversos questionamentos importantes. Como mensurar o ponto em que a distração, o divertimento e as possibilidades infinitas do virtual, seja ele criado por bits, seja ele fruto apenas do nosso cérebro, passam a ser nocivos? Ou, antes: esse ponto existe, ou precisa existir? Se o nosso futuro aponta para a liberação das limitações corpóreas através do envio da nossa consciência à nuvem, o que importa, afinal? O que, em última análise, nos faz humanos?

Foto do topo: Khánh Hmoong/Flickr.

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14 comentários

  1. De todos os textos que li do MdU, acho que este é o mais filosófico de todos – ou aquele que tem esse tipo de final.

    Aliás: acho que é inevitável o aparecimento da filosofia por aqui. Uma hora ou outra, inevitavelmente, aposto que o MdU vai ter que dar espaço para parte do total de seu conteúdo produzido para assuntos filosóficos – esse texto e muitos outros publicados aqui, ano passado ou esse ano, estão de prova.

  2. Ótimo texto, Ghedin. Disse mais e melhor do muito q tentei expressar em alguns comentários e textos q deixei aqui no MdU ao longo do tempo. Esse futuro q vc questiona e vislumbra me preocupa bastante tb, ainda mais ele imaginado dessa forma pelo marketing q, mesmo sendo apenas marketing, influencia expectativas as mais diversas.

    Desconfio q as tecnologias ligadas ao virtual não vão avançar tanto qto pintam (a ponto de simularmos uma realidade completa e total, por exemplo), daí o q acho q vai convencer mais as pessoas no uso realidade virtual (ou mesclada, q seja), será a combinação dela com o uso de determinadas substâncias, legais e ilegais, químicas q nos levarão a algo mais amplo. Se será bom eu não sei, mas pode ser o bastante pra atender uma variedade incrível de demandas existenciais e, claro, tb deixar muita gente paralisada nisso. E isso já acontece em raves em q a música eletrônica combinada com drogas sintéticas tem lá seus efeitos.

    Não à toa, essa propaganda, me lembra a de uma cerveja, q era cheia de ação e, se não me engano, tb terminava numa saída de helicóptero para… mais ação.

        1. na época ele foi apresentado com videos forjados (kinect star wars).
          a intel tambem já forjou que um notebook estava rodando um jogo da franquia F1, mas era só um video pelo VLC.

  3. Incrível como a gente acorda de um jeito, lê um texto incrível como esse e a mente começa a fervilhar. A imaginação treme com tanta informação, tanto do texto como de outras partes. Sei lá. Algumas gavetas cheias de teia de aranha em algum lugar no meu cérebro.

  4. Incrível como a gente acorda de um jeito, lê um texto incrível como esse e a mente começa a fervilhar. A imaginação treme com tanta informação, tanto do texto como de outras partes. Sei lá. Algumas gavetas cheias de teia de aranha em algum lugar no meu cérebro.

  5. Uma coisa importante, o termo mixed reality é normalmente traduzido como “realidade misturada” e é quando se forma uma “realidade” com “objetos reais” e “objetos virtuais”, sendo o espectro entre a “realidade” e o “mundo virtual”, então ” realidade aumentada ” é “realidade misturada” e esse termo não foi inventado pela intel.

  6. Este texto diz respeito a algo que vai muito, muito além de uma nova tecnologia. Isso fica bem evidente quanto ao exemplo da mensagem de texto. Não é preciso uma máquina capaz de renderizar um cenário completo e perfeito a nossa volta para ficarmos imersos em um mundo paralelo.

    Há diversas escolas espirituais (na verdade, quase todas) que dizem que vivemos adormecidos para a verdadeira realidade, que sonhamos acordados, que precisamos despertar nossa consciência. Não sei dizer se realmente isso faz sentido, ou se há muita baboseira e perfumaria nesses conceitos, mas me parece que pode haver algo verdadeiro nisso tudo. “O que é real?” Talvez essa seja outra grande pergunta daqui pra frente, junto com as clássicas “De onde viemos?” e “Para onde vamos?”

    1. Eu vim de lá, eu vim de lá, pequenininho. Alguém me avisou pra pisar nesse chão devagarinho – Já nos disse Bethânia.
      E você eu não sei, mas Eu vou prá Maracangalha, Eu vou!, como já disse há tempos Caymmi!
      Quem será que vai nos dizer o que é real? :O

      hahahaha
      Piadinha boa! (ou não)