O mascote do Radiooooo.

O Radiooooo é uma viagem musical pelo tempo e espaço


19/5/15 às 10h27

Spotify, Rdio e outros serviços de streaming de música são incríveis por mais motivos que a mera comodidade. Além de oferecerem milhões de músicas para ouvir ao alcance de alguns toque, eles dão bastante atenção à parte social. Numa analogia falha, porém válida, é como se esses serviços também transportassem para o digital as feiras de vinis e as estantes recheadas de CDs nas casas de amigos que costumavam gerar conversas e trocas de referências.

Na New Republic, Paul Ford explorou os confins do banco de dados do Spotify. É uma viagem capaz de te levar de Hitler a Kurt Vonnegut, antropólogo americano famoso pelo romance satírico Slaughterhouse-Five, em alguns cliques. (Aliás, foi ali que descobri que o Spotify também guarda esse tipo de conteúdo sonoro, mas não exatamente musical.) É uma viagem, porém, que cobra algum comprometimento e trabalho do usuário para revelar as incontáveis pérolas enterradas em seu vasto acervo.

Não é raro, então, abrir o Spotify e paradoxalmente não saber o que ouvir. Há um lapso entre a superfície, com os seus álbuns salvos, as famosas playlists montadas por seres humanos e o que seus amigos estão ouvindo, e o desconhecido aprisionado nas camadas mais profundas do serviço.

Talvez isso explique o sucesso, nos Estados Unidos, do Pandora. A tecnologia é a mesma, mas o funcionamento, não. Em vez de dizer explicitamente ao sistema o que quer ouvir, o Pandora atua como uma rádio: algoritmos trituram o comportamento dos demais usuários e o seu humor declarado no momento para tocar músicas que o usuário provavelmente curtirá. Não à toa, muitos o chamam de “rádio online.” O Pandora não só preserva a serendipidade, ele vive dela.

Tela padrão do Radiooooo.

É uma frustração desde sempre não termos acesso ao Pandora aqui no Brasil. Por isso, fiquei bem contente quando me deparei com o Radiooooo. O nome é esquisito, mas dá uma ideia fácil do que esperar: rádios. Mas não só. O site funciona a partir de dois filtros, um temporal, que fatia os últimos cem anos em décadas, e o geográfico, que permite escolher um local para explorar o que tocava nas rádios na época escolhida.

Em outras palavras, o Radiooooo é uma máquina do tempo. Escolha uma década e um país para ouvir o que estava nas paradas de sucesso daquele local no tempo-espaço, sem fricção, nem qualquer tipo de exigência tais como login ou pagamentos.

Ao clicar em “Brasil” e definir os anos 1960 como parada desta máquina do tempo musical, ouvi Garota de Ipanema nas vozes d’Os Cariocas, Pardon My English, interpretada por Sylvia Telles, e Água de Beber, do Quarteto Em Cy & Tamba Trio. Imagine as possibilidades.

Não posso atestar a fidelidade dessas relações, mas ainda que não ela não toque exatamente o que nossos pais e avós ouviam em seus rádios enormes décadas atrás, é no mínimo uma experiência diferente, menos fechada em escolhas formatadas para cada indivíduo, como o Spotify e seus similares oferecem. Ou seja, vale a pena experimentar.

Como o Radiooooo se paga?

Pesquisando sobre o Radiooooo descobri que ele teve uma campanha de crowdfunding no Indiegogo em 2013, mas que não chegou a 7% de arrecadação do valor pretendido. Falta essa peça no quebra-cabeça; como ele se sustenta?Mas o site… bem, ele funciona. E esse vídeo de apresentação, acima, é legal demais. Eu doaria uns trocados ao pessoal só por causa dele.

A descrição do projeto revela detalhes da sua concepção. A ideia surgiu quando o pai de Benjamin Moreau, líder do Radiooooo, comprou um carro antigo esportivo francês. Ao sentar atrás do volante, Benjamin se sentiu transportado para o passado, mas a viagem foi interrompida quando ele ligou o rádio e ouvir alguma música eletrônica contemporânea “em completo contraste com minha charmosa e antiga bolha no tempo automotiva.”

Com a ajuda de amigos, por oito anos (!) Benjamin acumulou uma respeitável coleção de músicas do mundo inteiro. O Radiooooo é um front-end desse acervo e, também, um extensor, já que ele permite que qualquer usuário cadastrado complemente a coleção. Novamente: não sei como financiam isso, nem se há respaldo legal a fim de evitar um fim como o do Grooveshark, mas a coisa toda é bonita. Ainda na página do projeto, Benjamin sumariza a experiência do serviço:

“O cerne desse projeto reside na mudança radical da forma como se procura boa música na Internet para um usuário que não tem tempo para isso, tornando a experiência musical e cultural acessível a todos.”

E é bem esse o sentimento que se tem ao sair dos lugares-comuns e cair e… sei lá, na música cambojana nos anos 1970, ou o que é sucesso hoje nas rádios do Mali, na África central.

Qual música estava no topo das paradas de sucesso no dia em que você nasceu?

Lembrei-me deste site enquanto escrevia o post acima. O sistema provavelmente se baseia em algum ranking americano, como o da Billboard, mas não por isso deixa de ser curioso. Afinal, qual música estava no topo das paradas no dia em que você nasceu?

No meu, o povo pirava com a balada melosa Amanda, do Boston:

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15 comentários

  1. Que irado!
    Sempre fui fã do Pandora, mas era uma trabalheira habilitar no android aqui no Brasil.
    Aí veio o Spotify e meio que desencanei. Mas ainda sinto falta. Hoje recebo duas notícias boas: Esse tal de Radioooo (quantos “o”s mesmo?!) e a chegada do MixRadio (semelhante ao pandora) ao Android (e iOS tb). o/

  2. Que irado!
    Sempre fui fã do Pandora, mas era uma trabalheira habilitar no android aqui no Brasil.
    Aí veio o Spotify e meio que desencanei. Mas ainda sinto falta. Hoje recebo duas notícias boas: Esse tal de Radioooo (quantos “o”s mesmo?!) e a chegada do MixRadio (semelhante ao pandora) ao Android (e iOS tb). o/

  3. Só eu que não uso esses aplicativos de streaming de música? Testei o MixRadio, mas, ele tem um consumo excessivo de bateria e por isso prefiro nem usar.

  4. Já achei:

    – Uma capa com uma virilha nudes simulando a capa do Dark Side of the Moon
    – Rita Lee – Lança Perfume
    – Carmem Miranda
    – Chove chuva de 1970

    Não gostei do fato de ele não ter um botão “Next”, mas faz sentido. A ideia é apreciar as músicas de forma aleatória, sem pressa.

    Edit: Fui no “Birthday Day Sucess” e o sucesso do dia que nasci era…

    https://www.youtube.com/watch?v=SECVGN4Bsgg

    (Amei isso! :) )

  5. [OFF] Tentei assinar o MDU pelo Patreon e não sei se deu certo. Eu coloco meus dados e clico em confirmar, aparece um “v” e nada acontece, não debitou da minha conta e no site aparece que eu ainda não apoio. Tem um tempo pra “computar”?

  6. caramba, que ótimo acervo ein!! De vez em quando eu sinto vontade de ouvir determinados sucessos localizados de uma década e não tinha nada parecido com isso.

    Usava o streamus (ext do chrome q faz streaming do áudio de vídeos do youtube) pra ouvir uma playlist de uma década….Agora com esse site será excelente.

    Simples e eficiente!

    MAS, cadê o app do site pow???

    Enquanto o app não chega, quem quiser acessar do smartphone/tablet, segue o link mobile do site: http://mobi.radiooooo.com/

  7. caramba, que ótimo acervo ein!! De vez em quando eu sinto vontade de ouvir determinados sucessos localizados de uma década e não tinha nada parecido com isso.

    Usava o streamus (ext do chrome q faz streaming do áudio de vídeos do youtube) pra ouvir uma playlist de uma década….Agora com esse site será excelente.

    Simples e eficiente!

    MAS, cadê o app do site pow???

    Enquanto o app não chega, quem quiser acessar do smartphone/tablet, segue o link mobile do site: http://mobi.radiooooo.com/

  8. Também me lembrei na hora desse site da data de nascimento. Por um momento até achei que era a mesma coisa hahahaha

  9. Também me lembrei na hora desse site da data de nascimento. Por um momento até achei que era a mesma coisa hahahaha

  10. Gostei do texto e do serviço. Só o visual dele que não é dos melhores. Mas nada que comprometa.