Detalhe do logo no Quantum Go

[Review] Quantum Go, o smartphone brasileiro à moda chinesa


13/10/15 às 9h00

Empresas que dependem de smartphones Android para lucrar não têm tido uma vida fácil. Com margens diminuindo e novos concorrentes empurrando o preço médio do produto para baixo, é difícil lucrar — mesmo com uma escala sem igual na história da tecnologia.

Ainda assim, três executivos brasileiros se uniram à Positivo para lançar a Quantum, uma nova marca enxuta que aposta em distribuição direta e relacionamento com os fãs para se destacar. Estive usando o primeiro smartphone da empresa, o Quantum Go, e agora conto a você o que achei dele.

Quantum, modo de fazer

Modelos de negócio não costumam entrar nas análises do Manual do Usuário, mas cabe uma exceção hoje. A Quantum usa a infraestrutura da Positivo para fabricar e prestar assistência dos seus aparelhos, mas reforça, sempre que pode, que é uma marca independente, própria.

Para chegar a preços competitivos, a Quantum se inspira na Xiaomi e em outras empresas que fazem venda direta via Internet. Não há distribuidores ou parcerias fechadas com o varejo tradicional; todas as unidades do Quantum Go saem da fábrica direto para o consumidor, vendidas pelo site oficial da empresa.

Como o Brasil tem lá suas peculiaridades, essas observadas a duras penas por Amazon (que ano passado ampliou os pontos de venda do Kindle) e Xiaomi (que recentemente fechou uma parceria estratégica com a Vivo a fim de aumentar as vendas), a Quantum coloca quiosques de “degustação” em alguns shoppings de grandes cidades para se mostrar a um público que, em regra, é avesso a comprar sem ver ou tocar no produto. (Vinicius Grein, um dos três executivos à frente da Quantum, em conversa por telefone com o Manual do Usuário lembrou do nosso já enraizado hábito de experimentar tênis na loja física e depois fazer o pedido do modelo em lojas online a fim de ilustrar esse cenário. Quem nunca?)

Tudo isso visa diminuir os custos para, ainda assim, contar com margens de lucro curtas. É uma receita provada lá fora, por outros players, mas não sem solavancos e ameaças. A Xiaomi já enfrenta uma concorrência ferrenha em sua casa, inclusive de rivais que aderem aos meios tradicionais de distribuição massiva e ampla, e a Amazon… é um mistério do mundo dos negócios — raramente lucra, quase sempre empata, mas a confiança dos investidores segue inabalável.

Voltemos ao Quantum Go.

Requinte e boas especificações

A primeira impressão com o Quantum Go é ótima. O design, que lembra muito o que a Sony usa há anos na linha Xperia, é bonito, com vidro revestido por Gorilla Glass 3 na tela e atrás, e bordas que, embora de plástico, têm um acabamento bem feito e são visualmente agradáveis. Ao pegá-lo, a sensação acrescenta à experiência: é um smartphone leve (115g) e confortável na mão.

Portas na parte superior do Quantum Go.

A distribuição de portas e botões é tradicional, com exceção da porta microUSB, no topo — estou acostumado a vê-la na base dos aparelhos. Os botões são bem posicionados, todos os três à direita, e oferecem um bom feedback tátil. Eles parecem um pouco “soltos”, algo que notei também nas portas que fecham os compartimentos do cartão microSD e o dos SIM cards, mas apenas se você tenta movê-los deliberadamente. Embora pudesse ser melhor nesse aspecto, o Go não provocou preocupação no sentido desses botões e portas quebrarem ou passaram a ter mal funcionamento com o tempo.

É justo reforçar como o Go é bonito. Atrás, a pintura por baixo do vidro reflete a luz de forma concêntrica, a partir do “Q” do logo. A junção entre os vidros e as bordas não deixam arestas para o acúmulo de sujeira e a frente, livre de quaisquer marcações, é sóbria, como deveriam ser todos os smartphones. Todos a quem mostrei o aparelho elogiaram sua beleza e leveza.

Apesar de todos esses elogios, sobraram três críticas leves ao design. Primeiro, a tendência do Quantum Go em ganhar vida e deslizar em qualquer superfície minimamente desnivelada. Eu já tive um Nexus 4 e é um problema real — às vezes, do nada, você ouve um barulho e, ao procurar sua origem, descobre o smartphone estatelado no chão. Muito cuidado. A unidade do Nagano encontrou o piso num desses momentos de distração:

Outro ponto que poderia ser melhor é o posicionamento da câmera principal. Ela fica praticamente grudada nas bordas e se você é daqueles que abraça o smartphone na hora de fotografar, precisará ficar atento para não ter o dedo indicador invadindo o enquadramento das suas fotos.

Grades do Quantum Go.

A última crítica é, na verdade, uma decepção. O alto-falante, posicionado na borda inferior, é mono e fica apenas em uma das duas grades — esse design dá a impressão, equivocada, de que se trata de um estéreo. Não é o caso. A grade à esquerda é meramente de enfeite.

Tela, desempenho e bateria

O Quantum Go tem uma tela de 5 polegadas, com resolução HD (1280×720) e tecnologia AMOLED. Não chega a ser ruim, porém está longe de ser exemplar. Ela tem a boa característica do AMOLED, que é o preto profundo, mas derrapa em um problema que, em outros casos, como o dos Galaxy S da Samsung, ficou no passado: o excesso de saturação.

Vermelhos e laranjas chegam a doer os olhos de tão intensos. Existe um app chamado MiraVision, da Mediatek (fornecedora do SoC), que oferece um modo ainda mais saturado (“Vívido”; cuidado para não queimar as retinas) e outro personalizável. Mesmo diminuindo totalmente a saturação nesse último, a tela ainda parece alguns tons acima de outras mais conservadores, como a do já citado Nexus 4.

A origem desse comportamento parece ser o arranjo da matriz de subpixels, não tão refinada aqui, somada à resolução que fica no mínimo aceitável em termos de densidade por polegada. E embora saturação seja sempre uma questão bastante pessoal, os exageros, embora chamem a atenção nas gôndolas das lojas, me desagradam no dia a dia. Usei o Quantum Go com a configuração de tela personalizável, nível de saturação no mínimo, e… bem, depois de um tempo se acostuma, mas ainda assim preferiria que ela fosse menos agressiva nesse sentido.

Detalhe da tela do Quantum Go.

Embora a Quantum garanta que a densidade de 294 PPI seja suficiente para não ver pixels, ela se revela insuficiente em textos muito pequenos e ícones levemente borrados. Curiosamente, é nos ícones personalizados da própria Quantum que esse defeito fica mais evidente. Temos aqui mais um caso de mexida no que estava bom que acaba estragando. Sobre as demais características da tela, não há muito do que reclamar.

Jogando Asphalt 8 no Quantum Go.

Em desempenho o Quantum Go nada de braçadas. Seu SoC, um Mediatek MT6753 com oito núcleos Cortex-A53 rodando a 1,3 GHz combinado com uma GPU Mali-T720 e 2 GB de RAM, dá conta da multitarefa, do uso intensivo de apps e até de jogos pesados, como Asphalt 8. O smartphone rodou sem engasgos tudo que joguei nele, até em cenários exigentes de multitarefa. Nem mesmo aquele problema crônico de ícones redesenhados na tela se manifestou. É um smartphone rápido e confiável, duas características nem sempre garantidas, ambas imprescindíveis em qualquer bom smartphone.

Outro ponto positivo é o espaço para armazenamento interno. Existe uma versão do Quantum Go com 16 GB e as outras duas oferecem 32 GB. É mais do que qualquer outro intermediário e uma tranquilidade para quem gosta de carregar muita música, instalar vários jogos ou não quer se preocupar em descarregar fotos e vídeos para o computador ou nuvem.

Tela de bateria do Android no Quantum Go.

A bateria do Quantum Go deixou um pouco a desejar. Com 2300 mAh, deveria dar conta de um dia inteiro longe da tomada. Não foi o caso. Em vários dias cheguei às 18h sem bateria e, para piorar, falta a esse aparelho uma tecnologia de recarga rápida da bateria. O processo é bem lento e isso, hoje, é um pecado ante a rivais que trazem tecnologias como a Quick Charge, da Qualcomm.

Novela mexicana em baixa definição no Quantum Go.

O Quantum Go ainda tem TV digital, no padrão 1Seg (baixa resolução), e depende de uma antena esquisita que acompanha o pacote. Parece meio desleixado, mas funciona. Os fones de ouvido que acompanham o produto são bacanas, com bom nível de detalhes e grave.

A única coisa que me deixou frustrado foi, felizmente, um defeito restrito à minha unidade. Quando saía de uma rede Wi-Fi e tentava entrar em outra já conhecida, o sistema não conseguia estabelecer a conexão. A tela correspondente ficava parada no “Obtendo endereço IP…” e a única saída era reiniciar o dispositivo para conseguir conectar na nova rede. O pessoal da Quantum me garantiu que é um problema isolado e já enviou outra unidade para que eu confirme isso. Após os testes com o novo aparelho, atualizarei este post.

Câmera mediana — e isso é bom

Câmeras de smartphones mid-range são assim: se saem bem na maioria dos aspectos, derrapam em um ou outro, e ficam, no geral, na média. Não por acaso é um dos fatores que mais pesam na decisão e um dos mais controversos de se discutir.

A câmera principal do Quantum Go tem 13 megapixels e lente com abertura f/2,0. Ela, como todas as demais nessa faixa de preço, cai naquele grupo das boas de dia, passáveis à noite. Porém, com uma agravante: a lentidão no foco e disparo quando falta luz. Outro detalhe, esse menos perceptível nas fotos vistas com zoom reduzido, é a falta de detalhes. Copas de árvores e tipos menores e mais elaborados viram borrões sob uma análise mais rigorosa. Nada, porém, muito ruim.

No geral, achei a câmera do Quantum Go ok. Não arranca suspiros, eventualmente surpreende no bom sentido e, embora não seja super confiável como a de um high-end recente, em boa parte das situações servirá para registrar o momento e, mais ainda, compartilhá-lo em redes sociais.

Veja alguns exemplos e, se quiser, confira estas e outras fotos em resolução natural neste álbum no Flickr.

Foto boa em condições adversas.
Uma boa foto. f/2,8; 1/1294; ISO 98. Redimensionada para 742×557.
Foto noturna feita com o Quantum Go.
À noite as coisas complicam. f/2,0; 0,12s; ISO 1880. Redimensionada para 742×557.
Paisagem complexa à luz do Sol.
Detalhes pequenos se perdem mesmo com boa iluminação. f/2,0; 0,03s; ISO 404. Crop de 100%.
Detalhe de folhas, foto complexa.
Detalhes se perdem com elementos complexos no enquadramento, mesmo à luz do Sol. f/2,0; 1/161s; ISO 102. Crop de 100%.

Android quase puro

O Quantum Go vem com o Android 5.1 e a promessa de atualização para a versão 6.0 assim que possível. O sistema é bem “puro”, com umas poucas modificações e alguns apps extras desenvolvidos pela fabricante.

Isso é legal, mas dada a baixa quantidade e, principalmente, qualidade das intervenções, sinto que teria sido melhor se deixassem o Android ainda mais como concebido pelo Google.

As mudanças estéticas, em especial os ícones, ficaram abaixo do padrão do sistema. Algumas mexidas em configurações, confusas, como os perfis de áudio, uma reminiscência dos tempos de Nokia que parece pouco útil e um tanto confuso perto do modo prioritário padrão do Android. Não sei se por isso ou não, muitas vezes ao voltar ao modo normal ou sair do silencioso o volume das notificações não acompanhava os demais. Achei que era um defeito até descobrir a barrinha zerada nas configurações de som e notificação. Ou seja, é um defeito, mas de refinamento no software.

Fora isso, e são coisas ignoráveis e/ou redundantes, tudo funciona como o esperado. Os poucos apps acrescentados pela Quantum, apesar do visual esquisito, na maioria não repetem funções de outros nativos do próprio Google. E tem até alguns úteis, como o gravador de áudio, e um bem curioso, um app de dashcam, coisa muito comum na Rússia, mas que ainda precisa ganhar popularidade no Brasil.

Vale a pena comprar o Quantum Go?

Quantum Go na mão.

Testei a versão mais requintada do Quantum Go, com 32 GB de espaço para armazenamento interno e suporte a 4G. Ela custa R$ 899. Existem outras duas apenas 3G com 16 e 32 GB de memória, custando R$ 699 e R$ 799, respectivamente. Não espere descontos enormes; embora a Quantum forneça alguns cupons vez ou outra, por ser a distribuidora direta e exclusiva é pouco provável que vejamos aquelas quedas vertiginosas de preço dos outros Android acontecendo neste.

E nem precisa. Por R$ 899, o Quantum Go 4G sai bem em conta no cenário atual brasileiro. Seus principais concorrentes, Moto G e Zenfone Go, em configuração semelhante custam mais e não oferecem um pacote tão completo — o Moto G com 2 GB de RAM não tem TV digital e fica acima dos R$ 1.000, e o Zenfone Go não oferece conectividade 4G em nenhuma versão.

Claro, há outros aspectos a serem considerados. A Quantum é uma empresa recém-estabelecida e apesar de toda a atenção que dispensa aos consumidores e de ter se lançado com um ótimo produto, existe um receio, natural até, com o novo. Tem o gosto pessoal, também, que varia e às vezes transcende explicações objetivas ou números crus. No papel, o Quantum Go se sobressai; na hora da compra, embora pesem, especificações não são tudo.

Ressalvas feitas, e elas são pouquíssimas, recomendo o Quantum Go sem medo para quem procura um ótimo intermediário com suporte a 4G, especificações levemente acima da média e preço competitivo. A Quantum fez o dever de casa e preparou um produto bem bacana. Resta saber, agora, se o mercado comprará sua ideia e seu primeiro produto.

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