O argumento definitivo pela privacidade na Internet


26/11/14 às 10h32

Quando algum escândalo como o da NSA em 2013 estoura ou, um mais recente, o do spyware Regin, ou ainda quando Google, Facebook ou outra empresa de Internet é flagrada em práticas que vão contra os interesses dos usuários, em prol de anunciantes, governo ou qualquer outro terceiro, a bandeira da privacidade é erguida.

Só que muita gente parece não entender a importância dela. Minimizam o caso, dizem que é essa violação é o que paga a comodidade dos serviços que usamos — o que é verdade, ainda que não seja o único caminho. Não é raro nos depararmos com alguém dizendo que “não tem nada a esconder”, ou que “não faz nada de errado”. Duvido muito que exista alguém tão imaculado, mas de qualquer forma não é esse o ponto.

Nesta palestra de um TEDx em Bruxelas, Bélgica, o finlandês Mikko Hyppönen, especialista em segurança digital, explicou em detalhes por que a privacidade é importante e não pode ser objeto de negociação. Abaixo, a transcrição do trecho em que ele aborda o assunto e, na sequência, o vídeo — se preferir assistir com legendas em português, vá ao site do TED.

“Qualquer um que lhe disser que não tem nada a esconder simplesmente não pensou sobre isso o suficiente. Porque temos essa coisa chamada privacidade, e se você realmente acha que não tem nada a esconder, garanta que é a primeira coisa que você vai me dizer porque assim saberei que não devo te confiar nenhum segredo, porque, obviamente, você não conseguirá guardá-lo.

Mas as pessoas são brutalmente honestas com a Internet, e quando esses vazamentos começaram, muitas pessoas estavam me perguntando sobre isso. E eu não tenho nada a esconder. Não estou fazendo nada de ruim ou ilegal. No entanto, não tenho nada em particular que eu gostaria de compartilhar com uma agência de inteligência, principalmente uma agência de inteligência estrangeira. E se nós realmente precisarmos de um Grande Irmão, eu prefiro muito mais ter um Grande Irmão doméstico do que um Grande Irmão estrangeiro.

Quando os vazamentos começaram, a primeira coisa que eu tuitei sobre isso foi um comentário sobre como, quando vocês usam ferramentas de busca, estão potencialmente entregando tudo para a inteligência dos EUA. E dois minutos depois, recebi uma resposta de alguém chamado Kimberly, dos Estados Unidos, me desafiando, tipo: por que estou preocupado com isso? O que estou enviando para me preocupar com isso? Estou enviando fotos nuas ou algo assim? E a minha resposta a Kimberly foi que o que eu estou enviando não é da sua conta, e não devia ser da conta do seu governo também.

Porque é disso que se trata. Trata-se de privacidade. A privacidade não é negociável. Devia estar embutida em todos os sistemas que usamos.

E uma coisa que todos deveríamos compreender é que somos brutalmente honestos com as ferramentas de busca. Se você me mostrar seu histórico de pesquisa, vou encontrar algo incriminador ou algo embaraçoso lá em cinco minutos. Somos mais honestos com ferramentas de busca do que somos com nossas famílias. As ferramentas de busca sabem mais sobre você do que os seus familiares. Esse é o tipo de informação que estamos oferecendo, estamos oferecendo para os Estados Unidos.

A vigilância muda a história. Sabemos disso através de exemplos de presidentes corruptos como Nixon. Imaginem se ele tivesse tido o tipo de ferramentas de vigilância que temos hoje. E deixe-me citar a presidente do Brasil, Srta. Dilma Rousseff. Ela foi um dos alvos de vigilância da NSA. Seu e-mail foi lido e ela falou na sede das Nações Unidas, e disse: ‘Se não houver direito à privacidade, não pode haver verdadeira liberdade de expressão e de opinião, e, portanto, não pode haver democracia efetiva’. É disso que se trata.”

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