Os post-its que te seguem na web através de anúncios são frutos da vigilância online

O leitor Fred colocou o vídeo acima no nosso último post livre. É uma ideia genial, mas que ao mesmo tempo revela o quanto somos rastreados na web.

Uns dias antes havia lido este texto da Quinn Norton. Ela foi repórter da Wired por um bom tempo, mas talvez tenha ficado mais conhecida pelo relacionamento que teve com Aaron Swartz. Nele, Quinn aborda o que intitula de “hipocrisia do jornalismo online,” argumentando que os sites meio que se vendem para publicitários, fornecendo dados que ajudam a criar perfis de uso incrivelmente detalhados a fim de segmentar melhor os anúncios.

Se você não ligou uma coisa a outra, é a mesma tecnologia/sistemática que permite ver os post-its digitais personalizados da 3M em vários sites diferentes.

Alguns rebateram o texto de Quinn classificando-o de FUD, ou exagerado. Há algumas passagens que talvez aumentem um pouco a situação, como “sua experiência na Internet não é o maior resultado dos algoritmos criados para a vigilância de dados; você é,” mas ele nos dá, no mínimo, alimento para pensar.

Se você instalar uma extensão que revela os scripts executados por sites, como a Ghostery ou a Disconnect, verá que são muitos, e que eles se repetem de site para site. Na maioria, eles chegam aos dois dígitos1. É um tema delicado, mas que com o diálogo sobre a responsabilidade de dados que começa a se desenhar em países mais avançados nessas questões mais filosóficas sobre o uso da Internet, certamente não passará batido.

E o Google?

Uma omissão grande no texto da Quinn é o Google. Também recentemente, Marco Arment, um blogueiro com foco em Apple, explicou num post por que não usa os serviços da empresa. A gratuidade do Google (e do Facebook) vem às custas da cessão de dados pessoais que, ainda que anonimamente e sem registros de vazamento até hoje, são repassados a anunciantes a fim de segmentarem melhor suas peças e ações.

O preço do Gmail, do ótimo Google Fotos e de outros serviços gratuitos é esse.

Eu uso muita coisa do Google, mas resolvi colocar um pé fora desse cercado. Desde ontem mudei o motor de busca padrão do meu navegador (Chrome, que é… do Google) para o DuckDuckGo e pretendo usá-lo por alguns dias para ver se a hegemonia do Google nessa área é mais por costume ou se a qualidade pesa. Em breve volto para contar as conclusões desse pequeno experimento.

  1. No Manual do Usuário são três, apenas: Google Analytics (estatísticas), Disqus (comentários) e Gravatar (meu avatar, no topo dos posts). Em posts em que são exibidos anúncios do AdSense, tem mais um, da DoubleClick, e quando incorporo um elemento externo, como vídeo do YouTube/Vimeo ou um tweet, eles também executam scritps extras.

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25 comentários

  1. Já tentei usar esse duckduckgo quando usei o ubuntu ano passado, mas não dá. apesar dos pesares, o buscador do google é imabatível. é o cadê (lembram?) desses tempos atuais.

  2. Hoje, muito critica-se a falta de segurança e privacidade, mas o maior culpado é o usuário. Não tenho minhas fotos nem dados pessoais em nenhum lugar. tenho tudo em um setup NAS. Uso o gmail corporativo, comprei na epóca que saia 5$ por email. Hoje vejo gente colocando tudo na internet, o caso do Facebook salvar sua localização é uma prova que nada é muito seguro. Já cometi o vacilo de por a localização da minha casa na net e corri para apagar. Tem certas coisas que não merecem ser compartilhadas em nada.

  3. Não tem nada a ver com o post, mas como faz pra colocar essas observações (nesses três pontinhos)?

  4. O DuckDuckGo até que funciona bem comigo, usei no lugar do Google por um tempo. Apesar da busca ser mais fraca no português, o que me incomodava é que a falta de contextualização não faz com que ele encontre endereços direito por exemplo…isso é meio chato mas dá para contornar.

    Uma opção ao Google talvez seja a Microsoft (por enquanto)? Não sei qual a política da Microsoft em relação aos dados, mas só de separar seus serviços entre duas empresas já é uma grande vantagem para os preocupados com privacidade pois dificulta a criação de um perfil.

    Infelizmente, para o Brasil as coisas podem ser um pouco mais complicadas se comparado aos EUA: os serviços costumam precisar de uma tropicalização forte para funcionar em todos os países, sejam mapas ou buscadores, então para trocar o Google pelo Bing é mais complicado aqui por exemplo.

      1. Mas isso já está mudando, olha o que apareceu no meu W7 hoje:
        Acredito que com o W10 a coleta dos dados vai ser ainda maior.

  5. É claro que se houver acesso individual por uma pessoa ou vazamento de dados, se torna preocupante, mas enquanto meus dados, perfil, estatísticas de uso, ficarem anonimamente registrados e repassados a terceiros apenas dentro de um bloco, não vejo problema.

    Ou seja, não quero uma pessoa lendo meus e-mails, mas se algoritmos do Google/Gmail analisarem as palavras dos meus e-mails para me ofertar um produto compatível com o que está escrito nele, sem problema.

    Não quer uma pessoa lendo meu inbox, mas se o Facebook analisar meu perfil para que o dono de uma página que eu curto possa saber que 54% dos leitores dele tem 24 a 30 anos (e eu estou nesse bolo), sem problemas.

    Essa paranoia costuma não separar essas duas coisas. Automatizado/Bloco vs Humano/Individual, e isso muda tudo.

    1. Acho que o problema não é apenas o incômodo de alguém estar olhando, mas principalmente pensando nos EUA, é um problema de concentração de poder que pode gerar problemas sociais tantos dados nas mãos de poucas empresas.

      Para citar dois deles, pesquisas irresponsáveis do Facebook com Sentiment Analysis que podem afetar milhões de pessoas na vida “real” e, claro, o escândalo na NSA. Se não houvesse tantos usuários sobre Google e Facebook, espionar líderes de outros países seria uma tarefa muito mais ingrata do que é hoje para NSA.

    2. Acho que o problema não é apenas o incômodo de alguém estar olhando, mas principalmente pensando nos EUA, é um problema de concentração de poder que pode gerar problemas sociais tantos dados nas mãos de poucas empresas.

      Para citar dois deles, pesquisas irresponsáveis do Facebook com Sentiment Analysis que podem afetar milhões de pessoas na vida “real” e, claro, o escândalo na NSA. Se não houvesse tantos usuários sobre Google e Facebook, espionar líderes de outros países seria uma tarefa muito mais ingrata do que é hoje para NSA.

    3. O problema é que mesmo dentro de um bloco, você ainda é influenciado. O Facebook é um exemplo fácil: ao ver menos opiniões contrárias às suas, mais de gente que pensa igual a ti, sua visão de mundo sofre interferências sem que suas informações sejam bisbilhotadas por alguém, individualmente.

      1. Essa questão do face e sua timeline é muito mais complicado.
        O Facebook só te apresenta conteúdos semelhantes aos curtidos ou comentados. É correto imaginar que você curte postagens apenas que você concorda, mas se você não interage em postagens discordantes você está informando ao serviço que não tem interesse nessas questões.
        Não podemos culpar o serviço por uma escolha sua.
        Eu não deixo de seguir algumas pessoas simplesmente para continuar sabendo o que pessoas como ela pensam, mesmo sendo completamente contrário à linha de raciocínio. Uma escolha do usuário não pode ser colocada na conta de um serviço.

        1. Acho que pode e deve ser colocada na conta do serviço. Nada ali é por acaso, a experiência é criada e refinada para nos manter mais tempo usando as coisas do Facebook. E mesmo quando não percebemos, ela está sendo montada — ao visitar sites que usam os plugins do Facebook, como o botão “curtir,” você está ajudando a criar essa bolha no feed.

          Recentemente o Facebook divulgou um estudo sobre o impacto do algoritmo no que o feed apresenta. O argumento da empresa foi o mesmo, o de que as ações dos usuários têm mais peso do que os algoritmos. Ele foi muito criticado por isso e outros problemas, como a impossibilidade de replicar os resultados do estudo — já que o Facebook não libera acesso às informações necessárias para tal.

          Eli Pariser, autor do conceito da bolha invisível, escreveu sobre: http://gizmodo.uol.com.br/facebook-filtro-estudo/ A opinião dele é mais positiva do que eu esperava; aqui tem um apanhado de opiniões de outros especialistas mais questionadores: http://fortune.com/2015/05/07/facebook-filter-bubble-doubts/

          1. Então, eu ia mesmo falar desse estudo que saiu no Gizmodo, a diferença do filtro do FB pro que seria apresentado aleatoriamente me parece bastante pequena.

          2. Ghedin, ainda não li seus links, vou ler e comento novamente.
            Mas o que eu quero dizer é sobre exatamente o seu comentário sobre as opiniões que vemos na timeline. Claro que o algoritmo do serviço tem sua parcela, e ela pode ser grande, mas o usuário alimenta esse algoritmo e muitas vezes me parece que isso é esquecido. Não se pode tirar a responsabilidade do usuário no que tange a possibilidade do serviço usar suas informações, estamos sempre de acordo com elas quando aceitamos utilizar o serviço.
            Também concordo que isso não seja motivo para tentarmos melhorar as possibilidades.

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