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A relação conflitante do YouTube com canais que testam os limites da democracia

Fachada do Supremo Tribunal Federal, em um dia ensolarado.

Há duas semanas, o site jornalístico Núcleo me convidou para aprofundar um fio que tinha publicado no Twitter sobre o impacto do banimento do Terça Livre do YouTube para o bolsonarismo digital. Esse episódio do Tecnocracia é uma versão estendida daquela análise. O Núcleo publica análises sobre a interseção entre tecnologia e política no Brasil e eu te aconselho a visitá-los.

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À primeira vista, o banimento do Terça Livre do YouTube, ocorrido em 4 de fevereiro, pode parecer um golpe pesado contra a máquina de comunicação do presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Afinal, a partir do momento em que o maior site de vídeos do mundo tirou do ar dois canais do Terça Livre (além do principal, caiu um outro de backup), o presidente perdeu um dos seus apoiadores mais aguerridos e histriônicos em uma das suas principais plataformas de comunicação. Para o bolsonarismo, o YouTube funciona como um repositório onde canais favoráveis ao governo publicam vídeos que serão compartilhados em outras plataformas, como grupos do WhatsApp, Telegram e Facebook.

Ao se analisar os dados sobre a evolução de seguidores do Terça Livre contextualizados com seu histórico recente, porém, fica claro que Bolsonaro sai do episódio ainda fortalecido no YouTube graças a uma estratégia, adotada no começo de 2020, de “criar” youtubers bolsonaristas 100% alinhados e não depender mais daqueles já consolidados cujo apoio não é irrestrito e, assim, podem romper com o bolsonarismo caso discordem de alguma ação.

Em volume, o Terça Livre não era o canal com o maior número de visualizações ou inscritos, segundo um monitoramento que a minha empresa de análise de dados, a Novelo Data, faz com 174 canais de extrema-direita mais atuantes no YouTube Brasil. Ao ser banido, o canal oficial do Terça Livre tinha uma base de 1,18 milhão de seguidores, o que o colocava na 21º posição do ranking da Novelo, atrás de canais alinhados ao bolsonarismo não tão conhecidos, como Bolsonaro TV1 (1,37 milhão) e Verdade Política (1,22 milhão).

O canal, porém, era um dos que mais produziam. Se não considerarmos veículos tradicionais (como a Jovem Pan News) e órgãos do governo (TV BrasilGov), o Terça Livre só ficava atrás do Folha Política e do Brasil notícias em total de vídeos. Desde sua estreia, em novembro de 2014, foram 4.605 vídeos publicados.

Onde perdia em volume o Terça Livre se destacava pela ferocidade com que defendia as bandeiras levantadas por Bolsonaro, mesmo as mais divisivas.

O canal, por meio do seu fundador, Allan dos Santos, se aproximou do bolsonarismo com menos de seis meses no ar. Em 25 de maio de 2015, publicou uma entrevista com Flávio Bolsonaro, então deputado estadual pelo Rio de Janeiro.

Era uma época em que poucos canais no YouTube (e boa parte da imprensa também) levavam o deputado federal Jair Bolsonaro a sério. Dezenas dos canais mais relevantes da extrema-direita no YouTube hoje nem existiam. Além do Terça Livre, Magno Malta publicou vídeo em que enaltecia a família Bolsonaro em 2014 e Rodrigo Constantino defendeu Bolsonaro (a quem chama repetidas vezes de “Bolsanaro”) após a entrevista dada ao programa Custe o que Custar (CQC), da Rede Bandeirantes, em que foi acusado de racismo, em 2011.

A partir da entrevista com Flávio Bolsonaro, o Terça Livre se posicionou como defensor de Jair Bolsonaro, quando suas pretensões presidenciais ainda não eram levadas a sério. Em novembro de 2015, acusou o CQC de editar uma entrevista para “desmoralizar Bolsonaro”. No ano seguinte, atacou Kim Kataguiri por críticas ao político e cobriu eventos do então deputado federal em Porto Alegre (RS) e Jundiaí (SP).

Quando Bolsonaro assumiu a presidência, em 2019, o Terça Livre já estava consolidado como um dos principais canais bolsonaristas do YouTube, com acesso direto ao presidente e aos seus filhos, que davam entrevistas a boletins informativos.

A relação também trouxe ganhos financeiros ao canal: o Terça Livre veiculou anúncios digitais do governo enquanto Allan dos Santos teve custos de viagem pagos pela Fundação Indigo, ligada ao Partido Social Liberal (PSL), com Fundo Partidário. A empresa de um alegado “sócio oculto” do Terça Livre, Bruno Ricardo Costa Ayres, foi contratada sem licitação pelo governo em fevereiro de 2021.

Na ascensão de centenas de produtores de conteúdo conservador surfando a onda política de 2018, o Terça Livre e, consequentemente, Allan, ganharam projeção não apenas pela proximidade com a família Bolsonaro, mas também por posicionamentos virulentos e que, de tão retrógrados, beiram o delírio — um dos primeiros vídeos do Terça Livre a viralizar fora da bolha bolsonarista tinha Allan condenando a masturbação por matar neurônios.

É por isso que resumir o canal apenas à base de inscritos é ignorar onde estava sua principal força. A defesa intransigente das ações do presidente, mesmo as mais tresloucadas, transformaram-no em presença frequente na mídia e nas redes sociais. Allan tinha deixado de ser observador para virar personagem, o que ajudou na projeção do canal.

Ali, no começo do governo Bolsonaro, não parecia haver preocupações para o Terça Livre. O que Allan dos Santos não sabia é que dois eventos independentes que só iriam atingi-lo em 2020 já estavam em curso.

O primeiro movimento envolve a Justiça. Em março de 2019, o Supremo Tribunal Federal (STF) abriu um inquérito para investigar a publicação de notícias falsas contra a corte. É o chamado inquérito de fake news do STF, conduzido pelo ministro Alexandre de Moraes.

Um ano depois, em maio de 2020, a Polícia Federal (PF) cumpriu os primeiros mandados de busca e apreensão relacionados ao inquérito. Entre os alvos estava Allan dos Santos, junto com o empresário Luciano Hang, a militante Sara Winter, o deputado estadual Douglas Garcia (PSL-SP), o presidente nacional do PTB, Roberto Jefferson, e o empresário Edgard Corona.

Com a Justiça em seu encalço, o Terça Livre promoveu uma limpeza dos vídeos no seu canal: foram 272 vídeos escondidos em junho, principalmente os que atacavam o STF. Não foi a única limpeza motivada pela PF: o canal O Giro de Notícias, também alvo da operação, escondeu 148 vídeos da sua base, a maioria atacando o STF.

A proximidade da Justiça impacta diretamente a capacidade desses canais de continuarem a crescer suas bases. Após a operação, o Terça Livre passa por uma rápida expansão de novos assinantes, para depois empacar a partir de julho. O mesmo acontece com O Giro de Notícias e outro canal na mira da Justiça, O Jacaré de Tanga, alvo da CPMI das fake news instalada no Congresso Nacional em setembro de 2019.

Gráfico mostrando a evolução no número de inscritos nos canais de YouTube bolsonaristas.

Aparentemente, ter a Justiça em seu encalço não é um bom modelo de negócios para canais do YouTube. Até hoje o Terça Livre e O Giro de Notícias estão escondendo vídeos. Em fevereiro de 2021, O Giro de Notícias, inclusive, escondeu 1.398 vídeos — restaram cerca de 400 no canal.

Ainda que estivesse 100% alinhado com o bolsonarismo, o Terça Livre não experimentou o aumento de audiência que canais não investigados, como Os Pingos nos Is, Folha Política, Foco do Brasil ou o policial militar carioca Gabriel Monteiro.

O segundo movimento que atingiria o Terça Livre, iniciado em 2019, é responsabilidade direta de Jair Bolsonaro. Quando estava se preparando para concorrer à presidência, Bolsonaro se aproximou de outros youtubers conservadores além do Terça Livre. Um deles foi Nando Moura, um sujeito que fez sucesso criticando políticos, youtubers e comunicadores com quem não concorda, principalmente da esquerda política. Até ali, Moura era o youtuber conservador de maior audiência no Brasil. Durante a campanha, Bolsonaro lhe deu uma entrevista em que trocaram afagos.

No fim de 2019, Bolsonaro sancionou o pacote anticrime com uma emenda sobre o juiz de garantias sugerida por Marcelo Freixo (PSOL/RJ). Crítico constante do PSOL e de Freixo, Moura não gostou e acusou o presidente de trair “não só o ministro Sérgio Moro mas TODO o povo brasileiro”. A acusação marca o rompimento do maior canal conservador do Brasil com o movimento do presidente. Em janeiro de 2020, o youtuber limpou o próprio canal ao tirar do ar 543 vídeos em que elogiava Bolsonaro. “Cancelado” pela extrema-direita, o canal de Nando Moura passou a perder assinantes desde então.

É nesse momento que a estratégia de Bolsonaro no YouTube muda para evitar novos desentendimentos com canais já consolidados. A estratégia explora dois caminhos: bombar o próprio canal do presidente e dar projeção a figuras que cerrem fileiras com o governo.

Ninguém representa melhor esse movimento do que o já citado Gabriel Monteiro.

Em março de 2020, Monteiro ganhou projeção ao enfrentar um processo interno na Polícia Militar do Rio de Janeiro que lhe tirou a posse de arma e a farda e ameaçou expulsá-lo da corporação. A causa? Monteiro “se passou por um estudante para conseguir ‘simular uma entrevista’ com o coronel Íbis, na porta da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), postada sem autorização no YouTube”, segundo a revista Época.

Nos dias seguintes, Eduardo Bolsonaro o defendeu no Twitter e o Jornal da Cidade Online, veículo digital bastante alinhado com o bolsonarismo, afirmou que o presidente se encontraria com Monteiro (não existe a confirmação desse encontro). Coincidência ou não, a partir daí o canal do YouTube de Gabriel Monteiro passa a crescer como nenhum outro da extrema-direita no Brasil.

Em maio de 2020, Bolsonaro organizou um encontro de youtubers no Palácio do Planalto com a intermediação da deputada federal Bia Kicis (PSL-DF). Bolsonaro tinha se encontrado com youtubers no seu primeiro ano de mandato, como Alberto Silva, d’O Giro de Notícias, e Fernando Lisboa, do Vlog do Lisboa, alvos de operações da PF ligadas aos inquéritos do STF.

O encontro em maio de 2020 marca uma nova “geração” de youtubers, com nomes como Bárbara Zambaldi Destefani, do canal Te Atualizei, Alan Frutuoso, do Vista Pátria, e Mauro Fagundes, do canal homônimo. Essa passada de bastão simbólica também tinha problemas: Bárbara Zambaldi, por exemplo, foi citada nos inquéritos do STF por atacar a corte.

A estratégia rendeu frutos a Bolsonaro. Em dezembro de 2020, o canal de Jair Bolsonaro passou o de Nando Moura em número de inscritos para se tornar o segundo mais popular da extrema-direita no Brasil. Só por um milagre o Gabriel Monteiro, líder em novos assinantes junto ao canal do programa Pingos nos Is, da rádio Jovem Pan, não passa o Nando nos próximos dias – no dia em que gravo isso, a diferença entre ambos é de 20 mil assinantes.

Gráfico mostrando a evolução de inscritos nos canais de YouTube do Nando Moura, Jair Bolsonaro e Gabriel Monteiro.

À frente de ambos está Sikera Junior, apresentador do programa policialesco Alerta Nacional, que ganhou projeção nos últimos anos repetindo bandeiras caras ao bolsonarismo.

É por isso que o banimento do Terça Livre do YouTube é uma perda enorme para Allan dos Santos, mas não para Bolsonaro.

O presidente perdeu uma das suas linhas auxiliares mais rábicas e antigas, mas, dado o sucesso da estratégia de bombar o próprio canal e “criar” outros youtubers que repetem seu discurso, o impacto é quase nulo. Em outras palavras: Bolsonaro continua tendo apoio de youtubers, sem precisar se comprometer com quem está enfrentando problemas na Justiça.

Já do lado de Allan, os prognósticos são ruins. Ainda que tenha um site do Terça Livre e venha veiculando suas lives no Facebook e no Instagram, o canal perdeu sua principal plataforma — somados, o número de seguidores no Facebook (319 mil) e no Instagram (528 mil) não atinge os 1,18 milhão de inscritos no canal banido do YouTube. Allan criou um canal pessoal no YouTube que chegou a ter mais de 80 mil seguidores, mas foi derrubado pelo YouTube também. O Terça Livre, então, recorreu a um dos aspones de Allan para veicular as lives no YouTube. Até essa gravação, o canal continuava no ar com 32 mil seguidores.

Mas no Telegram seu canal tem mais de 110 mil inscritos e continua crescendo rapidamente.

Paira sobre o Terça Livre a sombra de Alex Jones, influenciador de extrema-direita conhecido por espalhar teorias mentirosas sobre vacinas, COVID-19 e massacres escolares. Em 6 de agosto de 2018, Apple, Spotify, YouTube e Facebook baniram Jones de suas plataformas. Um mês depois, o Twitter também o baniu.

“A desplataformização que mais machucou Jones foi provavelmente a do YouTube — seus canais tinham 2,5 milhões de assinantes e seus vídeos tinham ultrapassado um bilhão de visualizações”, escrevem os pesquisadores Ethan Zuckerman e Chand Rajendra-Nicolucci, do Knight First Amendment Institute, dentro da Universidade de Columbia, nos EUA.

Na época, Jones argumentou que sua desplataformização o tornaria mais conhecido. Dois anos depois já sabemos que isso não aconteceu. Restou-lhe atuar no próprio site, o InfoWars, e em plataformas de extrema-direita, como o Gab e, principalmente, o Parler.

O Parler, apresentado como o “Twitter da alt-right”, ganhou projeção por oferecer uma plataforma sem qualquer moderação a partir do segundo semestre de 2020 quando Facebook, Google e Twitter baniram conteúdo da milícia digital QAnon. Usado para organizar o ataque insurrecionista ao Capitólio, o Congresso norte-americano, em 6 de janeiro, o Parler foi banido da Apple Store e da Google Play Store e a Amazon Web Services rescindiu seu contrato de hospedagem.

Até agora, a desplataformização do Terça Livre não foi tão ampla como a de Jones. Sem sua principal ferramenta, porém, caberá a Allan uma série de tarefas: reconstruir sua base de assinantes enquanto se defende dos inquéritos nos quais é investigado — além do focado em fake news, ele também é alvo de outro do Supremo sobre os atos antidemocráticos. Allan corre o risco de deixar de ser personagem e voltar a ser só observador.

Agora eu quero mudar o foco da atenção para o YouTube.

Por quais razões o YouTube tirou os canais do Terça Livre do ar? Não foi por que Allan dos Santos e sua turma defendiam teorias amalucadas e espalhavam desinformação sobre COVID-19, eleições e inimigos do bolsonarismo no atacado. É verdade que o canal já foi punido pelo YouTube: em 22 de janeiro, um vídeo chamado É HOJE O DIA D!, publicado em 6/1/2021, foi tirado do ar por violar as “diretrizes da comunidade”, diz o YouTube no link onde o vídeo estava hospedado. No mesmo dia, outro vídeo, dessa vez do canal Os Pingos nos Is, programa da rádio Jovem Pan onde apresentadores não raramente defendem posições bolsonaristas, foi tirado do ar pelo YouTube pelas mesmas razões. O que havia de comum em ambos? Allan dos Santos em Washington enaltecendo a tentativa de golpe de estado no ataque contra o Capitólio em 6 de janeiro instado pelo ex-presidente Donald Trump para conseguir na marra um segundo mandato. Nesses casos, a razão da punição foi clara: após as cenas bárbaras de invasão do Capitólio, o YouTube reformulou sua política pública no que diz respeito ao questionamento de eleições. Quem defendesse fraude na eleição norte-americana seria punido, como de fato foi.

O canal Terça Livre não saiu do ar por isso. Até ser deletado, centenas de vídeos defendiam o fechamento do Supremo Tribunal Federal e a prisão dos ministros, a farsa da pandemia de COVID-19, o plano diabólico por trás das vacinas, o acordo com Satã que Joe Biden tinha (de novo, eu não estou acreditando que essas frases estão saindo a sério da minha boca)… Tinha violações às diretrizes aí de todos os tipos e sabores e tudo continuava no ar.

Existem duas teorias sobre o que forçou o YouTube a se mover contra o Terça Livre. A primeira: o site já mostrou que, frente a algum conteúdo político muito chocante, toma a decisão de excluir o canal e depois se preocupa em encaixar a exclusão nas regras. Foi assim com o de Sara Giromini. Um dia depois de expor no seu canal informações privadas de uma adolescente grávida após ser estuprada, Giromini perdeu o canal. Não parece ser o caso do Terça Livre. O conteúdo na semana anterior à exclusão foi aquele caldo tradicional de delírio bolsonarista.

Aí caímos na segunda teoria, a que me parece mais provável: o canal caiu por copyright. No final de fevereiro, Allan publicou no Instagram um vídeo explicando como o canal tinha recebido um segundo strike2 de copyright e se defende das acusações. A política mais rigorosa que existe no código do YouTube é a que diz respeito a direitos autorias: se seu canal tomar três, pode ser excluído. Ninguém confirma ao certo o porquê da exclusão do canal — o Terça Livre aproveita para se colocar de vítima de uma plataforma que supostamente tenta censurá-lo (basta ver a nova bio de todos os envolvidos) e o YouTube mantém sua política que eu chamo de “cara de paisagem”, aquela que um povo adota quando finge que não viu. Fica a forte impressão de que o que derrubou o Terça Livre não foi só a divulgação atacadista de desinformação política ou a violação prevista nas diretrizes contra discurso de ódio ou incitação à interferência em processos democráticos — mas que os direitos autorais tiveram papel muito relevante. Corrobora a teoria o fato de que, dos canais de extrema-direita do monitoramento da Novelo Data que foram deletados, a maioria estava envolvida em alguma treta de direitos autorais. Foi assim com o Notícias da Hora em julho de 2020, por exemplo.

O que nos leva a um outro caso que misturou YouTube e política recentemente no Brasil. Quando o deputado Daniel Silveira (PSL-RJ) foi preso por publicar em seu canal um vídeo com ameaças e acusações contra os ministros do STF, o YouTube tirou o vídeo do ar por violar “a política do YouTube de assédio e bullying”. Pelo menos um outro canal foi punido por replicar o vídeo — o YouTube também o tirou do ar, segundo o monitoramento da Novelo. O YouTube só tirou o vídeo original do ar depois de Daniel ser preso, o que mostra um padrão: o canal da Giromini também só foi excluído depois da comoção popular.

Mais que isso: ainda que o vídeo em que Daniel ameaça os ministros do STF tenha sido removido, dezenas de outros continuam no ar, com milhões de visualizações e, em alguns casos, campanhas de monetização (full disclosure: a Novelo forneceu dados e a análise para uma reportagem do jornal O Globo sobre o assunto publicada em 21 de fevereiro). Era bem mais até a semana passada: o número caiu já que muita gente, com medo após ver a prisão de Silveira, resolveu não se arriscar e tirar do ar vídeos atacando o Supremo, incluindo parlamentares. O deputado federal Paulo Martins (PSC-PR) escondeu 15 vídeos no dia seguinte à prisão do colega. Em comum, eles usavam Lula, o Exército e os ministros para construir uma narrativa de que era preciso intervenção militar, algo que três dos 15 vídeos defendiam explicitamente.

Em outras palavras: o discurso antidemocrático continua livre no YouTube, sem qualquer impedimento. O próprio canal de Daniel Silveira continua no ar com dezenas de outros vídeos, tal qual o que motivou sua prisão, atacando, ofendendo e sugerindo prisão aos ministros do STF. Se tivesse algum padrão, todos já teriam sido excluídos

São dois os problemas aqui. O primeiro é que a gente já viu no Tecnocracia que coerência não é o forte das grandes plataformas de tecnologia. O segundo é mais prático: as regras do YouTube não proíbem discurso antidemocrático. Melhor: as regras que o YouTube reformou em agosto de 2020, em dezembro de 2020 e logo após o ataque ao Capitólio proíbem discurso antidemocráticos desde acusem a democracia norte-americana. E nem assim eles são precisos — ainda existem vídeos no ar alegando que Trump ganhou e que os Democratas roubaram a eleição. Nas “Políticas de spam, práticas enganosas e golpes”, há um item com o título “Incitamento para interferir com processos democráticos” e a seguinte explicação: “conteúdo encorajando outros a interferir com processos democráticos, como a obstrução e a interrupção de procedimentos de votação”. Pode-se argumentar que vídeos com discurso cogitando e incitando o fechamento da mais alta corte e do congresso se encaixam. Mas é algo que exige interpretação. Não há uma regra explicitamente clara no manual do YouTube que proíba discurso golpista, ainda que as leis brasileiras prevejam punições a quem defenda o fim de poderes independentes.

Está no artigo 287 do Código Penal, no artigo 4 da Lei dos Crimes de Responsabilidade e no artigo 23 da Lei de Segurança Nacional, amada e citada com frequência por quem defende a dissolução dos poderes e a intervenção militar. Se já está tipificada, por que o YouTube não tira do ar? Para entender os meandros jurídicos e não ficarmos gritando raivosos para a nuvem como o vovô Simpsons, eu fui conversar com quem entende de lei.

A partir do momento em que não tem uma regra que determina os limites explícitos de uma ação — como, por exemplo, atacar a separação entre os poderes da República —, o YouTube (e qualquer outro serviço online) se ampara no artigo 19 do Marco Civil da Internet, segundo o qual a plataforma só se torna responsável pelo conteúdo criminoso de terceiros após ser notificado judicialmente. Não existe responsabilidade penal da plataforma, mas pode haver responsabilidade civil. Ou seja: se alguma entidade como o Ministério Público entender que o conteúdo fere as leis pode promover uma ação para responsabilizar a plataforma pelo conteúdo, o que, em teoria, poderia levar à exclusão em massa do conteúdo. Mas só se houver uma ação ajuizada por um Ministério Público, por exemplo. Se você espera um ataque fulminante de consciência do YouTube para se livrar sozinho do conteúdo golpista, acomode-se na sua poltrona mais confortável.

A resposta do YouTube à questão é sempre a mesma.

O site costuma frisar seu comprometimento com manter a comunidade segura repetindo números enormes — na semana passada, anunciou que, em 2020, excluiu 2,9 milhões de vídeos que feriam suas políticas. A única informação que o YouTube divulga é o número redondo para dar impressão que está agindo. Só que qualquer pessoa que navegue, analise ou pesquise o YouTube sabe que o número não mudou nada. A desinformação continua galopante, o problema continua o mesmo. Para tentar resolver, as exclusões precisariam ser multiplicadas em 10 – meio hipérbole, meio observação diária da quantidade de desinformação de vários sabores na plataforma.

Se quisesse colocar à prova seus esforços, o YouTube precisaria responder outras questões para que a sociedade entendesse se o site realmente está preocupado. Questões como “quais foram os temas que mais baniram no Brasil”, “quais canais foram banidos?”, “por quais razões?”, “quantos canais foram banidos por divulgar desinformação sobre COVID no Brasil?”, “quanto dinheiro canais banidos faturaram — em lives e com anúncios — desde que foram criados?”, “por que qualquer pessoa ainda encontra milhares de vídeos com mentiras sobre COVID em português no ar?”, “por que canais já pegos comprovadamente disseminando mentiras sobre COVID continuam no ar, monetizados e sem qualquer sanção?”… A lista é longa. O YouTube esconde sua responsabilidade atrás do silêncio. Assim, a única maneira de entender o que rege a maior comunidade de vídeos do mundo é a engenharia reversa. É o possível, não o ideal.

Por que isso é tão importante? O YouTube tem um papel central nas campanhas de desinformação online. Quem explicou melhor isso foram os pesquisadores Anthony Burton, da Universidade Simon Fraser, no Canadá, e Dmitri Koehorst, da Universidade de Amsterdã. Segundo artigo que ambos assinaram no Misinformation Review, publicação da Harvard Kennedy School, o YouTube funciona como repositório para conteúdo que é distribuído em diversas comunidades baseadas em texto: mensageiros, principalmente. Já falamos aqui no Tecnocracia como o YouTube (não só, justiça seja feita) faz vista grossa para infrações às suas políticas. Quando age, o YouTube impõe, em sua maioria, sanções como desmonetizar o canal ou parar de recomendar seus vídeos. Esses métodos são efetivos quando o material é consumido dentro da plataforma — quando você segue canais e vai escolher algo para ver no feed, por exemplo. Nesse papel que o YouTube tem de repositório para consumo a partir de outras comunidades, porém, as sanções são inócuas. Ainda que estejam desmonetizados e não sejam recomendados, os vídeos que, a despeito da infração das regras, seguem no ar, continuam a ser vetores de desinformação. É essa a realidade que o YouTube Brasil tenta turvar quando repete exaustivamente o número de 2,9 milhões. É como se falasse: “veja o tanto que já fiz”, sem responder se o problema foi resolvido.

A metáfora para o cenário político do Brasil hoje é o de um cômodo que vem enchendo de gás altamente inflamável com práticas bem conhecidas do bolsonarismo, como a retórica violenta, a incitação à sublevação, a relação próxima com as polícias militares e os decretos que facilitam o acesso a armas e munição e afrouxam os métodos de fiscalização.

Mapa mostrando a trajetória do Destacamento Tiradentes.
Imagem: OpenStreetMap/Wikimedia Commons.

Esse gás, cujo cheiro não há janela que consiga rebater de tão forte, só precisa de uma fagulha. Foi o que aparentemente Daniel Silveira tentou. Quem leu o primeiro livro da série sobre a ditadura do Elio Gaspari se lembra como começou: alguns generais insubordinados que resolveram agir por conta própria. A figura principal foi um general Mourão que, a despeito do cargo e do sobrenome, não tem relação com o vice-presidente do Brasil. Ainda que estivesse bolando um manifesto pedindo a renúncia do então presidente Jango com a ameaça de revide militar, o general Olímpio Mourão Filho, comandante da 4ª Região Militar, em Juiz de Fora (MG), se revoltou quando percebeu que seus pares não estavam prontos como ele e deflagrou3, sozinho, a marcha de Minas Gerais até o Rio de Janeiro para emparedar Jango. Era o Destacamento Tiradentes, formado por cerca de 3 mil homens das tropas de Mourão em Juiz de Fora e acrescido por homens de regimentos em Belo Horizonte e São João Del Rei. Conforme o caminho se mostrava desobstruído, a coluna foi ganhando tamanho. Mourão marchou até o Rio de Janeiro para se encontrar com Riograndino Kruel, irmão do comandante do Segundo Exército, Amaury Kruel. Mourão tinha tentado falar com Kruel para avaliar seu interesse em se juntar ao movimento. Sem respostas, Mourão achou mais fácil marchar com sua tropa até o irmão, que lhe deu a certeza da aliança. Ali, a fagulha iniciada por Mourão incendiou. Foram os primeiros movimentos dos 21 anos da ditadura militar mais recente da história do Brasil4.

Voltemos ao Gaspari, dessa vez em coluna do dia 21 de fevereiro: “Ao seu estilo, Daniel Silveira usou a repercussão do depoimento do general da reserva Eduardo Villas Bôas para atacar, em nome de sua agenda pessoal, os ministros Edson Fachin, Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes. Os inquéritos sobre mobilizações antidemocráticas propagando mentiras estão na mesa de Moraes. Fosse qual fosse a intenção de Silveira, deu errado”.

Enquanto ignoram as leis locais e lavam as mãos, as plataformas continuam a deixar o cômodo encher de gás. Ainda que a maior responsabilidade não seja delas, há um naco inegavelmente relevante que lhes cabe.

É nessa dicotomia que a tecnologia brasileira se encontra. De um lado, estão executivos que, em TEDs e palestras, citam discursos de políticos ou filósofos sobre a importância da democracia enquanto se consideram os últimos bastiões da república brasileira. Por trás desse elã delirante de echarpe, eles parecem não querer entender que são, eles mesmos, co-conspiradores de um governo que vem claramente se movendo para sufocar a democracia brasileira.

Dessa vez, a faísca não deu certo. Perceba que a parte mais importante da minha frase não é o “não deu certo”, mas “dessa vez”.

Foto do topo: Leandro Ciuffo/Flickr.

  1. Não confundir com o canal oficial do presidente.
  2. O strike é uma punição. Funciona como um cartão amarelo, muito embora, no YouTube, você possa tomar dois antes de ser expulso(a) da plataforma.
  3. Já existia um plano para depôr Jango chamada Operação Popeye. Mourão o apressou.
  4. Eu não canso de sugerir: leia a série sobre a ditadura do Gaspari. É leitura obrigatória para todo/a brasileiro/a que queira entender o Brasil.

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