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Pepper, o robô emotivo japonês, é um vislumbre do futuro das nossas relações sociais

Pepper, o robô, interage com um ser humano.

Este é o Pepper, um robô social fabricado em parceria pela SoftBank e Aldebaran Robotics. Ele tem 1,21 m, rodas no lugar dos pés e é capaz de entender e reagir às emoções humanas. O Pepper entrou em pré-venda no Japão e as mil unidades do lote inicial foram vendidas em menos de um minuto. Preço? Pouco mais de US$ 1.600 — fora a mensalidade, de US$ 200, que cobre manutenção, seguro, pacote de dados e apps que ainda serão lançados.

Não é à toa que o Pepper esteja à venda no Japão e já seja um sucesso. Robôs do tipo, do cachorrinho Aibo à foca Paro, criada como acompanhante de idosos, passando por aquele robô humanoide creepy da Toshiba, parecem ser relativamente comuns por lá, a ponto de tornar a ideia de um Pepper não só natural, mas desejável. Ele já funcionava em lojas da SoftBank (apesar do nome, é uma operadora de telefonia móvel); esse e outros fatores culturais do país ajudam na introdução de… anh… coisas como o Pepper.

Em Alone Together: Why We Expect More from Technology and Less from Each Other, a socióloga Sherry Turkle gasta a primeira metade do livro dissecando o relacionamento entre seres humanos e robôs sociais desde o rudimentar ELIZA, do MIT, e mostra como ele é mais forte, embora não restrito, em crianças, idosos e pessoas que optam ou se veem isoladas socialmente.

O trecho abaixo, do livro, resume bastante o argumento, mas serve como um alerta sobre as possíveis consequências que situações mostradas no vídeo promocional do Pepper, cujo título prevê uma “vida futura,” podem ocasionar:

Se você compartilha “emoções” com “criaturas” robóticas, acostuma-se à gama “emocional” reduzida que as máquinas podem nos oferecer. Na medida em que aprendemos a extrair “o máximo” dos robôs, podemos reduzir nossas expectativas em todos os relacionamentos, incluindo aqueles com [outras] pessoas. No processo, traímos a nós mesmos.

Ilustração com uma mãozinha depositando uma moeda em uma caixa com o logo do Manual do Usuário em uma das faces, segurada por dois pares de mãos. Ao redor, moedas com um cifrão no meio flutuando. Fundo alaranjado.

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Ao final dessa primeira grande parte, Sherry se volta ao Japão, segundo ela o país mais receptivo a robôs sociais, para desenhar um ciclo que, com eles, se fecha:

Os japoneses encaram como uma bênção que celulares, mensagens, apps de bate-papo, e-mail e jogos online tenham criado o isolamento social. Eles veem as pessoas redirecionando o foco das famílias para suas telas. As pessoas não têm encontros face a face, não participam de grupos. No Japão, os robôs são apresentados como facilitadores ao contato humano que as redes tiraram. A tecnologia nos corrompeu; os robôs curarão nossas feridas.

Completamos um ciclo. Os robôs, que nos encantam em relações cada vez mais intensas com o inanimado, são propostos aqui como a cura para a nossa intensa imersão na conectividade digital. Os robôs, esperam os japoneses, nos puxarão de volta à realidade física e, assim, uns aos outros.

Sherry aborda robôs em um livro dedicado a estudar o isolamento causado por redes sociais porque vê similaridades nos dois comportamentos. A atenção artificial de robôs e as curtidas e comentários que recebemos por uma sacada esperta no Twitter ou uma foto bonita no Instagram reduzem a expectativa que temos diante das interações interpessoais, e não só: fazem isso minimizando os riscos de termos que lidar com rejeição e situações inesperadas.

O problema, argumenta em mais de um ponto, é quando o “bom o bastante” se torna o “melhor,” quando uma conversa por app, em texto, com todos os pontos de fuga, o espaço para pensar antes de responder e a opção de ignorar sobrepõe a conversa cara a cara, com a tensão do momento, a exigência da resposta em tempo real, o uso da linguagem não verbal. É um abismo social-digital muito confortável para termos vontade de sair depois que caímos nele.

Um robô como o Pepper deve ser muito legal; é isso que o torna problemático. Na metáfora do abismo, um robô do tipo pode ser o empurrão que nos falta para cair nele.

https://youtu.be/3a4sZnLRvqk

Foto do topo: Jake Curtis/Aldebaran.

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14 comentários

  1. “…esse e outros fatores culturais do país ajudam na introdução de… anh… coisas como o Pepper.”

    Isso ficaria melhor assim:

    “esse e outros fatores culturais do país ajudam na introdução de… anh… coisas como a Skynet”.

    1. Skynet me parece um estágio (bem) posterior, com máquinas realmente conscientes e uma rivalidade (com muito potencial) que surgiria daí. Por enquanto, nossos robôs apenas imitam consciência, mas só esse resquício de inteligência já deixa muita gente babando.

      (Vide o post que acabei de publicar, sobre o filme Ex Machina.)

  2. Que parada incrível e ao mesmo tempo preocupante. Conforme você falou no texto, rumamos para uma situação que tentamos ao máximo escapar de “riscos de termos que lidar com rejeição e situações inesperadas” . Isso não é nada saudável, visto que a vida e as pessoas não passam a mão na cabeça de ninguém. Como vamos nos preparar com momentos que as coisas não saem do jeito esperado? Reclamar com um robozinho (apesar que já fazemos isso).
    Tenho uma leve impressão que isso funciona fortemente no Japão por causa da sociedade altamente opressora que eles vivem, que julga e espera sempre o máximo de sucesso de cada indivíduo. Não é a toa que os “hikikomoris”
    (pessoas que se isolam de todo e qualquer convívio social) são um traço marcante da sua realidade.

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