iPhone no pau de selfie.

Precisamos falar sobre o pau de selfie


8/1/15 às 10h02

O gadget mais popular do Natal de 2014, aqui e em vários outros países, não foi um smartphone, nem algo tão avançado quanto. Na verdade, foi um negócio simples que, se muito, traz alguns botões e uma interface Bluetooth. Estou falando do pau de selfie.

Descobri esse negócio em setembro, mas o fenômeno é mais antigo. O também chamado bastão de selfie ou, na terminologia mais correta, monopé extensível, esteve à espreita durante todo o ano passado. Em novembro, a revista Time listou-o como uma das 25 melhores invenções de 2014. A essa altura ele já caminhava a passos largos para virar febre e, considerando que “selfie” foi a palavra do ano de 2013 segundo o Dicionário Oxford, pode-se dizer até que demorou.

Em dezembro aquele meu texto zoando pau de selfie se transformou na página mais acessada do Manual do Usuário. É muita gente! A ascensão daquele post acompanhou a do próprio termo no Brasil. No Natal, muitos presenteados correram para o Google a fim de entender melhor como essa coisa funciona. E eu, que ainda acho meio ridícula a ideia de esticar um cabo metálico de um metro no meio da galera para tirar uma foto da sua própria fuça, fiz o que qualquer um intrigado com o fenômeno faria: comprei um pau de selfie para ver qual é que é.

Fênomeno mundial

Selfie stick da Kaiser Baas.
O único homologado pela Anatel.

É curioso ver as grandes fabricantes e lojas do varejo brasileiras comendo mosca com a moda do pau de selfie. Nos EUA, por exemplo, onde o acessório também virou febre, comerciantes de equipamentos fotográficos e lojas de departamento estão lucrando muito com isso. Os estoques não duram e  a indústria não consegue atender a demanda.

No Brasil a história é diferente. Há iniciativas avançadas como o modelo da Kaiser Baas de R$ 249 (!), único homologado pela Anatel. Isso é um detalhe importante porque aponta que, aqui, a moda vem de baixo: o típico pau de selfie está em embalagens baratas, cheias de erros de grafia, com projetos visuais grotescos e, claro, sem preocupação alguma com controle de qualidade.

Em grande parte, a explosão do pau de selfie lembra a gênese dos dual SIM, os famosos celulares xing-ling de dois chips. Há duas diferenças fundamentais entre as histórias, porém: esses bastões não sofrem preconceito de classes (vê-se gente com iPhone e celular de entrada usando-os) e não sei, ao certo, se a febre passará esse estágio e ganhará seu espaço na nossa cultura. Eu acho que não, mas fazer apostas do tipo é botar o seu na reta por nada, então deixe estar.

Quando resolvi ter um pau de selfie para chamar de meu, comecei o processo de compra como qualquer ser humano normal: pesquisando no Google. Encontrei lojas desconhecidas, comerciantes pequenos atuando em sites como MercadoLivre e Bom Negócio, e lojas locais indo à loucura naqueles famosos grupos do Facebook, tipo “MercadoLivre Maringá”. Todos vendendo os mesmos modelos com controle remoto Bluetooth e tal, com preços que variam de R$ 80 a R$ 110.

Tirei algumas dúvidas num desses grupos no Facebook e no dia seguinte fui ao centro de Maringá adquirir meu pau de selfie. A loja estava lotada e o balcão, repleto deles. Era pau de selfie pra todo lado, dava até para fazer uma guerrinha de espadas com pau de selfie. Isso seria legal.

Eu, na loja, comprando um pau de selfie.

Se no exterior lojas mais a ver com o assunto foram as primeiras a se ligarem no fenômeno, por aqui as pioneiras parecem ter sido as que vendem capinhas de celulares e produtos populares importados. Faz sentido, geograficamente falando: como a maioria busca seus estoques no Paraguai e é por lá que muita coisa da China chega até nós (pelo menos aqui no interior do Paraná), não tinha como ignorarem um produto tão atraente e sem concorrência tanto da indústria nacional, quanto do varejo tradicional.

O modelo que tinha visto no grupo, de R$ 85, esgotou em um dia. O vendedor me deu, então, duas opções: um com controle remoto à parte e movido por uma pilha de relógio, e outro recarregável por USB e com controles no próprio bastão. Fiquei com esse, que me custou R$ 95.

Garantia? Uma estranhíssima “de teste”, que consiste em levar o pau de selfie para casa, testá-lo e, se der algum problema, voltar à loja para trocá-lo. Lembrei ao vendedor que o Código de Defesa do Consumidor me garante pelo menos três meses de garantia para bens duráveis. Ele me perguntou como seria o pagamento. No cartão, por favor.

Claro que meu pau de selfie veio com defeito.

Pelo menos foram solícitos e trocaram ele sem resistência. Peguei um da mesma “marca” (ou, pelo menos, que vem na mesma caixa), mas com um design diferente. Esse funcionou.

Hands-on no pau de selfie

Fazia algum tempo que não lidava com um produto tão tosqueira. A embalagem é de chorar:

Embalagem do pau de selfie.

Numa fonte estranha e laranja contra um fundo verde, quase impossível de se ler pelo contraste ruim, a fabricante diz que o meu pau de selfie é “o primeiro do mundo” e que detém uma “patente exclusiva”. Em letras menores, informa ser compatível com “iOS e Andriod”, o que suponho se refira ao Android. Mais abaixo um Clipart de cabeça quadrada com um megafone em formato de cone na mão e fazendo um joinha com a outra repete o lance da patente exclusiva e ressalta um “sistema de identificação automática” que dispensa o uso de um app especial. Isso deve ser bom. A Anatel definitivamente não viu esse negócio.

Abrindo a caixa, encontrei o pau de selfie, uma alça para evitar acidentes (embora, com 1,1 metro de comprimento quando totalmente esticado, não deva resolver muita coisa em relação ao celular), a presilha que segura o smartphone e um cabo USB. Ah, e um minúsculo manual que para minha surpresa foi muito útil. Embora tenha quatro botões, só com o auxílio das instruções consegui decifrar os procedimentos para ligar, parear e desligar o pau de selfie. Procedimentos que, como você deve ter imaginado, não são nada intuitivos.

O cabo e os botões do pau de selfie.

O cabo é de plástico rígido na cor verde limão. Existem variações em rosa, roxo, amarelo e azul, também. Lendo o manual descobri que o buraco da alça é removível e que ao tirá-lo, o pau de selfie pode ser encaixado num tripé e virar um disparador remoto. Isso é que é versatilidade!

Como estava com um Lumia 730 na mão, um legítimo smartphone para selfies, ignorei os avisos da embalagem e tentei pareá-los. Os dois se encontraram via Bluetooth, mas os botões não funcionaram para o disparo — algo a ver com a incapacidade do Windows Phone em aceitar teclados externos e que deve ser resolvido com uma atualização futura. Arrasado, peguei o iPhone e nele tudo correu bem. O encaixe é feito por pressão e embora não tenha caído nenhuma vez durante os meus testes, aquele medo de que ele fosse escapar e se esborrachar no chão jamais me abandonou.

Da configuração aos materiais, fica claro que é um produto bem safado. A parte extensível é rígida, difícil de esticar e fica girando no próprio eixo se o ponto de equilíbrio do smartphone não estiver perfeito. Os botões de zoom não funcionaram, nem no iPhone, nem no Android (testei em um Nexus 5 também). No Android, aliás, ele toma o lugar do teclado padrão e, por isso, enquanto estiver pareado você não consegue digitar nada porque o teclado padrão some!

Munido de um pau de selfie, muita coragem, e sem um pingo de amor próprio, chamei uns chapas que estavam meio à toa e fomos a uma praça brincar com o pau de selfie. Não foi tão ruim quanto eu esperava. Na verdade até nos divertimos, mesmo com o modelo defeituoso — foi preciso apelar para o temporizador da câmera, já que a bateria apagou assim que chegamos mesmo eu tendo recarregado ela completamente (ou assim pensei) antes de sair de casa.

Segurando o pau de selfie.

Quando o pau de selfie se distancia da arte

A primeira vez que vi um pau de selfie em ambiente selvagem, sem ser por fotos ou em vitrines, foi num congresso de comunicação, em outubro do ano passado. Depois da palestra e de um breve coquetel, uma moça retirou seu pau de selfie da bolsa e o estendeu para tirar uma com os amigos. Acho que era um povo da TV:

Flagra de um pau de selfie em evento social.
Pau de selfie na natureza selvagem.

Era só mais uma das milhares, milhões de selfies feitas com o bastão que pipocaram em redes sociais nos últimos meses. São muitas fotos, de todos os tipos, mostrando ou não o objeto que auxilia a obtenção das imagens com maior distanciamento dos objetos/pessoas no enquadramento. Dá para culpar essa gente? O que eles não sabem? Existe algum cenário em que o pau de selfie não te comprometa?

Tá, tá, eu sei que tenho zoado o pau de selfie desde sempre, mas deixe-me abrir um parênteses aqui.

Técnicas fotográficas correm o risco de serem mal interpretadas, mas pela arte, pelos resultados quase tudo se justifica. E o que o pau de selfie faz é, em certa medida, a mesma coisa que os drones civis têm feito para a cinegrafia, ou que o digital trouxe com a edição facilitada e técnicas nunca imaginadas, como a glitch art, ou ainda que as câmeras em smartphones e a conexão onipresente nos deram: abrir novas possibilidades.

Uma extensão, ainda que de apenas um metro, é um novo ponto de vista. Abraçá-la, explorá-la, é válido. Eu usaria um pau de selfie em certas situações sem constrangimento. Em todas, como numa festa ou, como empurra a Kaiser Baas, fabricante do pau de selfie homologado™®, nos “melhores momentos da minha vida”? Aí complica. Imagina o cara TIRANDO UM PAU DE SELFIE DO BOLSO NO MEIO DA BALADA? E o problema é que isso não é apenas constrangedor, é algo que pode ficar chato. Matheus Ramos Dias, idealizador do hilário Encontro Nacional do Pau de Selfie no Facebook, contou ao R7 que a brincadeira surgiu pelo excesso de paus de selfie em lugares tumultuados:

“Mal dava para andar na Paulista, mas ninguém se importava em parar e esticar o pau de selfie e fazer o autorretrato. Parece que agora o item se tornou um item indispensável.

Ele está em todo lugar. Esta foto emblemática, da Folha, mostra um pessoal curtindo o pau de selfie na praia:

Turistas e cariocas brincando com pau de selfie.
Foto: Ricardo Borges/Folhapress.

E não é como se eu estivesse cagando regra aqui. Se você está feliz e promete não bater em ninguém com esse negócio, vai fundo. O ponto é que me parece claro, e natural até, que boa parte desse povo só quer tirar uma selfie marota, algo que não precisa de um objeto intrusivo (um time de futebol inglês já o proibiu em seu estádio), absurdamente caro e que, no fim das contas, nas fotos, acaba nem fazendo tanta diferença. Quando faz, é por aparecer na foto, algo que deveria ser evitado mas qual a graça de tirar foto com pau de selfie se ele não aparece, né?

Eu não tenho birra com pau de selfie. Ele me trouxe muitas visitas e se duvidar até alguns leitores. Talvez você só esteja lendo isto por aquele primeiro post sobre pau de selfie! Eu ficaria contente se aparecesse uma sensação dessas proporções em todo verão. Só acho bobo e isso é algo que não consigo evitar, desculpaê.

Enfim, mesmo com todos esses poréns, eu tinha uma missão e estava determinado a cumpri-la, custe o que custasse, incluindo a minha dignidade.

Usar o pau de selfie numa praça, no centro de uma cidade do interior, foi um misto de diversão e vergonha. Todo mundo olhava, mesmo enquanto dividimos as atenções com uma bailarina, vestida a caráter, que também achou a tal praça um bom lugar para fazer seu book na mesma hora em que estávamos lá. Então fizemos uma foto tradicional, da galera, todos de pé e sorrindo, felizões:

Grupo de amigos celebrando o pau de selfie.
Coisas que só o pau de selfie permite fazer.

Depois, quis dar um ar artsy e encontrei essas florzinhas. Note que a sombra do celular no meu rosto não ficou legal — alguém já tinha falado desse contratempo do pau de selfie?

Uma selfie contra um canteiro de flores.

Escondo ou mostro o pau? kkkkk

Foto em grupo com o pau de selfie à mostra.

Não sei até que ponto a diversão foi proporcionada pela sessão de fotos ou pelo nonsense da coisa. É divertido porque é patético ou porque é genuinamente divertido? Não sei, só sei que… nah, a quem quero enganar? É bem patético.

Eu não costumo andar com muita gente, muito menos tirar fotos em grupo, então acredito que o maior apelo do pau de selfie não se aplica a mim. Os meus naturais, também conhecidos por “braços”, geralmente resolvem. E com essa moda de selfies, as câmeras frontais estão ganhando lentes com distâncias focais menores a fim de incluir mais gente no enquadramento.

O que quero dizer é: se você quer comprar um apenas para tirar selfies com seus amigos, pense melhor. Além da alternativa citada acima, uma outra é pedir a alguém de fora para tirar sua foto. Isso, falar com outro ser humano desconhecido e pedir-lhe para tirar uma foto. As pessoas não mordem e não costumam ficar à espreita para roubar turistas ou transeuntes ávidos por fotos em grupo. E, de quebra, dessa forma você evita o maior tradeoff em usar um pau de selfie, que é utilizar a câmera frontal do smartphone. Mesmo em aparelhos “especializados”, como o Lumia 730, a câmera de trás ainda é muito melhor.

“Ah, mas serei roubado!”, disse alguém. Não me parece que grudar seu smartphone fragilmente em uma vareta a um metro de distância e deixá-lo suspenso em locais super movimentados seja um protocolo mais seguro do que recorrer à boa vontade de um garçom, ou de um senhor que esteja passeando com a família. Mesmo ela não se ajudando ao comprar alucinadamente coisas como pau de selfie, tenha um pouco de fé na humanidade!

Ah, que canseira.

O pau de selfie entrou rapidamente naquela categoria de coisas que adoramos odiar, mesmo nunca tendo contato ou só para parecer cool. Mas agora que testei um posso dizer com propriedade, sem medo de ser injusto, que: sim, é uma gigantesca bobagem.

Alguém quer comprar o meu?

Agradecimentos ao Lincoln Copceski, Laís Alves (que tirou as fotos em que eu apareço) e Márcio Hayashiuchi por terem topado testar o pau de selfie comigo. Isso é que é ser amigo! 

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