O livro pantaneiro que conquistou o Brasil pelo Reddit

Arte do livro "Pantaikan", escrito e ilustrado por Diogo Carneiro.

“E por causa de vocês, r/Brasil, o projeto deu certo!” Foi com esta mensagem que, no dia 11 de dezembro de 2018, o ilustrador Diogo Carneiro agradeceu a um monte de desconhecidos em um grupo na rede social Reddit pelo sucesso comercial do seu livro de estreia, Pantaikan e a Ordem do Ipê-Branco, uma história fantástica ambientada no Pantanal sul-mato-grossense e ricamente ilustrada.

Pantaikan conta a história de Nheco, uma capivara que leva a vida como pescador, mas que tem o sonho de virar um guerreiro pantaneiro. Um encontro com uma criatura que ele só ouvira falar em rodas de tereré, porém, muda o seu destino. Perseguido e tratado como um criminoso, a capivara Nheco precisa recuperar sua honra enquanto se aventura por Pantaikan tentando proteger um item envolto em mistério e magia.

O livro é uma homenagem apaixonada ao Pantanal, um dos biomas mais famosos e belos do Brasil. Carneiro, 32 anos, nasceu no Mato Grosso do Sul e sempre morou lá. “Desde que era praticamente um bebê eu já ia à fazenda, no Pantanal”, relembra. “Sempre tive um contato muito próximo com o Pantanal. Está meio no sangue”.

Diogo Carneiro, autor do livro "Pantaikan".
Diogo Carneiro. Foto: Divulgação.

Carneiro formou-se em Publicidade e Propaganda em 2007. Trabalhou em agências, foi diretor de arte e, nessa função, fazia trabalhos com mascotes e ilustração de cartilhas. Eram os que ele mais gostava. Em 2012, largou a agência para trabalhar exclusivamente com ilustração. “Sempre gostei de desenhar, desde pequeno”, conta.

O universo retratado de Pantaikan surgiu como uma ilustração para o portifólio do ilustrador. “Acabou que gostei muito dele [o desenho], do universo que estava rascunhando. Resolvi segurar um pouco. ‘Aqui dá para explorar mais, esses personagens’”, lembra ter pensado na ocasião.

Ilustração com uma mãozinha depositando uma moeda em uma caixa com o logo do Manual do Usuário em uma das faces, segurada por dois pares de mãos. Ao redor, moedas com um cifrão no meio flutuando. Fundo alaranjado.

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Entre os primeiros traços daquele personagem e a publicação do livro, passaram-se três anos. Os pedidos para ilustrar livros infantis, capas de livros, jogos e impressos em geral fazia com que sobrasse pouco tempo para dedicar a Pantaikan. “De produção, mesmo, foram uns dois anos, escrevendo e ilustrando no meu tempo livre, quando dava”, disse. A parte burocrática — registros e impressão — consumiu mais um ano.

Dobrando a aposta em Pantaikan

Foto de alguns livros "Pantaikan" empilhados em uma mesa.
Foto: Diogo Carneiro/Divulgação.

Todo o gasto com a impressão da primeira tiragem de Pantaikan saiu do próprio bolso de Carneiro. Houve uma proposta da editora/gráfica que fez o trabalho em que o autor ficaria com 10% do faturamento de cada livro vendido. “Aí resolvi bancar eu mesmo”, relembra. Não só. Com uma dose de ousadia que demonstrou o quanto ele confiava no material que tinha em mãos, ele dobrou a aposta: “Quando escolhi a tiragem, arrisquei: pedi o dobro do que a princípio queria porque, assim, o custo caía pela metade”.

Carneiro não revela valores nem volume de vendas, mas afirma que já vendeu 30% da tiragem e que, com isso, conseguiu recuperar os custos de produção e começar a ter lucro. O preço de capa do livro é de R$ 75, valor que, nas postagens dos tópicos do autor no Reddit, assustou alguns leitores interessados na obra. Mas há uma explicação: “Ele [o livro] é grande, capa dura, todas as páginas coloridas e ilustradas em papel couché de qualidade. Queria um acabamento bem bacana”, justifica.

Outro possível entrave, o frete, foi resolvido graças a uma exceção que os Correios fazem à remessa de livros. Para esse tipo de produto, a estatal faz o transporte para qualquer lugar do Brasil pelo valor fixo de R$ 14.

De Campo Grande para o Reddit

Diogo desenhando à beira de um rio com um jacaré passando ao fundo.
Diogo desenha à beira do rio enquanto um jacaré nada tranqüilamente. Foto: Divulgação.

O Reddit não figurava com destaque dentro da estratégia de divulgação de Pantaikan. Inicialmente, o autor se voltou ao Facebook, onde está a sua rede de contatos. Começou a falar do livro um mês antes de um lançamento presencial, ocorrido dia 13 de dezembro em uma lanchonete de Campo Grande.

No Reddit, que Carneiro frequentava pelos grupos dedicados a jogos eletrônicos, a princípio ele buscou por grupos de ilustradores e autores independentes. Logo, constatou que nesses locais o alcance seria limitado. Foi aí que, expandindo a pesquisa, encontrou o r/Brasil, provavelmente o maior grupo majoritariamente brasileiro no Reddit, hoje com pouco mais de 200 mil participantes.

Sua primeira postagem no r/Brasil foi simples e direta: “Escrevi e ilustrei um livro de fantasia inspirado no Pantanal”, seguido de uma ilustração/convite para o lançamento presencial em Campo Grande. “Estava saindo para jantar e quando estourou a postagem eu estava na rua, não consegui responder. Foi meio uma surpresa”, recorda. “Eu pensava que o livro teria uma aceitação maior no estado, pela temática pantaneira, então isso me surpreendeu”.

Aquela primeira postagem recebeu mais de 2 mil “upvotes” (as “curtidas” do Reddit) e 242 comentários, a maioria parabenizando o autor, muitos perguntando onde comprar o livro. Havia um interesse real daqueles desconhecidos em Pantaikan. A pré-venda foi um sucesso e a exposição na rede social ajudou a romper as fronteiras do país. “Foi a partir do Reddit que mandei livros para a Alemanha, Inglaterra, Estados Unidos (um monte), Canadá e até um para o Emirados Árabes”, diz. A promessa de desenhar uma capivara no autógrafo de todos os livros comprados na pré-venda, feita no segundo post no grupo, ajudou a potencializar as vendas no digital.

Foto do autógrafo do livro "Pantaikan" com a capivara para os leitores que compraram na pré-venda.
Capivara desenhada no autógrafo dos livros da pré-venda. Foto: Diogo Carneiro/Divulgação.

Graças ao Reddit, os pedidos de Pantaikan via internet empataram com as vendas presenciais, dos círculos de amizade de Carneiro: “O público das minhas redes sociais meio que pagou o projeto, mas o que deu solidez mesmo foi com certeza o Reddit”. A terceira postagem, citada no início da reportagem, foi de pura alegria e satisfação: “Eu gostaria de agradecer cada um de vocês, não apenas quem comprou, mas também as pessoas que deram Up Vote ou comentaram com um amigo. O apoio de vocês foi incrível. Eu recebi muitos pedidos de pessoas do r/Brasil”, escreveu.

Mais do que potencializar as vendas, o apoio do Reddit serviu como uma espécie de sinal verde para Carneiro expandir o universo de Pantaikan. Desde o começo do ano, ele vem publicando um glossário do seu universo no r/Brasil e já vislumbra novas obras derivadas e continuações para o futuro próximo.

“Quero começar o segundo livro”, adianta. “Neste ano estou bastante focado em uma empresa minha de jogos, mas quero encaixar no planejamento a criação do outro livro, porque deu certo [o primeiro], então tem muita gente pedindo a continuação. E penso também em outros spin-offs, histórias paralelas à principal, com alguns contos, algo menor para ser mais rápido de fazer. Quero continuar.”

Pantaikan e a Ordem do Ipê-Branco pode ser comprado em seu site oficial.

Confira algumas artes e conheça os personagens:

Personagem Nheco do livro "Pantaikan" em arte de divulgação.
Nheco. Arte: Diogo Carneiro/Divulgação.
Personagem Tocaia do livro "Pantaikan" em arte de divulgação.
Tocaia. Arte: Diogo Carneiro/Divulgação.
Personagens Ceverino e Tião de "Pantaikan" em arte de divulgação.
Ceverino e Tião. Arte: Diogo Carneiro/Divulgação.
Personagens Zagaia e Nheco do livro "Pantaikan" em arte de divulgação.
Zagaia e Nheco. Arte: Diogo Carneiro/Divulgação.

Arte do topo: Diogo Carneiro/Divulgação.

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8 comentários

  1. Legal, eu gostei muito das ilustrações e o Reddit é uma ferramenta incrível de divulgação desse tipo de trabalho. Pena que no Brasil não temos uma ferramenta tão popular.. tem o Bazorg que está crescendo, mas vai tempo ainda kkk

  2. Que legal essa história!

    Lembra de anos atrás, quando se tinhas mais expectativas positivas das redes sociais e não somente problemas de privacidade, vício e conduta das empresas.

  3. Eu gosto muito de livros com a temática ou ambientação brasileira. Com tanta variedade e riqueza que temos em termos de ambientes, biomas, culturas, etc, é uma pena que não haja mais literatura que explore tudo isso.

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