Selo de verificado no Twitter contra o antigo fundo padrão dos perfis.

Os não verificados


28/6/16 às 8h41

Alguns anos atrás, Mike Hayes, repórter sênior do BuzzFeed que também cuida ou cuidava do perfil oficial do BuzzFeed no Twitter, enviou um e-mail para o pessoal da redação. O Twitter, ele informou, iria verificar toda a equipe de uma vez. Para serem elegíveis, os funcionários só precisavam vincular seus e-mail do trabalho aos seus perfis no Twitter.

E então, um dia em março daquele ano, boom! Um monte de BuzzFeeders com o tique azul de verificado em seus perfis no Twitter. Outras empresas como o The Verge vieram em seguida.

tantos escritores do buzzfeed verificados. cabeças vão rolar por isso. verifica eu, @twitter
@max_read (tweet apagado)

É difícil encontrar algo mais engraçado do que a verificação do Twitter. A verificação, claro, é útil: é tranquilizante para todos nós sabermos que Donald Trump é de fato terrível e que não estamos indignados com um troll muito empenhado. (Da mesma forma, Bill Clinton, ou, sei lá…. Macy Gray. Acho.) Já para os verificados, não acontece muita coisa. (Anil Dash informou: “além de obviamente tornar-se membro de uma intriga mundial illuminatti exclusiva, não há diferença alguma em usar o Twitter quando se é verificado.”) É uma besteirinha relativamente inofensiva, boba e às vezes até um pouco útil. O lado sombrio, é claro, são todos os tristes patetas no Twitter implorando para serem verificados. (Faça uma busca por @verified para sentir o drama.)

Todo movimento de massa tem sua sombra silenciosa, todavia. Agora há uma classe secreta entre nós. Existem pessoas — conhecemos várias — que estão dispensando a oportunidade de serem verificadas (ou ao menos ficando inertes e não sendo verificadas), enquanto todos à sua volta são. Deve parecer a estação das cigarras pra eles: tiques azuis aparecendo por todos os lados. E por algum motivo, ou uma série de motivos, ou algo mais complicado, eles se negam a participar.

Mas eles definitivamente não são uma brigada anti-verificação.

“Eu acho que é realmente muito importante — às vezes deixo de escrever histórias baseadas em coisas que vejo no Twitter porque o perfil NÃO é verificado,” disse-me por mensagem Laura June, editora do The Verge. “Então é uma coisa boa, especialmente para jornalistas.”

Justamente: o que significa quando apenas uma boa e velha conta no Twitter como a minha e a sua faz uma fofoca?

Lana De Rey ‘é agora o rosto oficial’ de algum tipo de Versace, de acordo com uma fã não verificada no Twitter. bit.ly/RujLw8

Faz sentido — e mesmo assim Laura June decidiu não se juntar aos seus colegas de trabalho do The Verge no lance da verificação. “Para mim, não é grande coisa,” ela escreveu. “Eu não tenho muita gente criando perfis fakes meus ou qualquer coisa assim. Então eu nem pensei sobre isso de verdade, mas nos últimos meses tenho me referido à minha conta do Twitter como meu Twitter Não-Oficial porque me pareceu engraçado: que eu seria a pior e menos confiável fonte de informação sobre mim mesma. Acho que tenho alguns traços mínimos de rebeldia que me levam a não querer fazer as coisas do jeito exato que todos esperam que eu faça. Outra coisa é que o Twitter é bem divertido para mim e eu tento não levá-lo tão a sério. Ele não é um reflexo exato da minha existência minuto a minuto, então, de certa forma, seria uma grande mentira verificá-lo.”

Como em qualquer sistema de status, gostamos de provocar as pessoas sobre a verificação, sobre elas se tornarem chiques e boas demais para o resto de nós, embora a gente saiba que esse tipo de status é só uma bobagem.

Twitter, se vocês derem ao @JonahNRO aquele tique azul, não vai dar mais pra conviver com ele. MANTENHA ELE NÃO VERIFICADO, EU DIGO.

É um jogo engraçado e competitivo de se brincar na Internet. Desde que você seja irônico sobre isso. Ou… um pouco irônico?

Ele também me bloqueou pelo meu ‘tar MT @mat Verdade, @jwherrman, eu pedi ao @dickc para me verificar e ele literalmente (literalmente!) riu na minha cara.
@jwherrman (tweet apagado)

Algumas redações estão sendo verificadas pouco a pouco. Por exemplo, uma olhada no expediente da New York Magazine indica que muitos, embora não todos, da equipe digital estão sendo verificados, enquanto nenhum dos funcionários do impresso está.

Perguntei à equipe de relações públicas do Twitter: “por que essas publicações primeiro?” e também “por que fazer tudo isso?” Não recebi resposta, o que parece razoável. É bem bobo, afinal.

Da mesma forma, algumas pessoas de quem me aproximei para falar sobre não serem verificadas intencionalmente ou não quiseram falar ou não me retornaram, o que eu acho apropriado para elas. Além disso, uma das pessoas que entrevistei mais tarde retirou seus comentários sobre o tópico da verificação devido ao seu local de trabalho: ela estava preocupada demais até mesmo para falar anonimamente sobre o assunto, por medo de ofender seus colegas.

Então claramente há algo mais denso permeando isso tudo. Para mim, a ideia de verificação toca em problemas profundos sobre identidade, sobre aceitação e pertencimento e sobre status. Gosto de pensar que eu resistiria aos atrativos da verificação. Qual seria a utilidade para mim, além da vaidade? Não tenho perfis fakes tentando se passar por mim. Meu Twitter não tem nada de importante; ele é para piadas e coisas bobas. Mas eu resistiria?

A editora sênior do BuzzFeed Katie Notopoulos foi uma das poucas que se negou a participar da verificação no BuzzFeed. Katie escreveu o maravilhoso post “As contas verificadas do Twitter menos populares” que inclui “a conta oficial do Twitter para Serviços para Cidadãos Americanos na Embaixada dos EUA em Tirana, Albania”. (Hoje com 580 seguidores!)

Katie deu três motivos surpreendentes para permanecer assim1. Antes de apresentá-los, gostaria de fazer uma introdução dizendo que mesmo falar sobre o Negacionismo da Verificação pode violar seu espírito e que sou extremamente grato por ela ter se disposto a discutir isso em público pela primeira vez. (“Você não deveria se vangloriar de sua humildade”, ela me disse por e-mail, e também: “pode soar como invejinha ficar falando muito sobre isso.”)

Tendo isso em mente, os três motivos dela:

1. “Eu não queria perder minha moral das ruas com o povão do Twitter. Imagino que a verificação seria como voltar às festas capengas na cidade dos meus pais durante as férias de fim de ano da universidade e todo mundo ficar me chamando de metida entre risinhos.”

2. “O tique azul pode interferir com aquelas zoadas de leve que eu gosto tanto. Deve ser difícil ficar fora do radar quando eu estiver retuitando adolescentes ironicamente. Às vezes, em momentos sombrios, busco reclamações direcionadas ao perfil da Chipotle e respondo dizendo aos clientes que eles são ingratos e deveriam parar de choramingar. Acho que aparecer como uma conta verificada pode complicar isso.”

E o meu favorito:

3. “Há poucos momentos em que nós temos a oportunidade de ganhar uma batalha contra nossa própria vaidade em um meio que encoraja a auto-promoção contínua. A limitação de não usar uma foto verdadeira como avatar embora eu seja EXCESSIVAMENTE BONITA é similar aos meus votos monásticos. Negar a indulgência da verificação é um pequeno gesto que carrega um significado religioso para mim. Nós não deveríamos pedir para sermos recompensados por nossos bons tweets nesta vida; nós devemos ter fé que Deus tem favoritos e RTs aos montes esperando por nós no paraíso.”

Gosto de acreditar nisso também. E eu amo a ideia de que a auto-negação pode trazer uma liberdade de comportamento à Internet.

Katie também relacionou isso à autenticidade. “Sabe no trailer do documentário da Beyonce onde ela descreve a crise existencial dela por ‘como eu posso continuar atual? Como eu posso continuar verdadeira?’ Eu sou exatamente como a Beyonce.”

Na minha cabeça, existe um clube secreto dessas pessoas que viraram do avesso a verificação e o status e que por qualquer motivo ficaram inertes, apenas observando enquanto seus colegas de trabalho ganhavam suas marcas de verificação. Elas têm uma senha e uma sala de bate-papo secreta onde se juntam para falar sobre coisas mais nobres (ou mais hilárias) do que o resto de nós falamos. Certamente não é verdade, mas por um motivo qualquer, pensar nisso me deixa feliz e reconfortado.


Publicado originalmente no The Awl em 9 de maio de 2013.

Tradução por Leon Cavalcanti Rocha.

  1. À época da publicação do post original. Hoje o perfil dela é verificado.

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6 comentários

  1. O Twitter… Eis uma rede social que eu nunca consegui gostar muito. Quando usava, há milênios (usando tempo relativo da internet), usava apenas para ver manchetes, mais ou menos como um leitor RSS!

    1. Na minha opinião é a melhor rede social de todas. Outro dia li uma frase bem legal: “O Facebook é onde você conta mentiras a conhecidos. O Twitter é onde você conta a verdade a estranhos.”

      E eu acho que é bem por aí…