Fotos impressas em uma caixa.

O melhor sistema para organizar, recuperar e preservar fotos digitais


20/10/14 às 14h51

Existem algumas ações em que o digital não supera o analógico. Ver fotos, por exemplo: o ritual de tirar um álbum da estante e folhear páginas de fotos antigas, precariamente organizadas e nem sempre bem catalogadas, para muita gente é uma experiência que nem computadores, nem tablets conseguem igualar. Se nesse aspecto sensorial as fotos geradas por bits não superam as impressas em papel, há outros em que elas ganham. É desses que quero falar.

Faz dez anos que tiro fotos digitais e, salvo um ou outro acidente, ainda tenho praticamente todas comigo, a salvo. Expliquei aqui, mais ou menos, como as organizo, mas recapitulo para não te dar o trabalho de sair desta página: as fotos são arquivadas em pastas (ano) e subpastas (data – evento), às vezes recebem algum tratamento via Windows Galeria de Fotos, e… bem, e só.

É um sistema simplório, tanto quanto organizar fotos de papel em álbuns esparsos. Não é de hoje que quero incrementá-lo e, antes de colocar a mão na massa, resolvi pensar nos principais pontos desse trabalho, fazer um bom planejamento para extrair o que o digital oferece de melhor.

O que priorizar na organização? Como fazê-la da maneira mais rápida, fácil e permanente? Como blindar esse trabalho contra o futuro (leia-se software descontinuado, mudanças de sistema e outras mudanças técnicas)? Após alguma reflexão e pesquisa, cheguei às conclusões que, agora, compartilho com você.

Separando camadas: organização e visualização

O lidar com fotos digitais se desdobra em duas frentes: a da organização e a da visualização. Muitas aplicações combinam ambas a fim de facilitar a vida do usuário, só que isso pode ser prejudicial no longo prazo.

Tomemos o Picasa como exemplo (ou como era; faz tempo que não o uso e não sei se o que escreverei a seguir mudou). Ele oferece uma vasta gama de opções de organização e traz um punhado de visualizações bacanas. Problema? Se eu confiar totalmente nesse aplicativo do Google, fico dependente dele. Pior: não consigo sequer exportar esse conteúdo mantendo o trabalho que tive intacto. Por utilizar marcações proprietárias e não gravá-las no próprio arquivo, não existem garantias de que elas resistirão ao tempo.

É assim. E funciona.Posso até utilizar um aplicativo que também sirva de visualizador para organizar fotos, mas ele deve ser transparente, não deixar resíduos e trabalhar com formatos abertos. Em outras palavras, se eu excluir esse aplicativo da minha vida e… sei lá, largar o Windows e passar a usar Slackware ou qualquer outra distro obscura de Linux, minhas fotos devem conservar todas as suas propriedades. Ou se o serviço na nuvem de minha sumir do mapa, como aconteceu com o Everpix, devo poder partir para outro sem precisar refazer todo o trabalho que descreverei abaixo.

Por isso, opto por separar as camadas de organização e visualização. Mantenho a organização espacial por pastas, como já fazia antigamente, com um adendo: fotos esparsas, que não integram um evento específico, ganharam “pastas do mês”. As do Natal? Ficam numa pasta com estrutura AAAA-MM-DD -- Evento, como em “2013-12-25 — Natal”. Aquelas cinco da véspera? Em outra AAAA-MM, ou “2013-12”, no exemplo, junto às demais daquele dezembro.

Essa organização direta no sistema de arquivos do Windows traz outras duas vantagens. Primeiro, não interfere no backup na nuvem. Usando um cliente, que pode ser do OneDrive, Google Drive ou Dropbox (minha escolha), basta copiar a árvore de pastas das fotos para o local adequado e o backup começa. E sempre que eu despejar fotos lá dentro, ele é atualizado automaticamente.

A outra é a liberdade na visualização. Como a organização não está atrelada a nenhum aplicativo, posso acessar essas fotos usando diferentes front-ends. Pode ser o próprio Windows Explorer, o visualizador web do Dropbox, o (ótimo) app Carousel ou qualquer outro que lide com fotos no Windows ou tenha conexão com o Dropbox. Pense no MP3. Você ouve em qualquer aplicativo e a maioria deles lê as tags de identificação (id3tag) sem sustos. A mesma mentalidade deve ser aplicada à fotografia.

App Galeria de Fotos no Windows 8.1 Update.
Interface do Galeria de Fotos.

A organização ainda tem outra faceta tão importante quanto a espacial: os meta dados. Gravados nos próprios arquivos, eles mantêm a independências de ferramentas específicas e me confere muito poder para filtrar e encontrar fotos. Decidi-me por continuar com o app Galeria de Fotos do Windows para essa tarefa. É um aplicativo bem competente e que, talvez pela apresentação infantilóide ou por dividir espaço com ferramentas fracas como o Movie Maker, é subestimado. Mas ele é bom, e explicarei o porquê.

O poder dos meta dados

Filtro de fotos via Windows Explorer.
O poder dos meta dados.

Uma das coisas mais fascinantes, do tipo que sempre impressiona todo mundo, é o reconhecimento facial de fotos. O poder de extrair de uma coleção de milhares de fotos todas aquelas em que tal pessoa aparece é assombroso — até eu fico impressionado com isso.

E melhora. Combinado com outros meta dados, os resultados são mágicos. É aqui que o digital mostra a sua força: consigo puxar todas as fotos em que eu apareço com minhas irmãs tiradas na casa dos meus pais em todos os almoços de Natal dos últimos cinco anos com alguns cliques. Agora tente fazer o mesmo com fotos de papel…

Os responsáveis por esse poder são os meta dados. Trata-se de informações complementares sobre os dados da foto (daí seu nome) que podem estar em arquivos à parte ou embutidos nas próprias imagens. O segundo modelo é o ideal, pois dessa forma os meta dados não se perdem e acompanham sempre as imagens a que estão condicionados. Parte da minha birra com o Picasa, aliás, é por ele adotar por padrão a outra abordagem, enchendo pastas com arquivos picasa.ini e tornando, se não impossível, bem difícil realizar migrações sem perdas.

Como todo padrão, os meta dados de fotografias digitais não estão consolidados em um só. Existem três principais:

  • Exif (Exchangeable image file format): É o mais difundido e sua câmera já preenche vários dos campos oferecidos. Os dados Exif revelam a marca, modelo e configurações da câmera no momento do disparo, marcam o dia e a hora do registro e alguns outros dados mais objetivos.
  • IPTC (de International Press Telecommunications Council): Criado na década de 1970, é bastante usado por bancos de imagens e agências para proteger fotos com direitos autorais. Ele estende os campos do Exif com informações mais subjetivas, como título, descrição, palavras-chave e direitos de uso.
  • XMP (Extensible Metadata Platform): É o mais recente, e o mais poderoso. Foi criado em 2001 pela Adobe, é totalmente compatível com o ITPC, aberto, baseado em XML e, em 2012, virou um padrão ISO. Isso é importante por garantir o futuro — ou seja, mesmo que o Windows suma e eu fique sem o Galeria de Fotos, poderei usar outro dos muitos apps compatíveis com XMP.

Desde o Windows Vista a Microsoft dá suporte ao XMP, inclusive para edição. Por isso o Galeria de Fotos é legal e tranquilo de usar: os meta dados que acrescento e altero ficam registrados no próprio arquivo, e por usar um padrão aberto e reconhecido, tenho garantidas a portabilidade e longevidade das marcações nas minhas fotos.

Propriedades de foto editada no Galeria de Fotos.
O que faço no Galeria de Fotos fica embutido no próprio arquivo da imagem.

O que me motivou a fazer essa pesquisa foi um tipo específico de meta dado, o reconhecimento facial. Alguns anos atrás usei o Picasa para isso e, mais tarde, notei que aquele trabalho iniciado havia se perdido após uma reinstalação do sistema — o Picasa usava um tipo de meta dado proprietário e, como mencionei acima, salvo num arquivo à parte. Foi frustrante, mas serviu de lição. O XMP é o único padrão de meta dados que suporta reconhecimento de faces e é incorporado de uma maneira bem confiável no Galeria de Fotos.

Ah, e cuidado: alguns aplicativos removem meta dados ou sobrescrevem eles quando manipulam alguma imagem. Isso é devastador, já que certas informações são irrecuperáveis. Antes de processar suas fotos em um aplicativo novo, faça testes com uma pequena amostragem. Windows e OS X exibem meta dados em seus gerenciadores de arquivos, e existem ferramentas online que retornam eles também. Se após a edição tudo estiver como o esperado, aí sim continue.

Então, basicamente o meu trabalho organizacional é:

  1. Passar um pente fino nas fotos já salvas, eliminando imagens duplicadas, fotos borradas e outras do tipo. Nada, nada, cada foto hoje consome ~4 MB. Multiplique isso pelo tanto de fotos ruins a que a disponibilidade do digital dá brecha e uma parte considerável do disco deve estar comprometida com imagens abstratas/inúteis.
  2. Preencher os meta dados manuais. Basicamente: a) Pessoas na foto; b) localização; e c) tags descritivas (evento, tipo de foto, contexto).
  3. Passar as pastas processadas, que ainda estão só no desktop e no HD externo, para a nuvem (mais sobre isso no tópico seguinte).

E preciso, também, processar a pasta de uploads automáticos do Dropbox. Para quem não usa, funciona assim: toda foto que tiro no smartphone é enviada automaticamente a uma pasta do Dropbox. Google+ e OneDrive também têm um recurso similar. É bastante cômodo, mas amplifica a preguiça de manter as coisas organizadas e criam o caos nas fotos de celular — aquelas imagens que você repete cinco, dez, vinte vezes até ter a perfeita para o Instagram, ou mesmo screenshots, acabam vindo no bolo. Neste momento, tenho 5205 fotos na pasta do Dropbox. Ouch!

Backup

Ícone: Laurent Baumann.
Ícone: Laurent Baumann.

Neste texto ele vem como último item, mas o backup deve ser prioridade no seu workflow fotográfico. Porque várias coisas podem acontecer: meta dados serem perdidos, sua organização ir para o espaço ou se deparar com um monte de fotos duplicadas, mas uma coisa é inconcebível: perder as fotos. Ainda que elas só tenham importância a você, seus pais, filhos e alguns amigos próximos, e provavelmente não resistirão mais do que algumas décadas, é um negócio bem importante enquanto estamos por aqui, andando e respirando.

O ideal é ter backup redundante, ou seja, os mesmos arquivos salvos em mais de um lugar. Isso garante que, caso algum acidente aconteça em um deles, outro (ou outros) preservará(ão) suas fotos intactas. O meu sistema prevê três instâncias:

  1. Local, no desktop.
  2. Local, em um HD externo.
  3. Nuvem, no Dropbox.

Os preços para hospedar arquivos na nuvem nunca estiveram tão baratos — com US$ 10/mês, você tem 1 TB de espaço, ou caso prefira o Flickr para backup, esse latifúndio não lhe custará absolutamente nada. Ou seja, não há desculpa para se descuidar.

Por que não confiar só da nuvem, então? Porque mesmo com os melhores engenheiros cuidando das suas fotos salvas nos melhores servidores do mundo, não há garantia total de preservação. Recentemente o Dropbox perdeu alguns arquivos de usuários. O mesmo pode acontecer na sua casa. O HD externo pode queimar, um ladrão pode levar o seu PC… Deu para ter uma ideia da importância de distribuir seu backup, certo?

***

Você tem alguma dica adicional para esse esquema proposto? Adoraria lê-la. Use os comentários e ajude-me a incrementar este post.

Foto do topo: Life of Pix.

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