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Universidades EaD

Fui o primeiro da minha família a ter um curso superior, assim como muitos em famílias de baixa renda que ascenderam socialmente nos primeiros governos Lula. Porém, nunca tive condições financeiras para cursar uma federal, sim, porque no meu caso não existia federal na minha cidade e seria necessário viajar para alguma cidade da região ou até mesmo me mudar, e isso era inviável na época. Atuo na área de tecnologia web desde muito cedo e as universidades por aqui, particulares, eram caras e eu precisava trabalhar para me sustentar e ajudar em casa. Na época dos meus 20 e poucos anos, eu cheguei a trabalhar em dois empregos, virava de domingo a domingo, até que adoeci mental e fisicamente e resolvi parar. Mesmo trabalhando tanto, minha situação financeira ainda não era boa e nesse meio tempo precisei sair de casa com minha namorada para começarmos a vida juntos — já estamos há 18 anos juntos :)

Minha primeira oportunidade de cursar um curso superior surgiu em 2009 (por aí), e encontrei um curso superior em uma universidade de Santa Catarina. Foi uma sensação incrível quando entrei, o curso do início ao fim foi maravilhoso, muito puxado. Eu recebia livros de qualidade em minha casa, livros que chegavam a ter 350 páginas, as provas eram presenciais em um polo e não eram nada fáceis. Aprendi muito, me formei e peguei meu primeiro canudo.

Passado um tempo, resolvi fazer uma pós EaD, na mesma instituição. Foi muito boa, mas percebi que a qualidade tinha diminuído bastante, tanto do material quanto da plataforma e suporte ao aluno. Concluí mais esse curso e hoje resolvi iniciar um novo e me assustei com a quantidade de Universidades EaD disponíveis. Algumas dão medo ao acessar o site da instituição, se é que podemos chamá-las assim, e o mais estranho é que várias dessas estão com boas notas no e-MEC e com cursos realmente reconhecidos.

Optei por fazer um EaD novamente porque se encaixa melhor em minha forma de aprendizado. Sempre fui autodidata e dedicado aos estudos e tenho problemas em estudar em um ambiente muito cheio e barulhento. Na minha cidade já temos uma federal, mas não tem nenhum curso que me interesse, rsrsrs, e agora com 39 anos, quero finalmente fazer um curso e ter minha titulação para a área do meu coração (Design Gráfico e Digital), e não somente uma área que escolhi para acessar o mercado de trabalho e fazer uma graninha.

Enfim, depois de tudo isso, queria saber o que pensam sobre ensino EaD, se já fizeram, se gostam e se já tiveram alguma experiência boa ou ruim com alguma dessas inúmeras universidades, que alguns até chamam de “UniEsquinas”. Eu discordo na maioria das vezes, mas dou risada quando reconheço que se encaixa em algumas delas.

11 comentários

11 comentários

  1. Fiz graduação em direito e pós graduação “lato sensu” em universidades particulares. Fiz mestrado em uma universidade federal também de maneira presencial, mas como em época de pandemia muitas aulas foram pelo zoom, mas seguindo a lógica de aula presencial.
    Contudo também fiz uma segunda graduação em tecnologia da gestão pública na Universidade Estácio de forma EAD. Foi simplesmente horrível, não serve para absolutamente nada a não ser receber o diploma.

  2. Oi! Contribuindo com meu relato aqui, tb a primeira da família a ir até mais longe já na escola :)
    Sou autodidata e tive experiência em faculdade física, era de publicidade e propaganda e tive contato com coisas acadêmicas muito preciosas, como estágio envolvendo antropologia e excelentes professores. Já quando migrei pro serviço social, tentei uma semi EAD e não passei do dia 1, presencial, com uma professora super despreparada que ao ver meu visual sapatão, não sabia como me chamar e passou na aula uns ppt de jesus. Serviço social, sabe? Aí mudei mas continuei a distância e dessa vez foi muito puxado, sinceramente, não dei conta de tudo. Fiz na Unicesumar, bem mais denso que minha experiência presencial e só não terminei devido ao preconceito com o estágio EAD que me fez entrar num looping de pagar as matérias finais mas precisar do estágio etc.
    Depois estudei ciência de dados pela Unopar, achei ok, bons materiais, bons exercícios, bom suporte presencial na minha cidade. Fiz pós na prominas em sociologia econômica, achei muito fraca. A grade, os professores, os assuntos prometiam mas o conteúdo foi bem raso. Agora voltei pra Unopar/anhanguera pra fazer um MBA em design, estou gostando, tem bastante conteúdo e o tutor principal manda umas mensagens gerais com conteúdos aleatórios, parece quando o professor começa a falar da vida e todo mundo conversa, sabe? Hahah
    Enfim, recomendo a Unicesumar, de todas que fiz, mas puxadíssima. E uma coisa que aprendi foi anotar tópicos interessantes e aprender por conta próprio, além da faculdade. Os conteúdos extras geralmente são legais tb, como semanas acadêmicas, cursos livres, acesso a bibliotecas online.
    Amaria que educação fosse de qualidade e pública para todos, mas como não é a realidade, acho ridículo o preconceito com EAD quando não se leva em conta a vida das pessoas e as oportunidades possíveis.
    Enfim, boa sorte nos seus aprendizados!

  3. Oi Rick!
    Bonito o seu relato, parabéns! Também sou a primeira da família com faculdade, a vida toda eu estudei em escola pública, mas minha graduação (Comunicação Social – Jornalismo), há 20 anos, foi em uma universidade particular na zona leste de SP, numa época em que o Enem nem era tão popular assim (nem prestei, diga-se), muito menos em estudar online.
    De lá pra cá, fiz vários cursos, presenciais e remotos, mas queria demais uma pós, até para conseguir um emprego melhor, já que sou freela atualmente. Após mais de duas décadas, totalmente por acaso, encontrei uma especialização em uma federal de MG e meu presente de Natal foi ter sido selecionada em História.
    Também tenho essa capacidade de estudar em ambientes barulhentos (tenho uma vizinha especialista em barulho!) e me empenho mesmo quando estou desanimada, mas admito, Rick, não tá fácil: em princípio, eu estava bem empolgada com o curso, agora esse “mapa mental” que tinha traçado “rabiscou” de vez.
    Mas isso é comigo, ando muito cansada de um monte de coisa. Não culpo a Universidade, porque ela se esforça em fornecer um conteúdo legal com os poucos recursos que conta. Livros físicos mesmo, eu ganhei um por conta de um sorteio aos alunos que assistem as aulas ao vivo; a maioria dos textos é PDF de artigo científico e os exercícios fazemos e lançamos pelo Moodle, ou tem aqueles fóruns para discutir os temas da disciplina.
    Infelizmente, a culpa é de uma “uberização”, pasteurização e precarização histórica no ensino no Brasil. Pode reparar que quanto mais estudamos, menos remunera-se, especialmente se é grupos considerados minoritários (no meu caso, eu sou mulher e periférica). Se você tem doutorado, acaba por sair do país, porque aqui se não prosseguir com a carreira acadêmica, vai literalmente passar fome.
    Pelo menos é o que sinto. E “após essa pós”, eu não pretendo seguir na área acadêmica.
    Bom, só posso desejar sucesso nessa sua jornada e siga em frente. Aproveite a jornada o quanto conseguir e se trancar o curso, sem problema. O importante é que tentou.
    Vida é isso, processo!

    1. Obrigado pelo comentário Keli! <3
      Vivemos em uma geração mentalmente cansada, economicamente quebrada e socialmente perdida.
      Acredito que os sonhos, até os mais simples, nos movem e nos dá sentido para viver, mesmo que ao final eles não se concretizem como esperávamos ou acreditávamos, o importante é trilhar o caminho.

  4. TL;DR: a modalidade não define a qualidade da universidade. Fique atento às condições atuais da instituição, mesmo que seja uma que você já frequentou (pois algumas pioram depois de ganhar reputação). Se possível, converse com pessoas que estão cursando e tenha acesso ao material didático, metodologia etc.

    Depois de muito tempo (tranquei a matrícula de Ciências da Computação em 2003 e joguei a chave fora), resolvi tentar uma faculdade em área diferente depois dos 30. À época (2014), queria fazer na forma EaD por prever que teria muita bagunça e gente que não estava afim de estudar. Encontrei informação de um curso na cidade de Tubarão – SC, mas logo vi que o curso tinha sido suspenso pelo MEC, salvo engano (pois não é (era) permitida a graduação de Direito 100% EaD).

    Em 2015, ingressei numa presencial. A bagunça e barulho de gente desinteressada se cumpriu, mas quando chegaram semestres em que havia disciplinas optativas, vi o quão péssima seria a experiência de uma graduação 100% EaD naquela universidade. O material didático era extremamente básico e as avaliações, todas objetivas, eram uma decoreba desmiolada. Com muitas questões daquelas com 5 afirmações e alternativas como “I, III e IV estão corretas”. Mas sempre de uma forma muito robótica (no pior sentido).

    Do segundo ou terceiro semestre em diante, percebi que as novas turmas tiveram o tempo e a quantidade de aulas presenciais reduzidos. E disciplinas comuns (e não as optativas) estavam sendo ministradas como EaD. Olhando para trás, posso dizer sem medo de errar que foi o começo da “Enshittificação” daquele curso naquela universidade e fiquei aliviado por não estar nas novas turmas.

    Por outro lado, num curso livre (e caríssimo) que fiz para segunda fase do Exame da OAB, foi 100% EaD e gostei muito. Havia slides e anotações digitais, mas os professores realmente davam aula e usavam quadro branco físico, explicando de forma bem enérgica (e a cada turma, eles sempre regravavam as aulas). Havia devolutiva de simulados dissertativos manuscritos, muito material adicional nos PDFs e muitas questões bem elaboradas para resolver.

    Dito isto, acho que a modalidade (presencial ou EaD) não definem a qualidade do curso. Mas em se falando de gradução, pós e afins, tome muito cuidado. E, mesmo que você faça na mesma instituição em que cursou antes, dê uma sondada para se certificar que a qualidade continua a mesma. Pois o que mais tem são instituições que ganham nome e depois vão piorando com o tempo.

    1. Muito bom seu relato, realmente é complicado demais escolher ums instituição, na minha cidade sempre tivemos várias universidades particulares e havia um movimento contrário sempre que se discutia vir uma federal pra cá, no fim conseguimos instalar um campus mas ainda é possível ver claramente as movimentações de alguns personagens ligados às universidades particulares para atrapalhar a chegada de novos cursos, até mesmo eventos que tenham relação com a Federal.

  5. Minha experiência foi boa e ruim. Fiz Licenciatura em Letras pela UFF modalidade Ead. Você tem que ser autodidata e ter facilidade com a matéria. O nível é alto, a cobrança é absurda, o apoio ao aluno é mínimo, feedback quase não existe. Eu também fiz a graduação mais velha, também no curso do sonho de juventude e isso me ajudou a passar bem por ele. Porque é bem tenso.

    1. EaD realmente precisa de bastante disciplina para conseguir manter um curso, tem momentos que dá vontade de desistir, e é bem mais fácil desistir de um EaD.

  6. Sou assessor educacional e trabalho no desenho de experiências de aprendizagem, além de prestar consultoria para instituições de ensino superior. Contribuo no desenvolvimento de projetos quando as instituições buscam credenciar, autorizar ou recredenciar seus cursos, bem como na adequação aos requisitos das faculdades. Embora minha atuação seja na área da educação seja presencial, seja a distância, a maior parte da minha clientela está na modalidade de Educação a Distância (EAD). Por isso, posso falar um pouco sobre essa área específica.

    As avaliações do MEC já tiveram um tempo em que eram bastante credíveis. Quando um curso vai ser reconhecido, eles avaliam três dimensões:

    DIMENSÃO 1: Organização didático-pedagógica;
    DIMENSÃO 2: Corpo docente e tutorial;
    DIMENSÃO 3: Infraestrutura.

    Para cada dimensão, a avaliação é feita em uma escala de 1 a 5 (conceitos), e a nota depende do atendimento aos critérios estabelecidos. Cada conceito possui três atributos que são avaliados. Para cada atributo, é necessário verificar in loco um fato que deve ser sustentado por evidências documentais.

    Uma comissão de técnicos é sorteada pelo MEC para realizar a visita, que geralmente conta com 3 a 5 pessoas. Essa comissão avalia as dimensões que compõem o conceito do curso. Antes, as visitas eram feitas presencialmente, mas desde a pandemia, a maioria delas passou a ser realizada à distância, via videoconferência. Para a infraestrutura, por exemplo, a instituição deve mostrar, ao vivo, suas salas, laboratórios, etc. Para tudo que for apresentado, é necessário ter documentação que comprove. Se eu mostrar um laboratório de informática com 20 computadores, preciso apresentar a nota fiscal dos 20 computadores ali presentes; se utilizam RWindows, devo apresentar as notas da licença de cada software. E isso se aplica a tudo: para livros, preciso apresentar as notas fiscais; para o imóvel, o contrato de locação, se for alugado, ou a escritura, se for próprio. E assim por diante.

    A questão é que, mesmo com a possibilidade de apresentar as visitas, tudo pode ser manipulado. Já prestei assessoria para instituições que falsificaram contratos de locação (na época, era necessário que o contrato tivesse, no mínimo, 5 anos para reconhecer a instituição). Inclusive, existem empresas especializadas em vender os chamados “kits de credenciamento”, que fornecem o que é necessário para a infraestrutura, com notas fiscais e tudo, além de contratos de serviços e tecnologia. Após a avaliação da comissão, devolvem-se os equipamentos e pronto (isso move rios de dinheiro).

    Hoje em dia, com as visitas à distância, é ainda mais fácil manipular o processo de credenciamento. Já vi instituições que tinham comissões avaliando três cursos na mesma semana, exigindo uma infraestrutura específica que o imóvel não poderia atender simultaneamente. Assim, elas montavam a estrutura para mostrar à comissão do primeiro curso, depois desmontavam e montavam novamente para a comissão do segundo curso, e assim por diante.

    Para cursos a distância, essa manipulação é ainda mais simples. Já desenvolvi muitos projetos de cursos a distância para instituições (projetos, vale ressaltar, com boa qualidade), que apresentavam à comissão. Após a autorização do curso, elas mudavam o projeto, oferecendo algo mais genérico, barato e de baixa qualidade, apenas para garantir a oferta dos cursos a distância, priorizando o lucro.

    Recentemente, houve uma Resolução do MEC (CNE/CP nº 4, de 29 de maio de 2024) que modificou algumas regras sobre a oferta de cursos de licenciatura a distância, justamente porque, em levantamentos recentes, perceberam que a qualidade estava caindo. A legislação, sempre influenciada pelo neoliberalismo, possibilitou que os cursos fossem oferecidos de maneira que, na verdade, não havia formação profissional nem acadêmica, mas apenas a venda de diplomas. Essa influência do setor privado nas legislações educacionais vem de longa data, desde a época de Vargas, mas se intensificou durante a redemocratização nos anos 90, com o processo de descentralização iniciado no governo de Itamar Franco e continuado por FHC. A LDB de 96 abriu brechas para que instituições privadas participassem da tomada de decisões que influenciam a política educacional. Não preciso me aprofundar mais, certo? A educação no Brasil se tornou um produto de mercado, e por isso temos tantos grupos educacionais com participações na bolsa e avaliações que, em alguns casos, chegam a 5-6 bilhões em valor de mercado.

    Falo um pouco sobre esse processo do determinismo neoliberal no meu projeto de pesquisa de mestrado, com foco na educação a distância. Onde privatização e a plataformização da educação (que até mesmo as instituições públicas têm adotado) resultam em um modelo tecnicista, acrítico e de baixa qualidade.

    Poderíamos sentar à mesa de um bar e discutir isso por horas, mas o texto já se estendeu bastante.

    Espero ter contribuído um pouco para a sua questão.

    Mas deixo aqui a afirmação de alguém que parece saber do que fala:

    O problema não é a modalidade de educação a distância. O problema é a forma como ela é praticada no Brasil, devido à influência dos grandes grupos privados nas legislações e regulamentações da modalidade.

    1. “Após a autorização do curso, elas mudavam o projeto, oferecendo algo mais genérico, barato e de baixa qualidade, apenas para garantir a oferta dos cursos a distância, priorizando o lucro”.

      Uma vez estava esperando para ser atendido num setor da universidade e ouvi, contra minha vontade, uma conversa de uma pessoa com sua secretária, dando a entender que iria colocar livros que pertenciam a ela na biblioteca (temporariamente), como se fosse para alguém ver e depois tirá-los de lá…

      A biblioteca, apesar de ser muito boa, carecia de livros atualizados em relação à legislação vigente.

    2. Nossa, seu comentário foi uma aula de como esse sistema funciona, muito esclarecedor. Eu tive o privilégio de pegar um ótimo curso em uma ótima fase do EaD, durante o curso aconteceu uma mudança de nomenclatura, para se adequar às normas do MEC ou algo assim, porém o conteúdo, a dinâmica e qualidade permaneceram inalteradas.
      No momento eu estava cursando uma pós nessa mesma instituição que fiz minha graduação e primeira pós, e por ser aluno antigo e ter vivenciado as mudanças, inclusive o momento da instituição ser adquirida por um grupo educacional bem grande (antes era uma universidade comunitária), eu vi como a qualidade foi para o ralo, no e-mec a instituição possui a maior nota (5), porém a qualidade do curso caiu muito, os materiais cheios de erros ortográficos e gramaticais, links quebrados, plataforma EaD confusa e com uma usabilidade terrível, fórum de comunicação com tutores e professores completamente confuso. Resultado, eu cancelei minha matrícula semana passada e estou mudando de instituição e curso.