Eu tenho uma falha de caráter, que descobri logo cedo, que é gostar de produtos como essa câmera: linda, diferente, mais caro e talvez pior que algo mais pragmático.
Meus tios foram dekasegi, eles trouxeram esse MP3 player da Sony quando eu estava no colegial. Eu fiquei fascinado com ele: as letras pixeladas, tela monocromática verde e as animações passavam uma vibe meio cyberpunk; dava para usar no bolso e tinha uma sensação tátil satisfatória, para mexer você “abria” a tampa e girava para retroceder/avançar; o vidro curvo e o corpo de metal denso davam um acabamento sofisticado.
No Brasil, eram vendidos aqueles chineses: faziam a mesma que o meu, soavam tão bem quanto naqueles fones Phillips de R$10,00. Onde eu enxergava um mundo de diferenças na “experiência”, ninguém via diferença nenhuma…todos meus colegas iriam preferir um Foston com 512MB que o meu com 256MB.
Lembro que ficava abismado – no auge da briga Apple vs Samsung – como as pessoas achavam comparável o design saboneteira de plástico do S3/S4 (fora a TouchWiz) com o design do iPhone 4 e sucessores. Nesse cenário de não querer pagar um iPhone e achar horrível o design do melhor Android da época, acabei com com um Lumia 800: a alegria durou pouco dado o fim prematuro do Windows Phonme 7.x, mas como era lindo aquele design monolítico que casava muito com a Metro UI.
Tenho medo que, além do simples fato de gastar mais com as coisas, não estar só auto-justificando ostentação com qualidade que muita gente faz. Comentei no grupo do MdU que gosto de relógios, porque realmente tem muito dessa coisa de design e acabamento, mas tenho até vergonha pelo tipo de gente que atrai já que é um dos símbolos mais tradicionais de ostentação.
Imagino que não seja o caso, porque eu normalmente tenho vergonha de falar quanto gastei em coisas tipo meu moedor de café haha. Além disso, ostentação precisa ser de marca famosa ou produto reconhecível, ninguém vai saber se seu relógio custo R$500,00, R$5.000,00 ou R$100.000.00 a não ser que seja um Rolex ou outra marca do tipo.
Enfim, só um relato perdido haha
16 comentários
Talvez você tenha um olhar apurado e um gosto por coisas que tenham uma estética e/ou técnica mais apuradas também.
Pela sua descrição, é algo legítimo e não uma falha. Seja feliz, Gabriel!
Gabriel, por que você acha se tratar de uma “falha de caráter”?
Pelo seu relato, você parece gostar de coisas bonitas e agradáveis — que poderiam, eventualmente, ser também associadas a ostentação em função do preço ou da sua condição de signo de distinção.
Não menosprezo a discussão em torno das práticas de ostentação/distinção, nem a necessidade de problematizar as práticas de consumo — embora considere uma armadilha a ideia de “consumo ético”, mas isso é outra história.
Mas isolando um pouco o problema sem entrar ainda na dimensão da distinção, queria só apontar como pode ser também bastante falaciosa e excessivamente moralista essa ideia de que seria possível separar produtos entre aqueles que são “bonitos” ou “elegantes” daqueles que são simplesmente “funcionais”.
Impossível não deixar de pensar em toda a discussão em torno do moralismo modernista associado a frases de efeito como “a forma segue a função” ou “menos é mais” (embora essas frases digam respeito a outras coisas, mas penso aqui na forma como elas são apropriadas e difundidas).
É uma falácia. A experiência das coisas, a beleza das coisas, a sensação agradável que temos em lidar com elas pode ser tão ou mais importante que a suposta “utilidade” principal delas.
A questão é: por que se martirizar por isto?
É uma vida muito triste aquela em que tudo com o que lidamos precisa ter uma explicação funcional.
Ser bonito e funcional, se fosse “barato” e “acessível a todos”, acho que seria algo que não seria tratado como “moralista”.
Pois como foi moldado a educação capitalista, é como se tudo que tivesse um “ótimo design” e fosse também bem feito e funcional tivesse um valor astronômico e só acessível a um tipo de classe. Basta focar na comparação entre um mp3 da Sony e um mp3 “genérico” nos anos 2000 – a Sony sempre foi sinônimo de preço caro e “produtos bons” enquanto que um mp3 foston ou sem marca com durabilidade e som não tão bom quanto era 5x ou mais de menor valor.
Um Apple em relação a um computador “sem marca” é outra comparação – O ideal é que tivessemos uma qualidade que os donos de Mac almejam em computadores mais baratos, talvez com interfaces iguais e tudo mais. Mas óbvio, temos questões de direitos autorais (que já trava bastante o mercado fazendo esta linha econômica e moral também), de desenvolvimento (pois são várias pessoas desesnvolvendo diferentes tipos e qualidades de produtos)…
E engraçado ver nos tempos atuais as pessoas comparando estes produtos “de design” que tem esta mitologia de serem belos e funcionais, que “dão boa sensação de experiência de uso” com produtos mais simples, mas que no final fazem o trabalho dela. Mesmo produtos de referência no que se diz a “qualidade e experiência de uso”, muitas vezes o valor à mais não se justifica por erros de quem fez. Só ver relatos de equipamentos Sony ou B&O que são referência em design e engenharia, mas produtos antigos dela tem falhas onde no futuro o equipamento desaponta, pois por exemplo o design da placa permitiu curtos futuros ou ressecamento, ou algum componente interno foi mal planejado e com isso gerando um equipamento com vida útil menor e datada.
O próprio exemplo do Windows 10 mobile como citado é outro caso, pois pode se ter um produto bem desenvolvido mas outros fatores (como a competição, a necessidade de formar um ecosistema, etc) faz o produto perder o valor que tem seja em dinheiro, seja no próprio valor de design e usabilidade (e falo como alguém que gostava da interface e praticidade dos Windows Mobile, tendo um Lumia 560. Mesmo fraquinho para a época, era um celular ágil).
Quem dera todos tivessem um produto de valor único, prático, fucional, que não causasse estes sentimentos devido a sensação de usar o produto ser algo como se fosse algo “de clube”.
Foi mais uma brincadeira, não é algo que realmente me incomode. Talvez seja só uma leve sina, de gastar mais que a média nas mesmas coisas. Uma analogia, seria alguém com paladar refinado e acaba sofrendo para comer em certos lugares, que certamente não é meu caso.
O meu receio real era que fosse um mecanismo de auto-engano, para justificar um anseio de sinalização: se tirassem a marca, valor ou hype desses produtos, eu não me atentaria a essas coisas. Se esse MP3 player da história tivesse a mesma origem dos demais chineses, simplesmente não existiria esse abismo de experiência que eu comentei.
Hoje, não é algo que passa muito pela cabeça, já tenho mais de 30 anos e não tenho apego a marcas ou preços. Inclusive, fico muito mais satisfeito quando tenho essa boa experiência de design com algo fora do radar: uma roupa da Renner, um Casio barato de resina com estilo refinado ou a X100 da Fuji antes de entrar no hype.
Mas eu tenho uma teoria, que ninguém nunca concordou vale salientar haha, mas que acho que faz sentido. É a existência uma noção “anti-design” em certos meios de tecnologia: a sinalização de status não é sobre o preço alto de produtos com bom design, mas a imagem de pragmatismo absoluto e não-futilidade ao justamente evitar coisas que proponham algo além do pragmatismo puro.
A área de TI sempre teve orgulho ser antagonista ao dress-code, porque se importar com isso é uma futilidade…ironicamente já vi uma pessoa ser criticada por vir formal demais em uma empresa que era muito moderna para ter algo assim. Se não importa, por que ele não poderia ir de terno?
Como eu comentei abaixo, os ThinkPads mantém a estética, porque a linguagem visual dele remete a essa ideia: quem usa ThinkPad com Linux é dev “raiz”, quem usa MacBook é “nutella”. Não existe praticamente nada de especialmente neles há tempos, mas outros não tem o mesmo apelo sem os sinais visuais de computador sério do ThinkPad (e.g. trackpoint, detalhes vermelho, logotipo na diagonal).
Em resumo, para tecnologia, a estética “não gosto de estética” é valorizada e se preocupar com isso é visto como depreciativo em alguns contextos.
acho um pouco curioso esse culto aos thinkpads em função de seu suposto “anti-design”
por um lado, a proposta é de fato intencionalmente mais “robusta” (ou com a intenção de parecer mais robusta, embora hoje o corpo metálico dos macbooks, supostamente mais frágeis, provavelmente é mais robusta que a dos thinkpads) e richard sapper, o designer o original, já foi mesmo associado a sentimentos “anti-apple” e “anti-braun”
por outro lado, também se trata de um projeto cheio de deboche e ironia, muito na linha do pós-modernismo dos anos 80/90 — e portanto algo que vai no sentido oposto ao de qualquer “anti-design”. A robustez é um tanto quanto irônica, exagerada, sobretudo quando pensada para compor com o mundo empresarial (um comentário irônico sobre a sisudez masculina desse mundo). Há um certo deboche no trackball vermelho: ele tem algo de muito clitórico, como se precisasse gritar usando o vermelho pra que os executivos o encontrem no meio do teclado. O logotipo na diagonal também vai no sentido de ser algo debochado.
ou seja, não tem nada de “sério” no thinkpad, apesar de sua robustez (e a graça desse desenho está justamente aí).
Essa é uma percepção pessoal, gabriel? Pergunto porque a descrição que você faz do design do ThinkPad é nova para mim, hehe. A fama de resistente do ThinkPad não é exagerada, ao menos nas linhas premium, e tem um lastro histórico, como o esforço da IBM em tornar o notebook usável no espaço (foi e acho que ainda é usado pela NASA). Mais atrás, quando o primeiro ThinkPad estava sendo desenvolvido, notebooks já existiam e eram super frágeis. Não que os ThinkPad tenham nascido robustos, mas os engenheiros encontraram aí um fator de diferenciação para trabalhar. Não menos relevante, o fato dele ter sido desenvolvido no Japão também deve conferir alguns pontos de diferenciação em relação ao que era feito nos EUA.
(Falo tudo isso com base em resquícios na minha memória da leitura de How the ThinkPad changed the world — and is shaping the future.)
desculpe-me, acho que me expressei mal: não que os thinkpads não fossem robustos, mas sinto que sempre houve um desejo de comunicar essa robustez por meio de sua forma e acabamento. Nesse sentido, penso que os thinkpads atuais da lenovo mantêm esse desejo ainda que não sejam necessariamente tão robustos assim (como eu disse, eu acho que os corpos metálicos dos atuais macbooks talvez sejam mais robustos que os atuais thinkpads — ao menos os de plástico)
e sobre o ar debochado e irônico do desenho dos aparelhos, penso um pouco no momento em que eles foram desenhados e em como essas cores e elementos estão dispostos. Richard Sapper nunca foi um pós-moderno, mas mesmo o design moderno italiano (e sapper talvez seja o mais italiano dos alemães) sempre teve algo de debochado, diferente do design teuto-suíço. Aquele trackpoint clitórico gritando vermelho pra poder ser encontrado sempre achei algo um tanto debochado, considerando o público masculino e tudo mais.
Esse link é na medida para você
O design também faz parte de um todo. Se não fosse por isso, inicialmente não escolheríamos nossos parceiros pela beleza. É um fator que conta bastante nas nossas escolhas.
O problema é quando o design é superestimado e a funcionalidade fica em segundo plano (ou a beleza supera a personalidade). Aí dá ruim.
Me identifiquei em vários pontos! 😅
Tive alguns Foston, mas o queridinho foi o Samsung YP-U3 (https://www.targethd.net/wp-content/uploads/2008/11/samsung_yp_u3.jpg).
Também fui feliz com um Lumia 925 e depois um 930 (trocado 4 vezes na assistência).
Acho que nem sempre casa bem o design com funcionalidade e longevidade do produto.
Nas minhas poucas experiência com fotografia e filmagem a sigma era vista como uma alternativa barata para as lentes da Canon, não sei o que mudou no meio disso. Era boa pelo preço, e era inferior as outras. Se a câmera for no preço de uma Sony talvez valha, se ficar mais próximo da Canon, fuja.
Essa sua descrição seria o exemplo perfeito de cliente metafórico que professores de design citam para enaltecer a função do design na sociedade, adorei ler hahahaha.
Mas nessa coisa de produtos de design moram muitos perigos, o Thinkpad que é a antítese da estética “clean” da apple já ganhou prêmio… de design!
Aqui na empresa é cheio de Thinkpads, depois de ver alguns rodando linux bem, tenho até vontade de ter um, acho muito legal o design retrô dele.
Aí é que está: não é retrô, na época em que foi lançado ninguém achou futurista também. Só é prático.
Prático, funcional e sóbrio. Pra gente que que não gosta de firula é excelente. Hahahah
O Thinkpad também é visto como um marco de design. É um produto que mantém o design, de certa forma irônica, para manter a ideia de um produto profissional para pessoas pragmáticas que não se importam com design.
Há sempre reclamações quando existem movimentos de tirar o TrackPoint, mesmo que atrapalhe o trackpad que virou o padrão de mercado há anos.
O design do ThinkPad é icônico. Acho lindão! Uma das melhores encarnações de design utilitário.
Se tivesse que escolher um notebook não-Apple, não pensaria duas vezes em pegar um ThinkPad.
A história da linha é bem massa. Tem um livro a respeito, lançado no aniversário de 30 anos do ThinkPad.