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Por que democracia?

Primeiro de tudo: esse sistema trouxe avanços históricos inegáveis no ocidente (igualdade formal, liberdade de expressão, voto universal)., Não tem como negar isso em comparação com as monarquias e com os regimes ditatoriais civis-militares latino-americanos. Mas mesmo assim, a democracia atual carrega em sua essência o objetivo de preservar a ordem econômica. A estrutura política é moldada para que as elites econômicas (sejam elas burguesas ou corporativas) mantenham o controle por meio de financiamento de campanhas, influência legislativa e controle dos meios de comunicação.

Com isso em mente e baseado nesse post no Órbita (em uma frase na real) eu resolvi colocar aqui pra debate o motivo do porquê da democracia ser eleita como máximo e o melhor que temos atualmente, não tendo espaço sequer para críticas sobre o sistema em si (representativo). Esse sistema deriva de um sistema estratificado (grego) que se aprefeiçoou ao longo dos séculos para retirar o poder dos monarcas e transferí-lo à burguesia. Hoje vivemos em um estado democrático burguês-liberal que tolhe o acesso de qualquer grupo minoritário ao centro do poder. Todo mundo percebe isso, porém, como propôr ou pensar em algo distinto de uma democracia representativa é perigoso, a maioria de propõem a remendar um sistema que foi concebido para ser assim: excludente e elitista. No final, este termo (democracia) foi elevado a um ideal moral absoluto onde não temos para onde questionar a sua ideia central (manutenção do poder centralizado no capitalismo financeiro que, hoje, financia a direita mais radical).

Aliás, é bom pensar em como a direita tomou o poder no mundo (dinheiro). E pensar em como ela mantém a sua hegemonia de pensamento cultural no mundo (dinheiro). Quem financia isso? Quem se interessa por isso? Porque uma proposta descentralizada que fosse ~autocrática~ (eu entendo a diferença entre a autocracia e a falta de pesos e contrapesos, o que eu não entendo é porque é melhor o que temos hoje) não poderia ser melhor do que um governo centralizador defendendo interesses de uma classe dominante? (dica: a direita mantém sua hegemonia porque controla os recursos financeiros e os meios de produção cultural; não se trata apenas de governos, mas de uma máquina que opera em múltiplos níveis onde a ideologia dominante é a ideologia da classe dominante).

Continuo, não existem propostas descentralizadas e autocráticas (no sentido de concentrar poder em um centro eficiente para certas decisões, mas desconcentrar o acesso ao poder em geral) porque estas desafiam a lógica tradicional de pesos e contrapesos que, ironicamente, têm servido mais para bloquear mudanças estruturais do que para impedir abusos de poder. Por exemplo, existe o conceito de autocracia distributiva (um modelo onde existe uma concentração temporária de poder para realizar reformas estruturais rápidas, seguido por mecanismos de redistribuição e descentralização do poder) que não é falado porque o sistema tripartite e bicameral prende esa discussão para manter-se com o poder financeiro (emendas) do país.

Ficamos assim, sempre reféns de um sistema que se tornou o destino manifesto da humanidade, onde nenhum questionamento pode ser levantado sem que a pessoa seja taxada como moralmente inferior. Não é que a democracia representativa seja intrinsecamente superior, mas que ela foi historicamente projetada para ser aceitável dentro de um contexto de poder burguês. A questão, então, não é só “autocracia vs. democracia”, mas como podemos criar sistemas inclusivos, participativos e redistributivos, onde as estruturas de poder sejam transparentes, acessíveis e justas para todos.

28 comentários

28 comentários

  1. É um debate que dá para ir longe (e não sei se a lugares tão bons…).
    Eu não teria capacidade de aprofundar tanto no tema. Mas, dito isso, surgiram alguns questionamentos na minha cabeça:
    1. Há exemplos no mundo de democracias em que o dinheiro não seja tão relacionado ao poder, não? Ou que ao menos o poder não seja tão diretamente relacionado ao quanto se tem?
    2. O formato pelo qual a democracia brasileira é implementada não seria responsável por uma série de “vícios” que o sistema brasileiro carrega?
    3. Como tudo nessa vida, praticamente, a democracia ideal não estaria também sendo vítima de hacks? Digo: grupos com determinados interesses ou finalidades não estariam agindo de forma a concentrar poder e benefícios dentro de uma estrutura tida como democrática?

    1. Há exemplos no mundo de democracias em que o dinheiro não seja tão relacionado ao poder, não? Ou que ao menos o poder não seja tão diretamente relacionado ao quanto se tem?

      Provavelmente não. A ideia de uma ditadura do proletariado nunca saiu do papel, e isso seria o mais próximo de uma democracia popular, sem o peso do dinheiro. O ponto de partida é entender que esse sistema é feito e pensando pra ser assim. Não é feito para ser acessível à população, ele é feito pelo capitalismo financeiro e para o capitalismo financeiro. O sisterma democrática burguês que temos hoje funciona exatamente como ele foi projetado para funcionar. Esse sistema que achamos falho é feito pra ser assim. E sempre será enquanto ele for pensado para e por burgueses/elites.

      O formato pelo qual a democracia brasileira é implementada não seria responsável por uma série de “vícios” que o sistema brasileiro carrega?

      Que formato? O formato representativo? Os EUA tem um formato bastante diversos e tem os mesmos problemas. A UE idem. Acredito que o problema não é o formato e sim o sistema. A democracia pode ser muito boa, se for popular. O que temos hoje implementato no ocidente é um modelo fracassado de democracia burguesa que opera para manter o Estado como refém do mercado financeiro (o capitalismo financeiro). O problema não é a democracia em si ou o formato brasileiro de democracia, o problema é o sistema representativo-burguês.

      Como tudo nessa vida, praticamente, a democracia ideal não estaria também sendo vítima de hacks? Digo: grupos com determinados interesses ou finalidades não estariam agindo de forma a concentrar poder e benefícios dentro de uma estrutura tida como democrática?

      Acho que eu respondi isso no #1:D
      Mas não creio em hacks, elas apenas opera conforme a elite quer que ela opere. Ela foi projetada para ser assim.

  2. Sua análise parte de premissas que para mim são equivocadas ou, ao menos, incompletas, especialmente quando sugere que o problema central está na natureza “burguesa” ou “excludente” do sistema.

    Do ponto de vista liberal, o foco deve estar na liberdade individual, na limitação do poder estatal e na proteção dos direitos fundamentais, que são muitas vezes ameaçados justamente pelo uso da democracia para legitimar a coerção.

    Um problema fundamental da democracia representativa é que, embora ela busque dar voz à maioria, nem sempre protege os direitos individuais. Como Mises argumenta, a democracia é um meio, não um fim. Seu objetivo deveria ser evitar a violência ao permitir a transição pacífica de poder, mas ela frequentemente se torna uma ferramenta para justificar intervenções coercitivas em nome da “vontade da maioria.”

    Quando se fala em “hegemonia da direita” ou em “manutenção do poder burguês,” muitas vezes se ignora que as maiores violações dos direitos individuais têm ocorrido por estados centralizadores que impõem controles excessivos sobre a sociedade, como nações socialistas ou regimes autoritários. Isso demonstra que o problema não está em quem controla os recursos financeiros, mas em quem controla o poder coercitivo do Estado.

    Você critica o poder econômico como uma força que distorce o sistema democrático, mas ignora que o mercado, ao contrário do Estado, opera de forma voluntária. No mercado, empresas só mantêm seu poder enquanto oferecem algo que as pessoas desejam. Já o poder estatal, por sua natureza, é coercitivo e impositivo.

    A descentralização que você sugere, com “redistribuição e desconcentração do poder,” parece contraditória: como se pode desconcentrar o poder político ao mesmo tempo em que se concentra o poder em um governo “autocrático distributivo”? Além disso, quem decidiria como redistribuir? A história mostra que governos com esse tipo de poder centralizado frequentemente acabam abusando dele, deixando as pessoas ainda mais desprovidas de liberdade e proteção.

    Concordo com você que a democracia é tratada como um “ideal moral absoluto,” e isso é um erro. No entanto, isso não significa que devamos substituir a democracia representativa por um modelo autocrático, mesmo que temporário. Em vez disso, precisamos garantir que a liberdade individual seja o princípio inegociável que orienta qualquer sistema político.

    A questão central não deveria ser “autocracia versus democracia,” mas sim: como limitamos o poder político de forma a garantir a liberdade de cada indivíduo?

    1. Vou te perguntar apenas uma coisa: de onde saiu que o “mercado opera de forma voluntária”?

      Como Mises argumenta, a democracia é um meio, não um fim. Seu objetivo deveria ser evitar a violência ao permitir a transição pacífica de poder, mas ela frequentemente se torna uma ferramenta para justificar intervenções coercitivas em nome da “vontade da maioria.”

      Mises era um grande defensor – assim como todos os economistas da escola austríaca – do “mau menor”, que no caso dele, era uma ditadura de mercado (nos moldes chilenos) que ele chefa a admitir que preferiria uma ditadura militar-empresarial a um governo democrático de esquerda. Ele não deve ser tomado como base para uma discussão sobre preceitos e principios democráticos.

      Quando se fala em “hegemonia da direita” ou em “manutenção do poder burguês,” muitas vezes se ignora que as maiores violações dos direitos individuais têm ocorrido por estados centralizadores que impõem controles excessivos sobre a sociedade, como nações socialistas ou regimes autoritários.

      Os regimes autoritários são, na sua maioria, de governos de direita e extrema-direita (vide Turquia, Arábia Saudita, EAU). Governos autocráticos de esquerda foram poucos na história (citando nominalmente Cuba e o Vietnã dp Ho-Chi-Min). A direita argumenta que China, URSS, Venezuela e Coréia do Norte são autoritários, mas eles não mais ou menos autoritários do que os EUA, por exemplo. De fato, é mais fácil você chegar no cerne político desses países do que nos EUA. O acesso representativos comunitário é muito maior na Coréia do Norte do que no Wisconsin.

      Isso demonstra que o problema não está em quem controla os recursos financeiros, mas em quem controla o poder coercitivo do Estado.

      O Estado não existe senão em suas instituições. Focault argumenta que a violência e o controle se dão através dessas instituições e não pelos indivíduos. Faz sentido, uma vez que a burguesia liberal detém o poderio econômico e molda essas instituições de acordo com os seus interesses.

      No mercado, empresas só mantêm seu poder enquanto oferecem algo que as pessoas desejam. Já o poder estatal, por sua natureza, é coercitivo e impositivo.

      Não, as empresas só se mantém no mercado enquanto tem capacidades financeiras. Isso inclui lobby, espionagem, compra de governos, corrupção ativa e passiva e uma série de mecanismos de controle que os empresários tem para controlar as instituições (ver o comentário acima). O Estado é um braço empresarial, ele existe para manter a propriedade privada dos grandes oligarcas mundiais. Sem o Estado não existe capitalismo. Se o Estado é inerentemente violento, ele o é por reflexo do capitalismo financeiro.

      A descentralização que você sugere, com “redistribuição e desconcentração do poder,” parece contraditória: como se pode desconcentrar o poder político ao mesmo tempo em que se concentra o poder em um governo “autocrático distributivo”? Além disso, quem decidiria como redistribuir? A história mostra que governos com esse tipo de poder centralizado frequentemente acabam abusando dele, deixando as pessoas ainda mais desprovidas de liberdade e proteção.

      Parece mesmo, eu não elaborei ainda essa ideia. Eu só joguei a discussão. Mas a base não pode ser apenas em hitória de outros fatos acontecidos, só estou pensando sobre o assunto mesmo.

      1. Quando eu digo que o mercado opera de forma voluntária, refiro-me ao fato de que, em um mercado genuinamente livre, as interações econômicas dependem do consentimento mútuo. Claro, reconheço que, na prática, o mercado atual é frequentemente distorcido por intervenções estatais, subsídios e privilégios corporativos que criam uma “economia de compadres”. Porém, isso não é um problema inerente ao mercado, mas sim ao casamento entre grandes empresas e o poder estatal.

        Você cita práticas como lobby, corrupção e espionagem. Concordo que esses são problemas reais, mas eles só existem em larga escala porque o Estado oferece o poder coercitivo necessário para que essas práticas sejam eficazes. Em um sistema verdadeiramente livre, sem privilégios estatais, uma empresa não poderia manipular instituições ou impor condições coercitivas.

        Seu argumento de que “o Estado é um braço empresarial” reflete uma crítica válida ao modelo de capitalismo atual, mas é importante lembrar que o Estado é, antes de tudo, uma entidade coercitiva. Ele molda o mercado, não o contrário. O monopólio da violência e do poder legislativo do Estado é o que permite que certos grupos econômicos mantenham seus privilégios.

        Aqui entra a diferença fundamental entre minha visão e a sua: eu não vejo o capitalismo de livre mercado como um reflexo do Estado, mas como algo que pode existir apesar dele. Um mercado genuinamente livre seria descentralizado e menos suscetível às manipulações institucionais que você menciona.

        O que define um regime autoritário não é sua retórica (direita ou esquerda), mas o grau de controle estatal sobre a vida das pessoas. Um governo que restringe liberdades individuais em nome da “igualdade econômica” não é menos autoritário do que aquele que o faz para proteger “valores tradicionais” ou “interesses de mercado.”

        A China, por exemplo, combina políticas autoritárias de controle estatal com um modelo econômico que é capitalista na prática. O mesmo vale para os EUA, que, como você aponta, possuem práticas autoritárias em algumas áreas. No entanto, comparar o nível de liberdade individual em Wisconsin com a Coreia do Norte me parece um exagero, dado o controle absoluto que o regime norte-coreano exerce sobre todos os aspectos da vida de seus cidadãos.

        Discordo da ideia de que o Estado é “inerentemente violento por reflexo do capitalismo.” A violência estatal existe porque o Estado é, por definição, um monopólio da força. A questão, portanto, não é se o capitalismo depende do Estado, mas como restringir o poder coercitivo do Estado para que ele não seja usado como ferramenta de controle — seja por elites econômicas, seja por líderes populistas de qualquer espectro ideológico.

        Experimentar novos modelos é fundamental, mas meu receio com propostas de “autocracias distributivas” é que elas tendem a concentrar ainda mais poder, como a história já demonstrou. Por isso, acredito que o melhor caminho para descentralizar poder político e econômico é fortalecer os princípios de propriedade privada, associações voluntárias e mercados livres.

        1. O Estado existe para manter a ordem do capitalismo. Sem o Estado – e a sua força policial – não existe a manutenção da propriedade privada pessoal e dos meios de produção. A força estatal é necessária para manutenção do capitalismo. Na medida em que entes ficam mais poderosos – empresas e pessoas – elas passam a operar dentro do mercado, do Estado e das instituições. Esse problema é inerente ao sistema acumulativo do capitalismo e só é rompido com violência externa (revolução). O mercado ideal (idealizado teoricamente) é tão utópico quando um comunismo pleno (que lembre-se, prega a abolição do Estado) e por isso não pode nos servir como base para discussão.

          O que temos atualmente é uma democracia que se baseia nos interesses do capital financeiro. Ela é dita democrática porque permite, dentro de uma estreita margem de manobra, que as pessoas escolham um governante e seus legisladores.

          No entanto, comparar o nível de liberdade individual em Wisconsin com a Coreia do Norte me parece um exagero, dado o controle absoluto que o regime norte-coreano exerce sobre todos os aspectos da vida de seus cidadãos.

          O capitalismo faz isso muito mais do que a Coréia do Norte. Qual aspecto da sua vida (e da minha) não é controlado pela lógica do capital?

          O capitalismo exerce um controle muito mais profundo do que a maioria das pessoas se permite imagimar. E isso passa batido porque a maioria das pessoas só consegue imaginar a lógica do capital (propriedade privada e ação policial). A Coréia do Norte e os EUA estão sob o mesmo nível de controle, porém, com senhores diferentes.

          1. Quando você menciona que o problema é inerente ao sistema acumulativo do capitalismo, vejo um ponto interessante. Sim, a acumulação de capital gera desequilíbrios, mas acredito que esses desequilíbrios são exacerbados pela intervenção estatal, que cria barreiras artificiais de entrada, favorece monopólios e protege interesses estabelecidos.

            Eu entendo essa perspectiva, mas discordo da equiparação entre esse controle e o controle autoritário estatal. A diferença fundamental é que, em uma sociedade capitalista, as escolhas ainda ocorrem dentro de um espectro de interações voluntárias — mesmo que influenciadas por forças econômicas. Já em regimes autoritários, o controle é imposto de forma explícita, com punições claras para quem diverge das regras.

            Por exemplo, enquanto posso escolher deixar de consumir determinados produtos ou serviços em um mercado capitalista, não posso simplesmente optar por ignorar uma regra imposta por um regime autoritário como o norte-coreano. O grau de liberdade prática entre esses dois sistemas é incomparável.

            Concordo que ambos (comunismo, o mercado ideal) são modelos teóricos, mas há uma diferença prática: o mercado livre opera como um sistema descentralizado, enquanto o comunismo pleno exige um alto grau de centralização inicial para redistribuição, o que historicamente tende a concentrar poder em poucas mãos.

            Minha defesa do mercado livre não é porque ele seja perfeito, mas porque ele oferece um modelo de descentralização que reduz a necessidade de um controlador centralizado. Isso não elimina problemas como desigualdade, mas mitiga o risco de abusos sistemáticos decorrentes de poder concentrado, seja econômico ou político.

            Acredito que a principal diferença entre nossas perspectivas está no foco. Enquanto você vê o capitalismo como uma estrutura inerentemente opressiva que exige ruptura violenta, eu vejo o problema central na concentração de poder, seja estatal ou corporativo. Minha proposta não é idealizar um “mercado utópico,” mas entender como podemos criar um sistema mais descentralizado, onde tanto o poder econômico quanto o político sejam limitados.

            Essa descentralização não é uma garantia de perfeição, mas me parece um caminho mais viável do que propor rupturas revolucionárias, que frequentemente substituem uma forma de opressão por outra.

        2. O ponto sobre “propriedades privadas” e “mercado”, na qual você defende, parte do princípio de um poder concentrado a quem possuí posses. O “Estado” no caso vira o próprio mercado, ao invés de ser um ente à parte que (tenta) ajusta as condições sociais da população para evitar conflitos maiores. O “mercado” como poder vira um controlador soberano, e quem detem o mercado muitas vezes tem intenções piores em relação a um estadista. Se você ler matérias sobre empresas que ocultam problemas em seus produtos, isso será uma demonstração desta situação. O próprio Musk e o X atual é a sintese deste problema.

          Se joga na mão de entes menores, você cria mais poderes paralelos que conflitam entre si bem mais facilmente. Cartéis ilegais e criminosos são na verdade algo que seria próximo ao que você fala, pois o poder acaba se concentrando na mão de grupos com força armada e violenta para controlar locais. Máfias são assim.

          Não a toa a crítica a este modelo do Mises. Ele na verdade já é funcional em Estados com problemas em seus governos, geralmente países que tem problemas com alta criminalidade e grupos de poder enraizados, só estão disfarçados em supostas democracias.

          O Brasil, se continuasse com o bolsonaro, chegaria a um ponto que ficaria neste nível, se não já o está graças a criminalidade da própria polícia e Justiça, apesar do STF. E os Estados Unidos em partes é problemático devido aos conflitos de poder em cada Estado. Há uma diferença entre você ir para Califórnia (mais tolerante a imigrantes e a liberdade pessoal) e ao Texas (menos tolerante).

          Defender o mercado como poder é defender um traficante para ser prefeito… opa, perae… deixe-me ver como está Embu das Artes…

      2. A direita argumenta que China, URSS, Venezuela e Coréia do Norte são autoritários, mas eles não mais ou menos autoritários do que os EUA, por exemplo.

        isso é uma coisa interessante

        pessoal morre de medo do autoritarismo da China e da Rússia, principalmente

        mas minha impressão, vendo de longe, é que para uma “pessoa comum” não deve existir muita diferença entre viver nesses países e nos EUA, a não ser o nível de consumismo muito maior nos EUA

        tirando isso, não sei porque colocam Venezuela e Rússia nesse balaio do autoritarismo

        pra mim o nível poder que o governo exerce na Rússia não difere em nada do que ocorre nos EUA: ambos tem um governo federal muito forte, ancorados numa democracia formal

        Venezuela não me parece em absoluto um país autoritário

        e Coreia do Norte a gente só “conhece” através de memes e da desinformação

    2. Opa, Vitor.

      Se puder comentar, fiquei com duas dúvidas:

      1) “…muitas vezes se ignora que as maiores violações dos direitos individuais têm ocorrido por estados centralizadores que impõem controles excessivos sobre a sociedade, como nações socialistas ou regimes autoritários”

      Nesses casos, quanto ao especto político, não haveria uma predominância nesses grupos que impõem essas violações?

      2) “isso demonstra que o problema não está em quem controla os recursos financeiros, mas em quem controla o poder coercitivo do Estado”

      Você considera que não há vínculos e sobreposições entre “quem controla os recursos financeiros” e “quem controla o poder coercitivo só Estado” ?

      No caso de haver estes vínculos, sua argumentação perde sua força.

      Vlw
      Vlwww

      1. Você está certo em apontar que há frequentemente uma relação entre quem controla os recursos financeiros e quem controla o poder do Estado. Esse vínculo é real e problemático, mas ele reforça o argumento de que o verdadeiro problema é a concentração de poder — tanto econômico quanto político.

        Tanto regimes centralizadores de esquerda quanto de direita têm historicamente violado direitos individuais em larga escala, e isso ocorre porque ambos conferem ao Estado o poder de agir de forma coercitiva e sem restrições.

        Um exemplo: regimes autoritários de direita frequentemente justificam seus atos em nome da segurança nacional ou da ordem social (como na Turquia), enquanto regimes autoritários de esquerda muitas vezes o fazem em nome da igualdade ou da luta de classes (como na URSS ou em Cuba). Em ambos os casos, o resultado é o mesmo: a liberdade individual é subordinada a objetivos coletivos ou à manutenção do poder.

        O ponto que defendi é que a ideologia por si só é secundária ao perigo real da centralização do poder coercitivo. Limitar o poder do Estado é a forma mais eficaz de proteger os direitos individuais, independentemente do espectro político do governo em questão.

        No modelo de capitalismo de compadres, por exemplo, grandes empresas e elites econômicas utilizam o Estado para criar monopólios, obter subsídios ou eliminar concorrentes. Isso é uma distorção do mercado, mas ela só é possível porque o Estado tem o poder de intervir. Em um mercado genuinamente livre, onde o Estado é limitado e não tem ferramentas para conceder privilégios, essas práticas seriam muito mais difíceis de ocorrer.

        Sei que frequentemente há vínculo entre poder econômico e poder estatal, mas acredito que o maior problema está no poder que o Estado concede às elites econômicas. Retirando essa ferramenta do Estado, neutralizamos boa parte dessa relação.

        1. Vitor, obrigado pela resposta e atenção.

          Tenho duas perguntas (não precisa se dar ao trabalho de responder):

          1) “mas acredito que o maior problema está no poder que o Estado concede às elites econômicas. Retirando essa ferramenta do Estado, neutralizamos boa parte dessa relação”

          No cenário proposto por vc, essas elites, no limite, não estariam com grandes poderes?

          Nesse caso, não se estaria, no limite, transferindo esse poder do estado para as mãos de parte das elites?

          Alguém pode argumentar: “não, estamos transferindo o poder para o mercado”. Nesse caso, a pergunta permaneceria.

          2) Não há outras formas de substituir o estado sem que seja necessário substituí-lo pelo mercado?

          1. Talvez eu tenha dado a entender que, ao defender esses pontos, estou advogando pela extinção do Estado. Essa é uma discussão maior, e acredito tanto em uma sociedade sem Estado quanto em uma com um Estado mínimo. Dito isso, vou responder à luz do Estado mínimo, que realisticamente é o que podemos (Brasil) chegar num curto prazo:

            “Essas elites, no limite, não estariam com grandes poderes?”
            No mercado livre, o poder econômico é limitado pela concorrência e pela escolha do consumidor. Diferente do Estado, o mercado não possui poder coercitivo — empresas só prosperam se criarem valor para a sociedade.

            “Não se estaria, no limite, transferindo esse poder do Estado para as mãos de parte das elites?”
            O poder do Estado é coercitivo; já o poder no mercado é voluntário. As elites econômicas, sem privilégios estatais, só mantêm influência enquanto atendem às demandas dos consumidores. O mercado distribui recursos de forma justa e eficiente, refletindo as escolhas individuais.

            “Não há outras formas de substituir o Estado sem que seja necessário substituí-lo pelo mercado?”
            O mercado não “substitui” o Estado, mas oferece uma estrutura de cooperação voluntária. Para Mises, o Estado mínimo é essencial para proteger os direitos individuais. Para Ayn Rand, o Estado limitado deve garantir justiça e defesa. Qualquer alternativa ao mercado inevitavelmente cria novas formas de coerção.

        2. Opa, Vitor. Novamente agradeço o diálogo e cordialidade. Não consegui responder na sua última mensagem, então as observações abaixo:

          1) “e acredito tanto em uma sociedade sem Estado quanto em uma com um Estado mínimo”.

          A meu ver, nessa sociedade com Estado mínimo, os problemas relativos ao casamento entre poder econômico e poder estatal (os quais você concordou que existem) permanecem e, em alguns casos, são maximizados.

          Eu lhe pergunto: o estado é mínimo para quem?

          Para os ricos ele é mínimo?

          2) “O mercado distribui recursos de forma justa e eficiente, refletindo as escolhas individuais”.

          Nesse caso, você está depositando uma crença/confiança (ou chame do jeito que preferir) na justiça e eficiência do mercado. Fica até parecendo que o mercado é uma entidade etérea, sem pessoas por trás, cada uma delas com seus interesses. Mas, nesse caso, é seu ponto de vista analítico (acreditar na forma justa e eficiente do estado), do qual discordo frontalmente.

          3) “Para Mises, o Estado mínimo é essencial para proteger os direitos individuais. Para Ayn Rand, o Estado limitado deve garantir justiça e defesa. Qualquer alternativa ao mercado inevitavelmente cria novas formas de coerção”.

          Voltamos à pergunta: Esse estado é mínimo para quem? Esse estado protege os direitos individuais de quem? A vontade é falar todos, mas sabemos que, nem de longe, é assim.

          O mercado, nesse sentido, não cria nenhuma forma de coerção e nenhum problema? Ou, em sua visão, esse mercado é justo, benevolente e eficiente para, por conta própria, corrigir qualquer problema?

          4) “O mercado não “substitui” o Estado, mas oferece uma estrutura de cooperação voluntária”

          Então, aqui, novamente, voltamos ao matrimônio entre poder econômico e político, ponto que você mesmo criticou anteriormente.

          5) E ao voltar à terceira pergunta que fiz (“Não há outras formas de substituir o Estado sem que seja necessário substituí-lo pelo mercado?”) e ao ler isso o que você escreveu “acredito tanto em uma sociedade sem Estado quanto em uma com um Estado mínimo”, podemos dizer que você acredita tanto no estado mínimo quanto no comunismo? Em caso negativo, qual seria a justificativa?

  3. Na verdade, a sensação que tenho é que não somos educados para entender como é realmente outros sistemas políticos – isso falo do Brasil. Temos uma língua que tem seus problemas de preconceitos (lembrando que português não tem “genero neutro”, o que ajudaria até a abrir melhor a mentalidade sobre a humanidade). Nosso conhecimento de história é pouco, e de filosofia e sociologia quase nulo, só quem realmente entrou em tais áreas sabe algo.

    Falei da língua pois penso que talvez um outro problema é, usando-se de um meme, “estamos querendo algo mas não estamos sabendo pedir”. Não existe um termo unificado positivo para “um sistema de governo na qual a população é REALMENTE atuante, sendo ouvida e atendida, e se busca acima de tudo um equilibrio social baseado no bem estar da população ao invés de baseado em poder financeiro e/ou social.” Não sei se “Socialismo” ou “Comunismo” realmente define isso (sempre soa que ambos são antagonistas do Capitalismo, e aí começa a bagunça).

    Pois o que noto é que tudo que um ser leigo politicamente quer é apenas sobreviver e ter algum conforto. Se puder ter o mesmo lazer de um rico, que bom. Só que noto que, como já falaram há um tempo por aí, se criou uma “idiossincrasia” (não sei se é o termo correto) relativo a pessoa valorizar mais o “eu” do que o “nós”.

    A democracia em si, do jeito que descreve, soa como algo que venho imaginando: um sistema de governo que vale mais o poder de quem se acha superior, e para evitar conflitos, simula-se um jogo de quem pode vencer terá o poder.

    No Brasil, a monarquia tomou um golpe de militares para implantar a “tal democracia”, e aos poucos fomos vendo que quem entrava no poder geralmente era algum suposto erudito, que antes de tudo teria que ter um ego suficientemente algo para aguentar as cobranças do lugar que ficou. Sofremos vários golpes mesmo dentro da tal democracia (Vargas, Militares e Temer). E cá estamos depois de ter passado 4 anos com alguém que saiu totalmente fora dos padrões de quem se põe como erudito, e que precisou botar alguém que já ficou 8 anos no poder para voltar e “tentar arrumar algo” (e há 2 anos não tá arrumando do jeito esperado).

    E na parte municipal, neste ano que estamos saíndo, a dominância do dinheiro como poder pôs em cadeiras políticas mais e mais criminosos que até então só pagavam corruptos para poder sobreviver no submundo. Agora mais “visíveis”, tais políticos oriundos do dinheiro do crime agora tem mais poder que nunca. E nos perguntamos o que vai acontecer. (Sei que tem cidades que já tiveram criminosos eleitos e estão em investigação até hoje, mas sem falarem muito sobre isso).

    No final, a Democracia tinha um furo no sistema – o dinheiro. Se criamos um poder social baseado no “quanto tem”, quem “tem infinito” acaba sobrepondo-se.

    1. Fui lá ver a resposta do seu comentário e entendi o porquê do post.

      Se fomos educados que “autocracia é um sistema baseado em um detentor do poder (seja partido ou liderança)”, imaginamos que uma autocracia basicamente é totalitária baseada no termo; dado que a educação, seja ela formal ou baseada na mídia, gerou esta noção.

      E como coloquei na outra resposta daqui, não vemos realmente como funciona o sistema partidário da China ou Cuba (que aparentemente são similares, já que são auto deonominados “comunistas” e “partido único”, ou seja, são “autocriacias partidárias”, certo?). Só quem sabe é pessoas como você que tem tempo e condições de lerem mais sobre, ou sociólogos e demais estudiosos, que até procuram repassar a informação aprendida, mas acabam sendo ocultadas de alguma forma. Geralmente a informação sobre as políticas de lá que vem da grande mídia são enviesadas. Mas sendo sincero, também não confiaria em pessoas que falassem sobre tais de forma positiva hoje.

      No comentário que fiz do post sobre LLM, usei o termo “autocracia”, mas talvez eu deveria ter usado “totalitário” ou “ditadorial” para evitar conflito contigo. Mas quando falei autocracia, é também para subentender que o governo não deveria regular baseado em conceitos egoístas, mas sim em conceitos que quem estudasse sobre consequencias do uso de IA fossem ouvidos e com isso bem considerados, assim balizando o uso de tecnologias similares.

      1. E como coloquei na outra resposta daqui, não vemos realmente como funciona o sistema partidário da China ou Cuba (que aparentemente são similares, já que são auto deonominados “comunistas” e “partido único”, ou seja, são “autocriacias partidárias”, certo?). Só quem sabe é pessoas como você que tem tempo e condições de lerem mais sobre, ou sociólogos e demais estudiosos, que até procuram repassar a informação aprendida, mas acabam sendo ocultadas de alguma forma.

        China e Cuba (e Vietnã, Coréia do Norte, Venezuela, ex-URSS e muitos outros) operaram e operam sob outra lógica partidária. A luta dentro do comunismo se dá mais através de tendências e correntes dentro do partido comunista-socialista. Isso ocorre porque o partido é a célula principal desses sistemas e, a partir dele é que são determinadas as políticas e ações. Não vou fazer uma valoração moral sobre isso, apenas expliquei a diferença das organizações partidárias dentro do socialismo/comunismo e da democracia burguesa capitalista.

        Geralmente a informação sobre as políticas de lá que vem da grande mídia são enviesadas. Mas sendo sincero, também não confiaria em pessoas que falassem sobre tais de forma positiva hoje.

        Sim, e por isso que o senso comum é de que a democracia que temos hoje é o melhor que conseguimos e só o capitalismo é capaz de manter-nos livres, leves, belos e felizes. Quem tem dinheiro manda no mundo. O velho Marx nos ensinou que as ideias dominantes de uma época são as ideias da classe dominante. Ou seja, você não vai escutar falar de experiência socialistas na mídia porque elas reproduz a ideia da classe dominante brasileira (capitalistas financeiros) e essa classe dominante não controla apenas a forma de produção, ela domina entendimento do mundo. O que vemos é o mundo pelos olhos de uma classe especifica. E por isso é tão dificil imaginar uma alternativa ao sistema atual.

        1. “Sim, e por isso que o senso comum é de que a democracia que temos hoje é o melhor que conseguimos e só o capitalismo é capaz de manter-nos livres, leves, belos e felizes. (…) O que vemos é o mundo pelos olhos de uma classe especifica. E por isso é tão dificil imaginar uma alternativa ao sistema atual.”

          Existe um paradoxo aqui pelo que noto. Tu fala meio que de um prisma de “classe média”, que tem condições de viver sem tantos problemas financeiros e sociais, dado que em algum momento você (e eu) como parte da classe média, conseguiu condições de ter uma moradia – mesmo alugada – e renda para conseguir provimentos. Não fala de um prisma de alguém que está em uma democracia mas vive no limiar da pobreza / miséria.

          A democracia com um capitalismo tem esta questão de classes também, e a educação é sempre voltada a “ser parte da classe superior” (acabei de ter uma epifania sobre “1984”, diga-se). Mas quem apenas quer sobreviver pela “subexistência” (plantar e colher), sofre sempre com a ameaça de quem quer tomar terras para apenas ter mais dinheiro e poder. Inclusive povos originários, diga-se. E não que eles queiram ou não manter a vida deles assim, tem pessoas deste grupo social que estudam e acabam no meio capitalista. Mas sim que todo ser que apenas quer viver do básico, sofre com algum capitalista incomodando (um traficante, um governante corrupto, um político estúpido).

          Mesmo a democracia no final das contas não é perfeita, pois a democracia parte do princípio que “manda quem conquistou o poder”. As antigas elites na verdade estão perdendo o poder aos poucos, pois quem está dominando são pessoas que acabam oriundas da marginalização pela própria elite e que ao invés de terem um pensamento voltado a “corrigir socialmente”, acabam se ascendendo socialmente e com isso dominando o poder no lugar.

          Quando pega as eleições de 2024 nos Estados Unidos por exemplo, ou as municipais no Brasil no mesmo ano, vemos que é engraçado como a democracia “permite” eleger uma pessoa que já fez mal e continuará a fazer mal a sua própria população, mesmo dizendo que não irá. Eis o paradoxo.

          1. A democracia com um capitalismo tem esta questão de classes também, e a educação é sempre voltada a “ser parte da classe superior” (acabei de ter uma epifania sobre “1984”, diga-se).

            A classe social é anterior a democracia. A sociedade se organiza em classes na medida em que se organiza sobre espectros de poder.

            Mas quem apenas quer sobreviver pela “subexistência” (plantar e colher), sofre sempre com a ameaça de quem quer tomar terras para apenas ter mais dinheiro e poder. Inclusive povos originários, diga-se. E não que eles queiram ou não manter a vida deles assim, tem pessoas deste grupo social que estudam e acabam no meio capitalista. Mas sim que todo ser que apenas quer viver do básico, sofre com algum capitalista incomodando (um traficante, um governante corrupto, um político estúpido).

            Esse problema é inerente aos sistemas de acumulação. Capitalismo (feudalismo) que criem as super-classes sociais (burguesia, clero e monarquia) que usufruem do trabalho dos outros por um direito divino (mercado, Deus). O capitalismo surge como necessidade, exatamente, de se criar uma manutenção dessa organização social. A democracia, o estado e o capitalismo tem como fundamento máximo a manutenção da propriedade privada (pessoal e dos meios de produção) por meio do uso de força. Quem tem força no capitalismo? A sua terra – o seu acesso a terra – é negado pelo capitalismo e pelo estado democrático de direito (organizado pela democracia e pelas instituições sociais). A organização não-comunitária da terra (comunal) é um problema que existe dentro do capitalismo apenas.

            Mesmo a democracia no final das contas não é perfeita, pois a democracia parte do princípio que “manda quem conquistou o poder”.

            A democracia em si é muito boa e, eu diria, quase perfeita. O problema é que ela tem nuances. Agora, nesse momento, vivemos a democracia burguesa-liberal, controlada por empresários, empresas, juristas e toda a sorte de legisladores milionários/bilionários que utilizam o poderio estatal para manter esse status. Mas você pode pensar em uma democracia popular que seja realmente representativa, por exemplo.

            As antigas elites na verdade estão perdendo o poder aos poucos, pois quem está dominando são pessoas que acabam oriundas da marginalização pela própria elite e que ao invés de terem um pensamento voltado a “corrigir socialmente”, acabam se ascendendo socialmente e com isso dominando o poder no lugar.

            Não, isso não ocorre, não sem rompimento violento. As famílias que mandam hoje no Brasil já mandavam nas capitania hereditárias. Traficantes em favelas são uma ameaça séria à segurança dos moradores locais, por exemplo, mas eles são financiados pelas antigas elites do café, leite, agronegócio etc.

            Quando pega as eleições de 2024 nos Estados Unidos por exemplo, ou as municipais no Brasil no mesmo ano, vemos que é engraçado como a democracia “permite” eleger uma pessoa que já fez mal e continuará a fazer mal a sua própria população, mesmo dizendo que não irá. Eis o paradoxo.

            Exatamente porque a democracia e as leis do direito liberal são pensadas para afastar os pobres do centro do poder.

        2. Espero que não se incomode se eu responder aqui.

          Da questão do “pobre fora do centro do poder”, me chega ao ponto que estavamos falando sobre “moral”, o que dá para juntar os dois neste debate. O ponto é como definir o “pobre” aqui, se é só financeiramente ou falamos também de educação, cultura e social.

          Pois do jeito que fala, me veio a mente também outro problema no conceito – para ser um político estadista você precisa de estudos e/ou cultura.

          A sensação as vezes é de justamente ver o pobre como alguém que não merece tanta atenção, ao invés de faze-lo escalar para ser parte da sociedade. Entendo que na visão dos progressistas, o ideal é a segunda situação – eduquemos os pobres para eles serem ricos. O ponto é justamente que o pobre aqui seria o pobre culturalmente/eruditamente. O que uma criança também seria.

          Em uma autocracia, fica esta questão também – como seria tratado alguém não erudito. Numa democracia de mercado como a nossa, o pobre em erudição é uma peça e não uma pessoa. O pobre financeiro é mão de obra barata.

          Tenho quase 50 anos. E sei que perdemos uma oportunidade de ouro em não ter investido em educação nos últimos 30 anos. “Ah, mas o Lula, tal”… A educação atual é para gerar mão de obra, não gente culta e que sabe o que precisa fazer para mudar o poder. Não temos tanta gente com conhecimento filosofico e sociológico para também evitar conflitos e pensar em formas de mudar a sociedade. Quem reside em comunidades carentes precisa se desdobrar em trabalhar e estudar (mulheres as vezes bem mais pois cuidam de familias também).

          Nem falo que o mercado faria algo (tal como o Vitor defende nos comentários dele), pois para o mercado tudo tem valor e seria cobrado de volta quaisquer cuidados em relação a população de uma comunidade. Ao menos na democracia atual, tem algum mínimo esforço para isso e reconheço. O ponto é se autocracias fariam também, e quais condicionantes colocaria para tal.

  4. Eu entendo criticar e não considerar a democracia como o melhor modelo vigente. Mas considerar a “autocracia” como um modelo válido, não seria esquecer de todos os problemas que ocorreram na França em 1789 até às ditaduras do século XX? Aliás, pergunta sincera, o que diferencia o termo “autocracia” destes outros modelos de governo? Pra mim, como leigo, parece até um eufemismo pra não usar os outros termos mais infames, como “ditadura” e “monarquia”. Se o objetivo é ter um debate sobre modelos alternativos de governo (ou estado), creio que esse seja uma conversa necessária.

    1. Ledo engano, se não é um governo do povo (demo) é um governo autocrático (no sentido de que eu não vejo diferença entre tecnocracia, plutocracia, oligarquia e meritocracia) então a ideia é entender como poderia existir um governo fora da ideia de uma representação escolhida arbitrariamente por uma agremiação partidária controlada por empresas e empresários.

      Mas acho que antes disso existe um ponto sobre a discussão: nos acostumamos, provavelmente por influência dos EUA e da Europa, a ver a democracia como a única saída viável para o mundo. Vemos a democracia como o ápice da nossa evolução social. O fim da história. Qualquer discussão levantada sobre a democracia burguesa é enterrada sob um avalanche de acusações e cancelamentos. A elite fez o trabalho muito bem, uma vez que sequer conseguirmos discutir fora dos termos que ela mesma criou.

      1. Mas fica a questão também: por quê não se realmente demonstra o funcionamento dos sistemas asiáticos e da região dos árabes, sírios e demais? Pois se notarmos, há diversas formas de poder nessas regiões, e de alguma forma eles já duram mesmo sem tanta interferência de outros povos.

        Dos sistemas africanos também me pergunto, mas admito que tenho um preconceito pois soa que toda vez que um noticiário fala sobre, em alguns países de lá só soam que vivem em plena guerra há séculos e não se faz muita coisa, só entra e saí “colonizadores” para tomar riquezas e dividir a população.

        (se quiser responder em um post seguinte que vou fazer, pode responder lá também em conjunto).

        1. Mas fica a questão também: por quê não se realmente demonstra o funcionamento dos sistemas asiáticos e da região dos árabes, sírios e demais? Pois se notarmos, há diversas formas de poder nessas regiões, e de alguma forma eles já duram mesmo sem tanta interferência de outros povos.

          Você pode pesquisar, se fala muito sobre isso. O problema é que não é algo interessante à grande mídia/editoriais falar sobre um sistema alternativo. Retomamos a frase de Marx: as ideias dominantes de uma época são as ideias da classe dominante.

          Dos sistemas africanos também me pergunto, mas admito que tenho um preconceito pois soa que toda vez que um noticiário fala sobre, em alguns países de lá só soam que vivem em plena guerra há séculos e não se faz muita coisa, só entra e saí “colonizadores” para tomar riquezas e dividir a população.

          Você respondeu porque você tem essa visão. A África é o berço da nossa civilização, mas foi conquistada pelos europeus que a transformaram primeiro em um mercado de gente e agora em um mercado de matéria prima. Se pergunte quem manda atualmente no mundo e veja quem ocupa e ocupou a África e o OM.

      2. Novamente falando como um leigo aqui, eu entendo o seu argumento de que a inviabilidade de se falar algo diferente da democracia é algo construído, e que você atribui isso à direita (ou aos detentores de poder, se não for sinônimo). Porém, não existe uma resistência a essa discussão também vindo da esquerda, devido a uma herança histórica deixado pelos regimes autocráticos do passado (em especial monarquias e ditaduras)? Não só uma resistência, como também a própria esquerda tratar a democracia como um ideal absoluto. Será que é possível convencer as pessoas que não se trata disto?

        1. Porém, não existe uma resistência a essa discussão também vindo da esquerda (…)

          Sim, com certeza.

          (…) devido a uma herança histórica deixado pelos regimes autocráticos do passado (em especial monarquias e ditaduras)?

          Não sei se é por isso, sinceramente.

          Não só uma resistência, como também a própria esquerda tratar a democracia como um ideal absoluto. Será que é possível convencer as pessoas que não se trata disto?

          Com toda a certeza. A democracia é tratada como uma ideia de moral superior, um ideal a ser alcançado. Não gosto dessa ideia, ainda que ache que a democracia seja a saída, porque elas mascara a nossa democracia problemática. Não conseguimos adentrar ma crítica à democracia burguesa porque ela é tida como a encarnação da democracia. Fica dificil romper essa barreira.

          1. Creio que a palavra chave aqui seja “moral”. Pois quando se fala em controle político, se fala também em limitações gerais em nome de um bem comum.

            O próprio nome “autocracia” remete a um sistema de controle, enquanto que “democracia” se remete a uma “suposta liberdade”. Vinha pensando aqui hoje nisso: se fala muito da culpa “do poder”, mas quando a gente lembra a discussão do paulo freire sobre educar para entender o arredor e evitar justamente igual ao poder que deveríamos combater, ficamos brigando entre nós pois chegamos em um dilema.

            A “moral” ideal é a que evita o máximo de conflito violento possível. O conflito acaba em duas condições: ou inicado por alguém com intenções negativas a comunidade, ou quando a comunidade reage contra este conflito iniciado (legitima defesa). Ao mesmo tempo, se busca “a correção do outro” limitando-o em liberdade.

            Em uma autocracia, creio que o poder seria bem mais restrito do que na democracia (não a toa a crítica anterior). Mesmo no que poderíamos definir como “boas autocracias” (as que defendem o bem estar social), sempre haverá o risco de quem estar no poder, seja um partido, liderança solo ou grupo de líderes, criar regras que possam inibir um terceiro de algo que pode até ser inconveniente, mas não é perigoso.

            Quando vemos em redes sociais por exemplo a questão recente do empresário de plano de saúde assassinado por uma pessoa, e esta pessoa é exaltada, isso em parte mostra o dilema da democracia: criamos um filtro moral tão grande sobre punições que quando alguém toma uma atitude extrema, quem antes sofria com a ausência de punições comemora a atitude tomada.

            Em um comparativo que pode soar estúpido, tem a questão do 8 de janeiro de 2023. Na mentalidade de quem defendeu as ações do dia, se punha também uma ideia similar: eles queriam que o governo eleito não tomasse posse. E a partir de toda uma investigação (que se analisar já fora feito antes por jornalistas e demais), se demonstrou que isso era parte de um plano para gerar um novo golpe político, com as possibilidade de assassinato de lideranças políticas e de órgãos públicos.

            Em uma democracia, o ideal não era matar (e isso sei que é parte da propaganda). Claro que isso recaí com a ironia das colonizações, e em situações mais recentes, com as guerras atuais e as ações de um certo país que pensa que é xerife. Mas há países que tem penas de morte até para tráfico de drogas.

            Para quem realmente defende um poder, “a moral” é uma base onde ele usa para se por como melhor que o outro. Ao democrata, a moral é os tais “ideais democráticos”; ao autocrata, “as leis e o respeito ao poder”.

            E no final, o cidadão leigo só quer comer e dormir. Não importa de onde vem o poder ou a forma de como ele terá as coisas. O leigo só quer não ter os mesmos sofrimentos de seus antepassados, e pensa que onde ele estiver, se possível, só tenha teto e comida. À ele, a moral já foi perdida pois o abandonaram. Se precisa de algo, será cobrado de alguma forma. Seja por imposto, seja por punições. E ele se sente impotente, fora do escopo, marginalizado. Mesmo que tenha condições, ao leigo o importante é sobreviver, tal como o nilismo ou estoicismo pregam.

            Se houvesse uma “moral perfeita” (ou seja, não fazer mal ao outro e tomar decisões que evitem conflitos), seria bem mais fácil. Nem líderes religiosos ou políticos que defendem mais cooperativismo conseguem isso tão facilmente. E quando conseguem, são mau vistos por quem é egoísta e só diz defender os pobres da boca para fora.

            Indo para a crítica dentro da esquerda: se a “esquerda brasileira” é baseada em pessoas que estão inseridas no capitalismo, fica-se a questão de “o porque de eles não agirem de forma socialista/comunista”, ou seja, sendo mais cooperativos e abertos aos grupos sociais. O senso ao leigo é que “quem se diz comunista deveria fazer um voto de pobreza”, e acabou-se convencionando assim. Nem eu sei como corrigir do contrário. A moral/ética sobre este assunto acabou construída assim. E acho que o dia que vão começar a mais dar atenção ao socialismo/comunismo é no dia que alguma liderança que se diz socialista/comunista é agir realmente como tal. E falar “isso é o comunismo”.

            E engraçado, a gente poderia falar do altruísmo, mas se pegar o altruísmo e tirar a intenção secundária (soar como “pagamento social dentro do capitalismo”), ela vira um socialismo. Quando se tem restaurantes populares, quando se tem multirões, quanto se tem atitudes cooperativas, quando vemos comunidades abertas como esta, elas acabam sendo algo que poderia caber em um comunismo. Bem, admito que falo como leigo.

            Me pergunto se uma sociedade sem traumas e conflitos conseguiria chegar na utopia de um comunismo. Mas divago. Sempre digo que vou ler algo sobre o assunto, mas procrastino. Estou velho, cansado e me perguntando se amanhã estarei vivo… (ou tudo ao contrário e só estou fazendo manha…)