Pensando nas questões de financiamento de software, acho que estamos em uma situação bem crítica, quando falamos de usuário final.
O que as pessoas chamam de “Enshittification” não é um problema que possa ser resolvido, é o objetivo declarado de todo software financiado por VC ou empresas de capital aberto: dominar mercado fazendo dumping, para depois recuperar isso com estratégias de monetização.
Outras formas de desenvolvimento, como empresas de capital fechado e open-source poderiam ser uma alternativa, mas fato que não estão funcionando.
O caso de redes sociais é o mais claro, pelo efeito de rede ser indispensável para funcionar. Outras coisas, como soluções profissionais (e.g. suíte de escritório, criativas), também dependem de um ecossistema de usuários grande para ser adotado.
Por causa da prevalência de soluções “gratuitas”, é muito difícil uma empresa independente atuar nesses mercado. Mesmo que algumas pessoas estejam dispostas a pagar, nem sempre é possível usar uma alternativa como decisão individual.
Open-source não teria esse problema do custo – funciona maravilhosamente bem para ferramentas e plataformas de desenvolvimento – mas e para usuário final? Temos exceções que confirmam a regra, como Blender e OBS por exemplo, mas via de regra não é competitivo.
Várias eventes recentes confirmam essas dificuldades de viver fora do modelo predatório, basta olhar as últimas do MdU e Órbita: Evernote, Castro e Simple Mobile Tools: o que está acontecendo com os aplicativos legais?; Firefox a beira do colapso?; Instapaper dobra preço da assinatura: melhor assim?.
E, mesmo que individualmente eu possa me esforçar, não resolve os grandes problemas como os efeitos das redes socias e da devassa dos dados.
18 comentários
Eu prefiro olhar com uma visão mais otimista. Sempre existirão empresas e modelos de negócios que irão falhar. Porém por outro lado temos vários outros exemplos dos que funcionaram.
Também acredito que existem ferramentas de código aberto que não tem a mesma qualidade que ferramentas pagas mas não acho que podemos generalizar que o modelo não funciona.
Acredito que cabe a nós usuários apoiar projetos que nos identificamos, seja eles proprietários ou de código aberto.
Fomos culturalmente educados a achar que tudo na internet deveria ser gratuito. Isso é um problema, pois sempre vamos ficar migrando de solução, pulando de galho em galho e prejudicando um fluxo contínuo. Hoje eu dou preferência sempre aos softwares pagos, que resolvem o problema da maneira mais rápida.
Em termos de software, a culpa é menos da internet e mais das lojas de aplicativos do iOS e do Android. Antes, software era caixinha e era vendido a preços mais altos. Existiam os freewares e livres, que parece tinham mais atenção, proporcionalmente falando.
Não costumo levar em conta o preço na hora de prever (ou tentar prever) a longevidade de um software. Os de código aberto, aliás, têm a vantagem de que podem ser adotados por terceiros e terem seu desenvolvimento assegurado se o mantenedor desista ou faça coisa errada — foi o caso do Simple Mobile Tools, que já tem dois forks.
Tudo bem que eu era jovem nessa época e talvez impacte na percepção, mas minha impressão é que software era algo completamente inacessível antes das lojas, quem comprava software era empresa grande…pessoa física pirateava sem pensar meia-vez de tão irreal que era comprar um Photoshop por exemplo.
No final, não vingou a promessa de “apps” baratos vendidos em escala proposto pela Apple, o modelo de pagar com publicidade já era consolidado na web foi para para os apps.
Sobre confiar, entendo que o mais relevante é ter um modelo saudável, independente do licenciamento. No final, a empresa comprou o Simple Mobile Tools, porque sabe que vai ganhar dinheiro das pessoas que naturalmente não fazem ideia de que essa venda aconteceu.
Eu também era jovem, só me lembro das filas (pequenas?) nos lançamentos de novas versões do Windows, hehe. Acho que os problemas eram outros — baixa demanda, poucos softwares, alta pirataria.
Pois o valor, principalmente se for gratuito e se for de uma startup, me alerta logo que não devo confiar a longo prazo. Notion, Trello, Evernote, e todos esses apps de produtividade se não mataram, uma hora irão matar a versão grátis. Dois bons exemplos foram o Wunderlist e o Sunrise Calendar. Ótimos apps/web services gratuitos que foram mortos com o tempo.
Achei curiosos seus dois exemplos (Wunderlist e Sunrise Calendar) porque ambos foram comprados e encerrados pela Microsoft.
Sim, mas nesse caso a minha preocupação é com meu fluxo de trabalho contínuo, a forma que os apps gratuitos “somem”, para mim é o de menos. Estou com uma certa rejeição a apps gratuitos por isso.
O poder destrutivo da desvalorização por meio da oferta gratuita está bem documentado com a história dos jornais. Alguns jornais têm os arquivos. Comparem o que tínhamos antes com o temos agora. Veja o naipe dos escritores que trabalharam para jornais (spoiler: todos os melhores escritores brasileiros, desde Machado até Sergio Santanna) há algumas décadas e hoje. Os cadernos de literatura e cultura minguaram ou sumiram. Veja o Jornal do Brasil dos anos 1990 e o bloguinho que o substituiu.
A decadência dos jornais não tem muita relação com a gratuidade — a maioria dos jornais tem paywall, é paga, e faturam com publicidade.
A derrocada está mais relacionada à perda de verbas publicitárias (que sempre foi a fatia mais gorda da receita de jornais) para big techs e ad techs, notadamente Google e Meta.
Em 1999, um jornal tipo Folha/Estadão custava R$1,25.
https://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/20000104-38794-nac-0001-pri-a1-not
Um pãozinho custava 0,05.
https://www.otempo.com.br/economia/em-2000-pao-custava-r-0-05-1.1341199
Hoje esses jornais custam R$5 – 6 reais.
Em 1999, foram vendidos 2,5 bilhões de jornais no Brasil. O mercado de publicidade dos jornais era de cerca de 8 bilhões de reais:
https://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc1506200017.htm
Então, é verdade que o mercado publicitário era mais que o ganho com a venda dos jornais, mas certamente o ganho com a venda não era irrelevante. Além disso, não é como se os ganhos com publicidade tivessem zerado!
Por fim, o argumento do Paywall. O Jornal do Brasil entrou na Internet em 1985, e o New York Times recobrou o juízo em 2011 com a revolucionária ideia de que as pessoas precisam pagar por serviços de que usufruem. Quando o paywall chegou já era tarde demais.
O paywall do Jornal do Brasil é anterior ao do New York Times, em 2010. Não é o melhor exemplo de digitalização da imprensa brasileira — há outros melhores, como a trinca de grandes jornalões, Folha de S.Paulo, O Globo e Estadão.
As duas principais fontes de receita históricas dos jornais, publicidade e assinatura, migraram para o digital. Só que, aqui, a competição pela atenção (e pelo dinheiro de leitores e anunciantes) é mais acirrada. O New York Times é a regra que confirma a exceção — eu sempre fico com um pé atrás com os cases de sucesso do NYT porque, mérito deles, são o maior jornal do mundo e um dos melhor geridos. É o mesmo que você dizer ao Clebinho do XV de Piracicaba que é fácil ser jogador de futebol, olha lá o exemplo do Lionel Messi.
Volto a bater na tecla (e é uma tecla gasta, porque todo mundo que trabalha ou já trabalhou sabe do tamanho desse abacaxi) de que a maior parcela de culpa da derrocada dos jornais é de Google e Meta.
É o efeito colateral da ideologia autoritária do software “livre e de código aberto”.
Poderia elaborar, por gentileza?
Também fiquei curioso com o “ideologia autoritária”. Desconheço projeto de software livre que chantageia usuários, faz lobby ou é adepto de dessas praxes questionáveis e tão comuns nas grandes empresas de software proprietário…
Realmente, não poderia falar sobre tudo que existe.
Mas, estou na Internet há muito tempo e inúmeras vezes vi a defesa do software “livre e de código aberto” como o único moralmente defensável.
Mesmo no manifesto antitrabalhador de Stallman https://www.gnu.org/gnu/manifesto.pt-br.html , há uma defesa da atividade diletante que, a meu ver, é absurdamente autoritária:
““Não irão todos parar de programar sem um incentivo monetário?”
Na verdade, muitas pessoas irão programar sem absolutamente nenhum incentivo monetário. A programação exerce uma fascinação incrível para algumas pessoas, geralmente as pessoas que são melhores nisso. Não há falta de músicos profissionais que se mantém na carreira mesmo quando não há esperança de se ganhar a vida desta forma.”
Obviamente a questão monetária existe pelo motivo de vivermos numa sociedade capitalista. O software livre continua sendo uma chama em meio a tanta podridão das grandes corporações (mesmo até mesmo sendo financiada por eles… agora é lutar pra tirar essa cooptação de serviço das mãos deles.).
Não acho que seja autoritarismo. O que acho que existe são pessoas com opiniões fortes e divergentes. Mas a beleza do software livre e open source é que se você não está feliz com o que quer que seja, você pode criar um fork.