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Neurodiversidade no Órbita: Alguém aqui já foi diagnosticado com TDA, TDAH, Autismo e afins? Como é sua rotina atualmente sendo neuroatípico?

Fui diagnosticado com TDAH há 5 anos.
Naquela época é como se eu finalmente colocasse um óculos e começasse a enxergar os porquês do meu comportamento, motivação e foco.

Atualmente, bastante adaptado à medicação (tomo Venvanse 30mg), fico refletindo que minha vida seria outra completamente diferente caso eu não tivesse tido esse diagnóstico. Desde então mantenho um relacionamento mais saúdavel com minha noiva, consegui conquistar um emprego muito bom e estou mais ciente que devo cuidar mais da minha saúde (agora tenho mais motivação do que antes pra fazer isso).

Antes mesmo de ser diagnosticado eu sabia que não era a pessoa mais motivada do mundo. Por vezes me intitulava de “preguiçoso esforçado” porque sempre fui muito cobrado na infância a ser inteligente, tirar notas boas e me dedicar nos estudos. Passei muito tempo lendo livro de auto-ajuda, de hábitos, de foco, mindset, etc. Essas dicas acabaram se tornando mecanismos que me ajudavam a ser uma pessoa organizada naquela época, mas nada além disso. Era muito bom em planejar, mas executar era uma história completamente diferente. Hoje eu consigo fazer os dois.

A vida não é perfeita e estou longe de ser modelo para alguém nas mesmas condições, mas dá pra fazer o básico muito bem feito.

Penso que tive bastante sorte nessa caminhada: a de ser diagnosticado, de ter condições de comprar a medicação (que eu chamo de imposto de sobrevivência) e de poder criar um ambiente onde consigo lidar bem com essa neurodiversidade. Isso é uma coisa que poucos têm acesso atualmente.

Gosto da ideia de escrever sobre isso futuramente, traduzindo vários materiais bacanas e úteis pra PT-BR – materiais esses que tem muito mais qualidade quando procuramos em inglês na internet/livros. Muita gente não sabe que tem TDAH, nem sabe que é genético e passam a vida inteira se julgando como eu fazia.

Hoje em dia tem muito guru de TDAH na internet, e eu tento ficar sempre longe dos que caçam likes e transformam isso em uma doença popularzinha, ou como um “super-poder”.

18 comentários

18 comentários

  1. Acredito que entra no tópico neurodiversidade a Psicose Maníaco-Depressiva (chamada polidamente de Transtorno Bipolar). Tenho desde criança porém descobri a poucos anos. Junto com ela veio a Fibromialgia – soube que é bem comum essa associação.

    O transtorno bipolar é a doença que mais mata por suicídio, é um verdadeiro caos a cada crise depressiva ou maníaca (mania é quando você fica com muita energia, planos mirabolantes e ideias em excesso na cabeça, até sem dormir porque elas não param).

    Os remédios são um luxo necessário, ficando em torno de 300 a 400 reais mensais. Mas a
    tão necessária terapia já é luxo demais: uma vez por semana no psicólogo ficaria em torno de 150,00/consulta e psiquiatra, uma vez a cada dois meses fica algo em torno de 300,00/consulta.

    Em resumo: tirando os analgésicos, antiinflamatórios, corticóides e transporte pra ir até os médicos, é quase um salário só pra bancar a doença! 😅

    Detalhe: sou vendedora autônoma…

    1. Talita, você sabe que corticoides detonam o humor de quem tem TAB, né? Eu tenho uma doença autoimune, e teve uma vez que, no hospital, tiveram que me dar corticoides. Resultado: gastei mais de R$200 em comida, quase briguei com o meu ex-chefe, e fiquei alteradíssimo na terapia. Na outra vez que parei lá eu precisei avisar eles, suplicando para não injetarem corticoides. Deu certo, mas fiquei 12 horas no hospital.

      Eu tenho sorte em ter uma família que pode pagar por tudo isso, mas sinto que perdi muitos anos para esse problema. Ah, e eu evito o termo “neurodivergente”, sinto que é um termo só para TDAH e autismo hoje em dia.

      1. Entendo, e sinto muito.

        No meu caso às vezes é necessário usar em crises extremas da fibromialgia, que estão cada vez mais constantes. Tanto no hospital como em casa (uso com receita) tem vezes que não posso evitar.

  2. Eu sou pai de uma criança autista, e estou me aproximando da área de neuro diversidade como profissional (sou psicólogo e professor universitário). Posso atestar nos dois lados do balcão em que estou (profissional da área e usuário de serviço) que gente especializada faz diferença no diagnóstico, orientação e tratamento! E acho muito legal que esse tipo de conversa aconteça por aqui.
    Que espaço e comunidade especiais esses aqui do Manual do Usuário, hein, Ghedin!? 😄

  3. Como tantas outras coisas, transtornos do neurodesenvolvimento entraram na logica do mercado. Quanto mais gente diagnosticada, melhor para uma série de fornecedores e prestadores de serviço.

    1. É uma posição um tanto cínica, não, Thiago? Sem falar que se tem alguém lucrando, não sei quem é — as operadoras de planos de saúde estão surtando com os diagnósticos. (Ignore esse título canalha da Folha.)

      Existem outras explicações, mais críveis que a da “lógica do mercado”, para a maior incidência de diagnósticos. Existe profissional ruim e gente que se aproveita da situação? Sim, mas não são maioria e não dá para generalizar.

      1. Tenho um filho autista (não é ‘leve’) e sou, modéstia a parte, muito informado sobre este tema. Não estou dizendo que não haja aumento real de casos, especialmente TEA e TDAH, contudo, como qualquer coisa que passa a chamar atenção, torna-se um mercado consumidor ou até uma forma de obter votos. Os planos de saúde com certeza só perdem com isto, ganham os médicos e os terapeutas que atendem este público (muitos se dão ao luxo de só atender particular). A carga horário de um tratamento de autismo pode chegar a 40 horas POR SEMANA. É uma verdadeira mina de ouro, para uma demanda que só cresce. Falando em política, basta ver a quantidade de projetos de lei envolvendo o tema ‘autismo’ que pipocam aos montes. E, acredite se quiser, já temos um partido ‘autista’ no Brasil (https://agir36.com.br/). Para quem quem se interessa pelo tema, recomendo demais o podcast do Ciência Suja, episódio “Mentes medicadas”. Vão passar a ver com outros olhos esta questão complexa e controversa.

        1. Hmmm, a parte dos médicos e terapeutas faz sentido. Agora… o partido do autista me pegou. Pior que é um rebranding de um partido cujo histórico parece-me complicado. Que loucura.

          1. Tem até plataforma de streaming (mais de uma) dedicada exclusivamente a este tema. Cursos, tem aos montes. Congressos, em SP vai ter uma ‘Expo’TEA este ano. E quanto ao partido… oportunismo descarado. Nem se quer pegaram uma pauta mais ampla, das pessoas com deficiência, por exemplo, foram direto no autismo, que é uma massa grande de família afetadas e de todas as camadas sociais. Enfim, nada que surpreenda… mas recomendo muito mesmo este podcast.

    2. Realmente entendo essa parte de “melhor para”, afinal é o sistema que vivemos.

      Se tem uma demanda, tem oportunidade de ganhar com a oferta.

      Mas não que isso seja ruim, fica mais difundido e com mais alternativas para quem precisa.

      É claro que, como tudo, tem os exploradores e picaretas.

  4. Eu sou autista e só recebi o diagnóstico em 2020 e o laudo médico em 2021. Tenho 31 anos agora. E foi uma das melhores coisas que aconteceu na minha vida pelos mesmos motivos que o seu: passei a entender muito mais o meu passado e as coisas que ainda passou até hoje.

    Eu não teria a mesma qualidade de vida de hoje se não fosse por isso e por finalmente receber intervenção terapêutica adequada pro meu caso. Tenho também diagnóstico de TAG e depressão crônica, e foi a partir do laudo que passei a usar antidepressivo. Virei outra pessoa.

    Minha rotina envolve passar grande parte do tempo com abafador (tenho hipersensibilidade sensorial), fugir dos estímulos do trabalho (nem sempre consigo), me exercitar na academia e ter um planner desde 2021 e que passou a facilitar muito o registro e execução de tarefas.

  5. Oi @Wally!

    Não consigo achar agora (estou na rua), mas já abordamos o assunto **TDAH** em algum outro post aqui no Órbita e foi muito legal ver relatos/experiências de outras pessoas (muita coisa igual, parecida e diferente)!

    Eu escrevi um pouquinho lá e posso detalhar mais um pouco depois (se tudo der certo e eu lembrar). 😁

    Eu tomei conhecimento sobre “DDA” quando passei um tempinho nos Estados Unidos (em 1997), mas só “liguei os pontos” alguns anos mais tarde e passei por profissionais de psicologia de linhas diferentes até chegar à uma psicóloga incrível, especializada em “Terapia Cognitivo Comportamental” e à uma Psiquiatra que também tinha graduação em psicologia: foi a psiquiatra que me diagnosticou (e medicou) e foi com a psicóloga que comecei a fazer terapia. Do momento em que tomei conhecimento sobre TDAH no Brasil (por volta de 2002 e ainda era conhecido como DDA), li livros (com dificuldade), pesquisei online, tentei marcar consulta com os poucos médicos que sabiam o que era TDAH naquela época, em Brasília, foram uns 4 anos.
    Não preciso dizer que minha vida mudou pra melhor, mas foi um processo lento. E nesses 18 anos, desde que fui diagnosticado, é importante dizer que a única constante é a necessidade de “inspecionar e adaptar”.

    Não vou entrar no tópico de medicamento, pois o que funciona pra uma pessoa pode não funcionar pra outra e – em alguns casos – nem é necessário o uso de medicamento (ou pode-se optar por não medicar e fazer uso de outras abordagens).

    A única coisa que eu posso recomendar de olhos fechados, sem medo de errar, é **terapia**. Eu passei por vários profissionais até encontrar aquela que fez “clique”, mas hoje sei que a linha/abordagem da Terapia Cognitivo Comportamental – TCC (ou CBT, em inglês) é a mais adequada para TDAH. Mas fique à vontade para fazer a própria pesquisa.

    A única coisa ruim foi ter que fazer tudo de novo depois que imigrei para Portugal, pois não há muitos profissionais que tem um conhecimento atualizado sobre o tema. Eu, literalmente, me consulto com os maiores especialistas do país (psicológico autor de livro e professor de cursos de especialização para profissionais da área / psiquiatra autor, pesquisador e professor universitário e que vive e atende a cerca de 100 Km de onde vivo): não porque tenho grana, mas por ter tido péssimas experiências tentando ser diagnosticado novamente aqui. Foi uma batalha de quase 3 anos, mas no final deu certo. 🙂

      1. Tem quase um ano? 🤯

        Taí uma característica do TDAH que é difícil de se acostumar: a “Cegueira Temporal” (Time Blindness).

  6. O que me desanima é quando vira doença da “moda” e aí vários supostos casos de TDAH aparecendo… (não digo do seu caso, até pq já tem 5 anos e também nem tenho condições nenhuma pra falar se está certo ou não)

    Me pergunto o contrário, se uma pessoa que não tem TDAH é “diagnosticada” como tal e começa um tratamento para isso, causaria algum problema à ela?

    Tirando essa parte da reflexão… estou no processo de identificar/diagnosticar se de fato tenho TEA – Transtorno do Espectro do Autismo (provavelmente se tiver é nível 1, por ser mais leve)
    Mas começo a me sentir como você estava 5 anos atrás.. Será uma jornada…

  7. O meio irmão das minhas filhas tem autismo nível 3. Digamos que eu, na minha ignorância, achava a (agora) ex-mulher do meu ex a criatura mais folgada do planeta por pedir a toda hora pra alguém dar uma “olhadinha” no guri. Hoje, depois de aprender com dois amigos (cujos filhos têm autismo nível 1 e 3) e sentir uma profunda vergonha pelas abobrinhas que eu um dia disse e pensei, não desejo para ninguém o que ela passa.

    1. Sei que é tangente ao tema principal, mas o número de casamentos que acabam após diagnósticos de neurodivergencias… e quase sempre são as mães que assumem a criação :-(

      O grande desafio nas escolas (onde trabalho) é criar espaços inclusivos para todos os tipos de estudantes (neuroatípicos e etc).