Mark Zuckerberg com expressão de incerteza durante apresentação de abertura da conferência F8, em 2018.

Mark Zuckerberg ignora (ou finge ignorar) os maiores problemas do modelo de negócio do Facebook


28/1/19 às 8h01

Por Gennie Gebhart, Jason Kelley e Bennett Cyphers

O artigo de opinião de Mark Zuckerberg publicado na quinta-feira (24) no Wall Street Journal (e traduzido pela Folha) se baseia apenas em repetições bem familiares para explicar os princípios duvidosos e os chamados “fatos” por trás do modelo de negócio do Facebook. É a mesma velha história que já ouvimos antes. E, como de costume, ele ignora as verdadeiras preocupações e preferências de privacidade dos usuários.

“Os usuários preferem anúncios relevantes”

Ele começa com uma das suas explicações clássicas: “As pessoas sempre nos dizem que, se vão ver anúncios, querem que eles sejam relevantes para elas”. Isso perpetua a falsa dicotomia favorita da indústria de publicidade: ou os consumidores têm anúncios “relevantes” — segmentados com o uso de enormes coleções de dados comportamentais sensíveis — ou eles podem ser bombardeados por spam de genéricos de Viagra e suplementos para perda de peso. A verdade é que os anúncios podem ser “relevantes” e lucrativos com base no contexto em que são exibidos, como colocar anúncios de equipamentos para atividades ao ar livre em uma revista sobre a natureza. Para receber anúncios relevantes, você não precisa se submeter a data brokers que coletam todo o histórico de tudo o que você fez dentro e fora da internet e o use para criar um dossiê sofisticado sobre quem você é.

Zuckerberg tranquiliza os usuários dizendo que “você pode saber por que está vendo um anúncio e mudar suas preferências para receber anúncios que sejam mais interessantes para você. E você pode usar nossas ferramentas de transparência para ver todas as propagandas que um anunciante está fazendo, mesmo que você não seja o público-alvo daquela campanha”. Mas uma pesquisa recente do Centro de Pesquisas Pew sobre como os usuários entendem as práticas de coleta de dados e publicidade do Facebook e os nossos próprios esforços para destrinchar as preferências de anúncios do Facebook contam uma história bem diferente.

O Pew descobriu que 74% dos usuários adultos do Facebook nos Estados Unidos nem sabiam que o Facebook mantinha informações sobre seus interesses e preferências de publicidade. Quando o Pew direcionou os usuários à página de preferências de anúncios onde algumas dessas informações residem, 88% descobriu que o Facebook gerou inferências sobre eles, incluindo o nível de renda familiar e “afinidades” políticas e étnicas. Mais de um quarto dos entrevistados disse que as categorias não os representam muito bem ou de maneira alguma.

Piora. Mesmo quando as preferências de publicidade que o Facebook lhes atribuía eram relevantes para seus interesses reais, os usuários não se sentiam à vontade com a empresa compilando essas informações. Como diz o relatório do Pew, “cerca de metade dos usuários (51%) diz não estar muito ou nada confortável com o Facebook criando essa lista sobre seus interesses e características”.

Então, gostaríamos de saber: com base em que Zuckerberg afirma que os usuários — a quem o Pew demonstrou não saberem e se sentirem desconfortáveis com a coleta de dados e a segmentação que alimentam o modelo de negócio do Facebook — suplicam pelos tipos de anúncios “relevantes” que o Facebook fornece?

Fluxograma da tela de pedido de consentimento do Facebook para usuários europeus.
Fonte: Relatório “Deceived by design”, do Forbrukerrådet.

Seu artigo prossegue afirmando que “quando nós pedimos às pessoas permissão para usar essa informação para melhorar os anúncios que elas veem, para cumprir com a nova legislação de proteção de dados europeia (GDPR), a ampla maioria delas nos disse que queria isso porque elas preferem ver anúncios mais relevantes”. Se Zuckerberg estiver se referindo aqui aos pedidos de consentimento que os usuários foram solicitados a clicar em meados de 2018 (documentados detalhadamente neste relatório e na imagem acima), essa declaração é um exagero na melhor das hipóteses. Essas solicitações faziam parte de um processo confuso projetado para maximizar as formas como um usuário poderia dizer “sim”. Em especial, bastava um toque para “aceitar” os termos do Facebook, mas três telas com mensagens para rejeitá-lo.

“Não vendemos seus dados”

Em seguida, Zuckerberg usa a cortina de fumaça de relações públicas favorita do Facebook: ele diz que o Facebook não vende seus dados. Pode ser que o Facebook não transfira dados do usuário para terceiros em troca de dinheiro, mas há muitas outras maneiras de invadir a privacidade dos usuários. Por exemplo, a empresa, indiscutivelmente, vende o acesso às informações pessoais dos usuários na forma de anúncios publicitários segmentados. Não importa o quanto Zuckerberg manobre, o modelo de negócio do Facebook se baseia em gerar dinheiro com os seus dados.

A transparência é um princípio necessário, mas não suficiente, em que o Facebook confia. Apenas saber como você está sendo rastreado não o torna menos invasivo. E qualquer esforço de transparência tem que confrontar o fato de que aproximadamente metade da população simplesmente não confia em empresas de mídia social como o Facebook para proteger seus dados.

Dizer uma coisa e fazer lobby por outra

Zuckerberg encerra seu artigo com um pedido de regulamentação governamental que codifique os princípios de “transparência, escolha e controle”. Mas, na realidade, o Facebook está lutando incansavelmente contra leis que podem fazer exatamente isso. Nos Estados Unidos, empresa batalhou ativamente para minar uma lei de privacidade de dados biométricos em Illinois nos tribunais e a Internet Association, da qual o Facebook é membro, pediu aos legisladores da Califórnia que enfraqueçam a Lei de Privacidade do Consumidor da Califórnia e está pressionando por uma lei nacional somente se ela “prevalecer” e reverter essas proteções vitais do Estado.

Quase todas as justificativas e alegações de Zuckerberg são familiares a qualquer pessoa que tenha acompanhado os recentes problemas de privacidade do Facebook. Mas os usuários do Facebook estão prontos para algo novo: políticas que promovam a verdadeira privacidade e o poder de escolha do usuário, e não apenas as desculpas e subterfúgios que Zuckerberg publicou no jornal.


Publicado originalmente no Deeplinks Blog da EFF em 25/01/2019.

Logo da EFF.A Electronic Frontier Foundation é uma organização norte-americana sem fins lucrativos que defende a liberdade e os direitos civis no mundo digital. O Manual do Usuário traduz conteúdo selecionado do blog da fundação — matérias pertinentes sobre temas importantes.

Foto do topo: Anthony Quintano/Wikimedia Commons.

Colabore
Assine o Manual

Privacidade online é possível e este blog prova: aqui, você não é monitorado. A cobertura de tecnologia mais crítica do Brasil precisa do seu apoio.

Assine
a partir de R$ 9/mês