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Quando os óculos de realidade virtual se tornam naturais

Mulher testando capacete de realidade virtual.

Ontem as primeiras unidades do Oculus Rift foram entregues aos clientes que fizeram a pré-compra. No futuro, a data poderá ser vista em retrospecto como o início da revolução da realidade virtual, evento que muitos aguardam há décadas, desde o “Ultimate Display” de Ivan Sutherland, e que, agora, 50 anos depois, tem as melhores chances de finalmente se concretizar.

Tecnicamente a solução parece estar madura, pronta para brilhar. O Rift, após anos em desenvolvimento, ganhou elogios entusiasmados da maioria dos sites que receberam unidades de testes. Um ou outro reclamou da falta dos controles especiais que só chegam no fim do ano, dos efeitos que podem causar à saúde — leves desconfortos na cabeça e a tradicional sensação de náusea — e, talvez o único ponto unânime, o alto custo para usufruir do equipamento. De qualquer forma, essas críticas foram mínimas se comparadas aos comentários positivos feitos aos jogos e aplicações já disponíveis e aos prognósticos de que isso será grande. Para uma primeira versão de produto em um segmento incipiente, a recepção tem sido muito boa.

Jornalista do Daily Mail usando Gear VR no metrô.
Foto: Paul Jerreat/Dailymail.

Apesar disso, ainda sobram desafios no caminho da realidade virtual rumo ao mainstream. Um pouco falado, pelo menos nesse momento de acesso ao Rift, é como as pessoas à nossa volta reagirão à nova tecnologia. Ela é cool? De certa perspectiva, sim. Mas por um bom tempo ela será muito mais esquisita do que descolada, quando, por exemplo, testemunharmos alguém com um óculos desses no metrô. Vencer essa barreira é algo meio fora do controle das empresas; depende mais de um consenso tácito entre todos os envolvidos. É, de qualquer forma, uma parte tão importante quanto outras mais objetivas na transformação de uma aposta em um fenômeno global e sucesso de vendas. A sensação de estranhamento inicial não é exclusividade da realidade virtual, como nos mostra a história e embora, sem muito esforço, nos esqueçamos com facilidade.

Vencendo a barreira da estranheza

Placa proibindo o uso de celular.Quando comecei a faculdade, na década passada, toda sala de aula tinha um aviso parecido com este ao lado.

Na época os celulares estavam numa fase de transição: tinham certa presença para se fazerem notar e até eram úteis vez ou outra para além do óbvio (ligações), mas estavam longe de terem o leque de funções que os tornariam tão importantes e onipresentes anos mais tarde.

Ilustração com uma mãozinha depositando uma moeda em uma caixa com o logo do Manual do Usuário em uma das faces, segurada por dois pares de mãos. Ao redor, moedas com um cifrão no meio flutuando. Fundo alaranjado.

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E não era apenas em recursos que eles se diferenciavam. A etiqueta também era diferente. Celulares tocando na hora errada, como durante uma aula, eram mais comuns; a opção de vibrar em vez de tocar ainda não era dominada por alguns. Havia também a convenção de, ao atender uma ligação, ausentar-se de um recinto mais cheio como uma sala cheia de gente querendo estudar. Hoje, isso não é tão garantido e não motiva tantos olhares de reprovação quanto em outrora.

A popularização, mais tarde, do smartphone fez com que tivéssemos que encarar novos dilemas do tipo no dia a dia. Dos mais recorrentes, mexer no celular enquanto se está conversando, presencialmente, com outra pessoa. Pouca gente confessa fazer isso e não ter problema com o ato, e embora a maioria recrimine, não é raro deparar-se com tal situação. Apesar do mito da multitarefa e de reconhecermos que é rude, aprendemos a nos comportar e a relevar situações assim pela urgência ou recompensas que as interações virtuais fornecem — muitas vezes preferíveis às presenciais.

Casal mexendo no celular enquanto toma café.
Foto: Matthew G/Flickr.

Note, ainda, que às vezes mudanças de comportamento desencadeadas por novas tecnologias podem ser mais sutis, quase imperceptíveis. Falar ao celular é algo cada vez mais raro e, para muitos, isso é um alívio — as pessoas tendem a gritar quando estão falando no aparelho, o que é bastante incômodo aos que estão ao redor. Mas você já parou para pensar por que isso acontece? Existe uma explicação. Por um bom tempo a qualidade das ligações foi ruim, tanto pela rede quanto pelos microfones dos aparelhos, e a tendência é atendermos às ligações móveis em locais mais cheios e, portanto, mais barulhentos. Esses dois fatores nos induzem a falar mais alto na esperança de sermos ouvidos por quem está no outro lado.

O fato do smartphone carregar consigo uma enxurrada de pequenas mudanças comportamentais é reflexo da importância que ele adquiriu nas nossas vidas. Somadas, essas mudanças fazem dele um divisor de águas da humanidade, até mesmo nas questões mais humanas. Apps como o Tinder mudam a forma como conhecemos pessoas e mesmo quando interações mais reais ocorrem o contato posterior passa pelo aparelho, afetando a conexão. Ficamos, por exemplo, genuinamente em dúvida sobre quanto tempo esperar antes de responder uma mensagem de alguém de quem gostamos. Escrevemos um livro sobre isso!

YouTubers gravando vídeo com o celular.
Foto: Daniel Nascimento/Flickr.

Entre os comportamentos mais vistosos e, para mim, fascinantes (para não dizer amedrontadores) dessa relação com celulares, está o de gravar vídeos para YouTube e Snapchat. Do nada alguém saca o aparelho do bolso, aponta a câmera para si mesmo e começa a falar como se houvesse alguém ali do outro lado. Não é algo genuíno; é uma performance. Eventualmente haverá espectadores (ou assim se espera), o que justifica todo o teatro, mas o ato em si é o de falar, em público, para uma tela vazia. Exige-se nele um desprendimento do local e de quem está à sua volta. O que antes era algo quase metafórico e restrito ao virtual, ou seja, a comunicação em tempo real com outras pessoas via chat, ganha contornos mais grossos com o vídeo. Não se está mais apenas ignorando a realidade; ao gravar um vídeo nesses termos, a pessoa cria um buraco na realidade, interfere ativamente nela para falar com os seus no ambiente virtual, deixando os que estão ali, fisicamente no mesmo local, desconcertados; em muitos casos, desconfortáveis.

Nada disso é exatamente novo ou exclusivo da geração digital, que nasceu mergulhada em bits. O Walkman, analógico, símbolo dos anos 1970, demorou a pegar. Foi preciso um esforço de convencimento por parte da Sony para que as pessoas entendessem do que aquilo se tratava e de que era ok a qualquer um andar por aí com fones pendurados nas orelhas, parcialmente alheio ao que acontece, ao menos no aspecto sonoro, à sua volta. O sucesso do Walkman dependeu tanto de uma acomodação social, da opinião pública, quanto dos avanços tecnológicos embutidos nele próprio.

Os exemplos vão mais longe na história. Reza a lenda que quando o telefone comum foi inventado, as pessoas não sabiam muito bem como se comportar ao atenderem uma chamada. Deveriam ficar de pé? Estar de banho tomado e cheirosas? Indo mais longe para ficar num exemplo batido, a filosofia no período socrático, na antiga Grécia, era essencialmente falada e debatida, sem registros escritos, porque reduzir um pensamento a texto era, para os filósofos de então, o mesmo que congelar o conhecimento, uma concepção que contraria a dialética deles. Em outros termos, uma tecnologia (a escrita) apresentava-se como uma ameaça ao status quo. Hoje, ~2500 anos depois, deparamo-nos com um problema com ares modernos, mas bastante similar: ler em telas é melhor ou pior para absorver o conhecimento de uma obra literária?

Cena do filme Ela.

Falar disso soa como se a ficção tivesse invadido o mundo real. Não por acaso. Se antes a ficção levava décadas para, geralmente com variações severas e de maneira muito mais simples, virar realidade, hoje ela rivaliza com o que podemos comprar e usar imediatamente. Ver Theodore falando com a inteligência artificial Samantha através de um ponto eletrônico em Her não é nada muito diferente de alguém falando com a Siri no iPhone ou, numa comparação ainda mais próxima, com o Google Now através de um Moto Hint. Felizmente, no caso da realidade virtual, as previsões sombrias do cinema dos anos 1990, envolvendo mortes e insanidade por overdose de realidade virtual injetadas diretamente no cérebro ou a dominação das máquinas de Matrix usando um universo fictício para nos cultivar, foram exageradas. A nova realidade virtual é uma TV para a geração que se habituou a enfiar o nariz no smartphone e a ignorar o que passa na… TV. Uma TV que exige o uso de óculos em formato de capacete bem chamativos.

Aquele cara estranho no metrô

O Oculus Rift e seus pares foram feitos para serem usado em casa. Ele precisa estar conectado fisicamente, por um cabo, a um computador relativamente potente. Mas essa limitação é temporária. Qualquer um consegue imaginar um futuro em que esses óculos especiais terão vida própria e, aí sim, colocarão à prova toda a estranheza de serem vistos em público.

Alguns lampejos desse futuro próximo já são possíveis com soluções móveis como o Gear VR. É esquisito e por um bom tempo será. Eternamente? É impossível prever, mas não é sandice apostar que não. Estamos cogitando a criação de leis que proíbam as pessoas de digitarem ao celular enquanto andam. O que impede que, em breve, gastemos o tempo no transporte público ou em nossos carros autônomos imersos em um universo paralelo, desligados da realidade por um capacete esquisitão, em vez de enfurnados na tela do celular? É algo muito tentador para deixar que o simples fato de parecermos esquisitos fazendo isso, para os padrões atuais, atrapalhar.

Foto do topo: Gabriel Cristóver Pérez/Knight Center.

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10 comentários

  1. Alguém indica um aplicativo para WP 8.1 de streaming de músicas com letras? Não gostei do Audiotica nem do Musicus.

  2. Daí o nego fica com um óculos desses na cara e é depenado por quem está ao seu redor e nem percebe isso.

  3. Acho que para uso público, além da questão social abordada no texto, a perda de visão é um grande entrava prático também. Você não vê nada do mundo real quando está utilizando ele certo? Para grandes viagens sem interrupção tudo bem, mas no meu dia-a-dia parece muito pouco prático para valer a pena utilizar um VR…precisaria ser algo mais similar ao Google Glass mesmo.

    Sobre a questão da moda, acho que sempre é solúvel, Beats é o melhor exemplo recente desse fenômeno que me lembro. Usar headphones fora de casa era coisa de freak, mesmo com a popularização dos MP3 players, era impensável sair com um over-ear na rua para pessoas “normais”. Com um marketing agressivo, eles tornaram o headphone um acessório de moda e popularizaram a questão da qualidade de áudio e tudo mais.

    1. acho que aqui entra o grande lance de fazer isso com smartphones. usar a câmera dele pra te mostrar o mundo real e sobrepor com o conteúdo. ou ainda para um sistema de reconhecimento de obstáculos, que vai te guiando através de tremores nos lados da cabeça ou algo assim

    2. Para uso em público me agrada muito mais uma solução como o Glass também. Alias a realidade aumentada faz mais sentido dessa forma, mas a sociedade não aceitou esse gadget e hoje ele só é considerado para usos profissionais e seria fantástico e engenheiro em uma obra com a capacidade de ver projetos em realidade aumentada, policiais, médicos, encanadores… As possibilidades são grandes e sonho com esse tipo de solução.
      Muito mais do que ver um filme num óculos.

      1. Concordo. O Google Glass tinha (ou tem) um baita potencial.

        Infelizmente vivemos em um mundo mimimizento, no qual a simples presença de uma câmera em um dispositivo como esse é um gerador de polêmicas automático.

        Afinal, eu reclamo de falta de privacidade, mas posto onde estou, com quem estou, o que comi e o que penso em todas as redes sociais possíveis e imagináveis. :/

      2. Concordo. O Google Glass tinha (ou tem) um baita potencial.

        Infelizmente vivemos em um mundo mimimizento, no qual a simples presença de uma câmera em um dispositivo como esse é um gerador de polêmicas automático.

        Afinal, eu reclamo de falta de privacidade, mas posto onde estou, com quem estou, o que comi e o que penso em todas as redes sociais possíveis e imagináveis. :/

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