O código Bill Gates

Close em Bill Gates de óculos com uma tela refletida nas lentes.

O código Bill Gates (trailer), novo documentário de Davis Guggenheim lançado recentemente pela Netflix, faz jus ao título original — numa tradução livre, algo como “por dentro do cérebro de Bill”.

O documentário se divide em três partes de pouco menos de uma hora cada, todas com uma estrutura que costura os desafios atuais do filantropo Gates com sua biografia, incluindo alguns momentos-chave dentro da Microsoft. Guggenheim se vale — e faz bom uso — do amplo acesso que teve a Gates, sua esposa Melinda, as irmãs do bilionário e amigos e colaboradores, alguns de longa data.

Desde que deixou o dia a dia na Microsoft, em 2006, Gates se dedica integralmente à Fundação Bill e Melinda Gates, iniciativa filantrópica que criou em 2000 com sua esposa para atacar problemas de base em escala global que, por motivos vários que se revelam no documentário, ainda não foram sanados. Deles, três são mostrados na série: prover saneamento básico a países paupérrimos, erradicar a poliomielite e popularizar meios modernos e mais seguros de geração de energia nuclear.

Os relatos pintam Gates como alguém de intelecto ímpar, dono de uma mente privilegiadíssima. A certa altura, Melinda refere-se ao cérebro do marido como “um caos” e que não gostaria de estar lá dentro. Mas é um caos ordenado, diz em seguida. A forma de ele raciocinar e sua postura workaholic explicam, em grande parte, a ascensão da Microsoft. (A outra parte, como críticos que não aparecem no vídeo rápida e corretamente apontam, foi sorte de estar no lugar e na hora certos.)

Os desafios na fundação são permeados por detalhes da intimidade de Gates e passagens reveladoras da sua infância e dos bastidores da Microsoft. Dos amigos mais próximos que se foram em fases diferentes da sua vida, da vez em que ponderou se deveria ir mal de propósito em um teste seletivo para uma nova escola. Da Microsoft, ele fala abertamente do processo antitruste movido pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos em 1998 — nas palavras do próprio, uma “ameaça existencial” à empresa que criou. Neste e em outros momentos, quando fala da sua relação com Melinda, um Gates humanizado, muito diferente daquele executivo implacável dos anos 1990, se manifesta. Às vezes parece que não, mas é um ser humano, afinal.


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Teve quem se frustrasse com a série por ela não focar na parte da história em que Gates constrói a Microsoft e se torna, no processo, a pessoa mais rica do mundo. Para mim, o grande mérito de O código Bill Gates é justamente o foco narrativo em outras passagens da sua história. A dos piratas do Vale do Silício já foi exaustivamente encenada, relatada e rememorada. As da criança prodígio, do marido e pai ausente, do executivo exausto no embate com a Justiça e do filantropo resiliente, todos sempre à sombra do maior executivo da sua geração, finalmente ganharam um espaço merecido. São facetas tão interessantes quanto a mais famosa de uma dessas poucas pessoas que podem ser descritas como geniais sem que isso soe como a uma hipérbole.

Assistir a’O código Bill Gates pode ser também um chamado à consciência do mundo fraturado e desigual em que vivemos. É difícil superar a conclusão de que questões vitais e há muito resolvidas em países desenvolvidos parecem só ter uma chance de serem sanadas nos pobres porque um Homem Branco Bilionário Norte-Americano comprou essas causas como suas e despeja nelas toda a sua dedicação, conexões, intelecto e toneladas do próprio dinheiro e do de seus amigos igualmente ricos.

Gates, um dos grandes do século XX, já tinha seu nome gravado na história pelo legado na Microsoft, mas parece que ele quer ser lembrado não pelo Windows ou Office, mas por vasos sanitários que funcionam sem água. Tomara que consiga.

Foto do topo: Netflix/Divulgação.

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6 comentários

  1. Eu gostei acabei de assisti, gostei bastante do seriado e do Bill Gates, eu tinha uma visão dele muito parecida com aquela dos depoimentos…o que é um lado, mas apenas um deles.

    A fundação deles sempre pareceu algo sério, em que ele despendia muita atenção e foco para resolver, mas também tenho receio da mensagem que alguns tiram da fundação que é provas pela exceção que os bilionários são “justificáveis” na nossa sociedade.

    Além do esforço, gostei também da forma que ele trabalha, é uma crítica válida a ideia de que jogar engenharia e tecnologia nos problemas não é solução para tudo…mas quando dá certo pode ser um grande pulo e duvido que muitas outras fundações tenham a mesma capacidade/interesse em atuar dessa forma.

  2. Assisti ao primeiro episódio, por enquanto, mas o que me chamou muito a atenção foi a Melinda Gates. Grande mulher, também de uma inteligencia impar.
    Tenho a impressão que boa parte das realizações pós Microsoft se devem a ela (e deve ter uma parte importante na construção da Microsoft também).

  3. Mais do que estar no lugar certo e na hora certa, ele tinha uma família com amplas condições de lhe prover acesso a educação de qualidade – tanto que foi aceito numa Ivy League – e acesso desde cedo a computadores, o que, de longe, foi o que mas influenciou essa geração de “pioneiros” da computação nos EUA.

    Se ele não fosse bem de vida (classe média, pelo menos), morasse no Bronx e dependesse de food stamps pra comer, provavelmente não conseguiria fazer nada e teria morrido na guerra do crack dos anos 90.

    Isso não lhe tira boa parte do mérito de criar a Microsoft, claro, mas coloca em perspectiva porque ele conseguiu criar a empresa e posteriormente se tornar bilionário. Essa narrativa/perspectiva sempre é deixada de lado quando se conta esse tipo de história e faz crer, para muita gente, que eles são frutos de uma força da natureza incontrolável e de trabalho duro diário.

    Não é bem assim.

    O Cris Dias lançou ontem um episódio novo do “Boa Noite Internet”, o podcast dele, que ele fala um pouco sobre isso, mas usando o Steve Jobs como exemplo. Vale a pena ouvir (é curto, ~25 minutos).

    1. o cavalo passou arriado…e o cavalo foi a INCRÍVEL estupidez da IBM em criar o IBM-PC mas usar o MS-DOS como sistema operacional, e além disso permitir que a Microsoft licenciasse o sistema para os concorrentes…a IBM deveria ter centenas de pessoas com capacidade de criar um sistema para o PC melhor que o MS-DOS, mas a estupidez dos executivos levou a melhor…enfim, são águas passadas, mas eu acho que o uso do MS-DOS atrasou em pelo menos 10 anos a indústria da informática

  4. Achei o documentario bem legal. Mas choca a questao que de chega um ponto que nao basta dinheiro para resolver os problemas – como quando tiveram ataques do Boko Haram, combater boatos contra vacinas ou algo trivial quanto mapas para determinar o local de atuacao de uma equipe de vacinacao. Exige envolvimento pessoal e certa dose de pragmatismo.
    No geral, um pouco cansativo, mas bom documentario.

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