“Tudo que acontece deve ser conhecido”: Debate do livro O Círculo, de Dave Eggers

O Círculo em cima de uma mesa.

Não será por O Círculo que, daqui a alguns anos, poderemos bater no peito e dizer que a nossa geração também teve o seu 1984 (de 1949) ou Admirável Mundo Novo (1932). Esses dois clássicos são referências fortes no livro de Dave Eggers, objeto do nosso debate de hoje, mas, na verdade, sinto dizer: em termos literários, estamos bem longe de termos algo parecido. Isso não significa, porém, que se trate de uma obra vazia. Por aquele texto relativamente fraco argumentos e indagações inquietantes se revelam.

Acho pouco provável que romances como os de George Orwell e Aldous Huxley sejam escritos outra vez, porque, afinal, além de vivenciarmos o mundo de outro modo, a nossa pós-modernidade é marcada de modo severo pela fragmentação. O Círculo, portanto, é um pedaço das várias histórias que vamos coletar e juntar a tantas outras pra termos a impressão, um pouco vaga, de que vivemos em tempos de profundas mudanças que só os homens do século XX que ainda habitam o XXI conseguem enxergar: a hegemonia do capitalismo e a possível conexão entre todas as almas que ainda habitam o planeta. É, definitivamente, outro mundo e ele ainda não foi percebido e assimilado por um único escritor (arrisco dizer que nunca será a partir de agora), cabendo a nós juntar esse cacos. Assim sendo, as configurações são infinitas e é bem provável que cada um tenha a sua.

Abrindo um parênteses, daria pra colocar, forçando um pouco a barra, lado a lado, O Círculo com, por exemplo, Clube da Luta (1996), de Chuck Palahniuk, que também não é uma obra-prima, mas arrebatou muita gente.

Algo que talvez tenha passado batido pela crítica e pelos leitores d’O Círculo, já que boa parte das avaliações se inclina para um dos dois extremos (uns acharam ótimo, outros, fraco), é o fato de Dave Eggers ter explorado algo que, atualmente, não está sendo visto pela maioria como um cenário pavoroso e já em curso: a “escravização” dos trabalhadores intelectuais. No romance, que se passa num futuro não tão distante assim, a produção de tudo que está na e é usado pela empresa Círculo praticamente não entra em questão. É algo simplesmente incontestável e não se vê os bastidores em detalhes. Há uma única referência à China, que produz as famigeradas câmeras SeeChange (que são praticamente perfeitas: a bateria dura dois anos, a resolução é incrível, são leves e portáteis):

“A produção das câmeras, ainda inacessíveis para os consumidores comuns, passou a ser feita num ritmo acelerado. A fábrica, na província de Guangdong, na China, aumentou os turnos de trabalho e deu início a construção de uma segunda unidade a fim de quadruplicar sua capacidade de produção”.

Funcionários no escritório do Google.
Escritório do Google em São Paulo. Foto: Claudio Pepper.

Não há subempregados no Círculo? É bem pouco provável que não, afinal, os dormitórios ocupados pelos funcionários, quando esses desistem de voltar pra casa por conveniência e total esgotamento, encontram quartos limpos, roupas novas e tudo em perfeito estado. Alguém deve fazer isso ainda, já que robôs inteligentes (assim como carros inteligentes; Mae passa um bom bocado de tempo passeando pelas estradas da Califórnia pra ver os pais) não dão o ar da graça na história. Daria para transpor O Círculo em uma série de TV como Downtown Abbey sem muito prejuízo, bastaria desconsiderar a tecnologia e a presença dos lacaios e pronto; os dramas são parecidos (mas a qualidade dos diálogos, não).

Ao dizer à nossa heroína, Mae Holland, na apresentação da empresa a ela, que “isto não é uma fábrica que suga o sangue dos operários”, há a contraposição em trabalho braçal (sanguíneo) ao trabalho intelectual (cerebral). No decorrer da história Mae fica cada vez mais atribulada (as diversas telas que ela deve operar emulam as telas de um operador do mercado financeiro e crescem em quantidade ao longo da história) e não são apenas as suas escapadas da realidade e aventuras sexuais que saem do escopo da postura puritana-ilibada-sanfiticada que um funcionário do Círculo deve ter, mas é necessário que todo o tempo do empregado esteja preenchido com atividades sociais nas redes ou eventos, respondendo a questionários sobre produtos, treinando novatos, etc., tudo ao mesmo tempo e em sessões extenuantes. Quando ela se trona transparente, então, isso se acentua ainda mais. Eggers passa longe de celebrar as novas fendas que rasgam o economia tradicional de um capitalismo até que apaziguado (e sem ameaças no horizonte) apesar das crises que fazem fortunas trocarem de mãos em um átimo, seja nas bolsas mais importantes do mundo ou nas vendas bilionárias de novas empresas que surgem como notificações num smartphone.

“Somos um grupo formado pelas melhores mentes da nossa geração. Gerações”. Eis uma chave de compreensão do livro: a exploração que engendra o capitalismo, sem a qual ele não é possível, transmuta-se em devoção religiosa, porque, do contrário, o que justificaria a adesão de tantos jovens a uma empresa espetacular e espetaculosa que cultua seus líderes (imersos em mitologias de fundação, referenciados como os “sábios”) e faz deles seres superiores? Salários não parecem ser o maior interesse da Geração Y ficcional (e também da real), então, vem a “qualidade de vida” e, por que não?, também a fé na empresa. Lá pela página 349 as pessoas, como Mae, trabalham “voluntariamente e com evidente satisfação”. Escamoteia-se a exploração pela via do fanatismo empresarial, danoso aos empregados e ao resto do mundo, o alvo dos negócios da empresa, marchando a um totalitarismo em novos moldes.

Orwell cantava essa jogada em seu livro e, ainda hoje, é de dar calafrios vislumbrar um mundo em que a vigilância é total, onde há uma polícia do pensamento, e a história é reescrita (a história deve ser sempre reescrita com novos filtros, mas não como no livro, por favor!) de maneira pérfida: apagando e deturpando fatos. Huxley, por seu turno, apontava um mundo utópico de perfeição genética, liberdade sexual plena e acesso ilimitado ao Soma, uma espécie de droga que daria estabilidade mental a todos. Ambos os mundos parecem bem presentes na obra ficcional de Eggers, mas em nova roupagem que, a nós que vivenciamos o agora, parecem ser boas e também ruins, dependendo do ponto de vista. E como vivenciamos os debates reais em tempo real, não temos o distanciamento histórico necessário para arranjar uma posição certeira nisso tudo.

Será pelo crivo das gerações futuras que o nosso “pioneirismo” será julgado. Se optarmos, por exemplo, por cada vez mais abrirmos mão da nossa privacidade (algo apontado como a salvação em O Círculo), que mundo habitaremos? Difícil saber, porque aos que resistem (e a resistência geralmente é um lugar desconfortável), a derrota pode implicar em esquecimento, vergonha e infâmia, mas, ao que parece, é pouco provável que o esquecimento seja possível no futuro dada a fé (literal) que depositamos nas tecnologias. E como vocês puderam ler: “Não deletamos nada no Círculo”. Isso soa familiar?

Fico satisfeito em saber que o meu parto não está na web, assim como os vexames que dei quando jogava bola com os amigos e levava uma caneta ou tomava um frango, ou que algum comentário estúpido possa ter passado batido e ninguém tenha se magoado com ele… As coisas não são mais assim (com o agravante de que tomamos decisões sem pensarmos na reação das gerações futuras: nossos filhos, irmãos mais novos ou pessoas que gostamos ao se verem na rede daqui a uns anos) e ter que pensar sobre tudo o que escrevemos e antever seu impacto já é um tolhimento das nossas formas de expressão.

O narrador de O Círculo, a certa altura, sugere que se delineie uma justiça poética. Em tempos de judicialização (para o bem e para o mal) dos rumos do nosso país (com direito a políticos que se recusam a serem “transparentes” como no livro e talvez sendo essa a sua parte mais inverossímil), a frase do artista Helio Oiticia, “seja marginal, seja herói”, soa ainda mais subversiva em mundo que trocou a presunção da inocência pela culpa certeira. Quando contraposta aos argumentos dos personagens do livro de Eggers, as coisas extrapolam ainda mais: “Quem mais senão alguém de personalidade marginal tentaria impedir o inexorável aprimoramento do mundo?” O dualismo entre o bom e o mau, sem as nuances (os repetidos pedidos de exemplificação deixam Mae sem saída para justificar a necessidade dos segredos em nossas vidas quando conversa com seu chefe) é outra chave que ajuda a entender o livro — e também um mundo que pensa por exemplos rasos. Somos postos contra a parede o tempo todo por vozes de autoridade que cobram nosso posicionamento e, para essas vozes, não há meio termo: é sim ou não. A adesão é obrigatória e, sem os contornos que delineiam os diversos modos de vida, grosseiramente padroniza-se tudo e a diversidade e a variedade humana se esgotam como baterias.

De um modo geral, estamos diante de uma “obra-alerta” (e como todo bom alerta, inevitavelmente estridente). Ela não nos amedronta tanto quanto nos amedrontaria se tivesse sido escrita (e melhor escrita) há uns 20 anos ou menos, porque já temos reportório para digerir a situação que presenciamos sem tanta dificuldade, afinal, é raro achar alguém que não tenha uma conta no Google, um perfil no Facebook, ou que não use um produto da Apple ou Microsoft (parte delas todas derrotadas pela empresa Círculo no livro). Mas alertas precisam ser dados antes que os desastres ocorram e se estamos em meio a um já não haveria mais tempo e todos sabemos que sincronização é o pulo do gato hoje em dia. E como aqueles que preferiam ver a orquestra tocar enquanto o RMS Titanic afundava, vamos nós a uma boa playlist no Spotify pra embalar a discussão!

Algumas críticas sobre O Círculo:

E um agradecimento especial ao Flávio Moura e a Clara Dias, da Companhia das Letras, por terem cedido um exemplar do livro para sorteio entre os assinantes do Manual!

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96 comentários

  1. Um artigo sobre o livro de que gostei muito foi o do Pedro Burgos: http://oene.com.br/quando-o-circulo-se-fecha/

    Eu lembro que, quando li 1984, achei de cara que as pessoas jamais permitiriam que algo assim acontecesse. Só que aí depois eu li A Revolução dos Bichos e considerei um “prequel”, algo como a explicação que eu precisava de como as coisas podem “evoluir” até chegar aquele ponto (na verdade eu preciso ler esses livros de novo porque li ainda muito nova).

    Já quando li O Círculo, ficou mais fácil pra mim perceber o “alerta” como algo perfeitamente possível, talvez por ser uma realidade mais próxima do momento em que vivemos (de repente quem leu 1984 na época do lançamento também sentiu como algo mais provável de acontecer também).

    O meu veredito é que a premissa é fantástica, mas a história, diálogos, desenvolvimento de personagens etc, é tudo muito fraco. Eu acho que fez “sucesso” justamente porque a ideia foi muito boa e fez muita gente despertar para a questão da privacidade x transparência e outras questões de nosso tempo. Pra quem já refletia sobre isso antes de ler o livro, não sobra lá muita coisa que “se salve” no livro.

    1. Boa, Cintia! Esse artigo do Burgos, infelizmente, só vi agora com a sua indicação. Ele escreveu no calor da hora e isso é sempre mais difícil. Vendo o livro alguns anos depois fica mais fácil ponderar sobre ele.

  2. Algo interessante a notar tb é q o seu ex-emprego público é simplesmente detestável, assim como seu ex-namorado. Mas a contraposição ao emprego público e privado indicam q um é desnecessário, pq o outro é muito superior. Há margem pra reflexão aí tb. Será mesmo possível um dia dispensarmos totalmente os serviços públicos?

      1. É isso. Também estava na dúvida, mas tem uma passagem em que alguém apelida ela (numa festa, salvo engano) de “Mayday”, presumivelmente devido à sonoridade do nome.

    1. Confesso q fiquei tentado em dar ao título do post o nome de “Mae segurou na mão da mãe”, mas o Ghedin ia barrar…

  3. E o tubarão transparente como metáfora pra como o ser transparente é uma espécie de fome sem fim? A cena não é ruim em termos imaginativos, mas, sei lá, foi um negócio meio perdido no livro. As idas ao lago q a Mae fazia eram interessantes, mas foram meio q deixadas de lado… A Mae era meio perdida nesse mundão, pobrezinha.

    1. Eu não tinha reparado nessa metáfora, não diretamente pelo menos. Para mim, o tubarão seria a figura do Stenton. Mas muito bem observado da sua parte.

      1. Estou chutando, acho q é isso. Pelo tubarão ser transparente e digerir tudo numa velocidade incrível, isso me pareceu como uma metáfora ao q eles vivenciam. É uma mistureba de referências: as buscas submarinas e captura dos animais das fossas de Mariana equivaleriam aos feitos de um Capitão Nemo, do “20 mil léguas submarinas”, do Jules Verne, entrelaçado com um show de monstros bizarros bem ao feitio do interesse europeu na época das grandes navegações pelos “monstros” encontrados nos trópicos e também nos monstrons imaginados que habitavam as águas nunca antes navegadas. Bom, não à toa cada unidade lá do Círculo tinha um nome de período histórico. Enfim, há muitos bons elementos no livro q renderiam uma baita história, mas ficou tudo meio pelo caminho e com personagens tão sem sal… digamos q esse peixe morreu na praia.

        E aquela de contar a areia do deserto do Saara!? Aí eu senti uma bela cutucada ao mundo tech de bizarrices q os caras inventam pra mostrar q são fodões.

        1. A areia do Saara é um dos poucos experimentos do Círculo que soam declaradamente como uma paródia/caricatura das empresas de tecnologia do mundo real. Eu ri dessa parte e fiquei imaginando o potencial que haveria caso o autor seguisse essa linha no restante da história…

  4. E a dona Mae? Uma personagem fraca, manipulável, deslumbrada. Eu a vi como uma extrapolação do comportamento dos jovens nesse novo mundo conectado. Ela é caricata, mas infelizmente não é difícil de engolir.

    1. Mas não é muito diferente do que costumamos ver, não? O Círculo é quase um TelexFree ao extremo: o funcionário veste a camisa mesmo, como se isso fosse parte dos requisitos para a vaga. Mas no mundo real isso também acontece com bastante frequência.

      Essa “exigência” é algo que sempre me intrigou. Mesmo em grupos não relacionados a trabalho, em demandas mais, digamos, legítimas ou nobres, ou por puro divertimento ou, ainda, para apenas conhecer pessoas, nunca consegui dar esse abraço imediato e irrestrito que, pelo que vejo ao redor, parece ser a conduta padrão das pessoas.

      1. Há o legítimo engajamento em determinadas causas – sejam quais forem -, mas, de fato, como é possível toda essa adesão? O vazio tem q ser muito grande pra alguém encontre sentido pra viver nesse tipo de comportamento. Cada um vive como quiser, claro, mas parece q ao aderir assim o q se tem a fuga ou o contorno dos problemas reais q pessoa tem. Mae, na história, estava sempre meio q escapando pra outros lugares…

      2. Há o legítimo engajamento em determinadas causas – sejam quais forem -, mas, de fato, como é possível toda essa adesão? O vazio tem q ser muito grande pra alguém encontre sentido pra viver nesse tipo de comportamento. Cada um vive como quiser, claro, mas parece q ao aderir assim o q se tem a fuga ou o contorno dos problemas reais q pessoa tem. Mae, na história, estava sempre meio q escapando pra outros lugares…

    2. Pois é, no início eu pensei que ela seria mais esperta e não caíria no papinho. Mas no decorrer do livro, ela fica cada vez mais dentro do universo. Ela cai na lavagem cerebral e compra o discurso da realidade distorcida. Nada diferente da realidade.

      1. Poxa, mas ela tem uns dilemas e não necessariamente gosta naturalmente de seguir todas as regras. Ele teria forças pra resistir e não aderir tão fervorosamente. Ele pintou o perfil de uma mulher até q aventureira, mas depois virou mó patricinha…

    3. Com certeza há gente muito ingênua e cheia de dilemas por aí, mas a Mae, enquanto protagonista ou tentativa de protagonismo, falha miseravelmente. Não teria como dizer q é adesão, pq ela tem dilemas e ao mesmo tempo não tenho como dizer q ela é fraca, pq ela tem desejos e aspirações. É um personagem mal construindo pra carregar uma história, na verdade. Mesmo faltando densidade ela precisaria ter algo mais q uma conversa meio besta com o ex ou o contato pueril com os pais q ora a adoram e ora a condenam. Faltou fôlego pra todos os personagens. Se fosse um filme, certamente o destaque será a pulseira e outros aparelhinhos e não os atores se se fiarem demais no livro. Por outro lado, o enredo do filme, se bem costurado, daria um bom “Blackmirror”.

        1. Vai saber se a ideia não era só conseguir vender os direitos do livro e faturar uma grana!? O Eggers é um bom escritor, então estou pasmo com esse livro. Poxa, o cara tá na nova revista literária, a “Freeman”, e é até bme badalado nos EUA. Não sei o q houve dessa vez. Talvez o filme consiga dar uma melhorada em tudo: escalaram a Emma Watson, q tem se revelando uma ativista na vida real, pro papel de uma mulher indecisa na história? Tá com cara de q vão mexer nesse roteiro q é escrito pelo James Ponsoldt. Tomara q seja melhor!

          1. Vamos ver. Ainda não vi nada desse diretor, quero ver inclusive, mas os últimos dois filmes dele são bem elogiados.

          2. Alguém indicou ele num Qual é a boa? recente do Braincast. Fiquei bem interessado, até porque conheço pouco sobre o David F. Wallace.

          3. É uma forma de ter contato. Mas se vc for ler o DFW comece pelos contos :)

          4. Geralmente mexem bastante nessas adaptações (aliás, daí serem “adaptações”) e, fora um ou outro fã chato (o que esse livro não deve ter), geral gosta do resultado. Mesmo livros medíocres podem resultar em filmes legais — ocorrem-me agora, sem pensar muito, O Lado Bom da Vida e As Vantagens de Ser Invisível. Na torcida para que isso aconteça com O Círculo também!

          5. Parece q ele se convida para os filmes… Não é possível q sempre pensem nele pra tudo qto é filme!

          6. Pra mim um dos melhores exemplos recentes de adaptações para o cinema que superaram (e muito) o livro é O Diabo Veste Prada. O livro original é um mimimi sem fim de uma personagem chateada com a chefe, que fica fazendo intervalos o tempo todo pra ir fumar, usa o cartão corporativo da empresa pra fins particulares e não apresenta um tantinho sequer de amadurecimento. Enquanto isso, o filme teve excelentes atuações e um foco nítido no crescimento da personagem principal.

      1. As partes mais sinistras do livro, são de fato, terríveis se concretizadas no mundo real. Mas, felizmente, haveria muita resistência, assim como já há hj para um cenário não tão terrível.

    1. Gostei pelo cenário que ele cria e da forma como podemos traçar comparativos com a realidade e imaginar como será um futuro próximo. Mas os diálogos e a narrativa são bem fracos.

    2. Gostei bastante. Apesar de que, como obra de ficção, o livro não seja nenhuma maravilha, como ponto de partida para pensamentos e análises mais críticas sobre o momento em que vivemos, e que queremos viver, é uma ótima obra.

    3. Faz tanto tempo que li, não me lembro de ter ficado muito cativado com a história, mas os questionamentos são ótimos: vigilância profunda consentida, endeusamento das empresas pelo público e funcionários, além do peso do passado.

      1. Achei os temas importantes, mas os questionamentos não tomaram forma de questionamento e os dilemas e as adesões dos funcionários do Círculo me pareceram artificiais demais. Além de ser tudo muito pouco crível – com o autor tentando fazer ser -, a mistura de referências embaralhou demais o circuito. Não à toa vc comentou q não se lembrava muito da história. Creio q ela tende mesmo a ser esquecida, como um comentário no face soterrado por tantos outros comentários.

    4. Sigo na mesma linha da maioria do pessoal que já comentou: o tema a ser abordado é bom, existem algumas boas ideias durante o livro, mas grande parte dessas boas ideias são largadas durante o desenvolvimento da história, e a escrita do autor (ao menos nesse livro) pareceu-me bem comum.

      Em resumo, bem “mais ou menos”.

    1. Eu achei interessante a virada na vida da Annie. Além do clichê “ciúme da amiga que está fazendo mais sucesso”, subitamente o sistema que a Annie amava e ajudara a erguer se volta contra ela e a destrói.

      1. Eu já achei meio abrupta. Na real todas as personagens são muito ingênuas, num nível inverossímil, e mesmo os contatos pela rede do Círculo são quase que caricaturas do que provavelmente aconteceria de fato. Não existem zings-textões? Ninguém dá indireta, ou briga online? (Note que mesmo as desavenças, como quando Mae não comparece ao evento sobre Portugal que o colega a convidou, são resolvidas presencialmente.)

        1. Também achei os zingadores muito paz e amor. A história tenta justificar, dizendo que não há fakes, então todo mundo se comporta civilizadamente. Mas nos grupos do Zap também não tem face e a baixaria come solta. Mesma coisa em grupos de discussão do Facebook. Até em grupo sobre maternagem já vi sair Luta Livre.

        2. Faltou umas tretas sinistras nesses livro pra coisa ganhar corpo. A turma do Zing seria facilmente confundida com a turma da Xuxa.

    2. Nenhuma passagem específica, mas algo que sempre acontecia e me “dava nos nervos”: como o público usuário do Círculo é carente / chato / inconveniente, hein?

      O que tinha de cobrança por não responder mensagens em um curtíssimo tempo, ou por querer algum feedback imediato era bizarro.

      Parecia uma versão hardcore das neuras relacionadas ao ícone de mensagem entregue / visualizada no WhatsApp…

      1. Muito, cara! Anotei várias vezes no livro: “povo chato do inferno”! Se eu trombasse com um tipo como o Alistar ia ser complicado não bater nele.

      2. Muito, cara! Anotei várias vezes no livro: “povo chato do inferno”! Se eu trombasse com um tipo como o Alistar ia ser complicado não bater nele.

  5. 3. Vocês acreditam na possibilidade de políticos se tornarem, de algum modo, transparentes? No Brasil, mesmo com as incríveis câmeras SeeChange eles dariam um jeitinho de escapar à vigilância?

    1. Primeiro, não. Segundo, com certeza! O livro dá a entender que as câmeras SeeChange, apesar de estarem em praticamente todo lugar do ambiente público, ainda não são um padrão dentro das casas (e nem era essa a intenção na verdade). E se a transparência era opcional após as 22:00h, muita coisa pode acontecer por baixo dos panos daí até o amanhecer.

    1. Apesar de eu achar que estamos longe disso, o nível de “engajamento” nas redes sociais e outras varia muito de pessoa pra pessoa, né?

      Talvez (digo talvez por não estar entre os mais ativos) os usuários que usem plataformas com mais frequência e/ou que estejam mais centralizados em um mesmo ecossistema possam ter uma experiência que lembre, mesmo que de longe, o cenário descrito do livro.

      1. Justamente, no livro há, praticamente uma única empresa (q derrotou tb o Baidu) e isso, provavelmente, facilitaria as coisas. Aqui e agora ainda é tudo muito diverso e muito retalhado. A história do Eggers só funciona num mundo sem conflitos o q me parece simplesmente improvável em qualquer situação.

  6. 5. Existe uma exploração cada vez maior dos trabalhadores de um modo geral ou as gerações atuais e futuras encontraram um forma de vivenciar a “qualidiade de vida” plena?

    1. Talvez seja um viés de confirmação, mas pelo que vejo existe uma preocupação muito maior hoje em dia em trabalhar menos/trabalhar melhor e por consequência viver melhor/com mais tempo livre.

    2. Talvez seja um viés de confirmação, mas pelo que vejo existe uma preocupação muito maior hoje em dia em trabalhar menos/trabalhar melhor e por consequência viver melhor/com mais tempo livre.

      1. Mas e a gaita!? Vamos viver de sorrisos e caras feias? Parece q o ideal seria a entrega absoluta do empregado do círculo à missão e aos princípios da empresa… Temerário isso.

        1. É muito cedo pra dizer, mas com a quantidade de automação que já existe, e que deve aumentar muito a curto e médio prazo, eu vejo duas soluções: ao invés de ter um empregado trabalhando 8h por dia, teremos dois trabalhando 4h, mas recebendo como se trabalhasse 8h, ou então, dois trabalhando 4h e recebendo por 4h, mas nesse caso, só seria possível com uma redução proporcional nos preços de tudo.

          1. Acho q os empresários vão dar muitas caras feias pra essa ideia.

          2. Tem isso no Ócio Criativo, não tem? Tem a ideia de que pessoas serão remuneradas para ir ao cinema, por exemplo. O Google Rewards me paga pra que eu diga se eu fui à loja tal recentemente, qual a marca de xampu, pra onde eu pretendo viajar…

          3. Não conheço nem esse Ócio Criativo nem o Google Rewards, qual é a dessas paradas? Mas de imediato, esse do Google me lembrou as pesquisas que Mae responde freneticamente no Círculo.

          4. O Ócio Criativo é um livro do Domenico De Masi (editado para indicar o autor correto!). O Google Rewards é um app que paga pelas nossas respostas com crédito pra gastar na Play Store. Eu sou sincera, meu marido que mente em todas as respostas :)

          5. Acho q esse livro é do Domenico De Masi. Ele fez muito sucesso por aqui com essa ideia, mas morreu nisso. Nosso empresariado, q ainda controla as empresas (e os cargos de direção) ainda não assimilaram isso e veem mesmo q só o trabalho árduo e visto como sacrifício é válido (além da boa e velha exploração)… Estamos longe de disseminar isso pela sociedade e esse ócio criativo está, hoje, relegado aos jovens abonados q podem usufruir o melhor do mundo graças as heranças q acumulam.

      2. Eu vejo essa movimentação de trabalhar menos/viver melhor como uma resposta à pressão do outro grupo (que a mim parece mais numeroso e barulhento): o dos que dão o sangue pela empresa e não ligam de fazer serão. Essa impressão também se relaciona àquela demonização do ócio, como se estar à toa fosse inerentemente ruim. E ante a perspectiva desse futuro com menos coisas para fazer (os bots da Microsoft são um reforço nesse sentido), parecer útil/ocupado ganha contornos mais dramáticos, quase uma questão de sobrevivência.

        1. Sim, realmente. Em todas as empresas que trabalhei até hoje, com exceção da última, ficar sem fazer nada era praticamente um crime. Mas isso me parece ser algo que gerações mais tradicionais de empresários carregam como expectativa e por consequência refletem no comportamento dos funcionários. Espero que isso mude com o passar do tempo.

    3. Considero que uma parte bem influente de modelo de empresas das gerações atuais fica num paradoxo meio estranho…

      Explico: os ambientes legais e descolados à la Google, com diversos apetrechos, lazeres e mordomias só estariam lá para fazer com que os trabalhadores fiquem cada vez mais tempo no local de trabalho.
      Seria uma aparente melhoria na qualidade de vida, mas que pode levar a uma exploração aceita (e até desejada) pelo trabalhador.

  7. 6. Existe uma tendência a que líderes empresariais sejam idolatrados como líderes religiosos? Steve Jobs seria o caso?

    1. Isso já acontece na realidade. Se não me engano, aqui no MdU rolou uma cobertura de um evento da Xiaomi que relatava essa atmosfera de idolatria. Nada muito diferente do que acontece nesses eventos de pirâmide ou “marketing multinível”.

      1. Exatamente, na ocasião eu mesmo fui dos q ficou pasmo com aquele comportamento q beirava o caricatural assim como o dos personagens do livro q parecem não ter lá muita essência. Bem lembrado!

      1. Cheguei a falar disso com o @EPMnIvWTKTAD:disqus durante a leitura e aparece no post aqui: acho que O Círculo meio que mistura 1984 e Admirável Mundo Novo, mas tendo a achar que é um universo mais próximo do de Huxley aquele retratado no livro.

        1984 tem um clima pesado, a vigilância é conhecida e temida por todos e não faz questão de ser velada (pelo contrário, chega a níveis bem extremos com o duplipensar e tudo mais). Já Huxley coloca os personagens numa prisão agradável, onde tudo é muito bom e muito legal.

        Trazendo essas disparidades à leitura que fizemos, O Círculo, com todas as suas atrações, benefícios e promessas “do bem” se posiciona não como uma ameaça, algo a ser temido, mas o amigo de todo mundo, algo tão legal e bom que poucos se questionam e, quem o faz, é mal visto pela maioria que vê na empresa a solução para todos os problemas.

    1. Eventualmente, sim. Em vários momentos, quando algum produto ou serviço do Círculo era apresentado, me pegava fazendo comparações com coisas reais. A SeeChange, por exemplo, é o que a Dropcam poderia ter sido (se não tivesse se vendido para a Nest/Google, onde foi dizimada). Nessa semana o fundador da Dropcam, rebatendo uma crítica ferrenha do CEO da Nest, argumentou:

      “On the surface, Dropcam might have looked like a little gadget company. But we and our customers knew it was more. There are all kinds of moments — crazy, beautiful, and terrible — happening in the world and Dropcam’s ultimate vision was to help customers capture them for posterity. I often received letters from Dropcam customers about the profound impact our products had on their lives, from capturing baby’s first words, to putting burglars behind bars, to documenting disasters, to exonerating victims of police brutality.”
      https://medium.com/@gduffy/the-dropcam-team-b9e81f44f259#.87try4m7r

      (Sintomático que a devoção e a ideia de que há uma missão por trás do negócio também se faz sentir no texto e… bem, basicamente em qualquer manifestação oficial vinda de empresas de tecnologia.)

      A declaração do Eric Schmidt (em vídeo, no post) e outras do Mark Zuckerberg de uns anos atrás, iam na mesma direção da do Círculo: segredos são ruins e se você tem um, está fazendo algo que não deveria.

      E é legal porque mesmo sendo um livro de 2013, e um livro bem do ruim em termos literários, ele acerta algumas coisas que na época pareciam não fazer sentido. A crítica da The Atlantic, escrita pelo Alexis Madrigal, que respeito e admiro muito, bate forte no fato de que o Dave Eggers escolhe o streaming ao vivo de vídeo como cerne da experiência social. Na época, Madrigal argumentou:

      “For me, the truest sign that Eggers is not writing about something he understands is that he places livestreaming video at the very heart of what The Circle does. Almost no one watches livestreams of anything except the Occupy protests, Apple keynotes, puppies, and sports. When Holland becomes the company’s public face, Eggers would have us believe that literally millions of people would follow a corporate PR representative around a company campus.

      It’s credibility shaking not because he gets the tech market wrong, but because it shows that he doesn’t understand people’s motivations.”
      http://www.theatlantic.com/technology/archive/2013/11/the-zings-and-arrows-of-dave-eggers/281132/

      Hoje, com Periscope, Snapchat, Facebook Live, Twitch, essa crítica se mantém?

      1. Esse livro me fez pensar q essa gente pirou demais com aquela história de Tamagotchi: ganharam corpo, vida e alma.

      2. Me parece q a crítica ainda se sustenta, não? Pq, de fato, as celebridades e mesmo figurões das indústrias têm muitos seguidores, mas acompanhá-los, de fato, no contexto do dia a dia como é proposto no livro só faria sentido se as formas de entretenimento atuais tivessem todas muito abaladas. Tiro pelo BigBrother da Globo q apresenta índices fabulosos nas votações (mais de cem milhões de votantes!) q, pra mim, só me parecem possível por conta do ambiente controlado. Mesmo se fosse possível controlar muitos ambientes no mundo real, não me parece q a audiência 24 horas de um BigBrother seja tão relevante qto a audiência do horário nobre. Pode ser, sim, q se crie um horário nobre pra ver figurões da indústria tech em performances bizarras, mas, sei lá… Me parece q as pessoas, por mais maluco q esse mundo seja, certamente aspiram algo.

    2. Perfeitamente possíveis. É apenas uma questão de tempo para derrubar os focos de resistências. O enredo menciona uma guerra e atentado em território americano, talvez como base para a aceitação plena do público às tecnologias de controle.

    3. Sim, de certa forma grande parte delas já estão presentes, de modo mais elaborado ou não.

      Creio que o grande diferencial seria a maturidade dessas tecnologias e, principalmente, um cenário de quase monopólio como o citado no livro.

    4. Tem muita coisa que é exagerada, dando um tom muito surrealista à história, que ainda não são possíveis, como a transferência dos arquivos do antigo computador da mãe, os drones com bateria infinita mas é tudo bem possível no futuro. O que acho improvável é a velocidade que o Círculo desenvolveu tudo isso, o impressão é que o livro se passa em 2018-2019, uma coisa que não abordaram muito bem foram os carros autônomos, um tesla já consegue se virar sozinho na maior parte do tempo os carros do círculo já deveriam estar dirigindo sozinho muito bem.

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