O pequeno smartphone da Palm na palma (!) da mão.

O novo smartphone da Palm quer fazê-lo usar menos o smartphone


16/10/18 às 11h08

Antes do iPhone e dos milhares de smartphones Android dominarem o mundo, havia a Palm, com seus PDAs, espécie de smartphone que não faz ligação, e alguns “celulares inteligentes” — desengonçados, lentos, mas pioneiros. Agora, em 2018, a Palm está de volta. Não é a primeira nem a segunda vez que ela retorna do limbo, mas, desta vez, a proposta é um pouco diferente: um smartphone que promete fazê-lo usar menos o smartphone.

Desde que deixou de ser uma empresa independente, a Palm e seu espólio passaram pelas mãos de algumas gigantes da tecnologia — HP, LG (que ainda usa o antigo sistema da Palm, o webOS, em suas TVs) e TCL. A marca ainda é de propriedade da última, a TCL, um conglomerado chinês que também tem em seu guarda-chuva outra do setor que já teve dias melhores, a BlackBerry.

A reencarnação da Palm anunciada nesta segunda-feira (15) foi criada por uma startup de São Franciso, EUA. Dois ex-executivos da Samsung conseguiram uma licença da TCL para usarem a célebre marca em um novo produto. Stephen Curry, astro da NBA, também está envolvido — ele é investidor e conselheiro da nova Palm.

A nova Palm faz smartphones, mas de um tipo diferente. O primeiro modelo, batizado apenas de… Palm, é um smartphone-acessório. Isso significa que ele usa o mesmo número de um smartphone “normal”, desses enormes, da mesma forma que as versões com 4G do Apple Watch. Tanto que ele sequer é vendido à parte, desbloqueado. Inicialmente, apenas clientes da operadora norte-americana Verizon conseguirão comprá-lo, por US$ 349. Terão que pagar, ainda, US$ 10 mensais pelo direito de usar o pequeno Palm.

Por que alguém teria dois smartphones com um mesmo número? Na lógica da Palm, porque os smartphones contemporâneos estão grandes demais. É raro encontrar aparelhos com telas abaixo de 5 polegadas. A do Palm tem 3,3 polegadas — 0,2” a menos que o primeiro iPhone, de 2007. O aparelho é quase do tamanho de um cartão de crédito.

Por dentro, o Palm é um smartphone intermediário, com hardware similar ao que se encontraria em um Moto G ou Galaxy J de entrada. Ele roda a versão completa do Android 8.1 “Oreo” com uma interface modificada: a tela inicial é uma lista de ícones com tamanhos diferentes. A interface de hardware é curiosa: há apenas um botão físico, de liga/desliga. Ajustes no volume são feitos na cortina de notificações e um botão virtual na frente se desdobra no “voltar” e no da multitarefa, dependendo de como ou quantas vezes ele é tocado.

Fazendo jus à sua proposta, o Palm oferece um “Life Mode”. Quando ativado, ele desliga todas as conexões quando a tela estiver desligada. Nem ligações são recebidas. Ajuda na ideia de desconexão e, paralelamente, a economizar bateria. Com uma de apenas 800 mAh, é útil para quem pretende ficar muito longe do smartphone “principal”.

Cury segurando o smartphone da Palm.
O astro da NBA Stephen Curry segura o smartphone da Palm. Foto: Palm/Divulgação.

O acabamento parece de boa qualidade, composto de vidro resistente a arranhões e alumínio. O Palm é à prova d’água e poeira (IP68). Ele tem duas câmeras, atrás e na frente, e todos os sensores que se espera de um smartphone moderno. Poderia ser um ótimo smartphone pequeno, mas, do jeito que chega ao mercado, é apenas um relógio inteligente sem pulseira — mas que pode ser pendurado no pescoço ou em outras partes do corpo com a ajuda de acessórios oficiais.

Propósito

Em seu site, a Palm estampa que o seu smartphone “celebra a liberdade e a escolha de estar conectado e presente ao mesmo tempo”. O pequeno Palm é vendido como um smartphone para curar ou amenizar o nosso vício em smartphones.

Não é um tema novo. Mesmo as empresas que mais se beneficiaram da explosão dos smartphones — algo sem precedentes na história —, Apple e Google, concedem que estamos viciados nesses aparelhos. As últimas versões do iOS e do Android contam com ferramentas e relatórios para conscientizar os usuários de como eles estão usando seus aparelhos e ajudá-los a diminuir o tempo gasto em apps como os de redes sociais e bate-papo.

O argumento de venda do novo Palm tampouco é muito original. É o mesmo que a Apple usa para vender o seu bem sucedido Apple Watch. Uma desconexão parcial. Esqueça que você tem um celular com uma versão precária dele no pulso. Ou com uma versão minúscula dele no bolso. Com isso, a indústria sugere que perdemos o luxo de nos desconectarmos por completo. Melhor nos contentarmos com essa meia desconexão.

Não é mais tecnologia que trará a cura para um problema criado pela tecnologia. O smartphone é um objeto fascinante, extremamente útil, mas perigoso, pois desregrado. Ao mesmo tempo em que nos ajuda de inúmeras formas, é também um fosso sem fundo de perda de tempo. Usufruir das suas vantagens passando à margem desse fosso é o verdadeiro desafio, um que tecnologia alguma é capaz de resolver por si só.

Em seu ótimo álbum Ultrassom, o rapper Edgar canta na faixa Antes que as libélulas entrem em extinção:

Me sinto como se eu fosse
O cachorro de estimação do meu celular
Toda vez que ele assobia eu vou correndo
Para olhar, passar a mão
Dar atenção
Eu nem sei mais quem é o dono

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6 comentários sobre “O novo smartphone da Palm quer fazê-lo usar menos o smartphone”

  1. Desperdiçaram a oportunidade de fazer um smartphone completo num tamanho reduzido,como os de antigamente,como muitos gostariam que tivesse no mercado como opção.

  2. Não sei, a proposta e ruim por si só, acredito que o caminho vai continuar sendo as “soluções” que o próprio Google e a Apple estão aplicando através do software!

  3. Na boa, é uma ideia bem sem noção. Nem pelo aparelho em si, mas pelo preço, pela impossibilidade de ser comprado separadamente e pela mensalidade. Até gostaria de um aparelho secundário, pequeno e que compartilhasse meu número, mas não pagaria o valor de um bom smartphone de verdade. Com esse modelo de negócio, desconfio que o nome Palm vai voltar pro limbo bem rápido sem que ninguém sequer perceba.

  4. A ideia é boa, mas o preço tá um absurdo. Esse aparelho deveria ser vendido, no máximo, a uns US$ 150,00, ter um pouco mais de bateria, e não ser exclusivo de uma operadora, aí sim eu acho que poderia fazer algum sucesso.
    Espero que outras fabricantes tentem copiar esse conceito de um smartphone pequeno como aparelho secundário, por um preço mais justo.

    Eu mesmo, e acredito que muitas outras pessoas, sentem falta de um aparelho pequeno e discreto para usar em certas situações.

    1. Sou fã de smartphone pequeno, daqueles que dá pra mexer com uma mão tranquilamente. A indústria tá exagerando. Vai chegar um momento em que a indústria e os consumidores farão o caminho inverso…
      No mais, essa questão do tempo que a gente passa no smartphone é complicado. Tenho imposto limites no seu uso, como checar e responder mensagens só a cada 2 horas, mas sempre me pego quebrando essa regra. É um vício!

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