Acabamento em bambu do novo Moto X.

[Review] Novo Moto X: maior, mais requintado, mais mundano


10/2/15 às 14h27

Quando o seu produto vira commodity, o que fazer para diferenciá-lo? Em 2013 a Motorola apresentou o primeiro smartphone Android sob a batuta do Google com uma proposta nova e arrojada. Em vez de uma lista de especificações com números enormes, o Moto X original era um aparelho pé no chão. Para uns, “bom o bastante”. Para mim, ideal. Mais que isso: foi o melhor que testei no primeiro ano de Manual do Usuário.

Um ano e uma versão depois, muita coisa mudou no novo Moto X. A Motorola não é mais do Google, a infraestrutura montada nos EUA para vender um smartphone personalizado “made in USA” foi desmantelada e boa parte daquele discurso original, incluindo a parte ruim como o marketing em cima dos “oito núcleos” (?), mas também a boa, contemplando foco na experiência, não na tabela de especificações, ficou no passado. O tiro de misericórdia foi o tamanho da tela, que saltou de confortabilíssimas 4,7 polegadas para exageradas 5,2.

Será que mesmo tão diferente do projeto original, o Moto X de segunda geração continua a ser a melhor escolha para quem está no universo Android? Segura na minha mão e vamos descobrir isso.

Maior, porém mais refinado

Novo Moto X na mão.

Embora tenha afinado (0,4 mm), o novo Moto X ficou mais alto e mais largo. Graças ao tamanho da tela, citado acima, ele não mais se “encaixa na mão”, como comentei no review da versão anterior. E isso é uma pena, de verdade. Dois dos últimos baluartes dos smartphones topo de linha feitos para mãos de seres humanos normais, iPhone e Moto X, se foram; só sobrou o Xperia Z3 Compact.

Não que ele seja gigantesco, desengonçado ou mesmo ruim de manusear. A parte de trás continua com uma curvatura legal e o logo côncavo da Motorola ameniza o tamanho, mas não totalmente. O ponto é que ele deixou de ser natural. Não dá para alcançar as bordas da tela, mesmo com a moldura fina na frente, sem fazer malabarismos perigosos ou recorrer ao auxílio da outra mão. Tenho outras queixas e, claro, muitos elogios ao Moto X de segunda geração, mas a característica mais marcante (e decepcionante) dele é esse crescimento desnecessário.

Acabamento em metal e bambu do Moto X.

Em relação ao acabamento, só elogios. O vidro frontal ganhou um quê de sofisticação com a dobra sutilmente curvada nas extremidades. A borda do smartphone em si, agora de metal, é mais bonita e dá um ar mais premium, e atrás os materiais são de bom gosto. Pelo menos o dessa unidade cedida pela Motorola, em bambu, é muito legal. A textura é agradável ao tato e o fato de não existirem dois Moto X de bambu com desenhos idênticos é um charme extra. Existem ainda modelos com o tradicional plástico e um outro com couro, a grande novidade dessa iteração — já que o bambu, ainda que bem depois do lançamento original, apareceu no primeiro Moto X.

Na frente, outras novidades podem ser vistas pelos mais atentos, ainda mais em modelos com a moldura branca, como é o caso. Em cima e embaixo da tela aparecem duas grelhas, só que infelizmente elas não significam som estéreo. Diferentemente do Moto G de segunda geração, no Moto X sai som apenas na grelha de baixo, o que é meio incompreensível já que esse modelo é superior. Mono ou estéreo, essa posição é muito melhor que a antiga, atrás ao lado da câmera, pelo simples fato de que deixá-lo na mesa não abafa o som — que é bem alto, por sinal; o outro, para ligações, também é alto e claro, sem reclamações.

Em volta da tela ainda existem três pontinhos que são novos. Eles são receptores e emissores infravermelhos que ajudam a detectar o movimento da mão do usuário, ajudando as Notificações Ativas, recurso do Moto X original que exibe notificações simples com o smartphone em espera, ícones brancos no fundo preto, sem consumir muita energia, e permitindo uns truques legais como emudecer uma chamada simplesmente passando a mão sobre a tela. Era uma das melhores coisas do primeiro e é algo que continua bom demais — simples, confiável e útil no dia a dia.

Textura dos botões do Moto X.

O salto qualitativo no uso de materiais e em design é visível no novo Moto X. Até em detalhes mínimos, como a diferenciação por textura entre os botões liga/desliga e os de volume, o que evita apertos errados acidentais, a Motorola prestou atenção. Isso tudo é ótimo.

AMOLED, o mal necessário

Notificações Ativas do Moto X.

A tela cresceu, mas continua a usar um painel AMOLED — em parte, para dar conta das Notificações Ativas, que acende apenas os pixels necessários para exibir ícones finos e poucas linhas de texto, sem matar a bateria. O leitor de longa data deve saber a essa altura da minha relação com essa tecnologia. Se não for o caso, um breve relato: não gosto muito, pelo excesso de saturação e eventuais anomalias cromáticas.

A boa notícia é que no novo Moto X a Motorola parece ter diminuído o tom das cores quentes. Vermelho e laranja não são mais tão “ardidos”, embora a diferença para telas mais neutras continue bem acentuada. A ruim é que a tela ficou menos consistente com fundos brancos. Quando li textos mais longos com essa cor de fundo, preto no branco, pude perceber leves variações na tonalidade, como se o branco pendesse levemente para tons verdes vez ou outra. É um detalhe mínimo e que para muitos passa batido, mas não pude deixar de notar.

Além de crescer fisicamente, a tela também ganhou um impulso em resolução. Agora, ela tem 1920×1080, contra os 720p (1280×720) da geração anterior. Como já não tinha reclamações com essa, menos ainda com a nova.

A bateria levemente maior serve para manter a autonomia estável. O Moto X não é um smartphone capaz de passar mais de um dia longe da tomada, mas está tudo bem. Os 100 mAh extras da nova meio que são anulados pela tela e resolução maiores. No fim, fiquei com a mesma impressão do modelo anterior — ou seja, uma bateria ok capaz de aguentar um dia e nada mais. Ah, a versão vendida no Brasil vem com 32 GB de memória interna, o que é bem legal.

Câmera

Detalhe da câmera do Moto X.

A câmera principal tem 13 mega pixels e, apesar de se sair bem em alguns disparos e até surpreender em outros, na média continua abaixo do que se esperaria de um smartphone topo de linha.

O maior problema da câmera do Moto X é a dificuldade absurda em situações com pouca luz. Esse cenário é, pela própria terminologia de “fotografia”, dos mais complexos para qualquer câmera, mas espera-se que as melhores consigam driblá-lo de alguma forma, seja com um sensor enorme, pós-processamento esperto ou qualquer outra artimanha. Apple, Microsoft e Samsung meio que conseguem. A Motorola, com o Moto X, não. À noite, sem uma iluminação artificial muito boa, as fotos ou sairão tremidas, ou terão muito ruído.

Mesmo de dia ela pode surpreender (negativamente). É preciso paciência, um bom timing e, de preferência, objetos não muito frenéticos no enquadramento.

Alguns exemplos:

Telhado de um shopping.
f/2,2, 1/190s, ISO 50. Redimensionada para 730×411.
Fachada de uma borracharia, em HDR.
f/2,2, 1/962s, ISO 50. Redimensionada para 730×411. HDR fazendo um bom trabalho.
Cabeça de uma tartaruga de brinquedo.
f/2,2, 1/30s, ISO 250. Crop em 100%. Bom detalhamento com boa iluminação natural.

Este Moto X ainda tinha um incômodo extra (e anormal): uma espécie de cisco dentro do conjunto óptico, ou no sensor. Repare na foto seguinte, no canto inferior esquerdo:

Kindle sobre uma mesa, iluminação artificial.
f/2,2, 1/26s, ISO 800. Redimensionada para 730×411. Com pouca luz a câmera é bem fraca…
Detalhe de uma BMW exposta no shopping.
f/2,2, 1/30s, ISO 160. Crop em 100%. Às vezes a câmera surpreende positivamente, como nesta foto com iluminação artificial forte (dentro de shopping).

Veja essas e outras fotos, em tamanho natural e sem qualquer tipo de edição, neste álbum.

Android puro, sabor pirulito

Além de abandonar a briga por especificações, outra aposta certeira da Motorola com o primeiro Moto X foi a pelo Android puro. O sistema carrega poucas modificações em relação àquele concebido pelo Google, a maioria delas, bem feliz. Minha unidade veio com o Android 5.0.

Easter egg do Android 5.0 no Moto X.

Agora, Notificações Ativas, Assist, configurações de ações e os controles touchless (o “Ok Google”) foram concentrados todos em um app, o Moto. Tudo que existia no primeiro Moto X fez a transição para esse novo e ganhou melhorias. No caso das Notificações Ativas, além da já citada maior sensibilidade em sua apresentação, elas agora suportam mais ícones ao mesmo tempo na tela e podem ser configuradas para ignorar certos apps. Os controles sem tocar no aparelho e mesmo com a tela desligada, antes invocados apenas pelo “Ok Google Now”, agora podem ter uma frase-gatilho personalizada. O Assist conversa com o Modo Prioridade do Lollipop e outro gesto se soma ao giro de pulso para abrir a câmera: acene sobre a tela ao receber uma chamada ou com o despertador ligado para emudecer o smartphone.

Todas as fabricantes se esforçam para diferenciar seus smartphones Android topo de linha. A que melhor faz isso é a Motorola. Todos esses recursos, ainda que menos chamativos nas vitrines perto de sensores de batimentos cardíacos e conjuntos de câmeras duplas para profundidade, são mais práticos e pé no chão. Em outros termos, são coisas que você realmente usa sempre e que, além disso, economizam tempo de fato.

O Moto X te ouve mesmo com a tela apagada.

Apenas uma nota: deparei-me com alguns problemas graves nos três primeiros dias de uso. Entre eles, travamento da câmera, do Chrome, Wi-Fi que não conectava de jeito algum à minha rede… Em todos os casos bastou reiniciar o Moto X para resolvê-los, mas de qualquer forma deixou uma péssima primeira impressão. Felizmente, nos dias seguintes a estabilidade esperada deu o ar da graça e não tive mais dores de cabeça com o aparelho.

Mesmo maior, vale a pena?

Moto X de bambu no detalhe.

Apesar de tudo o Moto X continua, nessa nova versão, a ser um smartphone de ponta. Talvez até mais do que antes, graças à nova configuração a par com o que há de melhor na concorrência. Ele está mais rápido, embora o anterior não tenha demonstrado lentidão, e com materiais mais nobres em sua construção– e, isso sim, foi uma melhora bem-vinda. A câmera segue mais ou menos; software e bateria não tiveram mudanças significativas. Seus recursos exclusivos melhoraram sensivelmente e seguem como os melhores diferenciais do mercado.

Infelizmente exageraram no fermento da receita, o que aumentou muito o tamanho da tela. Além de um duro golpe contra a ergonomia, essa mudança o aproximou mais de smartphones rivais. Por sorte, ou talvez uma mistura de estratégia da Motorola e falta de senso das suas concorrentes, a combinação entre preço baixo e experiência de software, mais os mimos exclusivos, ainda deixam o Moto X à frente do pelotão. É difícil justificar o gasto extra em um Galaxy S5, ou Xperia Z3, quando esse aparelho faz o mesmo ou até mais por muito menos. Só se câmera ou bateria forem prioridade; aí compensa gastar uns trocados a mais nesses outros aparelhos.

Anunciado a R$ 1.499 há quatro meses, o novo Moto X já pode ser encontrado por bem menos — na ressaca do Natal chegou a custar R$ 999. Mesmo por mais ele é uma compra que não dá muita margem para erro. O hardware é de primeira, o acabamento melhorou bastante e, para quem gosta, agora ele conta com um telão na frente. Pena que para quem preferia o modelo menor não restou opção alguma.

Comprar o novo Moto X.

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