Nokia X em diversas cores.

O Nokia X não é para você, mas é importante para Nokia e Microsoft


25/2/14 às 9h55

Em 2010, antes da parceria entre Nokia e Microsoft ser anunciada, muita gente sonhava com um smartphone da empresa finlandesa rodando Android. Na época Anssi Vanjoki, então executivo da Nokia, declarou que recorrer ao Android equivalia a “fazer xixi nas calças para se esquentar no inverno”, ou seja, era uma solução paliativa, sem futuro.

A frase de Vanjoki (que se demitiu logo depois de proferi-la) foi muito recitada ontem por ocasião do anúncio do Nokia X, nova família de smartphones que rodam Android. À primeira vista, parece que morderam a língua. Não é bem assim. O Nokia X usa mesmo Android, mas não disputa espaço com outros smartphones com o sistema do Google. Ele sequer tem a ver com o Google. Complicou? Calma que eu explico.

Os sabores do Android: puro e Google

O Android é um projeto aberto, ou seja, qualquer um pode pegar o código-fonte, compilá-lo para um dispositivo e distribui-lo livremente. É uma das bandeiras do projeto (ainda que na prática não seja uma muito respeitada) e uma característica que o fez ganhar a simpatia de desenvolvedores e entusiastas mais engajados com o lado político do software.

Esse Android, também chamado AOSP (de “Android Open Source Platform”), é a base do que você provavelmente usa no seu dia a dia. Mas existe uma outra camada que vai por cima dele e que dá sustância ao sistema, mais comumente vista por aí: o Google Mobile Services (GMS).

O GMS é um conjunto de APIs, Google Play Services e apps do Google que é aplicada por cima do Android. Diferentemente do AOSP, ele não é aberto e para que uma empresa o adote é preciso submeter o projeto à certificação do Google, cujo processo custa US$ 0,75 por aparelho.

É raro encontrar smartphones e tablets sem o GMS, pelo menos entre as fabricantes mais populares. Esse conjunto de ferramentas é um dos grandes chamarizes do Android em sua vestimenta comercial: os apps populares do Google, a loja do Google Play, APIs importantes para o desenvolvimento de apps, tudo isso depende do GMS e é tão difundido que para muita gente se tornou algo intrínseco ao Android.

E é um pacote completo, o que significa que não dá para uma empresa licenciar um smartphone para usar o GMS mas adotar apenas as APIs e o Google Play, deixando todo o resto de lado. É tudo ou nada, e o Google vem pesando a barra para quem não adota o GMS convertendo em apps funções básicas do sistema. Uma estratégia impiedosa que aos olhos do consumidor passa despercebida.

Descontando tablets e smartphones chineses de marcas obscuras, o caso mais famoso e bem sucedido de adoção do AOSP sem a inclusão do GMS é o da Amazon. Seus tablets, da família Kindle Fire, rodam um Android bem diferente, sem nada do Google. Para suprir essas lacunas a Amazon teve que levantar uma loja de apps, oferecer uma API de mapas e fornecer ou licenciar serviços de terceiros — como a busca, que é a do Bing por padrão.

O Nokia X é o mais recente e um dos maiores casos de uso do AOSP. Ele, a exemplo dos Kindle Fire, não adota o GMS. É um Android: os apps são os mesmos e, com exceção dos que recorrem às APIs proprietárias, funcionam normalmente. Ele abdica de tudo do Google — e isso deve irritar demais os executivos de lá, afinal o Android, no pragmatismo corporativo, é apenas uma ponte para os serviços gratuitos que viabiliza o tráfego dos dados de que o Google precisa para lucrar.

O Nokia X é a ponte para os serviços da Microsoft

Nokia X de frente e de costas.
Foto: Nokia/Reprodução.

O Nokia X não é para você que sempre compra smartphones topo de linha ou mesmo intermediários, para você que sempre sonhou com um Android da Nokia. Esqueça. O Nokia X é um Asha mais esperto e com uma oferta maior de apps melhores.

No Conversations, o blog da Nokia, esse posicionamento é descrito explicitamente logo na introdução do post que apresenta a família X:

“Os três primeiros celulares da família — o Nokia X, X+ e XL — têm preços que ficam entre as linhas já existentes Asha e Lumia, € 89, € 99 e € 109, respectivamente, a fim de atrair novos usuários de smartphones em busca de apps populares e dos seus primeiros serviços na nuvem.”

No lugar dos apps do Google, muita coisa da Microsoft e da Nokia. Gmail? Tente Outlook.com. Google Search? Nada disso, ali é Bing. Google Maps? Não, HERE Maps. Google Drive? OneDrive. Google Music? Não é a mesma coisa, mas o MixRadio tem mais apelo inicial (é gratuito e funciona bem). Nada de Hangouts, também; os Nokia X vêm com o Skype — e com um mês de ligações internacionais grátis.

A Microsoft já declarou estar em transformação, de uma empresa de software para uma de “dispositivos + serviços”. Nessa soma, o software perde importância, é a aquisição e retenção de usuários em suas propriedades que contam mais. Antes um Android recheado de serviços da Microsoft do que um com o GMS, apresentando os serviços do Google ao próximo bilhão de usuários de smartphones.

A briga por esse público emergente é tão feroz que Google e Facebook fazem acordos com operadoras (que não devem ser baratos) para garantir o acesso gratuito às suas propriedades. Essas pessoas estão se educando digitalmente na prática, com equipamentos financeiramente acessíveis e tudo que estiver ao alcance e for gratuito. A situação é tão extrema que para muitos deles, Facebook é sinônimo de Internet.

É por tudo isso que:

  1. Acho a estratégia da Nokia com a linha X bem acertada. Eles pegaram o Android, deram um tapa visual que o faz parecer um frankenstein dos sistemas da casa (blocos do Windows Phone, Fastlane do Asha) e empurram serviços próprios para novos usuários, educando-os segundo a cartilha Microsoftiana; e
  2. Não acho que a Microsoft vá descontinuar a linha X após absorver a Nokia. É uma porta de entrada importante e que deve render em mercados emergentes.

É tudo sobre o próximo bilhão

Fastlane, herança do Asha, no Nokia X.
Foto: Nokia/Reprodução.

O Nokia X já está disponível em partes da Ásia, Europa, América Latina, Oriente Médio e África. Notou a ausência de um país importante aí? Os Estados Unidos, apenas o mercado mais maduro e importante de smartphones.

A disputa por atenção lá é complicada e, comparado ao resto do mundo, o mercado americano com seus contratos de dois anos e aparelhos subsidiados é atípico. O iPhone, que em muitos países é tido como gadget premium, disputa market share de igual com o Android.

Não é esse público que está na mira do Nokia X. Não sou eu ou você, leitor regular do Manual do Usuário que sabe o que é um smartphone, que sabe o que é Android. A Nokia quer fisgar quem está entrando nessa agora. Ela já vem fazendo isso há tempos, com sucesso, na linha Asha; a nova família dá um passo adiante, mas mantém os pés no chão com uma oferta barata — porque, em mercados emergentes, preço importa.

O Nokia X tem preço sugerido de € 89, ou US$ 125. O Asha 501, quando anunciado, tinha preço sugerido de US$ 99. Ele chegou ao Brasil por R$ 329. Fazendo uma regra de três básica, se a conversão se mantiver o Nokia X custará R$ 415. O Windows Phone mais barato da linha Lumia, o 520, chegou por aqui custando R$ 599. Havia um espaço ali, como citou o blog oficial da Nokia.

Com a flexibilidade do Android e seus apps (alguns, como BBM, Plants vs. Zombies 2, Viber, Vine e Twitter pré-instalados, mais os milhares da Nokia Store), acabamento bonito e um hardware minimamente competente (Snapdragon S4 Play dual-core a 1 GHz, 512 MB de RAM), tudo isso empacotado com a marca e o prestígio da Nokia e por um preço competitivo, deve vender bem e, consequentemente, fazer bem à saúde dos números da Microsoft.

Eles não são para você, mas tem um monte de gente, quase um bilhão, que ficaria bem contente com o que esse Android esquisito, com cara de Windows Phone e sem o Google Play, tem a oferecer. Tão contente que, quem sabe, na hora de partir para um smartphone superior, esse pessoal acabe com um Lumia. Acredite: isso também faz parte do plano e a tela inicial com blocos redimensionáveis não é apenas um capricho.

Como são os aparelhos?

Simples, claro. Para manter o preço lá embaixo, a Nokia teve que fazer vários cortes. Todos aceitam dois SIM cards, são 3G e têm acabamento em policarbonato. O SoC, o já citado Snapdragon S4 Plus dual-core de 1 GHz, também está em presente nos três.

Nokia X e X+ são virtualmente idênticos, só se diferenciam na oferta de RAM (512 e 768 MB, respectivamente) e pela presença, na caixa, de um microSD de 4 GB no X+ que se soma à memória interna, de 4 GB nos três.

A tela usa painel IPS, tem 4 polegadas e resolução de 480×800. Deve ser similar, se não for a mesma, à do Lumia 520 — e é uma tela bem boa para essa faixa de preço.

Em ambos os modelos não há câmera frontal e a de trás parece limitada, com 3,15 mega pixels e foco fixo. A gravação de vídeo também não empolga: 480p a 30 quadros por segundo.

Um ponto chato é que o Android no qual a Nokia se baseou é a versão 4.1.2. Seria interessante ver a última, 4.4, em um aparelho tão limitado, já que uma das bases dela é melhorar o desempenho em dispositivos com 512 MB de RAM. Talvez em uma atualização futura — se é que esses aparelhos verão alguma atualização.

Nokia XL na nova cor laranja.
Foto: Nokia/Reprodução.

O Nokia XL tem características similares às do X+, mas tela maior (5 polegadas), bateria de maior capacidade (2000 mAh contra 1500), câmera frontal e uma melhor nas costas, com 5 mega pixels, foco automático e flash de LED. É como se fosse um phablet de entrada.

Como dito, o Nokia X já está disponível — entrei em contato com a assessoria da Nokia no Brasil para saber detalhes daqui e, assim que tiver resposta, atualizarei este post. Nokia X+ e Nokia XL saem no começo do segundo trimestre.

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