Mozilla e a publicidade digital
Dois posts da Mozilla — da CEO da Mozilla Corporation, Laura Chambers, e do presidente da Fundação Mozilla, Mark Surman — fincaram a bandeira do grupo no campo da publicidade digital. / blog.mozilla.org, blog.mozilla.org (ambos em inglês)
Ambos parecem ser reações às críticas recebidas pelo grupo por uma alteração recente no Firefox, que inseriu — em caráter de testes e com alcance limitado — uma opção ativada por padrão para testar a tecnologia chamada “atribuição com preservação de privacidade” (PPA, na sigla em inglês). / blog.mozilla.org (em inglês)
A instrumentalização do Firefox para a utopia da publicidade digital em larga escala que respeita a privacidade é uma de duas partes da estratégia da Mozilla nesse setor. No caso, a do produto. A outra, de infraestrutura, baseia-se na aquisição da Anonym, formada por dois ex-executivos da Meta, em junho. / blog.mozilla.org (em inglês)
Verdade seja dita, embora esses eventos tenham dado maior proeminência à iniciativa, o flerte da Mozilla com a publicidade não é novo, como nos lembrou Mark ao resgatar um post de maio de 2021 intitulado “Construindo um ecossistema baseado em anúncios com mais respeito à privacidade”. / blog.mozilla.org (em inglês)
Laura admite que a ideia não agrada a todos:
Sabemos que nem todos em nossa comunidade abraçarão nossa entrada neste mercado [de publicidade digital].
O argumento, porém, é o de que a internet só funciona por causa da grana da publicidade e, se não dá para escapar desse mal necessário, que seja menos pior do que é — se é que isso é possível:
Não podemos simplesmente ignorar a publicidade digital — ela é um grande impulsionador de como a internet funciona e é financiada. Precisamos olhá-la nos olhos e tentar consertá-la. Por essas razões, a Mozilla se tornou mais ativa na publicidade digital nos últimos anos.
O que ela escreve é… verdade? Talvez o esforço renda frutos no futuro. Por mais que a reputação da Mozilla esteja chamuscada, confio mais nela que no Google ou na Meta para tirar esse coelho da cartola.
O que me incomoda é que o discurso adotado pela Mozilla é idêntico ao do Google. A solução proposta, embora não seja a mesma, lembra muito as tentativas frustradas do projeto Privacy Sandbox do Google para substituir os famigerados cookies de terceiros, como o FLoC e a API de Tópicos.
Detalhe importante: nada do que o Google propôs emplacou. Em julho, a empresa avisou, após sucessivos adiamentos da aposentadoria dos cookies de terceiros, que, ok, a gente tentou, mas vamos continuar usando os cookies mesmo para rastrear até a cor da roupa de baixo das pessoas. / privacysandbox.com (em inglês)
A Mozilla é muito mais que o Firefox. Mark Surman invocou, em seu post, o manifesto da Fundação que norteia sua atuação a partir de dez princípios. Apegou-se ao nono, que diz respeito ao envolvimento de empresas comerciais com fins lucrativos, mas parece ter ignorado os demais. / mozilla.org
Outro incômodo com a postura da Mozilla é o determinismo em relação à publicidade como financiadora da internet livre e aberta. Mark diz que a Mozilla entrou nesse espaço porque o setor estava (e continua) moralmente falido:
[A publicidade digital] Não prioriza as pessoas, não respeita a privacidade delas e é cada vez mais anticompetitiva. Tem que haver alternativas melhores.
Esse posicionamento parte da premissa de que existe publicidade hiper segmentada “do bem”. Se nem o Google, o maior interessado em uma publicidade paradoxal — invasiva e não invasiva ao mesmo tempo —, conseguiu desenvolvê-la, será que é possível?
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Um último comentário. Se o envolvimento da Mozilla com publicidade online começou em 2021, por que enfoque renovado agora?
A troca da CEO, em fevereiro, poderia ser um motivo. Novas lideranças geralmente significam chacoalhadas nos objetivos da empresa. Laura Chambers está cortando muita coisa, até as banais e mais alinhadas ao manifesto da Mozilla que publicidade e inteligência artificial, como a humilde instância do Mastodon, a mozilla.social. / blog.mozilla.org (em inglês)
Essa explicação soa cínica (o que não significa que seja descabida), mas tem outra que soa mais e me parece mais crível: o sacode que o Google levou da Justiça estadunidense em agosto, ao ser derrotado no processo que acusava a empresa de abusar de seu monopólio no mercado de buscadores online. / bloomberglinea.com.br
O Departamento de Justiça (DoJ) caiu matando nos acordos que o Google tem com parceiros (alguns, rivais de seus produtos) para colocar seu buscador como padrão em troca de caminhões de dinheiro. Só a Apple recebe US$ 22 bilhões (com “b”) por ano para fazer do Google o padrão no Safari. / bloomberg.com (em inglês)
Mais que beneficiária, a Mozilla é dependente do dinheiro do Google. Dos US$ 593,5 milhões que faturou em 2022, 86% veio do Google, dinheiro pago para ter seu buscador como padrão no Firefox. / assets.mozilla.net (*.pdf)
Nesta quarta (9), a vice-presidente de assuntos regulatórios do Google, Lee-Anne Mulholland, publicou um post no blog da empresa rebatendo as sugestões de “remédios”, do DoJ, no desdobramento do processo antitruste mencionado acima. / blog.google (em inglês)
O texto cita nominalmente a Mozilla:
Restrições insensatas de como o Google promove o nosso mecanismo de busca criariam dificuldades para os consumidores e prejudicariam as empresas. Restrições exageradas aos contratos de distribuição projetados para facilitar o acesso ao buscador do Google criariam dificuldades para as pessoas que só querem pesquisar por informações. E essas restrições reduziriam o faturamento de empresas como a Mozilla (reduzindo sua capacidade de investir em seu próprio navegador) e fabricantes de celulares Android (potencialmente aumentando os preços dos dispositivos).
A mim, não preocupa a intenção da Mozilla. Eu nem sei se poderíamos falar em uma “intenção”, assim, no singular. Quem sabe quantas correntes de pensamento e interesses existem dentro de uma empresa como essa? Às vezes o jogo é dúbio mesmo, e é assim que as coisas são – há mais de um motivo para fazer ou deixar de fazer qualquer coisa.
Começo pensando se esse ato da Mozilla vai na mesma direção, ou não, desse grupo de pessoas preocupado com seus direitos básicos de privacidade e preocupados também com os efeitos dessas tecnologias digitais na sociedade.
Sobre isso, me parece que a grande confusão é gerada porque esse ato de publicidade não é feito para ajudar na pauta de privacidade ou qualquer coisa que o valha, mas para que a Mozilla sobreviva financeiramente e mantenha sua relevância de mercado. (A Mozilla, não o Firefox. A pessoa jurídica, não o código. O financeiro, não a comunidade.) É o lembrete, pra gente, de que a Mozilla é uma empresa que sempre foi relevante por essa sua contradição – outrora mais simpática.
Sendo assim, acho que pra dizermos que a direção que ela toma está errada, seria preciso indicar alguma alternativa factível. Cá entre nós, não vejo muitas, a Mozilla anda mal das pernas. Sem a empresa, o projeto conseguiria ganhar fôlego só a partir de sua comunidade? E conseguiria manter sua atualização em ritmo o suficiente para a web atual?
A coisa está feia e a Mozilla é uma peça de uma web que já foi sufocada e devorada em maior parte. A ambiguidade dela já não se encaixa nessa forma de funcionamento sinistra do mercado tech atual, e ela está pagando o preço de ser transformada ou de se desfazer no caminho. Aí, de pouco adianta culparmos a empresa que é ineficaz em relação aos seus princípios para tentar sobreviver.
O problema não é a Mozilla, gente, é o que a web se tornou. A Mozilla se contradiz na tentativa de se sustentar, e isso há muito tempo.
O problema são os humanos que acham que o almoço é grátis para sempre. A questão da monetização do Firefox é antiga. Eu não acredito que a Mozilla vai debandar para o lado do Google, mas os usuários deveriam ter aquela conscientização.
A maior ironia são pessoas pagarem para não assistirem às publicidades no YouTube, mas não doam dinheiro para um navegador preocupado com privacidade se manter ativo.
Recentemente, tentei doar para a Mozilla, estava pensando entre doar uma única vez e mensalmente. O preço mínimo exibido para doação única é R$ 140 e o valor mensal é R$ 55, mas alterando manualmente o site informa o valor de R$ 28 para ambas doações. Me senti um pouco traído por esse artifício da Mozilla. Enquanto a doação de R$ 28 não atrapalha o meu orçamento, contudo 5x o valor é um fator complicado.
Se a Mozilla virar só mais uma cópia barata do Google, qual o motivo dela continuar existindo?
Eu concordo contigo. Na tentativa de sobreviver, ela se descaracteriza
Fazendo um paralelo com o assunto durante as eleições: é como o pessoal falando que a esquerda vai ganhar mais eleições se passar a adotar pautas de direita.
Se o único jeito da Mozilla sobreviver é fazendo o que esperávamos que ela combatesse então já vai tarde.
Pois é. Mas é essa a decisão que a esquerda institucional tomou, né, virar uma centro-direita para manter a relevância política – institucional, porque na política de fato esse movimento é a própria irrelevância.
Não sei se fui claro lá no primeiro comentário, mas é que não dá pra esperar que a face empresarial da Mozilla aceite não se adaptar, do mesmo jeito que não dá pra esperar de um político que abra mão de sua cadeira. E aí, assim… Não é sobre boas ou más intenções.
A Mozilla vai dizer algo como: “E se eu não sobreviver, quem vai defender minimamente a web que ainda resta?”. O político profissional também: “E se eu não tiver um cargo, quem vai lutar minimamente pelas pautas que ainda restam?”. E, em alguma medida, eles vão estar certos, ainda que não bastem de maneira alguma e a gente precise também (e principalmente) se organizar para além disso. Esse tipo de política hoje acaba sendo uma forma de gestão da barbárie tão somente. Na web, uma gestão (nem sei se dá pra dizer isso, já que essa aposta da Mozilla nem deve vingar) do extrativismo digital.
E não é uma gestão da barbárie, nem uma gestão do extrativismo digital que nós queremos, claro.
Assumindo que a Mozilla tá bem intencionada: tão cometendo o caso clássico de tentar resolver um problema que não é de tecnologia com tecnologia. Não vão sanar os problemas de publicidade digital dando novas armas para empresas de publicidade digital.
Afinal, eles sabem aquele outro clássico: dinheiro não cai do céu.
Infelizmente, são os usuários mal-intencionados que não realizam doações que estão direcionando o rumo que o barco do Firefox navega.
As doações para a Fundação Mozilla não são usadas no desenvolvimento do Firefox. Desta página:
Não entendo como isso é culpa dos usuários, doadores ou não. Inclusive cada notícia nova desse assunto mais usuários abandonam o navio (eu já abandonei quando surgiu essa conversa de PPA)