É difícil nomear movimentos estéticos da web

Print da página inicial do Brutalist Websites.

Tem um site chamado Brutalist Websites que agrega sites que são meio crus — que mostram suas “emendas”. Os cidadãos do Hacker News, onde eu (Paul falando) encontrei o link esta manhã, imediatamente se envolveram em uma discussão sobre se os sites mostrados são realmente brutalistas ou não — mas é claro, como a Wikipedia indica (após algumas discussões à parte), não há apenas uma única e verdadeira definição de Brutalismo. O Brutalist Websites, por si um site brutalista, diz:

Em sua robustez e falta de preocupação com parecer confortável ou fácil, o Brutalismo pode ser visto como uma reação de uma geração mais nova à leveza, otimismo e frivolidade do webdesign atual.

Bacana! Tem um tweet de fevereiro escrito pelo Jon Gold (que tem um site bem nerd e divertido) que não tentava nomear nada, mas fez uma observação interessante:

Print do tweet de Jon Gold.
Qual destes dois sites possíveis você está fazendo agora?

Muita gente vê os sites “brutalistas” como “honestos ao seu meio” e autênticos — mas não dá pra fazer dinheiro com eles (sendo o Craigslist uma exceção). Enquanto isso, os dois sites mostrados em wireframes acima são instantaneamente reconhecíveis como muito comerciais e promocionais. Isso me faz pensar onde estão os limites: você é mais ou menos brutalista se usa transformações em CSS para fazer algo girar quando o mouse passa por cima? Uma página em HTML é mais “honesta” do que um web app em React? Os limites não estão claros.

Existem — existiram, existem e existirão — muitas tentativas de criar movimentos estéticos através das coisas que as pessoas encontram na Internet. Por exemplo, existe/existia a “Nova Estética”, que definia a si mesma como “uma série de artefatos da rede heterogênea, que reconhece as diferenças, os espaços em nossas realidades distantes, mas sobrepostas,” por volta de 2011. Ela envolvia algumas pessoas muito legais e um punhado de pixels. Tem a glitch art e a computação poética.

Ilustração com uma mãozinha depositando uma moeda em uma caixa com o logo do Manual do Usuário em uma das faces, segurada por dois pares de mãos. Ao redor, moedas com um cifrão no meio flutuando. Fundo alaranjado.

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Mesmo quando a web ainda estava dando os primeiros passos no começo da década de 1990, as pessoas estavam tentando definir hipertexto e “situá-lo” — domá-lo, na verdade — entre as tendências mais amplas em teorias culturais e literárias. Eu tenho umas prateleiras de livros com títulos como A Metafísica da Realidade Virtual, Cybertexto: Perspectivas em Literatura Ergódica, Hamlet no Holodeck e Geografia Virtual. Eles fazem com que eu me sinta mais inteligente só de tê-los, mas é muito difícil encontrar uma única teoria funcional de como as coisas digitais deveriam se comportar.

O que isso tudo significa na prática é que as organizações de arte e os programas de design da Internet precisam mudar os seus sites pelo menos uma vez por ano. E que nada do que você diga sobre “a web” jamais poderá ser verdade porque alguém faz diferente de você e funciona. (Veja o site brutalista Craigslist.)

Quando eu era mais novo vi como as coisas estavam sendo misturadas e feitas na Internet e aceitei a ideia de que estávamos indo em direção a uma cultura de copiar-e-colar.  Eu fui completamente convencido pela ideia de que “tudo é um remix”. A falta de clareza dos limites tornaram a Internet maravilhosa.

Essa ideia não está errada, mas também dá pra dizer que “tudo é um gênero”. Gêneros são fluidos e estão se tornando mais fluidos ainda (tal qual a identidade de gênero!). Dá pra ver isso na música, onde nomear os gêneros é muito importante para as pessoas — é chillwave, vaporwave ou witch house? Se for vaporwave, é segahaze, mallsoft ou fringewave?

Nomear um gênero pode definitivamente ser valoroso e útil, mas também divide o mundo entre pessoas que têm o privilégio de definir os gêneros e todo o resto. Um gênero faz uma cena. Eu comecei a escrever bem cedo e me lembro quando as pessoas — que hoje são meus amigos — tentaram definir o que faz um “bom” blog e quais deveriam ser as regras. Isso me incomodava muito. Quem eram eles para aparecerem e me dizerem como as coisas deveriam ser feitas? Sentia-me irritado, mas também deixado de fora. Por que eu não fui consultado?

Assim, você aprende. Acontece que as pessoas gostam de coisas realmente simples e fáceis que economizem tempo e não querem cada uma construir seus próprios sistemas de gerenciamento de conteúdo. As pessoas gostam de regras e das cenas se acham que podem se juntar a elas.

De qualquer forma, gosto da coleção de sites brutalistas e acho que eles são legais porque me ajudam a pensar sobre a arquitetura por trás das páginas da web. Eu entendo que chamá-las de “brutalistas” é um pouco irônico. Eu me sentia um pouco desapontado e ameaçado quando as pessoas nomeavam as coisas, mas hoje eu percebo que é só uma parte do processo — todo mundo é um pouco territorialista, inclusive eu, e isso não é grande coisa porque praticamente todo nome bem sacado para alguma coisa na Internet eventualmente desaparece, da mesma forma como os blogs aos poucos desapareceram.


Publicado originalmente no Track Changes, blog do Postlight, um estúdio de desenvolvimento de sites e apps de Nova York.

Tradução por Leon Cavalcanti Rocha.

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10 comentários

  1. Percebi alguns acertos e uma maioria de erros na seleção do brutalistwebsites.com mas, como o próprio autor evidencia, definir um site brutalista não é exatamente fácil.

    Segundo a minha concepção, o Brutalismo tem dois pontos principais — derivados diretamente de uma arquitetura necessária ao pós Segunda Guerra — que devem ser presentes também nos sites que entram nesse balaio: caráter extremamente prático e reconstrutivo, e a Verdade dos Materiais (esse mais complicado de aplicar ).

    Sobre esse caráter prático, exemplos como

    http://ricochet.cc/
    http://oddsandreason.co.uk/
    http://trulybald.com/

    passam longe do brutalismo no sentido de que toda a funcionalidade comunicativa de um site se perde numa abordagem “artsy” do meio que é uma página da internet (se é uma abordagem boa ou ruim já caímos num juízo de gosto que não me compete agora).

    Por outro lado, páginas como:

    https://amdouglas.com/
    http://fuchsborst.de/
    http://www.gabrielwhaley.com/

    mantém o “brut” do movimento estético no meio digital sem perder a objetividade da mensagem, mais ou menos como o próprio Manual.

    Já sobre o princípio da Verdade dos Materiais, este é facilmente perceptível quando se os materiais são de fato… materiais. É fácil perceber que é uma construção é brutalista quando o concreto bruto e a madeira não tratada estão ao alcance dos olhos, agora em temos de websites eu fico com as dúvidas: HTML puro sem CSS nenhum? Foco absoluto na objetividade e abdicação de floreios? A “flat-ização” de páginas da web nos últimos anos é o início de um movimento maior em relação a abstração das user interfaces onde botões não precisam mais, de fato, parecerem botões? Seria o motherfuckingwebsite.com o maior e mais real expoente desse movimento?

    1. Que sensacional esse Motherfucking Website! E ele ainda dá a dica do http://txti.es para criar sites similares. Num arroubo de insanidade, de repente, algum dia o Manual acordará assim, haha!

      Quando li o texto do Paul a primeira coisa que me ocorreu foram aqueles sites acadêmicos, sabe? De professores, doutorandos e departamentos que parecem (provavelmente foram) feitos sem o uso de CSS. Tipo isto: http://www.dfe.uem.br

      1. O Motherfucking Website é meu refúgio quando o cliente chega pedindo milhões de features malucas e sem sentido. E não ficaria surpreso de abrir o Manual um dia e me perguntar se abri ele no Lynx ao invés do Chrome também, hahaha.

        Sobre esse exemplo, eu acho que esse tipo de site está mais pra naïf do que para brutalista. Um ponto que eu li no thread lá do Hacker News é que o site não precisa ser visualmente “brutal” aos olhos e sim cru.

        Acho que uma boa analogia seria fazer um site ser estéticamente interessante apenas com tags html e estilos padrão de navegador da mesma maneira que o prédio da prefeitura o faz com o concreto bruto

        http://jehozadakpereira.com/wp-content/uploads/2014/07/Prefeitura-de-Boston-1.jpg

        Da listagem do Brutalist Websites, o que o que chega mais perto disso é o http://squinch.org/

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