Moto G: suportável com ROM alternativa.

O Moto G do meu pai, salvo graças ao Cyanogenmod


14/4/16 às 18h07

Por acompanhar de perto os últimos lançamentos e estar atento à flutuação dos preços de coisas como smartphones e tablets, não é raro as pessoas me pedirem conselho sobre o que comprar. Mesmo estando a par do mercado, dar esse tipo de indicação é sempre um desafio — não existe produto que sirva a todos com o mesmo nível de satisfação e os orçamentos costumam variar bastante. Embora eu faça isso de bom grado sempre que possível, há uma pressão inerente devido ao risco de errar, ou seja, da pessoa comprar o que eu indiquei e acabar com um produto que não a atende.

Quando isso acontece, fico um pouco frustrado.

Quando aconteceu com meu pai, fiquei muito frustrado.

Meu pai usa celular faz um bom tempo, mas até uns dois anos atrás ainda carregava um daqueles modelos simples, do tipo que só faz ligações e troca mensagens. Num dado momento, suspeito que ao perceber que todos à sua volta, incluindo amigos e familiares, estavam trocando as formas mais tradicionais de comunicação pelo WhatsApp, surgiu nele o interesse de ter um smartphone. Claro que coube a mim indicar um.

Olhando em retrospecto, a escolha pelo Zenfone 5 foi até fácil. Minha mãe já tinha um e o aparelho a atendia muito bem. Imaginando que o perfil dos dois não diferiria muito, era uma indicação óbvia. Ele acabou comprando um e estava bastante satisfeito.

Mas, no que aparenta ser uma sina familiar recente, meu pai também teve seu celular furtado. Quando saímos em busca de um substituto, já estava difícil encontrar o Zenfone 5 no varejo nacional. No meio da busca deparei-me com um Moto G de segunda geração sendo vendido com um belo desconto. Havia certa urgência e como eu tinha testado esse aparelho também (embora fosse a versão sem 4G) e gostado o mesmo tanto que do Zenfone 5, fechamos nele.

O Moto G cresceu, mas continua cabendo bem na mão.
Moto G no final de 2014, ainda com Android 4.4.

Esperava não ouvir reclamações tão cedo, porém não foi o que aconteceu. Desde o primeiro dia meu pai reclamou da lentidão do Android e dos poucos apps que ele usa — basicamente Chrome, Facebook e WhatsApp. Seria exagero? Havia essa possibilidade. Fui ver de perto a situação e… não, ele não estava exagerando. Apps e links demorando horrores para abrir, sistema congelando do nada, tudo incrivelmente lento. O Spotify, que instalei numa festa para fazer um som ambiente, sequer abria. Era uma experiência muito diferente da que eu tivera com o mesmo Moto G no final de 2014. A diferença entre eles, além da conectividade 4G? A versão do Android.

O Moto G de segunda geração foi lançado com o Android 4.4. Hoje, o aparelho está na mais recente, a 6.0. O do meu pai saiu da caixa já com o Android 5.0 (ou 5.1, não lembro direito). Em algum ponto desse processo de atualizações a Motorola perdeu o jeito — e o que havia de otimização e cuidado com o Android do Moto G. Parece outro smartphone esse do final de 2015, muito diferente (muito pior, digo) que aquele que eu vira e recomendara sem ressalvas um ano antes.

Tentei o básico para situações como essa, que é procurar por apps que talvez estejam consumindo recursos desnecessariamente. Nada. Na superfície estava tudo ok, nenhuma anormalidade à vista. Sem sucesso, o que me restou foi sugerir algo drástico: desbloquear o Moto G e instalar uma ROM alternativa.

Cyanogenmod e o universo de ROMs alternativas do Android

ROMs alternativas são versões do Android feitas por outras pessoas ou empresas que não a fabricante original. Existem algumas mais estabelecidas como Cyanogenmod, MIUI (da Xiaomi), AOKP e Pac-ROM. A variedade permite que as ROMs alternativas foquem em aspectos específicos para agradar nichos, então você tem ROMs focadas em desempenho, outras em personalização, algumas em apenas ser diferente ou melhor que as originais… fica ao gosto do freguês, inclusive ao gosto duvidoso como acontece com frequência na cena:

As ROMs são gratuitas e na maioria dos aparelhos, talvez em todos, o desbloqueio (necessário para a instalação) e a troca dela implicam na perda da garantia. Vale a pena repetir para ficar bem claro: fazer isso invalida a garantia do seu smartphone ou tablet. Pense bem antes de tomar esse caminho, pois.

Além de resolverem problemas pontuais, ROMs alternativas também são bastante utilizadas quando um aparelho é abandonado pela fabricante, ou seja, quando ele deixa de receber atualizações, coisa que ainda é bastante recorrente com dispositivos que rodam Android. Rafael Rigues, jornalista e entusiasta de tecnologia, diz que “é uma forma de dar ‘vida extra’ a aparelhos que, embora não sejam mais topo de linha, ainda funcionam perfeitamente para as atividades básicas do dia a dia.”

(Curiosidade: o termo “ROM” nesse contexto é um desses erros de linguagem que, pelo uso, acabam ganhando espaço em nosso vocabulário. “ROM” significa “memória somente de leitura”, ou seja, refere-se a um tipo de memória que não pode ser alterada ou que até pode, porém através de processos demorados e complexos. Um exemplo fácil de ROM são os antigos cartuchos de jogos do Super Nintendo, Mega Drive e Gameboy: havia um chip de memória dentro do cartucho de plástico que armazenava o jogo inteiro, sem dar espaço para modificações. No léxico androidiano, como explicado acima, “ROM” ganhou outra significação. Usa-se o termo para se referir a versões modificadas do Android. Virtualmente toda ROM é modificada — até mesmo o “Android puro” que o Google usa na linha Nexus é modificado em relação ao projeto de código aberto do Android, o AOSP, que não inclui os apps do Google, por exemplo. Então, quando você ler “ROM alternativa” ou “custom ROM” num contexto de smartphones Android, pense em versões modificadas do sistema.)

Tela inicial do Cyanogenmod num Moto G.

Para o Moto G do meu pai escolhi o Cyanogenmod 12.1, que usa como base o Android 5.1. A instalação me tomou cerca de três horas entre backups, leitura de tutoriais e alguns vídeos esteticamente esquisitos (porém eficientes) no YouTube e o procedimento em si. Ao final, tudo correu bem: o Moto G de segunda geração estava novo de novo, com um sistema diferente e a promessa fazer as coisas mais rápido.

Algumas semanas depois, pedi uma avaliação ao usuário — no caso, meu pai. Ele me disse que o celular ficou “praticamente igual ao antigo [Zenfone 5]”, o que é um elogio nessas circunstâncias. Segundo ele os vídeos do Facebook e WhatsApp abrem na hora e os intervalos de vários segundos entre um toque e outro em virtualmente qualquer tela ou elemento, especialmente em links para páginas web, sumiram. O veredito? “Bem melhor”.

É de se reconhecer que o hardware desse Moto G não é o pináculo da tecnologia em 2016. Mesmo na época do seu lançamento ele já não era de tirar o fôlego. Era um smartphone de nível intermediário e o tempo não faz muito bem a dispositivos dessa faixa. Os requisitos do Android, embora não sejam lá uma ciência exata, são baixos, mas mesmo assim o Moto G, que usa um Snapdragon 400 e vem com 1 GB de RAM, sofre com a versão de fábrica do sistema.

O meu ponto é que mesmo com hardware relativamente fraco e defasado, esse aparelho não deveria estar tão ruim como estava. A própria instalação do Cyanogenmod atesta isso: sem qualquer alteração de hardware, mudando apenas a ROM, o Moto G ficou mais esperto, menos lento, bem melhor.

O sucesso na instalação e a melhoria geral me deixaram feliz, mas ao mesmo tempo fiquei intrigado com a situação toda. Como um bando de entusiastas, gente com menos acesso, dinheiro e interesse que a fabricante, consegue fazer uma versão do Android para o Moto G que se sai melhor que a oficial da Motorola? (Eu perguntei isso diretamente à assessoria da Motorola, mas não tive resposta até a data da publicação deste post.) Por que a fabricante não entrega o máximo que o smartphone pode fazer? Não é do interesse dela fidelizar o cliente, não só com atualizações constantes, mas com atualizações que não degradem o desempenho do dispositivo a fim de que quando chegar a hora de trocá-lo ele nem cogite marcas concorrentes?

O que talvez separe empresas como a Motorola de iniciativas como o Cyanogenmod é a burocracia e os padrões de qualidade. É conhecido o dilema dos longos processos pelos quais as atualizações do Android passam dentro de qualquer fabricante — a Sony já o detalhou e, pela demora comum a todas elas, isso deve se repetir nas demais. Comunidades como a do Cyanogenmod são mais descompromissadas e, talvez por isso, mais céleres nos testes e na liberação das ROMs. Só que, apesar do bom trabalho que desenvolvem, elas formam um nicho, são uma solução fora do alcance da maioria que sofre com o software comumente ruim que as fabricantes instalam em seus dispositivos Android.

Aviso medonho de booloader desbloqueado do Moto G.
Foto: InsideandroidPE/YouTube.

Meu pai pode contar com alguém próximo que pensou nessa saída e conseguiu, meio que aos trancos e barrancos, realizar o procedimento. Se dependesse dele, que é muito inteligente, mas entende tanto de software de celular quanto eu das regras do rugby (ou seja, pouca coisa), só lhe restaria reclamar da lentidão até que a paciência se esgotasse e ele decidisse trocar o Moto G por outro smartphone novo e mais rápido. E até mesmo para quem sabe ou tem alguém apto a fazer o trabalho sujo, rooting e a instalação de uma ROM alternativa não é uma decisão simples, automática; isso anula a garantia! (Após o desbloqueio, aliás, um alerta medonho da Motorola passa a ser exibido toda vez que o smartphone é ligado.)

Note, ainda, que não se trata de um procedimento livre de riscos ou que está disponível a todos. Alguns modelos de smartphone não têm ROM alternativa por restrições da fabricante ou pelo uso de componentes mais obscuros, em especial o SoC (o chip tudo-em-um que inclui processador, GPU e, às vezes, as antenas do 3G/4G). O procedimento, embora seja simples, não é à prova de falhas. Mesmo um bem sucedido pode resultar em problemas devido a bugs da ROM. A Cyanogenmod é bem estável com o Moto G; outros aparelhos e/ou outras ROMs já não são tão garantidos.

De qualquer forma, é um submundo alternativo com o qual a pessoa interessada em apenas usar seu smartphone não deveria se preocupar. Desbloquear um aparelho Android e instalar ROMs alternativas são atitudes que abrem um universo de possibilidades; só que para muitos, e eu me incluo facilmente nesse perfil, é um universo que não diz nada, que idealmente não interessa. Quero um celular que eu tire da caixa, insira meu e-mail e senha e comece a usar, só isso. Qualquer trabalho extra no sentido de torná-lo usável é tempo desperdiçado. É querer muito?

Como instala Cyanogenmod no Moto G?

Tela de informações sobre o Moto G com Cyanogenmod.

Como quase tudo na vida, trocar a ROM de um dispositivo Android também fica mais fácil depois que você faz uma vez e passa a conhecer o procedimento. Esse é composto, basicamente, por três etapas:

  • Desbloquear o bootloader do aparelho;
  • Instalar um “recovery” alternativo, uma espécie de software básico para gerenciar arquivos na raiz da memória (leia-se: apagar o Android de fábrica e instalar a ROM alternativa);
  • Instalar a ROM alternativa em si.

Algumas partes são um pouco intimidadoras por envolverem linhas de comando e backup e exclusão de grandes quantidades de arquivos. É preciso, ainda, fazer uma boa preparação: fazer um backup completo para o caso de dar tudo errado, baixar ferramentas como adb e fastboot (dica: não baixe o SDK do Android, pegue esses arquivos avulsos de pacotes como o Minimal ADB and Fastboot ou ADB Installer) e ter os arquivos de instalação do recovery (TWRP), da ROM alternativa e, caso queira, dos apps do Google (usei este pacote que instala apenas o básico, mais os apps que você quiser, e que, de verdade, é tão bom que deveria ser padrão em todo smartphone Android).

Atente que cada smartphone ou tablet tem uma ROM específica. Diferentemente de computadores convencionais, onde o mesmo Windows serve para qualquer um que atenda os requisitos mínimos, dispositivos móveis são altamente especializados e demandam a ROM correta para que tudo funcione. Mesmo diferenças sutis, como é o caso do Moto G de segunda geração com suas versões apenas 3G e com 4G, e mesmo smartphones com componentes quase idênticos, mas de diferentes marcas e gerações, têm ROMs próprias. É preciso muita atenção nesse ponto.

Um dos muitos tutoriais em vídeo, sobre Android, no YouTube.

Fiz todo o procedimento com base na wiki oficial do Cyanogenmod e com o auxílio em vídeo de uns caras no YouTube (estas feras). Deu algum trabalho, demorou, mas foi mais tranquilo do que imaginava que seria. As telas e instruções são bem menos intuitivas do que se costuma ver em software comercial contemporâneo, mas elas são minimamente compreensíveis e, com boa vontade, é possível desbravá-las e chegar ao fim do processo com a ROM alternativa devidamente instalada e rodando no dispositivo.

Instalar ou não uma ROM alternativa?

Para não ficar só no meu relato, pedi aos leitores do Manual do Usuário para que compartilhassem histórias de ROMs alternativas no nosso canal no Disqus.

Vinícius Santana:

“Eu também ainda tenho um Moto G de primeira geração e o motivo de ter instalado a Cyanogenmod 13 foi desempenho. A última atualização oficial da Motorola para o aparelho (Android 5.1) o deixou muito lento. Hoje, meu aparelho roda um Android 6.0 com as vantagens que a personalização da Cyanogenmod [oferece] e desempenho semelhante ao do Android 4.4.”

Luis Henrique:

“Uso uma custom ROM (acho que a Cyanogenmod) para o meu tablet velho de guerra, um Galaxy Tab (as atualizações oficiais pararam no 4.1). Fiz o procedimento já tem mais de ano, mas estou com uma puta preguiça de procurar uma ROM nova e atualizada. No meu antigo Galaxy Mini praticamente trocava de ROM a cada 15 dias. Não sei como gostava desse sofrimento de ter que lidar com esse processo chato.”

Adriano Garcez

“Moto G (2013) com Cyanogenmod 12.1. Troquei porque estava sofrendo com memory leak. Tinha de reiniciar o celular todos os dias para não ficar impossível de usar. Fiz um teste com a CM por 30 dias ligados e não houve degradação de desempenho. De qualquer forma, é ligeiramente mais rápido do que a melhor desempenho que conseguia antes, ou seja, logo depois de reiniciar. O modo f.lux nativo e o root ativado em dois cliques é vida, sem contar algumas personalizações que posso fazer. Em questão de sistema, a experiência é quase igual, já que tanto a Motorola quanto a CM possuem Android quase puro.”

Andre Guilhon

“Eu uso no meu Galaxy S4 por alguns motivos. O ganho em desempenho após a retirada da sofrível Touchwiz é gritante, a autonomia da bateria também aumenta. O celular se mantém atualizado. Para mim, isso já seria uma grande vantagem. Mas a maior delas é a possibilidade de tirar aquele monte de app inútil da memória interna do celular.”

Roberto Oliveira

“A ROM alternativa, além de tudo, deu um gás no aparelho com a possibilidade de personalização através de temas e outras coisas. A função mais interessante, aliás, que veio quando atualizei da CM 12.1 para a 13, é a possibilidade de utilizar o cartão de memória como uma extensão do armazenamento interno. Ajuda a resolver um dos principais problemas do Moto E, que é a limitadíssima memória interna (de 4 GB, com 2,1 GB disponíveis ao usuário).”

Como já dito, nem tudo são flores. Fabio Montarroios arriscou uma ROM alternativa em seu tablet e…:

“Tablet LG Pad 8.3. Estava tudo em ordem e funcionando, apesar do Android velharia. Daí fui lá, todo pimpão, e instalei o diabo do Cyanogenmod 12 (que agora está versão 12 e muitas-letras-e-números ao lado do 12, com praticamente uma atualização por semana). Agora tenho um visual bacana e tal, mas sou assolado, vez ou outra, pela black screen of death (certamente apelido dado por algum nerd viciado em Star Wars). A tal tela preta da morte (eu tô vivo, apesar do nome) faz com que você não veja nada… Só reiniciando.”

O comentário do Nelson Souza revela outro possível problema das ROMs alternativas, que é a falta de otimização em alguns componentes do aparelho:

“Atualmente eu não uso uma ROM diferente. Usei no meu antigo Galaxy SIII, que tinha um desempenho sofrível. Com o Cyanogenmod eu consegui extrair um desempenho muito melhor do celular. A perda considerável foi na câmera, que ficou muito pior, mas convivi com isso até o fim da vida do celular.”

Pelos relatos fica a sensação de que ROMs alternativas, rooting e essas nerdices de Android são coisas que demandam muito tempo e tolerância a eventuais falhas. Às vezes você só se dá conta de que algo está quebrado na ROM quando precisa daquele recurso — um bug no Bluetooth quando conectado a dispositivos de áudio, por exemplo. E como a troca implica na formatação e exclusão de todos os seus arquivos e apps (ah é, isso é um detalhe importante!), é preciso paciência para realizar o procedimento, fazer e restaurar backups e reconfigurar todo o aparelho a cada instalação de ROM. Quem tem tempo para isso?

Se eu recomendo? Depende. Se você descobriu que é o único herdeiro vivo de um tio milionário que não conhecia, esqueça esse negócio e compre um celular decente. Se o tio milionário não apareceu (droga!) e você estiver disposto a abdicar da garantia do seu aparelho perdendo uma manhã com vídeos ruins no YouTube e tutoriais que presumem que tu sejas alguém manjado em Unix, enquanto se debate com um negócio enfadonho em frente a um computador na esperança de que seu smartphone ou tablet fique menos detestável, vá em frente. Há casos, como o do Moto G do meu pai, que pior do que está não fica.

Colabore
Assine o Manual

Privacidade online é possível e este blog prova: aqui, você não é monitorado. A cobertura de tecnologia mais crítica do Brasil precisa do seu apoio.

Assine
a partir de R$ 9/mês