[Review] Moto E: a Motorola repete o milagre no segmento de entrada

Capa amarela do Moto E.

É quase inacreditável que a mesma Motorola do Motoblur e implementações desastrosas do Android de três, quatro anos atrás seja essa mesma que tem nos brindado com smartphones excepcionais e relativamente baratos. Demorou para uma fabricante entender que menos é mais, que o Android puro e hardware de qualidade são coisas que todo consumidor aprecia.

Depois de se destacar com RAZR i, D1 e D3, e de lançar os elogiados e bem sucedidos Moto X e Moto G, a prova de fogo é este Moto E que hoje passa pelo crivo do Manual do Usuário. O desafio era manter a experiência de uso consistente dos irmãos mais caros em um conjunto ainda mais barato que o do Moto G. Já adianto que, no geral, a Motorola conseguiu, mas há detalhes que merecem explicações detalhadas. Vamos a elas, pois.

Perfil gordinho do Moto E.

O Moto E não nega a raça. Mesmo visto de relance é impossível dissociar a sua imagem das do Moto G e Moto X. O formato ergonômico é muito similar, embora a contenção de gastos do projeto tenha resultado em uma pegada menos natural. Ele é mais gordinho e mais rústico, parece menos lapidado. Por outro lado, aspectos marcantes como a tampa traseira arredondada, o logo côncavo da Motorola para apoiar o dedo indicador e o layout enxuto e eficiente de botões e conexões estão todos lá. A dificuldade em abrir a tampa traseira do Moto G, infelizmente, também.

Em relação aos modelos mais antigos e melhores, esse tipo de comparação é uma constante. O Moto E é uma versão mais simples do Moto G que, por sua vez, é uma versão mais barata do Moto X. Sabendo disso, talvez sejam mais válidas comparações fora desse círculo familiar, com outros smartphones na mesma faixa de preço que tentam conquistar aquela pessoa que ainda usa um dumbphone ou se frustra com um Android na faixa dos R$ 300.

Essa faixa de preço, a do Moto E, melhorou muito em 2014. Para colocar isso em perspectiva, basta lembrar do comparativo de smartphones até R$ 500, publicado aqui no início do ano. O Moto E supera todos com facilidade. Quanto? Digamos que as travadas e demoras excessivas no carregamento de apps, tão comuns em modelos Android até então, são raras no uso leve/moderado — comportamento que o Xperia E1, da Sony, também apresenta. Comprometimentos em áreas vitais, como tela, também são coisa do passado. Quem quer um smartphone barato e não pode gastar muito nunca esteve melhor servido.

O hardware do Moto E se excede nas áreas mais importantes. O SoC é um Snapdragon 200 com CPU Cortex A7 dual core rodando a 1,2 GHz, e a RAM é de 1 GB. Como ele já está atualizado para o Android 4.4, que pega leve com o uso de memória, é uma configuração suficiente para permitir o uso sem maiores transtornos.

Tela é simples, mas um ponto alto.

A tela é um destaque positivo e marca um salto de qualidade em relação à do RAZR D1. Com resolução qHD (960×540), e cores e contraste legais, é muito boa para essa faixa de preço. Ela se complica em alguns pontos, como distorções de cores quando encarada de lado. O brilho não muito forte e a baixa densidade de pixels, que se faz notar para quem se acostumou com altíssimas resoluções, também são contras perceptíveis. Nada que tire seu mérito no reino dos smartphones de entrada, e com o bônus do revestimento Gorilla Glass 3.

As fraquezas, que permitem ao Moto E ser vendido por um valor menor que o do Moto G, foram concentradas em áreas marginais, aquelas em que o usuário só repara eventualmente. Em especial, câmeras e armazenamento interno.

Câmera simples é um dos pontos fracos do Moto E.

Com foco fixo e incapaz de gravar vídeos em alta definição, a câmera traseira do Moto E está ali apenas para cumprir tabela. A falta de definição é gritante. Certas imagens com muitos detalhes, como a copa de uma árvore, parecem mais pinturas a óleo do que fotografias.

Em boa parte isso também se deve ao pós-processamento agressivo, uma tentativa desesperada de diminuir o ruído. De fato, há menos do que eu esperava em uma câmera tão simplória, o que não significa que os resultados sejam bons. Não há mágica ou engenharia que contorne as limitações de um conjunto de câmera fraquíssimo. Veja este crop de 100% de uma foto com (teoricamente) muitos detalhes:

Perda drástica de detalhamento.
f/2,4, 1/1852s, ISO 125. Crop de 100%.

Hospedei as fotos originais em uma nova conta no Flickr, criada apenas para fotos de amostras dos smartphones que testo, sem qualquer edição. Veja a pasta do Moto E.

E a câmera frontal… bem, não existe. O sensor de proximidade, porém, curiosamente está ali.

Uma câmera ruim atrapalha na medida da importância que fotografia tem na vida do usuário. Já o espaço interno é um fator que atinge todos os perfis de maneira mais ou menos igual. O Moto E vem com 4 GB de memória para sistema, apps e arquivos, o que é bem pouco atualmente. Com apenas dois jogos instalados (Piano Tiles e Robot Unicorn Attack 2, ambos rodando bem), nenhuma música, os apps que mais uso instalados e poucas fotos gravadas, só me restam ~190 MB de espaço livre. Existe um slot para cartão microSD de até 32 GB e é bom considerar a compra de um junto ao aparelho para não passar sufoco.

O Moto E vem com alguns mimos bacanas, como resistência a respingos e o alto-falante na frente do aparelho — apesar de parecer stereo pelos frisos prateados em cima e embaixo, não é o caso. Ele faz um som audível, mas sem muita qualidade. A vibração é forte, mais do que estou acostumado. A versão testada, dual SIM, conta com receptor de TV digital e vem com duas capas extras na embalagem, uma amarela e outra verde/azul musgo. Além de conferir um visual mais moderno, elas são menos suscetíveis a marcas de dedo do que a preta padrão. Acessórios simples que fecham o pacote, como os fones de ouvido, ratificam que se trata de um projeto de baixo custo.

Moto E.

Lançado em maio com o preço sugerido de R$ 599, hoje já não é muito difícil encontrar o Moto E na faixa dos R$ 500. Ele não é um custo-benefício tão evidente quanto o Moto G, mas ainda é um difícil de bater. Como todo bom celular, tem o trunfo de… funcionar bem. É só isso o que nós, usuários, queremos: um negócio que responda conforme o esperado, sem surpresas desagradáveis, sem muitas firulas, sem colocar recursos duvidosos na frente do Android puro. O Moto E é um smartphone simples e competente, condizente com o preço que custa. Um Android honesto.

Compre o Moto E.

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Comprando pelos links acima o preço não muda e o Manual do Usuário ganha uma pequena comissão sobre a venda para continuar funcionando. Obrigado!

Todas as fotos por Rodrigo Ghedin, salvo quando especificado.

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20 comentários

  1. Eu acho realmente que 4 GB é muito pouco pra um celular Android.
    Mesmo passando os apps pro SD (o que não é possível com todos os apps), parte da instalação do Apps precisa ficar na memória interna. E eu que tenho mexido bastante em Tablets Android baratos, com a pouca memória interna quase na maior parte ocupada pelo sistema, vejo que ter um SD nesses casos ainda não é uma solução muito eficiente.
    Ainda não tive contato com um Windows Phone de 4 ou 8GB e cartão SD pra ver se a situação é a mesma, mas se não for, acho que ainda um Lumia 630 seria melhor opção.

  2. Certeza que o Manual do Usuário vai ser referência tão conhecida quanto o Giz e MeioBit em pouco tempo. Ótimo trabalho, Ghedin!!!

    1. Realmente, o trabalho está ótimo, está de parabéns. A partir de hoje será um dos principais sites que acesso para tecnologia.

  3. Meu único porém com relação ao Moto E é que ele usa Cortex-A7 e o coloca no nível de desempenho bruto de um Lumia 530, embora o uso de 1 GB de RAM o faça melhor que aquele aparelho com WP 8.1.

    Aliás, cadê o Moto G dos Lumia?

    Não tem um Lumia com quad-core Cortex-A7 com 1 GB de RAM e tela HD na mesma faixa de preço. Um Lumia 630 não só fica abaixo disso como também fica meio abaixo do Lumia 520 até na câmera.

    1. Nunca entendo a tara por 1GB de ram no Windows Phone, o que falta mesmo é um concorrente pro moto E (Lumia 530). Se chegar por R$499 tem grandes chances de ser um sucesso.

      O que é louco são os preços da Nokia, independente do aparelho ter especificações iguais ou inferiores a Microsoft tem que vender o aparelho por um preço menor, Android já é consolidado o Windows Phone não.

  4. Tinha um Lumia 520 e ganhei um Moto E dado pela patroa. Como o antigo samsung dela já tava pela hora do morte, ela ficou com o Lumia.
    Nas poucas vezes que uso a câmera, sinto falta do nokia.
    Mas minha maior saudade são os mapas offline. Tomei um susto ao perceber que o android não oferece opção nativa equivalente.

    Ainda estou me acostumando com algumas coisas.
    Como, por exemplo, um jeito de usar a função de transmitir tela existente no menu de configurações. Ou pra que serve aquele bonequinho de ‘contato inexistente’ no menu de contexto ao lado do brilho.

    Considerando minha experiência com o Lumia 520 como primeiro smart, e o Moto E como o segundo não sei ainda se tentaria partir para um celular como um 930 ou um Moto X da vida em um momento futuro.

    1. “Transmitir tela” só funciona com alguns aparelhos (como o Nexus 5) e um Chromecast, sei lá porque deixaram a opção aberta.

      O contato é o seu perfil de usuário do Google, que deve dizer “contato inexistente” porque você não colocou um nome no assistente inicial. Em tablets ele serve para mudar a conta de usuário, mas em celulares ele não faz nada.

    2. Mapas offline (serviço completo, com direito a buscas, navegação GPS guiada por voz e recálculo de rota) são uma coisas que mais gostei quando migrei do Android para um Lumia. A outra foi a câmera Pure View, que mesmo tendo a mesma quantidade de megapixels do meu antigo aparelho oferece resultados incomparáveis. :-)

        1. Da única vez que eu consegui fazer download de uma área no Google Maps do Android (faz teempo), ele era só isso: um cache do mapa, para você visualizar, nada mais. Não era possível realizar buscas, localizar-se no mapa offline com o GPS, calcular rotas, muito menos ter a navegação por voz. Estamos falando do mesmo recurso, ou já foi possível (aqui no Brasil) fazer tudo isso no Google Maps offline também?

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