Vendo as horas no Moto 360, visão em primeira pessoa.

[Review] Android Wear e Moto 360, o smartwatch da Motorola


3/6/15 às 13h20

Demorou, mas finalmente um smartwatch passou por aqui. Foi o Moto 360, da Motorola, que usei por quase um mês pareado a um Moto X (2014). Como o Android Wear praticamente não varia, diferentemente do Android para smartphones, aproveitei os testes para tentar entender, também, o que a indústria promete (e entrega) em troca de um espaço no nosso pulso.

Há uns bons anos abandonei o meu velho relógio analógico em prol do celular. As vantagens eram (e continuam sendo) muitas. A convergência, mesmo nos celulares simples, precursores do smartphone moderno, compensava o trabalho extra de tirar um pedaço de plástico/metal do bolso para ver as horas contra apenas levantar o braço. Para mim, pelo menos, saber que horas são nunca foi uma necessidade tão urgente a ponto de tornar essa troca desvantajosa.

No tempo em que usei o Moto 360, a melhor coisa que ele fez foi mostrar as horas. Isso é bom e ruim. Bom porque, mesmo cheio de funções extras e possibilidades, a sua primordial é bem desempenhada, ou seja, ele é um bom relógio. E ruim porque ter como destaque a função que o produto que pretende substituir faz tão bem quanto, dá uma impressão de oportunidade perdida, ou de que faltam razões para… bem, para existir.

Chegaremos nessa discussão, mas antes cabe elogiar a execução da Motorola.

Moto 360, um relógio bonito

O Moto 360 tem a caixa redonda (46 mm de diâmetro, 11,5 mm de espessura), com uma moldura fina em aço e apenas um botão físico, à direita. Desde o seu anúncio, essa característica, então exclusiva, era a que mais chamava a atenção. Definitivamente, ela contribui para o resultado.

Coroa/botão do Moto 360.

Caixa em aço.

Pulseira de couro e fecho em aço inoxidável.

Usando casualmente o Moto 360.

Desacostumado com relógios como eu estava, a primeira impressão foi a de que o Moto 360 era muito grande. Depois, com o uso no dia a dia, acostumei-me ao tamanho; é ok, mesmo para quem tem pulsos finos como eu. Sobre aquele corte na parte inferior da tela, motivo de escárnio por nove entre dez geeks, ele chama a atenção, sim, mas não é algo horroroso, ou que coloque em xeque o design.

O modelo que a Motorola enviou tem a caixa em aço escovado e uma pulseira de couro meio cinza misturado com marrom, com o fecho de aço inoxidável, bem confortável, mas com um detalhe chatinho: o segundo “prendedor” do que sobra da pulseira é solto, e não raro ela escapa dele. Detalhe mesmo, já que não compromete a segurança do relógio no pulso, nem nada do tipo.

O Moto 360 é um relógio elegante, independente de ser smart ou não. Todos a quem mostrei acharam o mesmo, ou seja, o que já falávamos lá atrás, na época em que ele foi anunciado, eu pude confirmar na prática: beleza é fundamental. É um acessório que tem um caráter utilitário, sim, mas um em que o visual também pesa bastante. Mesmo não o achando lá muito útil, senti-me confortável e gostava de usar o Moto 360, como gostaria se ele fosse apenas um relógio comum, que só mostra as horas.

Smartwatch Moto 360 na base de recarga.

A elegância do Moto 360 chega até à sua base de recarga. Ela usa um sistema de indução, ou seja, sem fios. Basta largar o relógio ali para iniciar o processo. A tela entra num modo próprio, com brilho bem baixo próprio para ambientes escuros, e exibe um arco na borda que cresce de acordo com a porcentagem de bateria recarregada e o relógio no centro. Da mesma forma que o relógio adorna o braço, a base pode muito bem melhorar o visual do rack da sala, ou do criado-mudo. (Bem diferente de um cabo USB largado, como é o caso de quase todos os smartphones e a maioria dos smartwatches concorrentes.)

É um relógio bonito e, dentro da sua proposta, funcional. Perfeito? Longe disso. Eu gostaria que a tela fosse de AMOLED, em vez de um LCD convencional. Com o modo ambiente do Android Wear, que remove as cores e exibe apenas linhas e elementos brancos contra um fundo preto, e que em breve será estendido aos apps, faria mais sentido. (Recapitulando: em tela AMOLED, o preto não consome energia e é preto de verdade porque ela simplesmente “desliga” os pixels dessa cor a fim de exibi-la.)

O tamanho da tela, de 1,56″, e a resolução, de 320×290, são quase ideais. À distância com que se olha um relógio, a densidade de pixels entrega um resultado agradável. Poderia ser um pouquinho mais densa, já que algumas curvas e contornos ficam serrilhados mesmo de longe, mas não é algo que chega a incomodar. Na verdade, esses detalhes passam batidos quando você não está os está procurando.

A tela poderia ter resolução maior.

Outro aspecto que poderia melhorar é a bateria. Costumo acordar um pouco antes das 8h e me deitar um pouco antes da meia noite. Na média, ao colocar o Moto 360 na base antes de dormir, ele tinha entre 10% e 14% de bateria restante. Usei ele sempre com o brilho no automático (o relógio tem um sensor de iluminação, o que deveria ser mandatório em todo produto do tipo) e com o modo ambiente ativado. É o mínimo aceitável, mas longe do ideal. Ter mais um gadget para recarregar antes de dormir é uma daqueles pequenos ônus que, no acumulado, acaba enchendo o saco.

Essa sensação de estafa é maior porque não consegui extrair muita utilidade do Android Wear. Essa foi a minha maior bronca com o smartwatch.

Interface e apps

Cartão do Google Agenda no Moto 360 me avisando da sessão de pilates.

A interface do Android Wear, mesmo sendo simples, impõe uma curva de aprendizado. A tela principal é, obviamente, a do relógio. Um toque exibe a lista de apps e ações, e ao mesmo tempo ativa os microfones (são dois, para maior precisão) para receber comandos. (Você também pode, com a tela ativa, dizer “Ok Google” para ditá-los.) Segurando o dedo na tela inicial, o seletor de faces abre e além de escolher uma, pode-se personalizá-las levemente — não é algo tão flexível quanto parece ser o esquema do Apple Watch.

Modos do Moto 360, que refletem no smartphone.

Arrastando o dedo de cima para baixo o sistema exibe as configurações gerais e atalhos para modos prioridade e silencioso (que são replicados no celular, o que é muito legal), modo teatro (realmente útil no cinema e locais do tipo) e modo luz solar (brilho no máximo, para enxergar a tela sob o Sol). De baixo para cima, passa-se pelas notificações/cartões dos apps. Para dispensar um cartão, arraste o dedo da esquerda para a direita com ele na tela; o movimento contrário te leva pelas telas do cartão, que podem conter mais informações ou ações simples.

Listão de apps e ações do Android Wear.

Fica claro, pelo menos nessa iteração do Android Wear, que os apps ainda estão subdesenvolvidos e não são lá muito prioritários. Eles ficam escondidos no final da lista de comandos (embora você posa chamá-los dizendo “Abra o [app]”) e, dos poucos com uma interface própria no relógio, a maioria é lenta e não faz nada muito interessante; com uma ou outra exceção, são apenas simplificações lentas e capengas que mais irritam do que economizam tempo.

Mesmo os que têm potencial para isso, como o WhatsApp, que permite responder mensagens, exigem toques na tela e são bastante restritos nas possibilidades. Colocando num exemplo, eu queria responder com uma mensagem de áudio, não em texto, sem precisar tocar a tela enquanto lavava a louça. Não dá. Apps de música e vídeo podem ser controlados pelo relógio, o que é algo que ajuda em determinados cenários (ouvindo música na rua, por exemplo), mas como a distância entre o pulso e o celular costuma ser praticamente a mesma, é quase sempre uma utilidade meio redundante.

À frente, Moto 360. Atrás, smartphone onde a música está tocando.

Não que eu queira apps completos replicados no pulso, longe disso. (O Yo funciona assim, além de ter notificações dinâmicas, mas ele é uma exceção pela simplicidade da sua proposta.) O problema é um misto de falta de bons insights dos desenvolvedores com uma base mais flexível e poderosa que o sistema não oferece.

O Moto 360 conta passos, mas depende do celular para monitorar corretamente uma atividade física. Se eu tenho que levar o celular, o relógio é dispensável — os sensores do primeiro são tão ou mais precisos que os incluídos no relógio. O monitoramento da frequência cardíaca está lá, mas é ativado manualmente. Existem não um, mas dois apps, um do Google (Fit) e outro da Motorola (Body), que monitoram meus passos e ficam incomodando para que eu aumente a minha meta, ande mais um pouco para bater recordes ou baixe alguma outra coisa no celular a fim de finalizar a configuração. (Ah sim: o Moto 360 é à prova d’água e poeira, com certificação IP67.)

Medidor de frequência cardíaca do Moto 360.

As costas da caixa do Moto 360.
Atrás, o acabamento é de plástico. Os pontinhos no meio emitem uma luz verde que serve para medir a frequência cardíaca.

O único app verdadeiramente útil no pulso, para mim, foi o Google Maps enquanto dirigia. Ele coloca no relógio as indicações de caminho e, quando você se aproxima de uma mudança (curva, rotatória, qualquer coisa), o relógio vibra e acende a tela. É bem mais prático (e seguro!) do que ficar alternando a atenção entre a pista e a tela do smartphone, que costumo largar num compartimento perto do câmbio.

No Android Wear em si existem alguns apps “nativos,” como o despertador e o cronômetro. Também se mostraram úteis no dia a dia, mas não é como se usar o celular para essas coisas, como sempre fiz, fosse muito pior. Nessas tarefas o Moto 360 facilita algo que já era absurdamente simples, tanto que nunca nem me ocorreu “nossa, eu seria mais feliz se pudesse programar um alarme de um jeito ainda mais fácil.” E calhou de eu estar com um Moto X, que recebe os mesmos comandos de voz com a tela apagada, ou seja, é ainda mais fácil de usar para esses fins do que o relógio.

O dilema das notificações

Exemplos de notificações do Android Wear.

Na prática, o smartwatch me serviu para duas coisas principais: mostrar as horas e me avisar sobre notificações. Esse segundo ponto é crítico. Já falamos no Guia Prático, algumas vezes, sobre o dilema das notificações: são úteis, mas se mal usadas, ou se em excesso, viram uma chateação.

No meu celular pessoal eu desativo as notificações de todos os apps com exceção daqueles que, na maioria das vezes, exigem de mim uma resposta imediata — em resumo, apps de mensagens. Com o Moto 360 e o Moto X deixei tudo ligado de início, depois configurei para o meu modo de uso pessoal, e em ambos os casos não senti melhoras ou mesmo muita diferença na relação com o smartphone.

Talvez isso tenha acontecido pelo meu perfil de uso. Não sou o desprendido que não toca o celular o dia inteiro; longe disso. Ocorre que quando pego ele, poucas vezes é por conta de uma notificação, e mesmo quando é o caso o aparelho está sempre por perto — tanto quanto um relógio estaria. Costumo ser proativo, logo o fato do relógio me avisar que chegou um e-mail, ou que as moedas do Soccer Stars estão em promoção ou ainda que recebi uma mensagem pouco serviram para além de me distrair.

O potencial de distração, aliás, é enorme, e o de ser inconveniente e até mal educado com pessoas à sua volta, sempre iminente. Um smartwatch junta duas das ações mais desagradáveis que você pode ter junto ao interlocutor: ver as horas e mexer no celular. Nas vezes em que saí com amigos, usando o Moto 360, novas notificações me deixaram duplamente ansioso: primeiro por querer ver do que se tratava, segundo ao tentar disfarçar a olhada no pulso.

Em tempo: caso queira continuar recebendo notificações de certo app no celular, mas não no relógio, basta arrastar o cartão correspondente à direita até a tela “Bloquear app” e tocar no botão, ou entrar no app do Android Wear (no celular), tocar na engrenagem e incluir os apps (in)desejados na lista “Bloquear notificações de apps.”

Muitos esperam que o smartwatch fará com que a gente tire menos o celular do bolso, que nos livremos dessa ditadura das notificações. Eu acho curiosa essa ideia, porque ela equivale a tomar um remédio X para a doença Y — é um problema-solução sem relação. Se o seu uso do celular está tão caótico a ponto de você considerar um outro gadget para restringi-lo, talvez seja o caso de reavaliar aspectos mais profundos dela. Um relógio, por melhor que ele seja, não ajudará.

Vale a pena?

Vendo as horas no Moto 360.

O preço sugerido do Moto 360 é de R$ 899 na loja oficial da Motorola. É um relógio lindo e, dentro das suas premissas, funcional, então não é como se fosse caro. Se você acha isso, passe numa relojoaria e veja os preços dos modelos analógicos. A diferença, e o que talvez assuste no quesito preço, é que esses que só mostram as horas provavelmente terão uma vida útil bem mais longa que um com Android Wear — basta ver a Samsung, que no momento em que escrevo isso já lançou 46 smartwatches. Ops, mais um, 47.

Esse é apenas um dos comprometimentos que um smartwatch exige hoje. Eles precisam ser recarregados diariamente, precisam de atenção para a configuração inicial e pequenos ajustes frequentes, se apresentam como mais uma tela que pede sua atenção e comandos — embora “roube” parte do tempo antes gasto com o celular. Não é um mero relógio, para o bem e para o mal.

Eu não sei se quero isso para mim. A relação custo-benefício, num sentido para além do financeiro, ainda é bem ruim. Há pouca coisa realmente útil que um relógio faz melhor que o smartphone, e mesmo quando é o caso, a vantagem é tão tímida que faz pensar se tudo isso compensa. Para mim ele foi muito bom para ver as horas, receber orientações curva a curva do Maps e usar como um acessório de beleza; todo o resto me foi meio dispensável.

Talvez daqui uns anos o smartwatch progrida e vire algo mais flexível e funcional no dia a dia. Sistemas de pagamentos móveis, notificações mais inteligentes e contextuais e desenvolvedores mais familiarizados com uma abordagem diferente, simplificada, são promessas de que esse futuro pode ser realizado. Ou talvez vire o novo headset Bluetooth. Por enquanto? Se eu fosse comprar um relógio, hoje, preferiria um analógico. No máximo algo menos presunçoso, ou menos “inteligente” como o Activité, que mescla a monofuncionalidade e longevidade desses com uma fina camada de esperteza.

Foto de divulgação do Moto 360.

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