Momento de transição

Anúncio da CompuServe, 1983.

Como acontece todo ano, em 2016 o Google dominou as manchetes com os anúncios do Google I/O, sua conferência anual para desenvolvedores. Desta vez sem nada realmente novo, apenas produtos e serviços que replicam o que concorrentes já oferecem com o tempero do Google, ou seja, personalização e inteligência artificial. Vindo de quem vem, porém, é sempre bom prestar atenção — vai que, sei lá, daqui a um ano estejamos todos conversando pelo Allo ou com um “little brother” que tudo ouve e tudo envia aos servidores do Google em nossas salas?

Alguns leitores/ouvintes ficaram incomodados com o título dado ao último programa do nosso podcast, “O Google corre atrás da concorrência”. Mas isso não é algo ruim, desdenhoso ou, de alguma forma, demérito do Google. Como argumenta Vlad Savov, o fato das gigantes da tecnologia enfrentarem concorrência ferrenha sinaliza uma indústria saudável. Um setor monopolizado corre o sério risco de estagnar — lembremos, a título de exemplo, da fase hegemônica do Internet Explorer na primeira metade dos anos 2000 para ter ideia do estrago que isso causa.

Esse incômodo tampouco é exclusividade do Google. Com as vendas do iPhone desacelerando, a Apple precisa olhar para novas frentes e, nessa, talvez já seja tarde demais em algumas consideradas importantes para o futuro próximo. Como foi, em 2007, a revolução da telefonia móvel para a Blackberry, então líder do setor. Serviços, como diz Marco Arment, não é um segmento em que se entra da noite para o dia, nem um onde grandes montanhas de dinheiro operam como atalhos.

As conferências das grandes que já aconteceram este ano (Google, Facebook, Microsoft) não trouxeram, como era comum até pouco tempo atrás, produtos incríveis, irresistíveis, do tipo que queremos já. Elas apresentaram uma espécie de pavimentação para o que está por vir. É o início de um trabalho de base, quase didático. Vimos algumas coisas prontas, mas que ainda carecem de polimento para se mostrarem superiores às soluções mais simplórias e confiáveis de que dispomos e nas quais confiamos.

É notável, por esses e outros indícios, como estamos numa fase de transição na tecnologia de consumo.

Robôs, inteligência artificial, Internet das Coisas, realidade virtual, tudo isso é muito incipiente. São aplicações cercadas de grandes promessas e nenhuma garantia. São apostas, afinal. Elas podem fracassar por inúmeros fatores, o que nos manteria na atual configuração de mercado — smartphones, redes sociais, publicidade programática — por mais algum tempo. Indefinidamente, não; em algum momento haverá uma ruptura. Sempre há e não é preciso ir muito longe para ver que elas acontecem, historicamente falando, num piscar de olhos. Há dez anos as protagonistas da tecnologia de consumo eram Microsoft, Blackberry e Nokia. Mudanças dessa magnitude chacoalham o mercado e podem ser repentinas.

O desafio das empresas melhor posicionadas no momento é tornar essas novas tecnologias, que operam como passagens para um futuro diferente do que vivemos hoje, em produtos fáceis, cômodos e baratos, e, no caminho, empolgar públicos diversos dos de entusiastas e de jornalistas. Gente que hoje vive muito bem sem nada disso ou que enxerga essas coisas como supérfluas ou dispensáveis, como brinquedos de gente rica. Pessoas que há dez anos se viravam sem smartphone, mas que hoje, graças a esse mesmo trabalho feito lá atrás, não desgrudam dessas telinhas mesmo sem terem a menor ideia do caminho percorrido até chegar onde estamos.

Imagem do topo, parte de um anúncio impresso da CompuServe de 1983, via @HistoryTime_/Twitter.

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6 comentários

  1. Acho que o Google não esta correndo atrás da concorrência (como foi a ideia do Podcast), eles estão seguindo algumas tendencias, digo isso pois seria impossível desenvolver alguns dos projetos em pouco tempo. (Tendo como referencia o tempo entre os concorrentes mostrarem seus produtos e o Google o dele).
    O Google e Microsoft precisam com urgência de um gerente de produtos, alguém que esteja no meio do público e perceba os erros na aplicação dos projetos.
    Os dois novos aplicativos do Google de conversa poderiam ser Add-ons do Hangouts acrescentando funções sem deixa ele uma penteadeira de dama que troca favores por dinheiro!
    Outra coisa os Chromebooks estão tendo grande preferencia por parte dos estudantes devido ao preço e sua integração com serviços de qualidade e gratuito, o Google esta viciando essa geração para no futuro eles optem por suas soluções empresarias.
    A Apple já está alguns anos se preparando para a diminuição das vendas de Iphone, por isso ela fechou contrato com grandes empresas como IBM e Cisco para que elas criem solução empresarias tendo como foco os produtos da empresa de Cupertino.
    O erro da Microsoft é não compreender que o Windows Phone é sua vitrine para seus produtos e depender do sistema dos concorrente é muito perigoso.
    Cada uma acerta e erra na sua maneira e hoje eu digo que não existe nenhuma grande empresa com destaque absoluto.

    1. Bom comentário, Manoel! Eu discordo de alguns pontos, porém. Sobre o Google, o que ele fez foi “montar” produtos com “peças” que já tinha (essas sim, derivadas de anos de pesquisa e desenvolvimento). O Home, por exemplo, é a IA do Google Now aplicada a um formato de produto diferente — idêntico ao Echo, da Amazon.

      Sobre a Apple, não sei se eles estavam preparados para essa quebra: http://www.bloomberg.com/gadfly/articles/2016-05-03/tim-cook-peddles-the-wrong-apple-message

  2. As empresas atualmente não tem alguém que enxergue o que realmente seja necessário para que o consumidor médio abrace de vez essas novas tecnologias, esse é o maior problema.

    Esse feeling não aparece da noite para o dia, além de precisar de alguém com muita visão. Sinceramente, não vejo isso próximo de acontecer.

    Smartphones deixaram as pessoas mal acostumadas, à espera de um sucessor e convencê-las de algo que possa deixá-las tão dependentes quanto, é um desafio dos grandes.

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