Panorâmica de um rinque de hockey.

Mobile, smartphones e retrospectiva


24/2/16 às 10h35

Esta noite estou viajando para Barcelona para a MWC deste ano, a principal feira anual da indústria móvel. Tenho ido à MWC desde 2001, entra ano e sai ano, quando era na (fria e chuvosa) Cannes e tinha um décimo do tamanho — no ano passado havia 85 mil pessoas.

O ano de 2001 foi o seguinte ao leilão europeu do espectro de 3G, quando as operadoras móveis, bem no topo das bolhas de Internet e do mobile, gastaram € 110 bilhões em alguns meses. Elas passaram anos se recuperando da ressaca. Grande parte da justificativa para aqueles valores era a promessa de serviços de dados a serem entregues neste espectro. Mas demorou até 2005 para os primeiros celulares com 3G que não fossem tijolos chegarem ao mercado europeu e até 2007, é claro, para os serviços de dados entregues por esse espectro se tornarem interessantes.

Hoje, é possível datar o “mobile” em antes do iPhone e depois do iPhone. Mas o mais interessante, ao olhar para trás, é que antes do iPhone não parecia que precisávamos desesperadamente de algum evento catalítico. Como um professor me disse na universidade, “as pessoas na Idade Média não sabiam que estavam vivendo na Idade Média”. Parecia que estávamos progredindo constantemente. Não estava claro de forma alguma que estávamos esperando por uma nova classe de dispositivo, com uma nova abordagem, que transformaria a Internet móvel de um segmento das receitas das telecom em uma experiência quase universal que se tornaria a parte principal da própria Internet.

Em particular, me choca que a divisão entre “smart” e “básico” não era tão definida como pensamos hoje. Eu migrei dos “feature phones” (que geralmente conseguiam executar apps em J2ME) para “smartphones” (que executavam apps de PocketPC ou Symbian) e voltei atrás novamente, mas os ecossistemas eram tão mal desenvolvidos, em retrospectiva, que eu não tinha muito a sensação que eu estava perdendo algo quando ia de um smartphone para um feature phone. Assim, esta é a sequência de dispositivos que eu tive do início dos anos 2000 até o iPhone original (com as infelizes ausências dos meus Nokia 7110 e Ericsson t68):

Celulares do Benedict, de 2001 a 2007.

Dá pra ver a mesma tendência nessa tabela de vendas de dispositivos de uma grande operadora europeia. A taxonomia não difere que alguns desses são “smart” e outros não são — é tudo sobre as funções de hardware. Isso basicamente espelhava como as pessoas os usavam de fato:

Participação de mercado por categorias, em volume.
Participação de mercado por categorias, em volume.

Enquanto isso, as vendas de apps eram pequenas, de nicho e focadas em tipos muito particulares de apps. O preço médio era de US$ 20,90:

Preço médio de um app era de US$ 20,90.
Métricas do mercado de apps móveis via download, 2007Q1.

Em paralelo, é claro, haviam os “PDAs”, que eventualmente se fundiram com os telefones (por muito tempo algumas pessoas tiveram esperança de que a Apple faria outro PDA para suceder o Newton). Esses certamente tinham um sistema operacional “adequado”, ao menos desde os PocketPC, mas eles pertenciam a um nicho caro (começando em US$ 500) que poucos consumidores comuns comprariam.

PDAs do Benedict.

Apenas o Sony Ericsson nesta foto tinha uma antena de celular (que era apenas 2G). O HP tinha Bluetooth e os outros, apenas infravermelho. De outra forma, você precisaria gastar mais de US$ 100 em uma daquelas placas de antena apenas para conectá-la ao seu telefone e ficar online (por GPRS, em velocidades de banda estreita). Hoje dá pra comprar um Android com 4G bom o suficiente pelo preço de uma dessas placas.

Era preciso isso para ter conexão sem fio.

Em retrospectiva, os PDAs eram uma clássica solução paliativa. Isto é, eles não eram a resposta de longo prazo, mas a resposta de longo prazo ainda não funcionava e eles eram ok para a época, para aquele pequeno número de pessoas que aceitavam conviver com alguns pesados comprometimentos.

Enquanto isso, o único lugar que os serviços de dados móveis estavam funcionando de verdade era o Japão, movido a feature phones completamente especificados e controlados pelas operadoras. Eu comprei todos estes três aparelhos em 2001. Todos eles eram parte do futuro, mas o iPod venceu:

Celulares japoneses e o primeiro iPod.

Os telefones japoneses tinham telas coloridas e toques polifônicos, o J-Phone (então Vodafone, hoje Softbank) tinha uma câmera (120×160 pixels); o imode da DoCoMo não tinha câmera, mas podia executar apps em J2ME (a maioria, mas não todos, eram jogos), baixáveis de uma loja de apps com o pagamento integrado e simplificado. Ainda assim eles apontavam para um beco sem saída — controle pelas operadoras, plataformas fechadas, sistema operacional limitado. De fato, eles eram uma solução tão boa quanto os PDAs: o modelo japonês era o único jeito de ter Internet móvel em 1999 ou 2001, e parecia muito bom, mas era apenas uma ponto e a resposta certa ainda estava por surgir.

Enquanto isso, o iPod, que parecia um brinquedo caro à época, indicava o futuro em um nível mais estrutural — uma mudança fundamental em quem poderia fazer telefones e quem controlaria o que você poderia fazer neles. Coisas que se parecem com brinquedos caros são frequentemente o futuro.

(À parte, lembro-me de sentar em um iate1 no porto de Cannes em 2004, acho, e ouvir um executivo sênior da Motorola explicar o quão difícil era colocar discos rígidos nos celulares, porque as pessoas aceitavam que o iPod quebrasse se o derrubassem, mas não um telefone. Enquanto isso, a Apple já estava migrando para armazenamento flash.)

Tudo isso é o pano de fundo para o que aconteceu à Nokia e à RIM de 2007 até, digamos, 2010. Como todos sabemos, os executivos dessas duas (e de outras empresas) riram do iPhone, enxergando apenas as partes “mínimas” do MVP2, e não percebendo que isso refletia uma mudança fundamental nos comprometimentos que eram possíveis e que os consumidores escolheriam.

Mas a outra razão para esse fracasso em enxergar a ameaça era que seus próprios produtos “smart” pareciam estar indo muito bem. Isso era muito menos visível nos Estados Unidos porque, por várias razões, os produtos da Nokia e também a maioria dos melhores produtos no mercado europeu (sem falar no Japão) não estavam disponíveis lá. Assim, Steve Jobs e sua equipe odiavam seus celulares muito mais do que os europeus — seus telefones não eram tão bons quanto os deles.

Novamente, em retrospectiva, está claro que a qualidade da experiência no S60 estava em declínio e que a Nokia não tinha as habilidades ou a estrutura necessárias para consertá-la ou entregar o Meego/Maemo. Mas, à época, Nokia e Blackberry pareciam estar muito bem. As vendas de aparelhos com S60 e de Blackberries cresceram firmemente por mais de dois anos após o anúncio do iPhone. Esse foi o tempo que levou para o iPhone consertar os problemas no MVP e conseguir ampla distribuição e para os primeiros Androids começarem a aparecer. E aí, no intervalo de um trimestre as vendas de ambas empresas caíram (apenas uma delas escreveu um memorando sobre “plataforma em chamas”). E é claro que naquele ponto já era tarde demais.

Gráfico com o volume de vendas de dispositivos móveis da Nokia/Microsoft.

Gráfico com o volume de vendas de dispositivos móveis da Blackberry.

Michael Mace escreveu um excelente artigo bem à época do colapso da Blackberry, investigando o problema de indicadores falhos. As principais métricas tendem a ser as últimas a demonstrar a desaceleração e isso tende a acontecer apenas quando já é tarde demais. Assim, pode parecer que se está indo bem e as pessoas que três anos atrás disseram que havia um grande problema estratégico estavam erradas. Podemos chamar isso de “Efeito Papa-Léguas” – você já saiu da estrada do penhasco, mas você não está caindo e tudo parece bem, mas no momento que começar a cair é tarde demais.

Isto é, usar métricas que apontem para uma boa direção e o direito de refutar uma sugestão de que há um grande problema estratégico pode ser muito satisfatório, mas a não ser que você seja muito cuidadoso, você poderia estar ganhando com o argumento errado. Trocando a metáfora, Nokia e Blackberry estavam patinando em direção a onde o disco de hóquei iria estar e isso parecia bom e rápido e sob controle, enquanto a Apple e o Google estavam derretendo o rinque de gelo e transformando o jogo em esqui aquático.

Voltando a 2001, quando eu era um analista de vendas de títulos no mercado das operadoras móveis europeias, consegui prever corretamente algumas pequenas coisas — eu falei de sistemas operacionais e propriedade dos clientes e mostrei às pessoas meu iPod, apontando que não seria necessário ser um coinventor do padrão GSM para fazer um celular (embora eu não tenha comprado ações da Apple). Mas o que eu poderia ter dito para prever todo o futuro? A pergunta que todo investidor vivia fazendo era “qual é o uso matador para o 3G?” No fim, o uso matador de se ter Internet no seu bolso era… bem, ter a Internet no seu bolso. Essa era a pergunta errada.

Eu poderia ter dito isso, todavia:

  • Levará uma década para os aparelhos que fazem todas essas coisas se tornarem um mercado de massa.
  • Mas, então, todas as ideias em videos-conceito, mock-ups, engenharias imaginativas malucas e futurologia acontecerão. Todas elas. Para bilhões de pessoas.
  • Mas as fabricantes dos aparelhos não vão fazer muito dinheiro de qualquer forma, exceto pela Samsung, um player de segunda linha, e uma empresa que vem fabricando computadores chamada Apple (lembram-se dela?), que acabou de lançar…. um caro MP3 player, e não tem ativos, experiência ou propriedade intelectual em mobile.
  • Tudo será software e Internet aberta, e esses aparelhos serão computadores de verdade, rápidos, com centenas de vezes o poder computacional do PC em seu desktop hoje. E não vai importar que a bateria dura apenas um dia.
  • E embora todo mundo vá fazer tudo isso, as telecom não farão nada disso porque o modelo de portal e o modelo da Aol vão desmoronar, embora não muita gente espere isso mesmo para os portais e para a Aol. As telecom gastaram todo esse dinheiro, construíram toda essa infraestrutura, contrataram todas essas pessoas inteligentes, imaginaram e planejaram, consultaram para ter todo o poder neste mercado e, ainda assim, não terão nenhum poder.

Quantas pessoas eu teria convencido em 2001?

É sempre divertido rir das pessoas que disseram que o futuro nunca aconteceria. Mas é mais útil olhar para as pessoas que fizeram as previsões certas, mas não totalmente certas. Foi o que aconteceu no mobile. Quando olhamos hoje para indústrias emergentes como realidade virtual e realidade aumentada, ou carros autônomos, podemos ver vários dos mesmos problemas. O panorama daqui a 20 anos é na verdade a parte fácil, mas os detalhes são a diferença entre a Nokia e a DoCoMo dominando o mundo e o mundo como ele de fato aconteceu. Teremos um monte de coisas acontecendo em 2025 que acharíamos igualmente esquisitas.


Publicado originalmente no blog do Benedict Evans em 19 de fevereiro de 2016.

Tradução por Leon Cavalcanti Rocha.
Revisão por Guilherme Teixeira.
Foto do topo: Paul Nicholson/Flickr.

  1. Isto é, um trailer flutuante estofado com vinil bege.

  2. Produto Mínimo Viável na sigla em inglês. Um protótipo reduzido de um produto para testar um modelo de negócios.

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8 comentários

  1. Também não esperava muita coisa do texto, mas ele realmente foi muito bacana e bem interessante.
    Acho que muitos paralisaram por essa situação de não entender o que que realmente seria um smartphone, como ele seria útil. Muitos olharam para os smartphones pré iPhone e não viam nenhuma necessidade nele ou interesse, mas hoje não é muito viável acompanhar a sociedade sem temos um desse jogo bolso.
    O mais incrível é como abrimos mão completamente da autonomia do aparelho em função de todos esses aplicativos e jogos que temos em nossas mãos. Isso seria uma loucura anos atrás.

  2. Eu quase desisti de ler quando vi que era do tedioso Benedict Evans… Pela primeira VEZ um texto que preste(e coerente) saiu da cabeça dele. Haha

    1. Tive a mesma sensação! Até comentei exatamente isso! hahahaha
      Ainda bem que eu dei uma chance para ele (mais uma)… Valeu a pena!