iPad Pro com Smart Keyboard.

Mobile, ecossistemas e a morte dos PCs


12/11/15 às 17h36

Uma das formas pelas quais a tecnologia progride é por mudanças geracionais em escala. Tivemos mainframes, então minicomputadores, então workstations e PCs e, agora, o mobile; cada geração dá mais um passo de mudança em escala. Essa escala significa que ela se torna o novo ecossistema e o novo centro de inovação. Sozinhos, smartphones com iOS e Android já superam as vendas de PCs em 5:1 (sem nem mesmo contar os tablets) e isso chegará perto do 10:1 nos próximos anos. Então, este é o novo ecossistema em escala.

Gráfico mostrando o avanço dos dispositivos móveis.
Mobile é a nova escala.

Cada geração anterior primeiro conquistou escala e capacidades ao criar todo um novo mercado para, algum tempo depois, alcançar o ponto em que seria capaz de tirar a participação de uma geração anterior. PCs foram vendidos como apenas PCs por uma década ou mais, antes de conseguirem matar as workstations e substituir Data Centers. O mobile faz o mesmo? O mobile matará os PCs? Se sim, como? Ou iremos precisar para sempre de PCs para fazer “trabalho de verdade”?

O futuro sempre se pareceu com um brinquedo que não dá para o trabalho de verdade. Em 1960, “trabalho de verdade” se parecia com isto — uma máquina de escrever, telefone e uma calculadora eletromecânica.

Escritório, ou um grande arquivo de Excel humano nos anos 1960.
Computação nos anos 1960.

Cada pessoa nesta imagem era uma célula em uma planilha — o prédio era um arquivo de Excel e, uma vez por semana, alguém no último andar apertava F9 e todo o prédio recalculava. Era isso que o trabalho de verdade demandava. Uma década mais tarde, é claro, a empresa havia comprado um mainframe e as calculadoras estavam no aterro sanitário. Na nossa própria época, a cada semana, milhares de vice-presidentes em centenas de empresas puxam dados de sistemas internos no Excel, fazem gráficos, colam eles no PowerPoint, escrevem alguns tópicos e enviam o PPT por e-mail para uma dúzia de acionistas. Mas, na verdade, o trabalho deles não é fazer PowerPoint — este é apenas a ferramenta. O trabalho deles é fazer algo, não slides. E o PPT deveria, na verdade, ser um painel de um SaaS atualizado em tempo real.

Assim, “trabalho de verdade” muda com novas ferramentas — no início, as ferramentas se adaptam ao trabalho e então o trabalho muda para se adaptar às ferramentas (veja este artigo que escrevi alguns meses atrás com uma discussão mais longa sobre esse ponto).

Enquanto isso, os “brinquedos” seguem melhorando. Em 2000, se você estivesse fazendo uma lista de tarefas improváveis de serem feitas na web, CAD e edição de vídeos provavelmente estariam no topo dela. Ainda assim, o Onshape entrega, hoje, CAD em um navegador — inclusive fazendo o gerenciamento de arquivos na nuvem e histórico de versões, tornando-o não apenas tão bom quanto no Windows, mas melhor. Os fundadores da Onshape estão no mercado há tempo suficiente para ouvirem não só que seria impossível fazer CAD na web, mas também que não seria possível fazê-lo no Windows, e, ainda antes, que seria impossível fazer em um PC — que também já foi inútil para “trabalho de verdade”. Em grande parte, da mesma forma, o frame.io permite edição de vídeos, colaborativa, na nuvem, no navegador. As coisas que só se pode fazer em um PC, com um programa nativo de PC, continuam diminuindo. De fato, já discuti em outro artigo que é hora de inverter nosso modelo mental e pensar no PC, e não no smartphone, como o dispositivo limitado.

Cada nova plataforma computacional nunca será usada para trabalho de verdade, mas a plataforma melhora e o trabalho muda para se adequar à nova plataforma. No mundo da tecnologia, o “nunca” parece ser 5-10 anos (assim como o “breve”).

Mas quando dizemos que as ferramentas mudam e, dessa forma, que o mobile vai mudar, o que isso significa? O que significa “mobile”? Afinal de contas, “PC” (“Computador Pessoal”, na sigla em inglês) abrange uma grande variedade de dispositivos. Colocando de lado coisas como caixas eletrônicos e ferramentas elétricas, quantos dos aproximados 1,5 bilhão de PCs no mundo são realmente pessoais, e não compartilhados numa família ou pertencentes a uma empresa? (Talvez uns 200, 300 milhões.) Da mesma forma, “mobile” é um termo problemático.

Em primeiro lugar, “mobile” não significa realmente móvel. Como todos sabemos, a maior parte do uso de dispositivos móveis na internet é feito via Wi-Fi. A maioria das pessoas usa o smartphone quando há um notebook ao alcance da mão. Relativamente pouco do uso de dispositivos móveis é feito quando se está andando na rua ou numa fila, esperando pelo café.

Onde e quando as pessoas usam seus dispositivos móveis.
Mobile nao significa móvel.

Se mobile não se refere a onde você está ou à forma de conexão, então o que significa?

Há um outro jeito óbvio de definir: “mobile” significa a ausência de um teclado físico completo, significa uma tela pequena e um sistema operacional incapaz de multitarefa… bem, exceto pelos dispositivos “móveis” com teclados, telas largas ou (hoje) multitarefa. Steve Jobs apresentou o iPad à sua equipe como um iPhone com tela grande. Daí surge o problema: qual é exatamente a diferença entre um iPad Pro e um Surface Pro? São ambos “PCs”? Sabemos de alguma forma que eles são diferentes, mas qual é a diferença que importa? Qual a diferença entre eles e um MacBook? E um Lumia rodando Windows 10 plugado em uma tela e um teclado? O Lumia é diferente de um Mac mini plugado em um teclado e uma tela? Por quê? Não dá para usar o tamanho da tela ou o teclado para definir “mobile” como diferente de “PC”.

Tela grande e teclado.
Quais desses dispositivos são mobile?

Certamente não é o desempenho — ao menos não por muito tempo. Um iPhone 6s vence o Macbook em alguns benchmarks, um iPad Air vence o Surface antigo e parece que o iPad Pro estará próximo o suficiente de um Surface, de modo que não há motivo para discutir sobre isso. As linhas no gráfico da Lei de Moore estão convergindo para qualquer coisa com uma bateria. O mesmo se aplica às diferenças visíveis em software. Dizer que um PC se distingue pela multitarefa e pelas múltiplas janelas é ter visão de curto alcance. É apenas software. Ele muda.

Enquanto isso, a maioria das diferenças de formato me parece ter pouco a ver com a essência do dispositivo. É mais uma questão de “colagem”. Se eu grudo um teclado em um iPad e instalo o Office, eu criei um notebook? Quantos dos 1,5 bilhão de PCs estão executando programas que eu não poderia usar nesse iPad — e, de acordo com meu argumento anterior, quantas pessoas precisarão usar esses programas específicos para sempre? Se eu colocar o Android dentro de um Surface e instalar o Office, o que eu perdi ou ganhei? A diferença entre um “smartphone” e um “tablet” é mais significativa do que a diferença entre um PC com um monitor maior ou menor?

Nesse sentido, em vez de pensarmos em “tablets e smartphones” como uma categoria e “PCs” como outra, deveríamos pensar em dispositivos com telas maiores ou menores. Em outras palavras, você terá algo para carregar consigo (um “telefone”) e pode, ou não, ter algo com uma tela maior que fica a maior, parte do tempo em casa ou no escritório. No passado, você poderia até mesmo ter escolhido entre um notebook ou um desktop — hoje você escolhe entre um notebook, um desktop ou um tablet, dependendo do que você deseja fazer com ele. Isto é, talvez devêssemos pensar em tablets como sendo tão PCs como desktops e notebooks.

Distinção entre tablets e PCs.
Tablets são mobile ou PC?

Se você pensar que todos esses dispositivos estão se movendo para ficar num mesmo espectro, sem grandes barreiras entre eles, apenas o tamanho da tela e se você encaixa um teclado ou não (o que não são reais diferenças de forma alguma), isso pode te levar ao Windows 10. Se o “computador” é mutável através de muitos formatos com as mesmas capacidades fundamentais — se “mobile” e “PC” convergiram –, então um único sistema operacional capaz de rodar em qualquer um deles pode parecer uma boa ideia: pegue a base acumulada do velho ecossistema e espalhe no novo formato, ajustando a interface de usuário para tirar vantagem das telas sensíveis a toques.

Bem… talvez.

Este é o IBM XT/370, de 1983. Ele era um IBM PC, então ele rodava o MicroSoft DOS, mas também usava instruções de mainframe S/370 (de 1970) através de um cartão adicional. Ele vendeu bem, aparentemente, e era uma ideia perfeitamente boa com consumidores animados. Mas ele não era o futuro.

IBM XT/370, antepassado dos Lumia.
IBM XT/370.

A comparação não é perfeita — um Lumia usa o mesmo código de um “PC” com Windows 10, em teoria, em vez de trazer duas configurações completamente diferentes. Mas o paralelo com um Lumia ou um Surface com Windows 10 está no ecossistema. É possível colocar o velho ecossistema no novo formato. Você provavelmente venderá alguns deles. Mas isso é o futuro, ou é um novo Chevrolet Camaro ou Mustang — um produto que os fãs atuais amam, mas que ignora o aparecimento da Tesla e dos carros autônomos?

Levando nossa analogia histórica um pouco mais além, este é o Republic Rainbow.

Republic Rainbow.
As coisas são melhores quando se tornam obsoletas.

Desenvolvido bem no fim da II Guerra Mundial, ele ainda é a aeronave movida a pistão mais rápida, de seu tamanho, já construída. Ele levou a propulsão a pistão o mais longe que ela poderia ir; era melhor que os jatos disponíveis na época. Mas os jatos eram o futuro e os pistões não poderiam entregar nada a mais.

Cada geração da tecnologia passa por uma curva de desenvolvimento em formato de “S” — melhoria lenta de um produto nada prático, depois o crescimento explosivo, uma vez que as barreiras fundamentais são derrubadas, e, então, lentas iterações e refinamentos, enquanto se resolve cada um dos últimos problemas até que a curva se achate. Os PCs estão naquela parte achatada da curva, assim como o Rainbow estava. Eles se aperfeiçoaram porque corrigimos as grandes coisas inventadas no passado, e agora a inovação está nas pequenas novidades (como o Rainbow usando exaustão para um impulso adicional); não há mais grandes inovações para corrigir. Mas enquanto isso, o novo ecossistema o está alcançando; a curva de desenvolvimento e inovação está se achatando para sair do caminho. A nova curva está cruzando a antiga. É por isso que elas se parecem — é por isso que o Surface Pro e o iPad Pro são tão parecidos. Ambos existem bem no momento em que as curvas de desenvolvimento se cruzam. O iPad pode ainda estar um pouco abaixo, mas sua curva aponta para cima.

Isto é, o ponto em que se pode fazer as coisas do velho ecossistema em dispositivos que se se parecem com os do novo ecossistema é também o ponto que o novo ecossistema consegue fazer aquelas coisas também — mas o novo ecossistema tem dez vezes a escala e está apenas começando a jornada da inovação, enquanto o outro já está no fim da sua.

Mas o que é esse ecossistema, se não é um teclado, uma tela grande ou multitarefa? O que é “mobile”? Acredito que há quatro componentes:

  1. iOS e Android são um salto qualitativo em facilidade de uso sobre o Windows e o OS X. A Microsoft indiscutivelmente já os alcançou em smartphones, mas nos “PCs” toda a complexidade para suportar o velho jeito de fazer as coisas tem que permanecer — incluindo coisas como suportar mudanças de hardware. Se você gosta de mexer nas entranhas e fazer upgrade de seu computador, a mudança desse passo é ruim (tal qual a mudança da linha de comando para a interface gráfica foi), mas ela permite que muito mais pessoas usem esses recursos.
  2. iOS, Chrome OS e (discutivelmente) Android têm um modelo de segurança fundamentalmente melhor. Isto vem a troco de uma abertura reduzida. Mas agora que a ameaça não é mais um disquete com uma cópia infectada de Leisure Suit Larry, mas sim 500 pessoas de outro país hackeando o asssitente de controle financeiro da escola de seu filho para enviar emails falsos, essa é uma troca muito mais vantajosa.
  3. O ecossistema ARM tem, sobre o x86, vantagens fundamentais no que diz respeito a consumo de energia e na escala de investimentos da indústria acerca dele.
  4. Por fim, a vantagem da escala maior — o ecossistema ARM/iOS/Android está caminhando para vender dez vezes mais dispositivos que o ecossistema Wintel a cada ano. Esta é uma disparidade similar àquela entre PowerPC/Mac e Wintel, 20 anos atrás. É aqui que está toda a inovação: em semicondutores, em componentes e em software. Ninguém fundará uma nova empresa para fazer programas Win32 (embora os programas corporativos de Windows ainda serão trabalhados por um longo tempo, assim como foram os programas de mainframes).

Assim, uma resposta simples para uma pergunta complexa — quando dizemos “mobile”, não nos referimos ao móvel tal qual quando dizíamos “PCs” não nos referíamos ao pessoal. Isto não é sobre o tamanho da tela, ou o teclado, ou a localização, ou o uso. Em vez disso, o ecossistema ARM, iOS e Android, com dez vezes a escala do Wintel, se tornará o novo centro de gravidade por toda a computação. Ele dominará coisas como a Internet das Coisas e dispositivos vestíveis e os levará numa direção, e, no caminho, levará o data center para outra direção, e vai avançar em direção ao desktop. O smartphone é o novo Sol.


Publicado originalmente no blog do Benedict Evans.

Tradução por Leon Cavalcanti Rocha.
Revisão por Guilherme Teixeira.

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