Desmonte da moderação nas plataformas da Meta vai doer, mas pode ser bom no longo prazo

O anúncio da Meta nesta terça (7) de que, entre outras ações, encerrará as parcerias com agências de verificação de fatos nos EUA, trocando-as por “notas da comunidade”, e relaxará as restrições a certos tipos de conteúdo, alarmou muita gente. / about.fb.com

De um jeito meio torto e não sem causar danos, talvez seja uma boa medida (para nós) a longo prazo.

Se tomarmos o X como exemplo, o relaxamento da moderação por lá acelerou o descarte da plataforma de Elon Musk como local habitável, suscitando perdas de receita, de usuários e de relevância no debate público.

Seria ótimo se isso se repetisse com Instagram, Facebook e Threads. Mesmo que sim, teremos que lidar com três consequências inevitáveis e preocupantes:

  1. Campanhas direcionadas de ódio, assédio e a ocorrência de crimes (assim considerados no Brasil, como racismo e homofobia) devem aumentar. Caberá às polícias e à Justiça aumentarem a atenção e serem mais céleres em suas ações para mitigar o estrago.
  2. As agências de verificação de fatos sofrerão um baque financeiro violento. A Meta é a maior financiadora de muitas delas; algumas foram criadas apenas ou principalmente para atuarem no programa da empresa. / lupa.uol.com.br
  3. A lambeção das botas de Trump por Mark Zuckerberg, combinada a uma ameaça explícita à soberania da Justiça de países latino-americanos feita por Joel Kaplan, vice-presidente de assuntos globais da Meta, podem ter efeitos sistêmicos graves, como nas relações comerciais e diplomáticas e nas políticas tarifárias entre Brasil e EUA. Por aqui, ministros do STF receberam o recado com cautela. / folha.uol.com.br

O episódio aumenta a urgência da já atrasada regulação das plataformas digitais. Será que agora, enfim, a coisa anda?

***

Seria ingênuo esperar uma debandada de usuários das plataformas da Meta em resposta ao desmonte da moderação. Menos ingênuo seria testemunhar uma reação mais incisiva de órgãos públicos e empresas comprometidas com valores antagônicos aos explicitados pela direção da Meta.

Que tal abandonar perfis no Instagram e Facebook ou, no mínimo, parar de injetar dinheiro em publicidade na Meta…? Se o negócio dela é dominar a nossa atenção, nada machuca mais a empresa do que ignorá-la.

No plano individual, abandonar o barco é uma decisão mais difícil, menos óbvia. Devo continuar com a minha conta no Instagram — é onde pessoas queridas publicam atualizações — e não bloquearei o Threads no fediverso, ainda que não condene ou critique quem o faz/fizer. Aquela galera do “fediblock preventivo” ao Threads tinha alguma razão.

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24 comentários

  1. Essa mudança é horrível, muito mais pela forma como foi anunciada, assim como no longo prazo ela será prejudicial. O facebook possui uma capilaridade enorme entre a população de menor renda, justamente a que estará mais vulnerável a mentiras e conspirações idiotas. Essas notinhas dependerão unicamente da comunidade, mas com cada vez menos pessoas utilizando, a tendência é informações mentirosas, odiosas, trambiqueiras e enganosas ficarem sem qualquer nota, sendo que no final das contas os prejudicados serão todos nós.

    Este é o maior significado da sociedade e democracia. Fazer nada, lavar as mãos e achar que uma medida, que impacta uma ferramenta utilizada por metade da população, em algum momento nos afetará, só olhar para o 08 de janeiro.

    Eu excluí meu facebook em 2019, ainda uso o instagram para acompanhar alguns artistas, artistas estes que não publicam em nenhum outro lugar (a maravilha da centralização na era da internet), e amigos que se mudaram para longe.

    Não podemos esquecer do zap, qual será o efeito que este novo momento do bilionário zuck zuck terá na plataforma? E não me venham com telegram, mesma coisa, também depende dos ânimos de um bilionário.

    Agora é esperar uma regulamentação das redes sociais pelo congresso, que não deve sair, e se sair será uma desgraça, porque não trará mecanismos eficazes para resguardar e garantir nossos direitos, assim como não deverá trazer formas eficazes de punição, considerando a renda bilinária das big techs. Precisamos apenas aguardar o STF ser provocado, o que é deveras complicado, dependermos de apenas um, dos três poderes, para garantir um Estado Democrático de Direito e garantir nossa soberania e, principalmente, o respeito à nossa Constituição. Bora lá!

  2. Pelo que percebi nos comentários, boa parte dos leitores abandonou o X, o que os impossibilita de ver o mecanismo das Notas da Comunidade em funcionamento. Rápidas, eficientes e democráticas, com atores de todos os espectros participando da formulação e votação. É um sistema perfeito? Óbvio que não, mas ao meu ver, é a maneira mais eficiente de lidar com o fluxo de informação frenético que temos.

    Quanto à regulação via judiciário: Vocês realmente querem mais um atropelo às instituições democráticas? Acreditam legitimamente que a canetada de 11 juízes vai alterar a realidade informacional do país? Food for thought.

    1. Não sei se dá para dizer que são eficientes. A notícia da Lupa que o Guedin linkou afirma que “Essa ferramenta é ineficaz contra as informações de baixa qualidade que circulam no ambiente digital. A Lupa já mostrou, por exemplo, que somente 8% dessas notas da comunidade em português no X chegam aos usuários.”

      Além disso, elas dependem de uma validação por parte dos outros usuários (“Avaliação do X: as notas adicionadas são submetidas à análise de outros colaboradores do programa. Caso um número suficiente de participantes, representando diferentes pontos de vista, concorde com a utilidade da nota, ela se torna pública e aparece junto à publicação original”, fonte: https://www.cnnbrasil.com.br/tecnologia/como-funciona-e-quem-pode-colaborar-com-as-notas-da-comunidade-entenda/); ou seja, mesmo uma nota falsa pode ser inflada por usuários interessados em que ela permaneça como versão oficial.

    2. Concordo com o colega. Prefiro que a própria comunidade haja com a moderação do que agências reguladoras ou 11 iluminados.

      1. Há uma confusão que acho importante esclarecer: as agências de verificação de fatos não têm/tinham poder de moderação dentro das redes da Meta. Elas não têm poder de derrubar posts nem nada do tipo. Essa decisão é (e sempre foi) da Meta. Os verificadores de fatos parceiros apenas recebem posts controversos, investigam e dão um parecer.

  3. As contradições do neoliberalismo estão mais claras do que nunca. Salários estagnados enquanto o custo de vida continua aumentando. Como uma sociedade se mantém estável com casos como esse The Top 1% of Americans Have Taken $50 Trillion From the Bottom 90% ?. Esse cenário força a radicalização e procura de soluções fora das instituições burguesas

    A burguesia responde, utiliza as mídias (antigas e novas) para garantir que essa radicalização ocorra na direita. E a noticia só comprova isso, é mais um bilionário cedendo um espaço de mídia social para radicalização da extrema-direita. Afinal, o burguês escolhe o fascista para salvar sua riqueza

    Dito isso, é importante analisar o exemplo da China no que tange a regulamentação e controle da internet. Essa radicalização não vai passar por lá, e some isso a construção de um setor de alta tecnologia chinesa. Estamos chegando em um ponto de inflexão

  4. Acredito que o título acaba sendo um pouco tendencioso ao dizer que pode ser bom ao longo prazo. É um artigo válido e de fato pode desacelerar essas redes, mas vai só impulsionar a formação de conspirações e situações (que já ocorrem, e foram citadas no texto) como foi o movimento anti-Rohingya que auxiliou a motivar o massacre de Myanmar.

  5. Artigo com uma pegada meio “é só reduzir o tempo no banho para salvar o planeta”. Definitvamente, a saída não é a ação individual…

  6. Nunca usei Facebook e Instagram. Tenho LinkedIn (por conta de trabalho mesmo), Mastodon e Bluesky, já o Twitter eu deixei de lado, infelizmente, tornou-se irritante. Só não a apaguei porque tenho contatos por lá. A questão é arcar as consequências por não estar em determinada rede. O engraçado é que tem gente que acha que por não estar no Instagram é porque é “indiferente”, “antissocial”, mas é o contrário: eu não sou indiferente com as pessoas, só quero vê-las fora de uma tela. Pena que, sinceramente , a maioria da população nem vai ligar pra isso de ter ou não moderação, já tá viciada nisso ou é essencial para trabalho, inclusive. A galera sairia do app mais usado do país, o WhatsApp, caso fosse totalmente moderado? Imagina o cenário? Na real a gente é que deveria ter o poder de escolher ou não estar nessa ou aquela rede, não essa sensação de obrigatoriedade. É literalmente um dilema das redes!

  7. Pergunta sincera. É possível ficar sem redes sociais hoje, com exceção do Linkedin?

    1. Isso aí só vc quem pode responder.
      Quão importante é para vc estar nessas plataformas? Família? Amigos? Networking/trabalho?
      Você realmente PRECISA estar lá pra isso?

      Pessoalmente, ao meu ver, sim, é possível.
      Não é que eu não me importe com familiares ou amigos, mas não vai fazer muita diferença no dia a dia pra mim saber tudo o q está acontecendo na vida deles o tempo todo. Minha conta Facebook morreu em 2014, X nunca usei, TikTok piorou e Instagram parei em 2022.

      O engraçado msm é a reação das pessoas:
      “Sério q cê não tem Insta”?
      Como se fosse algo NECESSÁRIO.
      Mas pelo visto é… pra MUITA gente. Rs

  8. Sobre o Threads, a única coisa boa dele pra mim é ser completamente irrelevante. Não conheço uma só pessoa que use.

  9. O judiciário brasileiro precisa mais uma vez salvar a democracia e bloquear essas redes extremistas, abrir inqueritos democráticos e aplicar multas milionárias. Só dessa forma vamos mostrar ao mundo que somos uma democracia, que temos soberania e que não permitimos discursos de ódio.

    1. Totalmente a favor, a saída individual não é a solução, considerando o impacto dessas redes em campanhas de ódio.

    2. “If the penalty for a crime is a fine, then that law only exists for the lower class”

      Acredito que a saída seja sim a regularização, porém necessitamos que as pessoas sejam responsabilizadas pelos atos criminosos cometidos em ambientes virtuais. Para realmente proteger a democracia, é necessário garantir que as ações do judiciário sejam justas e proporcionais, considerando o impacto das medidas em diferentes classes sociais.

  10. Para mim, a questão das notas de comunidade em substituição aos verificadores é ruim, mas a parte menos problemática do discurso. Me incomoda muito a forma como ele se refere aos governos, querendo, com o perdão do uso do termo, “cagar regra” para o resto do mundo. As nações citadas indiretamente por esse cidadão precisam se unir contra essa afronta e responder com muita democracia e legislação.

    E concordo que é difícil abandonar o barco, diferente do que muitos (me incluo) fizeram com o mundinho do Quico, mas não dar dinheiro para eles e diminuir o uso é algo fácil de fazer.

  11. Encerrei o Facebook em 2019.
    Já o X, encerrei minha conta logo que o bloqueio ao site terminou.

    Se eu apagar o IG perco todos os contatos de amigos (Não quero). Então, o que estou fazendo é evitar o máximo abrir o aplicativo, usando ele apenas para responder directs.

    Estou torcendo muito pela intervenção do judiciário brasileiro, porque as outras medidas sozinhas não mudarão nada.

    Mas é um saco depender de aplicativo/site de CEO extremista.

  12. O Twitter tinha um alcance muito menor entre as massas do que o Facebook e Instagram. Nossos avós/tios/pais não estavam no Twitter, mas estão em massa nas redes da Meta.
    Isso vai ser uma catástrofe a longo prazo.

  13. Acharia muito legal um movimento de debandada e ocupação de outras redes. Não seria geral. Mas vai que começa a ficar popular. “A cada 4 pessoas, 1 nao possui nem instagram e nem facebook” …

    Ou o instagram passar a ficar vazio de tanto lixo lá dentro. Assim como o facebook já esta.

  14. Olha, eu discordo um pouco. O que afundou o X me parece ter sido, também, a inconsequência de Musk, suas tolices e delírios. A plataforma ficou ruim e sucateada por motivos além da ausência de moderação. Eu duvido muito que Zuckerberg seja tolo a esse ponto. Ele me parece bem mais sagaz, atento e consistente do que Musk, e voltaria atrás dessa decisão, inclusive, se isso se mostrasse incontornável.

    1. Algumas decisões ruins do Musk já foram copiadas pelo Zuck, como vender o selo de verificação, por exemplo. Outras, foi Musk que copiou do Zuck (que copiou do TikTok), como a preferência pelo feed algorítmico (“For You”). Como alguém que observa de fora, acho que a única distinção/vantagem da Meta é ter mais gente comum que ainda acredita que o Instagram e o Facebook são redes sociais, e não plataformas de broadcasting.

      1. meu primeiro comentário aqui, pq acho que tenho algo a contribuir pra discussão: a meu ver, o que afundou o xuiter foi também a falta de retorno rastreável que ele dava em publicidade pra marcas. foi muito fácil pra anunciantes largarem a plataforma porque ela sempre serviu mais pra fazer branding do que pra trazer vendas diretamente. quer dizer que anunciar lá ajudava a tornar a marca mais conhecida, mas ninguém clicava nos anúncios pra comprar alguma coisa (que é a métrica que mais conta hoje em dia pra muita gente).

        nas plataformas da meta já é outra história: elas não são um google da vida (que é rei nisso com a busca paga), mas o instagram é um dos canais que mais traz resultado no marketing de performance, que gera impacto direto e muito mais fácil de trackear do que o branding.

        tenho um fiozinho de esperança de que alguns anunciantes tirem verba do facebook ou do instagram porque se preocupam com a falta de moderação, igual fizeram com o xuiter, mas também já ouvi de uma galera que não pretendem fazer isso por agora. então, tenho bem minhas dúvidas de que isso vai ter algum impacto relevante na receita da meta.