Dois homens, em poses diferentes, usando cuecas pretas da Insider, um em cada canto da imagem. No centro, a frase: “A cueca mais confortável com 12% Off. Cupom MANUALDOUSUARIO12”

Filtros de selfie que afinam nariz e rosto incentivam racismo e cirurgias plásticas entre jovens

Filtros de selfie que afinam nariz e rosto incentivam racismo e cirurgias plásticas entre jovens, por Fabiana Moraes no The Intercept Brasil:

O uso hard dos filtros que promovem uma espécie de “harmonização facial” (outro fenômeno nacional relacionado às redes sociais) foi barrado pelo Instagram/Facebook em 2019: ali, a empresa divulgou um comunicado informando que iria retirar do Spark AR os filtros associados à cirurgia plástica e, a partir de uma nova política de responsabilidade, novos filtros do gênero iriam passar por uma revisão mais apurada até serem aprovados. Isso porque os relatos sobre a relação entre redes sociais e dismorfia corporal (também casos de suicídios) aumentaram consideravelmente – e isso já antes da pandemia, quando olhar para nós mesmas nas telas se tornou mais comum.

Algumas pesquisas evidenciam esse fenômeno: um estudo realizado entre cirurgiões da Academia Americana de Plástica Facial e Cirurgia Reconstrutiva (AAFPRS, na sigla em inglês) mostrou que, em 2019, 72% deles foram procurados por pacientes que queriam realizar procedimentos para ter uma melhor aparência em selfies, um aumento de 15% em relação à pesquisa feita em 2018. Para se ter ideia da explosão, apenas 13% das pessoas apresentaram a mesma motivação em 2013.

Mas a retirada dos filtros de cirurgia plástica não mudou tanta coisa lá pelos Stories da vida: é possível encontrar diversos vídeos com dicas sobre como driblar os impedimentos do Instagram, como vemos no vídeo do canal de Larissa Rodrigues “como criar filtro de plástica (deformações) QUE APROVA pra instagram story Spark Ar”. Alguns destes criadores possuem enorme relevância na criação de realidades aumentadas, a exemplo de Jeferson Araujo, com 954 mil seguidores no Instagram e que, no ano passado, desenvolveu o filtro Cruella. O trabalho foi um sucesso e chamou atenção da Disney, que comprou o filtro na ocasião do lançamento do filme homônimo. Hoje dedicando-se mais aos filtros artísticos e/ou de humor (como o ótimo Rampage, que tatua o corpo e rosto de quem o usa), Jeferson também produzia tutoriais de cirurgia plástica: em um divulgado em 2019, ele segue a cartilha padrão e ensina os usuários a afinar o nariz. Durante a pandemia, a rinoplastia superou a lipoaspiração entre os procedimentos mais procurados. Em um país de maioria negra, no qual um fenótipo (características observáveis) muito comum é o de pessoas com narizes arredondados ou chatos, esse fenômeno é bastante revelador. Me parece que passa não somente por questões da dismorfia, mas da própria autonegação.

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