A bela tela do G3.

[Review] G3, o primeiro smartphone global com tela QuadHD


1/10/14 às 13h00

Com hardware e software virtualmente idênticos, as fabricantes de smartphones Android sempre buscaram, desde o início, por diferenciais para se destacarem da multidão. Dessa busca resultaram as skins e personalizações do sistema e apetrechos de hardware, tudo isso no mínimo questionável.

É bem difícil fazer um smartphone topo de linha ruim em 2014. Se ser bom é o básico, como então chamar a atenção sem cair nos pecados citados acima? Uma saída é apelar para marketing. Outra, adotada pela LG no G3, terceira versão do seu topo de linha, é empurrar para mais longe os limites da tecnologia e, ao mesmo tempo, torná-la mais simples. O G3 ganhou um banho de loja e tem a tela com maior resolução do mercado. É o suficiente para levá-lo ao trono dos smartphones Android?

Quantos pixels você tem, G3

Não tente enxergar pixels na tela do G3.

Não tem como fugir disso: o maior destaque do G3 é a sua tela, com 5,5 polegadas e resolução QuadHD. Em números, 1440×2560. Para colocar em perspectiva, todos esses pixels em uma tela desse tamanho resultam em 534 pixels por polegada — o iPhone 6 Plus tem 401 PPI.

É uma resolução altíssima, mas talvez a pergunta a se fazer não seja essa. A minha curiosidade era saber se tantos pixels fazem diferença no dia a dia, se eu veria fotos mais nítidas, se os jogos ficariam mais bonitos e se os apps, mais detalhados.

E… bem, não, não faz diferença. A LG diz que Steve Jobs estava errado (heresia!) e que o olho humano percebe, sim, telas com mais de 300 PPI. Na apresentação do G3 no Brasil, executivos da empresa afirmaram que essa tela alcança uma densidade capaz de simular papel, os teóricos 540 PPI. Talvez olhos acima da média consigam enxergar alguma coisa ali, mas aos meus e de todos a quem mostrei o G3, faltou tamanha sensibilidade. Ninguém bateu o olho na tela e falou “wow, que espetáculo, nunca vi algo assim!!” Não me entenda mal: é uma tela espetacular sim, mas a resolução QuadHD não se distancia tanto das Full HD a ponto de ser notada.

+75% da frente do G3 é tela.

Na realidade, essa resolução altíssima traz alguns efeitos colaterais indesejados. O G3 aquece facilmente, e por qualquer bobagem. Seja um jogo pesado (compreensível), seja mexendo em apps simples numa sessão um pouco mais extensa ou até tirando fotos com a câmera frontal, às vezes ele chega a temperaturas incômodas, na mão e no bolso.

Outro provável reflexo da tela exagerada são os minúsculos engasgos, quase imperceptíveis, que em outros aparelhos nessa faixa de preço não existem. Aconteceu mais de uma vez dos ícones serem “redesenhados” na tela inicial depois de sair de algum app, um comportamento que é recorrente em smartphones intermediários e de entrada, mas raro nos topos de linha. A autonomia da bateria, que dura tranquilamente um dia “comercial” (leia-se das 8h às 18h), mas dificilmente muito mais do que isso, seria melhor com menos pixels na tela e, consequentemente, menos poder de processamento exigido para exibi-los todos.

Uma tela com tal resolução não é apenas um mero luxo, ela afeta outras áreas do smartphone. Se fosse muito mais bonita que uma Full HD, talvez o sacrifício compensasse. Na prática, não foi o que vi e a matemática não fechou. Antes uma resolução menor.

Costas do G3.

Além da tela, o G3 também chama a atenção pelo seu formato. Continua sendo um retângulo com vidro na frente, como todo smartphone, mas algumas invencionices, para o bem e para o mal, estão presentes. A parte frontal, por exemplo, é um deleite: mais de 75% dela é tela, o que significa que a moldura é finíssima. O “queixo”, embaixo, é a única parte sobressalente e embora seja de plástico, o efeito metálico em radial é bem bonito.

Atrás, abaixo da câmera, a LG manteve os botões que surgiram no antecessor do G3. Texturizados, eles são uma boa saída para afinar as bordas e manter os botões ao alcance de uma mão só. Mas é estranho, para dizer o mínimo, e não consigo me acostumar com esse layout por mais que tente usá-lo. Por sorte a LG manteve e aperfeiçoou, com o Knock Code, os dois toques na tela para acordar o aparelho; isso sim é bem prático.

Botões atrás do G3.

O acabamento da tampa de trás também é em plástico, mas um de bom gosto. Ele imita metal escovado e tem um tratamento que repele impressões digitais — e que faz um bom trabalho. O formato das costas, curvado, ajuda na empunhadura e embora ergonomicamente tudo pareça estar correto, eu gostaria muito mesmo que o G3 fosse um tiquinho mais leve. Ele tem 149 g que parecem pesar mais na mão, não sei se por falha do formato ou outro motivo. Dificuldade de uso com uma mão é um problema inerente de smartphones grandes, só que existem modelos em que ele é amenizado. O G3 não entra nesse rol.

Fora a tela e formato, o G3 traz tudo o que se espera de um hardware topo de linha nesse fim de ano: SoC Snapdragon 801 com processador quad-core rodando a 2,5 GHz, 2 GB de RAM, 16 GB de memória interna (com slot para microSD), NFC, Bluetooth 4.0/LE e Wi-Fi a/b/g/n/ac. E uma câmera bem legal.

Câmera com laser: *phew phew phew*?

App de câmera do G3.

A câmera do G3 tem 13 mega pixels, sensor de 1/3 polegada, lentes com abertura f/2,4, estabilização ótica de imagens e foco por laser. Não, não sai um feixe vermelho do emissor ao lado da lente; o laser é invisível e ajuda principalmente a focar em locais pouco iluminados.

É uma câmera bem competente, capaz de fazer fotos lindas e que tem um bom desempenho também longe das condições ideais — além do laser, a estabilização também ajuda. A velocidade do foco, que a LG diz ser ~300 ms mais rápido que o do Galaxy S5, meio que se perde na demora de disparo do obturador. E isso pode ser frustrante às vezes. Também encontrei certa dificuldade em situações de alto contraste (uma janela com o sol batendo e pessoas embaixo dela). A câmera do G3 está acima da média, só não é tão revolucionária quanto se poderia pensar, nem a melhor do mercado.

Pontos bônus pelo software da câmera, que é bem direto e divertido. Por padrão ele não tem botão de disparo: basta tocar e a foto é feita, como no Windows Phone. Tocando nos três pontinhos do topo, a interface tradicional e com mais recursos surge. Na frente, a câmera faz fotos legais na medida do que é possível e conta com um “modo selfie”: você mostra a palma da mão e depois a fecha para iniciar o temporizador (três segundos). É meio bobo, mas funcional. (No review em vídeo, no final deste artigo, mostro como isso funciona.)

Alguns exemplos da ótima câmera do G3. Para ver essas e outras fotos em resolução máxima, visite esta galeria no Flickr.

Foto de um prédio no crepúsculo.
F/2,4, 1/12s, ISO 450. Crop de 100%.
À noite a câmera do G3 faz bonito.
f/2,4, ???, ISO ???. Redimensionada para 720×405.
Foto ruim feita com o G3.
F/2,4, ???, ISO ???. Redimensionada para 720×405. Não dá para ganhar todas…
Detalhe de gotas d'água focadas contra a janela.
F/2,4, 1/184s, ISO 50. Crop em 100%. Foco muito bom.

Android em cores pastéis

O Android está diferente, e mais bonito.

Uma das piores tradições orientais em smartphone é a personalização pesada que o Android sofre. LG e Samsung sempre se destacaram nisso, e na maior parte do tempo negativamente. Com o G3, a LG prometeu um salto nesse ponto: gráficos mais bonitos e suaves, e recursos mais palatáveis.

Comparada à Optimus UI anterior (falei bastante dela no review do Optimus G Pro), a nova é realmente um progresso. Começa pelo visual: com cores pastéis, mais neutras, e visual flat, ela é mais moderna e bonita do que a maioria das investidas nessa área. Não chega ao nível do Android puro, que equilibra bem discrição, elegância e funcionalidade, mas ainda assim não é um atentado ao bom gosto.

Embora digno de aplausos, o trabalho da LG não foi completo. Aqui e ali são encontradas mexidas infelizes e excessos, como na confusa cortina de notificações ou nas animações bobas de esticar e dobrar a interface. Ou o Smart Notice, uma espécie de Google Now da LG que ganha bastante destaque — está no widget padrão e na tela inicial especial à esquerda, uma tendência meio desagradável a que Samsung também aderiu no Galaxy S5.

Três modos de visualização, todos horríveis.

Mas a pior intervenção, mesmo, foi na tela de multitarefa. Ela conta com três layouts, todos horríveis. Não há um equilíbrio entre o número de apps exibidos e o alcance dos dedos a eles. Para piorar, a LG inverteu a ordem: os apps mais recentes ficam no topo da tela. E não há qualquer indicativo de como alternar o modo de visualização — se estiver com dificuldade aí, é só usar o pinch to zoom (usar os dedos indicador e polegar para aumentar/diminuir o zoom).

Apesar dos pesares, o Android da LG melhorou. Antes, eu sempre colocava esse ponto como um enorme “porém” na indicação de smartphones e tablets Android da marca. Agora? Não mais. Ainda prefiro e acho muito melhor a experiência pura do sistema, como é no Nexus e nos smartphones recentes da Motorola, mas já dá para conviver com a variação da LG sem tanto sofrimento.

Mimo: base de carregamento sem fio

Base de recarregamento sem fio no pacote do G3.

A versão brasileira do G3 vem com um mimo muito legal na caixa: uma base de carregamento sem fio. Basta ligá-la à tomada e, depois, largar o smartphone em cima — é como se fosse uma cadeira com a base aderente, então o dispositivo fica bem seguro. A recarga começa instantaneamente.

Parece bobagem, mas é um negócio bem legal na prática e mais conveniente do que pegar o fio e fazer aquele exercício de conectar o cabo à porta microUSB. A base elimina a última ação com cabo que realizo num smartphone: recarregar a bateria. Talvez por isso, por me livrar completamente deles, eu tenha gostado tanto. Já sinto falta, inclusive.

Veredito

Na mão, o G3 é grande.

Não é de hoje que a LG se esforça para ser uma alternativa legal e com bom custo-benefício à sua concorrente doméstica (Samsung) e à Apple. E não é de agora que seus smartphones se equiparam ou são até melhores, em algumas áreas, que os da concorrência.

O G3 briga com Xperia Z2, Galaxy S5 e o novo Moto X, além de, claro, ser uma opção válida para quem não quer ou não pode bancar um iPhone. Ele bate de frente com eles em todos os pontos e se sobressai na tela — mesmo sem fazer tanta diferença, é um item que se destaca. Ele ainda tem um preço bem camarada: constantemente em promoção no varejo, não é difícil encontrá-lo rondando os R$ 1.700. Nesse patamar, só o Moto X lhe faz frente, com preço sugerido de R$ 1.499. O G3 ganha pontos por ter uma câmera aparentemente melhor (ainda não testei o Moto X), mais tela e a base sem fio. Na ponta do lápis, compensa.

Ficaram apenas os desejos por uma ergonomia melhor e uma tela mais pé no chão. Acho bacana ver a tecnologia de consumo ultrapassar barreiras, ir além dos seus limites. Só que no gadget que uso todos os dias, quero o que funciona melhor. A tela QuadHD não passa nesse teste e por mais bonita que seja, traz efeitos colaterais chatos. Uma pena que na guerra pelo consumidor, a lista de especificações fale mais alto do que a experiência de uso. Saudades Moto X pequeno, saudades telas HD ou Full HD…

Compre o G3.

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Todas as fotos por Rodrigo Ghedin, salvo quando especificado.

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