O fim do Leia Isso

Logo do “Leia Isso” estilizado como se fosse uma fotografia antiga.

O Leia Isso, um site popular que oferecia a leitura de artigos de outros sites em uma interface agradável e burlava paywalls porosos, saiu do ar no dia 21 de junho. Conversei com o fundador, que pediu para permanecer anônimo, a fim de entender o que houve e se existe alguma chance do Leia Isso voltar.

Procurando por uma alternativa ao Leia Isso? O Marreta é uma funcional e atualizada.

Antes de ser derrubado, o Leia Isso atraía cerca de 100 mil visitantes únicos por mês, a maioria brasileiros, mas não só. A popularidade do serviço, lançado no final de 2022 (com repercussão neste Manual), veio do boca a boca, sem qualquer investimento em anúncios ou ações pagas.

A conversa que tive com o fundador se deu em outro contexto, alguns dias antes do Leia Isso sair do ar. Ele preparava uma campanha de doações para arcar com os custos operacionais, que eram variáveis e, em média, giravam em torno de US$ 75/mês, cerca de ~R$ 400/mês.

Estavam contabilizados nesse valor as despesas de servidor e serviços auxiliares que faziam o Leia Isso funcionar. “Tem bastante coisa técnica por trás”, contou, referindo-se a camadas de cache que aliviavam a carga do servidor reaproveitando o conteúdo “raspado” de artigos muito populares.

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O Leia Isso surgiu como uma espécie de prova de conceito, uma validação da tecnologia para demandas que o fundador tinha em seu trabalho. (O Leia Isso sempre foi um hobby, criado sem intuito de lucro.)

A tecnologia, no caso, é o que se chama “scraping”, ou raspagem de dados. “Precisava de bastante gente usando essa tecnologia para ver se ela de fato funciona”, disse-me. “Na época, lembrei do Outline, que era famoso. Achei que daria certo, que o pessoal iria gostar.”

Deu muito certo. O Leia Isso surgiu alguns meses após o fim do Outline. (Foi graças a essa notinha que o fundador encontrou o Manual e entrou em contato para apresentá-lo a mim.)

No final de 2023, o Leia Isso flertou com mais funcionalidades. Implementou um cadastro e um sistema de salvar artigos para ler depois, nos moldes de apps como Instapaper e Pocket, a fim de transformá-lo em um serviço “freemium”, ou seja, gratuito, mas com a opção de assinatura paga para cobrir os custos.

A investida não vingou. Em cerca de três meses, apenas 1 mil pessoas se cadastraram, o que fez os planos mudarem — as perspectivas de conversão dessa pequena base para assinaturas pagas eram mínimas.

A campanha de doações visava, além de bancar os custos, a implementação de melhorias no serviço base do Leia Isso. O fundador queria usar inteligência artificial para aperfeiçoar a tecnologia de raspagem das páginas originais a fim de entregar textos mais limpos e implementar leitura em voz alta sintética (“text2speech”).

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Tudo isso ficou no passado. No dia 17 de junho, o Leia Isso saiu do ar após a empresa onde o site era hospedado, de fora do Brasil, receber uma denúncia de infração de direitos autorais relacionada a um conteúdo do site da Folha de S.Paulo. (No dia seguinte, a queda foi notada por participantes do Órbita.)

Tive acesso ao e-mail que a hospedagem enviou ao dono do Leia Isso. A mensagem não identifica a autoria da denúncia nem especifica o conteúdo que teria sido copiado. Por isso, não é possível afirmar que a denúncia partiu da própria Folha.

Após uma troca de e-mails, em que explicou o funcionamento do Leia Isso à empresa, o site voltou ao ar.

Folha de S.Paulo e Estadão eram os sites mais usados no Leia Isso.

A mim, ele falou a respeito da questão do paywall. “Faz o teste: desativa o JavaScript [do navegador] e abre [um site/artigo]. Vai funcionar igual. A única coisa que eu faço é automatizar isso, jogo o link e pronto.” Ele reconhece, porém, que o tema é controverso. “Todo mundo que está envolvido quer ter um benefício de alguma maneira — quem produz o conteúdo, anunciantes…”

Alguns dias depois, em 21 de junho, o Leia Isso caiu pelo mesmo motivo, dessa vez para não mais voltar.

Falei com o fundador após o episódio. Em uma breve mensagem de áudio, disse:

“A primeira ideia que passava pela minha cabeça era essa: eu troco o servidor, aponto o domínio e pronto, está resolvido, mas é um projeto que só tem me dado gasto e, agora, com mais essa… De repente aparecem outros para reclamar. Não quero isso no momento, então vou dar um tempo, vai ficar offline mesmo.”

Ele não descarta retomar o projeto no futuro, porém, em outra hospedagem — e com outro nome.

Arte do topo: Rodrigo Ghedin/Manual do Usuário.

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25 comentários

  1. É uma tristeza que o Leia Isso terminou, quando não estava funcionando até procurava no Twitter se alguém tinha notado que eles tinha caído. Usava bastante para leitura de vários sites. Foi uma ferramenta valiosa para a leitura e busca de informações.

  2. Que triste, perdemos uma função importante, e retrocedemos em democratizar o acesso dos meios de comunicação.

  3. Moro no RS, e o leiaisso era o único que, pro meu conhecimento, conseguia acessar as matérias da gzh/clicrbs. Não tinha mais entrado no site desde que ele exibia a mensagem de erro, e é realmente triste ler o texto e saber que o projeto não vai continuar. Algum tempo depois do fim do site, eu descobri outro parecido - o possoler.tech - que também conseguia burlar o javascript da rbs. Mas este também saiu do ar, pouquíssimo tempo depois de eu ter começado a usar. Se alguém souber de algum outro site que consiga fazer isso, garanto que terá a gratidão de vários gaúchos.

  4. vocês que tem acesso ao dono do site perguntem a ele se ele não se interessaria em disponibilizar o código de maneira open source no github, sob licença LGPL.

  5. "A mim, ele falou a respeito da questão do paywall. “Faz o teste: desativa o JavaScript [do navegador] e abre [um site/artigo]." Não funciona, tentei em página de conteúdo bloqueado para não assinantes e deu nisso: Cross-Origin Read Blocking for Web Developers o que faremos, só pagando?

    1. Com qual site você tentou? Alguns fazem um bloqueio “hard”, que só libera o conteúdo completo via autenticação, ou seja, aí só pagando.

  6. Pena. Se criar novamente, já crie com a vaquinha pra ajudar a manter. Prefiro pagar por isso do que pagar o equivalente aos jornais que acesso, tendo em vista o viés estranho pra onde o dinheiro vai.

  7. Obrigado por compartilhar a informação e parte da história do criador e da criação. Abs

  8. eu gostava muito do leia isso usava para trabalhos de produção textual ,português etc... quem me apresentou esse web site foi um professora muito querida fico triste pelo o que aconteceu

  9. Instalei a extensão Disable JavaScript no Firefox e deu certo. Livre de paywalls

  10. Há alguma forma de desativar o Javascript no iPhone/iPad? Procurei uma vez, mas acho que o Safari só permite isso no Mac. Alguém sabe?

    1. Dá sim! Ajustes, depois Safari, desce a tela até o final e entra em Avançado. Vai ter um seletor lá.

      Outra opção é usar uma extensão como a StopTheScript, que permite desativar o JavaScript em domínios específicos.

      1. Maravilha! Minha ideia era tentar fazer um atalho semelhante ao que eu usava do LeiaIsso. Mas vou testar essa extensão. Pode ser uma opção ainda melhor.

  11. É uma pena. No fim das contas - caso tenha sido a própria Folha ou um outro jornal -, não vai mudar nada. As pessoas só vão procurar um outro quebrador de paywalls.

  12. Tenho coração fraco para projetos na Internet que começaram como hobbies e/ou produtos de comunidades, como o clube do hardware. Nunca usei o leia isso, mas sei do valor que teve, uma pena cair para questões de direitos autorais. Deixo aqui uma frase que o pessoal do reddit usa quando grandes jornais publicam matérias horríveis. jOrnAlisMo de QualIdaDE ReQUEr reCURsoS.