Transformei o Kindle no meu jornal particular
Os dois meses de uso do tablet da TCL me levaram à conclusão de que um tablet meu não precisa ter uma tela com “movimento” fluído. Eu só leio coisas estáticas, textos parados.
Tal revelação me fez ver com renovada atenção um tipo de dispositivo que, até então, sequer cogitava, mas que agora parece perfeito para o que preciso. Refiro-me aos tablets Android com tela E-Ink, fabricados por marcas como Boox, Bigme e Pocketbook. (Infelizmente, nenhuma delas com presença oficial no Brasil.)
O problema? São caros. Os modelos menores, com tela de 7–7,8 polegadas, começam em valores quatro vezes maiores que um Kindle básico. O que eu queria, o Boox Go 10.3, com tela de 10,3 polegadas, parte dos R$ 3 mil — se você encontrar um à venda em solo nacional. E vem com um Android defasado, embora tenha sido informado de que isso não atrapalha, ao contrário do iPad. (Semana passada a Boox lançou a segunda geração do modelo, com Android 15 e uma variante com tela iluminada. Deve ser ainda mais cara.)
Além de caro, eu detesto comprar… coisas. Por isso fiquei contente quando me dei conta de que poderia usar o meu Kindle — aquele mesmo que nunca acessou a internet — para ler artigos, posts e newsletters publicadas na web, sem gastar um centavo a mais e com uma ótima qualidade.
É esse arranjo, resultado de uma semana de novas conexões cerebrais (ou muitos neurônios fritos em algo quase insignificante) que compartilharei contigo.
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Os e-readers da Amazon só leem formatos de livros digitais pouco ortodoxos, como *.mobi e *.azw3. Existe uma maneira oficial de converter outros, mais populares, aos suportados, como aquele “Send to Kindle”. Meu Kindle não está conectado à internet, o que exclui essa via.
Portanto, precisaremos do Calibre, um ótimo gerenciador de livros digitais, para fazer a conversão de arquivos *.epub, padrão mais comum de livro digital, para algo que o Kindle entenda.
Após instalar o Calibre, o passo seguinte é criar um “livro” a partir de um conjunto de artigos/links.
A maioria dos serviços do tipo, como Instapaper e Wallabag, gera feeds RSS dos diversos filtros que oferecem — não lidos, favoritos, pastas etc. A princípio, pensei em unir esse recurso a outro do Calibre, chamado “Obter notícias”. O ícone na barra de ferramentas caótica do aplicativo já passa a ideia do que se trata. É um cliente de feeds RSS/Atom que puxa novos posts e gera livros sob demanda ou em um cronograma pré-definido.
Para adicionar um novo feed, é só clicar na seta ao lado do botão Obter notícias e selecionar em Adicionar ou editar uma fonte de notícias personalizada (ufa!). Na tela que se abre, clique em Nova receita, defina os parâmetros e adicione os feeds que deseja acompanhar. Dá para listar vários, o que lhe permite criar um periódico bastante personalizado. Entre eles, inclua o do Instapaper, Wallabag etc. — o do seu aplicativo de guardar links para ler depois.

Notei que a formatação desses livros gerados pelo Calibre é um pouco diferente da de livros digitais comuns. O índice não usa o mesmo leiaute dos livros e até a exibição do texto — ou do que está em volta dele, como o progresso/paginação — tem uma estrutura própria. Nunca li uma revista no Kindle; talvez seja esse o visual delas?
O importante é que funciona, mas dá para melhorar alguns aspectos desse processo e o resultado dele.
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Havia escolhido o Wallabag para ser o ponto de concentração dos artigos que pretendo ler no Kindle. Já vinha usando ele no tablet da TCL. (O aplicativo para Android é bom, mesmo carente de alguns recursos.)
Perceber que o “parser” dele é pior que a média me fez dar um passo atrás. O “parser” é o algoritmo que identifica o conteúdo de uma URL e o extrai. Em alguns sites, o do Wallabag falha, não consegue extrair o texto. O site da revista piauí é um exemplo. (Obviamente, refiro-me às reportagens abertas, sem paywall.)
O Instapaper se saiu melhor, mas não queria usá-lo. Afinal, temos não um, mas *dois* serviços do tipo no PC do Manual, Wallabag e Readeck. (A assinatura do Manual garante acesso vitalício a esses e outros serviços de lá.)
O parser do Readeck é tão bom quanto o do Instapaper. Caso encerrado, certo? Não, porque não conseguia achar o bendito feed RSS dos itens não lidos.

*.epub, dos artigos listados.
Adotei o Readeck, o que me permitiu deixar de lado o “Obter notícias” do Calibre. Só que o Calibre ainda precisa estar presente, para converter o arquivo para *.mobi, que o Kindle entende. De quebra, proveito esse momento para editar o título do livro e colocar uma capa que fiz rapidinho no editor de imagens.
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Faz pouco mais de uma semana que tive essa epifania. Guardo links no Readeck ao longo do dia e, no fim da tarde, gero o jornal editado por mim. Depois de ler a edição, volto ao Readeck para arquivar o que foi lido e, se for o caso, “usar” alguns links — publicar no Órbita ou nos links do dia, compartilhar com alguém ou guardar como material de apoio para algum texto de fôlego que pretendo escrever.
Tem sido ótimo. A tela E-Ink cansa menos, em especial sem o auxílio da iluminação própria. Posso ler no solzinho que bate na janela da sala nessa época, no início da manhã, sem me preocupar com brilho da tela. Pelo contrário: quanto mais Sol, quanto mais luz externa, mais legível a tela fica.
O único (grande) problema desse processo é ele demandar um computador, por causa do Calibre e a conversão do arquivo para um formato legível ao Kindle. Nisso os tablets Android com tela E-Ink seriam mais práticos, pois têm apps que leem *.epub. Fora que talvez nem precisasse do livro digital. O aplicativo do Readeck já bastaria, com acesso direto aos textos na mesma tela E-Ink. Bônus: poderia usar os recursos de destaque e anotações nativos do Readeck, o que seria bem útil.
Para quem já tem um Kindle e um computador à disposição, porém, é difícil justificar um novo dispositivo por essas poucas vantagens do acesso direto ao Readeck. Gerar o livro é um esforço mínimo em troca de ~90% do que um tablet Android proporcionaria.
Um efeito colateral que não previ é que tenho lido menos livros, que agora dividem espaço (e o meu tempo) com textos da web no Kindle. Aí é problema meu, né?
Por alguns anos eu fazia esse fluxo:
RSS > IFTT > Send to kindle
Então era só favoritar ou taggear uma notícia que eu queria ler e ela ia pro kindle. Porém era um processo manual e não-instantâneo que nem sempre funcionava. Pior ainda é que às vezes as notícias iam incompletas por conta da formatação dos sites.
Com o tempo percebi que não tava servindo e desinstalei. Até hoje não vejo nada parecido que seja zero atrito e funcional.
Bem que eu gostaria de ter um “digest” diário das principais notícias no meu kindle pra inserir numa hipotética rotina matinal saudável sem telas (!) que dificilmente eu seguiria. Alguém já fez algo parecido? Com alguma newsletter, por ex?
Se destravar (jailbreak) o Kindle e usar KoReader fica mais fácil ainda. O KoReader sincroniza diretamente com o Wallabag. Aí tudo que for adicionado ao Wallabag vai direito pro Kindle, até com marcações de lido/não-lido sincronizadas.
É melhor mesmo, mas o jailbreaking é uma barreira relevante, não? Eu nem sei por onde começar, ou se a versão do sistema no meu Kindle é compatível com jailbreaking. (Costuma funcionar em versões mais antigas, certo?)
É um excelente uso do Kindle.
A ferramenta de obter notícias nos calibre é uma mão na roda.
Jogo alguns feeds RSS, além dos próprios recipes que o Calibre tem para outras revistas e publicações, como The Economist, The Verge, Nat Geo, Scientific American etc.
Esse formato estranho das revistas é o chamado POBI, que é uma variação do MOBI para publicações de revistas. Salvo engano, não tem alternativas a ele nos formatos azw8 ou epub. Nesses formatos, as matérias de jornal são agrupadas como se fossem capítulos dentro de um livro (revista/jornal), retirando esse mecanismo de seleção interna.
Mas, por outro lado, pelo menos permitem a escolha livre de fontes para estilo dentro do Kindle, o que o formato POBI impede (ele só permite fontes que vêm com o Kindle, impedindo seleção de fontes próprias do usuário).
Pobi kkk
Eu acabo usando o send to Kindle mesmo. Leio muitos posts do órbita por lá!