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[Review] Kindle (2014): o e-reader mais barato da Amazon agora é touchscreen

Kindle Touch sobre vários livros de papel.

Em um mundo dominado por smartphones, dispositivos portáteis e multifuncionais, a única saída para seus opostos, ou seja, aqueles que desempenham apenas uma função é serem excelentes nela. É essa diferença qualitativa que garante a sobrevivência de câmeras dedicadas e e-readers, por exemplo, e a falta dela que sepulta coisas como players de música (RIP iPod) e despertadores (alguém ainda usa?)

O Kindle nasceu quase na mesma época em que o iPhone foi anunciado. A exemplo do smartphone da Apple, ele não foi o primeiro da sua categoria, mas foi o que a definiu graças a uma execução impecável e à criação de um ambiente em torno do produto capaz de fazê-lo brilhar. Com a força da Amazon, especialmente nas áreas de logística, preço e ecossistema, o Kindle foi o primeiro e-reader com apelo junto ao público.

Anos depois, ele continua a ser o melhor. Só que para equilibrar o máximo da qualidade com o menor preço possível, a família teve que crescer. Se em uma ponta temos agora Kindle Voyage e Paperwhite com o melhor que a Amazon consegue produzir, na outra aparece o Kindle básico, este que será nosso objeto de análise hoje. Lá fora custa US$ 79; no Brasil, R$ 299. Nessa última encarnação a maior novidade é a presença de uma tela sensível a toques que aposentou quase todos os botões físicos. Foi uma boa troca? Descobriremos agora.

O progresso nem sempre é belo

Em pouco mais de sete anos, o Kindle mudou muito e pouco, dependendo do referencial. Ele continua, a exemplo do primeiro modelo de novembro de 2007, sendo uma tela de e-ink com 6 polegadas que exibe tudo em preto e branco a uma taxa de atualização lentíssima se comparada à das telas LCD/LED de dispositivos mais avançados. Em volta da tela, porém, muita coisa mudou.

Do primeiro Kindle, todo quadradão, com teclado físico e outros botões de apertar, sobrou pouca coisa. Ao longo das versões lançadas ano após ano, o e-reader da Amazon perdeu peso, tamanho e botões. Essa última leva o espírito minimalista ao extremo. O dispositivo só tem um botão físico, o liga/desliga na borda inferior, que divide espaço com a entrada microUSB e o LED que indica o status da recarga da bateria.

O plástico na parte de trás do Kindle desagrada ao tato.

Mas design não é sinônimo de visual e no Kindle isso se nota facilmente. Foram-se, e faz tempo, os materiais mais nobres das primeiras versões. (A minha, um Kindle de segunda geração lançado em 2009, tem acabamento na parte de trás em metal.) A carcaça do Kindle básico de 2015 (lançado em 2014) é constituída totalmente de plástico. Infelizmente, não um plástico dos melhores…

Atrás, a Amazon optou por um acabamento áspero que, embora possa não ser o caso, transmite uma forte sensação de produto barato. Na frente o plástico não tem textura, é liso, e absorve impressões digitais como se você tivesse acabado de comer batata frita e resolvesse ler alguma coisa sem lavar as mãos antes. Não afeta tanto o manuseio (ele é leve e tem o mínimo de aderência esperada), mas é bem ruim esteticamente. De qualquer modo, se for algo que incomoda muito, uma capinha qualquer resolve. E, sendo bem honesto, apesar de feio é um ponto que dá para ignorar em um negócio tão barato.

Detalhe na resolução do Kindle.

Teclado virtual do Kindle.

Obviamente, o Kindle básico não tem luz. Essa, porém, não é a única diferença em relação aos modelos mais caros. A outra, tão relevante quanto, é a resolução da tela. Falando em densidade de pixels (já que o tamanho físico, de 6 polegadas, é idêntico em todos eles), este Kindle básico tem 167 PPI. O Kindle Paperwhite tem uma tela com 212 PPI e o Voyage, ainda não lançado no Brasil, uma com 265 PPI.

Essa falta de definição não é o fim do mundo, nem mesmo algo que atrapalha a leitura de fato, mas os serrilhados, especialmente em fontes serifadas como a Baskerville, são visíveis. Em outras áreas aparentemente pensadas para telas melhores, como o teclado virtual, o contorno das teclas também sofre com a escassez de pixels. É o tipo de coisa que se faz notar com mais força depois de ter passado os olhos nos modelos superiores (Paperwhite e Voyage). Novamente: é um “problema” compreensível. Esse modelo precisa ser pior em algumas áreas para justificar o preço mais baixo, certo?

Fora a resolução (que se não melhorou, tampouco piorou), em todos esses anos felizmente a tela só evoluiu. O contraste é bom, o “branco” de fundo está claro num nível satisfatório e a velocidade de transição das páginas nunca foi tão rápida.

Tela sensível a toques vs. botões físicos

Botão liga/desliga, LED de recarga da bateria e entrada microUSB.

O sumiço dos botões físicos, no caso do Kindle básico, nem é tão ruim. A penúltima versão foi uma das piores nesse setor: os de navegação eram finos, com feedback tátil ruim e grudados nas bordas laterais, e os demais, incluindo as setas de navegação, concentrados em uma posição incômoda, no centro da borda inferior. (Fiz uma breve análise desse modelo no Gizmodo.)

Eu gosto muito de botões físicos para passar páginas porque, apesar de necessitar do “clique”, o ato é muito mais natural/sem fricção do que movimentar sua mão ou seu dedo em direção à tela e, logo em seguida, retorná-lo à posição original, apoiado na borda. É um detalhe, eu sei, mas some aí umas centenas de “viradas” de páginas a cada livro lido e isso se torna algo importante. Só que entre a tela e um botão zoado como o do penúltimo Kindle, acho que a solução do novo acaba sendo mais ergonômica.

Dito isso, a tela sensível a toques do novo Kindle é tão boa quanto a do Paperwhite, que ganhou muitos elogios quando passou por aqui. Embora a tecnologia usada para reconhecer seus dedos engordurados seja diferente daquela presente em smartphones e tablets, a Amazon conseguiu contornar as limitações do hardware e entregar um sistema responsivo e confiável. Não há muito o que se queixar da touchscreen desse Kindle, pelo menos dentro do que ele consegue fazer. Avançar páginas, acessar menus e navegar por listas de livros? Tudo funciona bem.

Para quem já utilizou um Kindle Paperwhite ou Voyage, o sistema é o mesmo. A tela inicial traz sua biblioteca local, a da nuvem e ofertas da Kindle Store, com o menu principal afixado no topo. Ao abrir algum livro, apenas o texto fica visível na tela. Um toque na porção maior à direita avança a página; um numa fina linha invisível à esquerda, retrocede; e por fim, um toque no topo da tela revela o menu principal e informações e opções no rodapé. Palavras e trechos podem ser selecionados para buscar significados, entradas na Wikipédia e fazer anotações e marcações. Com a sincronia via Whispersync, revisar tudo isso depois no Kindle Cloud Reader com o auxílio do teclado e do Word/Google Docs é bem tranquilo. Para mim o Kindle é a melhor forma de escrever fichamentos e trabalhos que dependem de consultas massivas a livros e, claro, de retomar anotações feitas neles.

Detalhe dos marcadores de páginas no canto superior direito da tela do Kindle.

A parafernalha de recursos que auxiliam a leitura é vasta e conta com coisas meio inúteis, como o X-Ray (nunca uso) e trechos mais populares marcados por todos os leitores (costumo desativar), e outras que fazem a diferença como os recentes marcadores de páginas com um toque no canto superior direito, o Construtor de Vocabulário que acumula em uma pilha de cartões as palavras consultadas nos livros e as Dicas de Vocabulário, que dá uma força na hora de ler coisas em inglês direto no corpo do texto. O mais incrível de viver hoje, nos anos 2010, é que o software domina o mundo — e, portanto, está mais acessível mesmo em gadgets menos sofisticados como esse.

Entre todos os contras desse modelo, que são poucos, nenhum é do tipo “deal breaker”, ou seja, grave a ponto de comprometer o seu uso ou nos fazer reconsiderar uma eventual compra em vista. A bateria segue com sua duração estupenda, os 4 GB de memória interna, o dobro do modelo anterior, são suficientes para carregar mais livros do que você leria em alguns anos, e a leitura em si, a única finalidade desse dispositivo, corre muito bem.

Vale a pena comprar o Kindle mais barato?

Kindle ligado sobre a mesa.

O Kindle de entrada é o que promete ser: um e-reader básico que não faz questão de negar sua vocação. O acabamento é tolerável e a tela, embora boa, poderia ser melhor, mas a questão é que esses dois pontos são sanados nos modelos superiores, logo se eles não estivessem presentes aqui, a própria existência do Kindle básico não faria sentido. Outro ponto fraco, esse comum a toda a família Kindle, é a incapacidade de ler arquivos no formato ePub, o que torna o leitor refém dos e-books vendidos pela própria Amazon e deixa de fora eventuais compras feitas em outros estabelecimentos virtuais. É uma queixa antiga e… bem, repito-a aqui só para constar mesmo.

Por R$ 299, O Kindle é um e-reader competente, com um acervo de livros ótimo e o melhor ecossistema do mercado — o ponto de leitura é salvo e sincronizado entre um punhado de dispositivos, você ainda tem espaço na nuvem e um conjunto de ferramentas de auxílio à leitura muito bom. E com lojas autorizadas (vide links no final do review) e a própria Amazon colocando-o em promoção constantemente, com preços que chegam a R$ 200, a tentação por esse Kindle fica ainda maior.

O Kindle pode mudar seus hábitos de leitura pela facilidade e disponibilidade que proporciona, mas não faz milagres, então tenha cautela. De qualquer forma, para leitores ávidos e casuais é fácil afeiçoar-se a ele e se pegar lendo coisas maiores que posts de blogs e textões do Facebook. A experiência é agradável, quase tanto quanto a que se tem com livros de papel e com a vantagem de, dependendo do volume, não pesar tanto (literalmente). Vale a pena? Se você gosta de ler, vale muito. Melhor que esse, só os mais caros Kindle Paperwhite e Voyage. A Amazon sabe fazer bons e-readers.

Foto de divulgação do Kindle.

Compre o Kindle básico

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13 comentários

  1. A única coisa que me deixa bolado é não ter como comparar as paginas em arquivos Mobi, por exemplo. Acho que alguns da Amazon já tem um número aproximado da página, mas não todos. É chato quando a gente lê o livro ao mesmo tempo que outra pessoa na versão física e não tem como comparar muito bem o andamento(em livros sem capítulos). Algo bem restrito, mas é a única coisa ruim que achei. Ah, uso o Kindle 4, não o novo.

    1. A questão da página também é algo me incomoda, apesar de meu problema ser um pouco diferente. Simplesmente não existe (ao menos minhas pesquisas não me indicaram) um padrão de citação e referência de textos em formato epub/mobi. Meu principal uso do Kindle (por enquanto ainda pelo aplicativo no tablet) é com livros acadêmicos, mas eu sempre acabo tendo que recorrer a um segundo formato (pdf ou mesmo o livro físico) para conseguir referenciar citações com número da página (como é exigência do padrão ABNT em citações diretas e minha, pessoal, em citações indiretas).

  2. Estou seriamente pensando em comprar um e-reader. Eu consigo integrar ele ex. com o Pocket (seria meu principal caso de uso)?

    1. O Kobo tem integração nativa com o Pocket.

      O Kindle tem um sistema de envio de artigos, o Send to Kindle, mas ele não tem ligação com o Pocket ou qualquer outro serviço do tipo read it later — ele É um serviço do tipo RIT. Dá para usar uma receita do IFTTT, ou então um sistema como o En2kindle para automatizar a tarefa.

      (Passe o mouse pelo meu comentário que tudo o que eu mencionei está linkado. O layout atual do Manual do Usuário não distingue visualmente texto de link nos comentários. E olha que já mexi muito no CSS para corrigir isso, sem sucesso…)

      1. O Instapaper tem integração nativa com o Kindle. Envia diária ou semanalmente seus últimos 10 artigos salvos em formato .mobi. Usava o Pocket e a solução que encontrei foi migrar para o Instapaper. Migrei e integrei à conta @kindle.com em menos de 10 minutos.

  3. Ah, uma coisa que não gosto do touch é quando se está sonolento ao lê-lo e acaba passando as páginas sem ver . rs

    1. Mas isso a gente faz com livro de papel também, até o momento em que o texto se converte em aramaico e você perceba que seu cérebro foi dormir no meio do capítulo anterior.

  4. Acho o kobo superior ao kindle por aceitar arquivos sem qualquer conversão. No resto, é igual ou melhor (acabamento do kobo glo, por exemplo)…

  5. Eu sinceramente prefiro o modelo não – touch. Fiz o review aqui: http://2centavos.com.br/review-amazon-kindle-brasileiro-quanto-onde-como-e-por-que/ (site sem fins lucrativos. risos)

    Poder manusear o Kindle como se fosse um livro, significa poder mexer em sua tela sem que ele reaja a isso. Isso significa trata-lo realmente como um livro (mais leve) e poder ler deitado, em qualquer posição.. deixando sua mão onde quiser no equipamento. Por isso acho que continuo preferindo a versão não-touch.

  6. Da versão anterior gostava bastante da traseira. O plástico era “macio”, apesar de ficar todo marcado, e ajudava na hora de segurar o Kindle.
    Ganhei essa versão atual da namorada e confesso que no início achei que não iria utilizar muito, pois meus hábitos de leitura diminuíram consideravelmente. Mas descobri no Kindle um baita companheiro de estudos! Excelente para fazer notas, destacar partes importantes, ler leis e meus resumos de aula. Fora que não machuca meus olhos como os outros gadgets, sem contar a autonomia mágica da bateria.
    Recomendo a compra para todos (que gostem de ler, é claro). Dá até para dar uma olhada rápida no facebook e twitter, quando suas leituras ficarem enfadonhas.

  7. Tenho a versão anterior e foi um dos melhores (custo/benefício) Gadgets que já adquiri.

    Uma dica que contribuiu muito para isso, foi utilizar um software chamado “hamster converter” para converter pdf pro kindle. Achei ele muito melhor que o famoso “calibre”. Quase nunca mais tive problemas ao converter pdf/epub para o kindle.

    1. A própria Amazon faz essa conversão automaticamente. Basta enviar o pdf que deseja para seu email @kindle.com e no assunto inserir -> convert.

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