Como os telejornais do passado relataram a chegada da Internet e de outras tecnologias do futuro ao Brasil
Há 20 anos a Internet comercial era lançada no Brasil. Lenta, restrita e com fila de espera, tudo isso para acessar sites e serviços primitivos, essa é uma história que coloca em perspectiva a relatividade do tempo — como duas décadas podem parecer tão pouco e, no mesmo momento, tanto tempo.
Hoje, mais da metade da população brasileira está conectada. Há 20 anos, os 250 primeiros do país, selecionados pela Embratel para o teste piloto, tiveram o privilégio de se conectarem do conforto dos seus lares ou do ambiente corporativo pagando por isso. Antes, segundo um editorial da Folha (que publicou um especial caprichado sobre a data), éramos apenas 50 mil conectados à internet — gente do governo, de universidades e do exército.
Em 2015 a Internet está tão enraizada que passa despercebida. Em alguns países, o acesso à rede já é um direito fundamental. Mesmo aqui, no Brasil, em lugares onde o acesso é estável e a velocidade, boa, só nos damos conta dela quando somos desconectados por algum imprevisto. Essa naturalidade com que lidamos com a Internet se reflete na cobertura da imprensa. Antes, não era assim. Qualquer reportagem sobre Grande Rede Mundial de Computadores™ envolvia termos como “aficionados” e “navegadores”, sem falar no eventual trechinho de Tron, Jogos de Guerra ou qualquer outro filme de ficção científica para ilustrar o ciberespaço.
Movido pela nostalgia desta semana, vasculhei o YouTube em busca das matérias do passado que apontavam para o nosso futuro. Infelizmente não encontrei nada específico sobre aquele 1º de maio de 1995, o que é uma pena — e estranho. A Internet chegou ao Brasil naquele ano, mas foi só no seguinte, em decorrência do Internet World 96, um evento realizado no Centro de Convenções do Anhembi, em São Paulo, para apresentar ao público as últimas novidades da Internet, que a grande imprensa parece ter dado a devida atenção ao tema.
O compilado de matérias do vídeo acima dá uma boa ideia das grandes novidades da época. Comércio eletrônico parece ter sido a sensação do evento, seguido de perto pela chave de acesso física que, ao encostar num monitor CRT, gerava uma senha temporária para garantir o sigilo de transações online. Num tempo em que Google devia ser só uma vaga ideia na cabeça dos seus criadores, uma das matérias destacou também a nova possibilidade de buscar páginas por palavras-chave, muito mais práticas que os diretórios de então.
Em off, cá entre nós: o que era aquele programa da Silvia Poppovic!?
Animado com o achado acima, procurei outros vídeos antológicos relacionados à tecnologia do telejornalismo brasileiro. Confira, em ordem cronológica:
O computador no Brasil, 1981
Em 1981 cerca de quatro mil computadores funcionavam no Brasil. Segundo Octávio Gennari Neto, então Secretário Especial de Informática de São Paulo, “a população média de São Paulo teria um contato indireto, nem sempre direto, de cerca de 15 a 20 vezes por dia com um computador eletrônico”.
O engenheiro José Roberto Trindade contou, ao repórter, como era legal colocar “receitas de bolo” no computador doméstico e, depois, informar a quantidade de pessoas a serem servidas e o sistema retornar os ingredientes nas porções corretas.
E já nessa época existia um serviço de informações pela linha telefônica através do computador. Fiquei curioso para entender melhor como funcionava.
Caixa eletrônico, 1983
“O século XXI já chegou”, anunciou o âncora ao chamar a matéria sobre a invasão dos computadores nos bancos. Operações remotas, caixa eletrônico, cartões de crédito/débito e atendimento automático eram provas contundentes, para o repórter Alberto Gaspar, de que o ano 2000 havia chegado antes da hora. Mal sabia que, quase três décadas depois, a maioria nós preferiria falar ao telefone com gente de carne e osso em vez de vozes computadorizadas.
No final, o amigo engravatado diz “Isso aí é a era moderna, do computador”. Ao fundo, começa a tocar a música-tema de 2001: Uma Odisseia no Espaço. Clássico.
A primeira ligação móvel do Brasil, 1990
Um Marcelo Rezende mais jovem e menos alucinado explicou as vantagens do telefone móvel quando esse desembarcou no Brasil. Tudo bem básico hoje, mas entre essas funções, tem uma curiosa: a “não perturbe”, introduzidos (ou reintroduzidos?) apenas recentemente no iOS (2012) e Android (2014). E o modo viva-voz, que garante segurança máxima ao falar dirigindo? Aposto que ninguém usava cinto de segurança também.
A primeira ligação foi feita pelo Secretário Nacional de Comunicações, Joel Marciano Rauber, ao Ministro da Infra-estrutura, Ozires Silva, que estavam no Rio de Janeiro e em São Paulo, respectivamente.
Correio eletrônico, 1990
Pelo correio eletrônico dá para fazer um punhado de coisas, “até arrumar um bom caso de amor” — funcionou com Tom Hanks e Meg Ryan, ora! Fiquei na dúvida se a matéria se referia ao e-mail ou às BBSs. Alguém da época esclarece?
Vírus Michelangelo, 1990
Bons tempos em que vírus tinham data marcada para atacar e podiam ser evitados apenas dando uma folga ao PC no fatídico dia. O Michelangelo foi batizado assim por entrar em ação no dia 6 de março, data de nascimento do grande pintor e escultor italiano do século XVI.
A febre dos video games, 1991
Este Globo Repórter é pérola atrás de pérola, como terem mudado o emprego do Mario da Nintendo (de encanador virou bombeiro)1 e a espécie do Sonic (de porco espinho virou um gato), ou do moleque que era tão bom que foi contratado por uma revista especializada. Video games eram mais maneiros nos anos 1990!
E como essa indústria mudou de lá pra cá. Na época o Japão era o centro do universo, associar video games a crianças era natural e adulto só jogava em PC, de preferência nos simuladores de voo com gráficos impressionantes — na época, claro. Cora Ronai, que hoje escreve sobre tecnologia n’O Globo, fez uma ponta nesse bloco dos adultos declarando seu amor pelo Pac-Man.
Lançamento do Windows 95, 1995
https://www.youtube.com/watch?v=bo78M7eNy68
Os PCs mais populares do Brasil em 1995 custavam R$ 800, o que em valores corrigidos para hoje dá quase R$ 4,3 mil. O Windows 95 prometia uma revolução. “Duas vezes mais veloz”, ele deixava o uso do computador muito mais fácil. Dava para fazer tudo: ouvir música, escrever texto, fazer planilhas de custo e agendar compromissos, tudo ao mesmo tempo em quatro janelas uma ao lado da outra.
E o César Tralli, hein? Há 20 anos cobrindo tecnologia para, em 2015, publicar o print de uma foto no Twitter.
Foto do topo: Milton Michida/Flickr.
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Fui informado pelo leitor Gustavo Vieira que no Rio o povo chama encanador de bombeiro. Vivendo e aprendendo. ↩
O que acho mais estranho dos vídeos da Globo na época é citarem marcas, algo que hoje eles borrariam no vídeo e utilizariam eufemismos para escondê-las.
Isso é um chute.
A Globo vê hoje que a exibição ou citação de marcas no canal gera publicidade "gratuita" para as empresas. "Qual produto que as pessoas não gostariam que a Globo veiculasse de graça"? "Olha lá, o meu nome na Globo! Minha empresa!"
Salvo engano, há a questão do "direito de imagem" também, uma vez que algumas marcas também cobram para serem veiculadas ou usadas.
Tirando alguns termos que são meio como o termo "gilete", a grande maioria é borrada por causa disto.
Lembro da primeira vez na vida em que usei internet, numa feira, a Inforuso aqui em BH. O provedor (SafariNet, se não me engano) dando palestra para explicar do que se tratava a tal da internet. Para cativar a audiência, sorteavam bonés do provedor no final. Na época acho que esse foi o segundo maior provedor de BH (se bem que só deviam ter uns dois mesmo). E era caro pra caramba!
E eu senti na pele esse vírus Michelangelo. Lembro que foi um caos total, na empresa em que eu trabalhava na época, todo mundo correndo atrás de um "scan", que é como chamávamos o anti-vírus na época. Teve outros vírus também, além desse, que causaram muito estrago. E a culpa, segundo os entendidos, era dos disquetinhos de games que a gente vivia trocando entre a galera.
E eu senti na pele esse vírus Michelangelo. Lembro que foi um caos total, na empresa em que eu trabalhava na época, todo mundo correndo atrás de um "scan", que é como chamávamos o anti-vírus na época. Teve outros vírus também, além desse, que causaram muito estrago. E a culpa, segundo os entendidos, era dos disquetinhos de games que a gente vivia trocando entre a galera.
Só eu fiquei assustado com as perguntas do repórter do primeiro vídeo ?
Essa repórter do vídeo do vírus Michelangelo hoje é a apresentadora do Globo Rural.
Rapaz, que nostalgia! Gostei muito dessa matéria. Eu nasci antes disso tudo e me surpreendo até hoje com esses feitos.
Quem notou uma propaganda gratuita para a maçã no primeiro vídeo?
Ghedin, plumber em inglês também é bombeiro (hidráulico). Bombeiro hidráulico é uma forma técnica para o termo encanador.
http://michaelis.uol.com.br/moderno/ingles/definicao/ingles-portugues/plumber%20_475981.html
http://g1.globo.com/mg/vales-mg/mgintertv-1edicao/videos/t/emprego/v/emprego-saiba-mais-sobre-os-servicos-prestados-pelo-bombeiro-hidraulico/3310024/
Chegar a ser cômico rever essas matérias, em especial a do lançamento do Windows 95. "Dá para rodar até QUATRO programas de uma vez só". Uau Observação cultural: como o passado era cinza.
Engraçado que até o lançamento do Win 95 virou notícia no JN. Lembro quando meu pai comprou um Pentium 166MHz, com Windows 95 e "kit multimídia". Tu colocava o CD no drive ele tocava a música SOZINHO!
Mudando um pouco de assunto, mas mantendo a nostalgia: Bons tempos de comprar revista de jogos nas bancas pra conseguir uns demos ou jogos completos... Lembro que uma das revistas veio com o jogo Frankenstein: Through the Eyes of the Monster, um point and click com live action do ator Tim Curry. Tive que comprar a revista com o detonado para terminar o jogo hahahaha
Muito bons, curto muito vasculhar o youtube em busca de vídeos assim. Também tem esse aqui do Emílio Surita anunciando um PC: https://www.facebook.com/ProjetoCyberneticoOficial/videos/313157515514364/?fref=nf
Muito bom.... E não esquecendo que o primeiro cheque entra hoje!
Baratinho esse Aptiva, hein! Em valores de hoje seria mais de R$ 18 mil.
de ultima geração... heheeh
Excelente texto e, claro, ri demais com as reportagens. Sei que para época (algumas antes até mesmo de eu nascer) era tudo surpreendente mas, com a tecnologia como está, fica cômico essas reportagens nostálgicas.
Esse vídeo dos videogames já começou dando spoiler do final do Super Mario World.
É verdade, também percebi, mas convenhamos: ninguém deve ter ficado muito bravo por conta de um final tão simples, né? :)
É. Você já zerou esse jogo?
Não ._.
Se eu te disser que eu nunca zerei nenhum Mário, tu acredita? Aliás, eu só joguei as primeiras fases do Mario World 3 (acho que é esse). Às vezes me sinto um lunático por isso.
Tenho um causo: comprava a revista Nintendo World e estava "zerando" (na época, finalizando) o Super Mario World. Achei tão esquisito o número de fases que relatou no menu (acho que eram 96) depois de zerado, que liguei na hot-line da Nintendo. Acho que logo no começo, ficaram falando que eu tava ligando a cobrar, mas eu tava ligando de um orelhão de ficha. :p Ai eles me confirmaram por lá que eram 96 fases :p
A quem me atendeu na época, perdão o incomodo. Mas que eu me lembre, coloquei ficha (ou era cartão?) no orelhão e liguei por lá, viu? :) Não era a cobrar não.
Tenho um causo: comprava a revista Nintendo World e estava "zerando" (na época, finalizando) o Super Mario World. Achei tão esquisito o número de fases que relatou no menu (acho que eram 96) depois de zerado, que liguei na hot-line da Nintendo. Acho que logo no começo, ficaram falando que eu tava ligando a cobrar, mas eu tava ligando de um orelhão de ficha. :p Ai eles me confirmaram por lá que eram 96 fases :p
A quem me atendeu na época, perdão o incomodo. Mas que eu me lembre, coloquei ficha (ou era cartão?) no orelhão e liguei por lá, viu? :) Não era a cobrar não.
Texto maravilhoso. Lembro bem de quando assisti esse vídeo sobre videogames, hahahahah. Nunca vou esquecer de quando descobri que tinha vírus com textinho colorido e música feliz enquanto destruía seu PC.