O bom e o ruim no legado de Jony Ive no design da Apple

Jonathan Ive e Tim Cook observam o iPhone XR após evento que apresentou o aparelho.

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Quantos executivos de grandes empresas você conhece (no sentido de pelo menos saber o nome)? Tenho a impressão de que, com poucas exceções, esses profissionais acabam conhecidos apenas daqueles que acompanham mercados muito de perto. No da tecnologia de consumo, dá para contar nos dedos os que conseguiram romperam as conferências com analistas e investidores e as páginas dos jornais de negócios e alcançaram o imaginário popular: Bill Gates e Steve Jobs, cofundadores e por muito tempo CEOs da Microsoft e da Apple, e Mark Zuckerberg, o infame cofundador e CEO do Facebook. (Todos retratados em filmes; coincidência?)

Muitas vezes acusada de ser um culto, e não uma empresa, a Apple foge um pouco à regra com um quadro de executivos (os “C-levels”) mais conhecido do grande público. São aquelas pessoas que sobem ao palco, algumas vezes por ano, para apresentarem os novos produtos como se fossem mágicos — ou irresistíveis, não importa quão caros sejam. Um dos rostos mais famosos e longevos desses eventos sempre se distinguiu por não subir ao palco, se fazendo presente, em vez disso, em vídeos gravados em uma sala totalmente branca e vazia. Era Jonathan Ive, ou Jony Ive, que até o início da noite desta quinta-feira (28) liderava a identidade visual da Apple como “chief design officer”, cargo criado para ele.

Ive estava na Apple havia quase 30 anos. Assinou maravilhas do design industrial moderno, área em que a Apple se destaca desde a sua reinvenção no final dos anos 1990. Do iMac colorido dessa época, passando pelo iPod e sua indefectível “click wheel”, o impressionante MacBook Air tirado por Jobs de um envelope, o minimalismo extremo do iPad e todas as gerações de iPhone que redefiniram um dos produtos tecnológicos mais populares da história da humanidade. Não é pouca coisa.

Foto de divulgação do iPhone 4.
iPhone 4: vidro e metal no acabamento, tela Retina faz sua estreia. Para muitos, o iPhone mais inovador da história. Foto: Apple/Divulgação.
Página do livro da Apple.
Designed by Apple in California é um livro fotográfico que abrange os últimos 20 anos de produtos da Apple. A versão mais barata (menor) custa R$ 900. Foto: Apple/Divulgação.

No discurso oficial, Ive está de saída para formar a sua própria empresa, chamada LoveFrom, e terá a Apple como primeira cliente. Brincaram alguns no Twitter — “virou PJ!” —, mas a mensagem que se quer passar é de que pouco mudará. O que se extrai de reportagens e bastidores que chegaram à imprensa dos últimos anos indica, porém, é um desejo dele de trabalhar em outras áreas que não a de design de gadgets. Seu último projeto antes da saída — e sua maior obra dentro da empresa —, o suntuoso Apple Park, nova sede da Apple em formato circular na cidade de Cupertino, na Califórnia, talvez sinalize uma dessas outras áreas de interesse.

Apesar do histórico impressionante e dos notáveis feitos de engenharia em prol do design — alguns ainda sem paralelo na indústria, como a tela OLED que enrola na borda inferior dos iPhone X —, a história do design da Apple nas últimas décadas não foi livre de turbulências. Muitos criticam a obsessão da empresa (de Ive?) em diminuir a espessura dos produtos, ainda que isso custe autonomia de bateria e, no que talvez seja o maior arranhão à sua imagem neste século XXI, tenha gerado o criticado teclado dos atuais MacBook, chamado “teclado borboleta”, que não bastasse a resposta tátil super discreta, fruto do perfil baixo das teclas, aparenta ter uma taxa de defeito acima da média da indústria.

Nem mesmo a joia da coroa de Ive, o Apple Park, se viu livre de problemas esquisitos: funcionários reclamaram de estarem trombando nas portas de vidro desprovidas de indicações visuais que evitariam esse constrangimento — um que o Dr. Renato conhece muito bem.

Vista aérea do Apple Park.
Vista aérea do Apple Park, sede da Apple projetada por Ive. Foto: Daniel L. Lu/Wikimedia Commons.

Alguns veem nesta saída uma chance de a Apple reverter certas tendências que instituiu durante a era Ive. Se ocorrer, não será tão cedo — ciclos de design são longos e as impressões digitais do agora ex-líder da área estarão em produtos lançados daqui a quatro, cinco anos. Depois disso? Quem sabe.

Imagem do topo: Apple/Divulgação.

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2 comentários

  1. Achei que o texto deu a entender que o Apple Park foi um projeto arquitetônico do Ive, o que não é bem preciso: o projeto é do arquiteto Norman Foster e da firma dele, Foster and Partners.

  2. Estou curioso para entender qual será a influência dessa mudança, poucas empresas têm seus líderes tão personificados a Apple, o que pode ser um problema pensando justamente na expectativa do mercado. Estamos até hoje ouvindo “Se Steve Jobs estivesse vivo…” e agora já temos pessoas associando as últimas falhas da Apple ao distanciamento do Jony Ive nos últimos anos.

    Acho improvável que seja tão gigante assim a mudança, a função de um C-level não é garantir que o teclado não dê problemas, mas definir a cultura e diretrizes da área em que ele é responsável….o que aparentemente Jobs conseguiu fazer e Ive estava planejando há tempos.

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