Neste texto eu falo bem da IA

“Como desativar todos os widgets do WordPress sem recorrer a plugins?”

“Quais as principais obras — e por onde começar a lê-las — de Theodor Adorno?”

“Qual a melhor rotina de meditação para um sono profundo?”

“Como excluir um contêiner do Docker pela linha de comando?”

“Vinagre e bicarbonato de sódio formam uma boa combinação para limpeza doméstica?”

“Nos EUA, qual a média de espectadores por filme lançado em determinado ano? Usar um ano recente”

“O que significa uma tela com a tecnologia NCVM IPS?”

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Desculpe as perguntas aleatórias. São algumas que fiz à IA (Duck.ai e Claude) recentemente. Todas foram respondidas pelos modelos gratuitos oferecidos pelas duas empresas, com diferentes níveis de satisfação. No mínimo, elas me indicaram caminhos promissores para aprofundar a pesquisa, fazer testes e, no fim, resolver o meu problema. (Menos a da bilheteria de filmes nos EUA; parece que faltam dados dos filmes de menor audiência.)

Num passado recente, teria recorrido ao buscador web — o DuckDuckGo, que uso por padrão. Não seriam bem perguntas, porque nunca adquiri o hábito de “conversar” com o campo de texto do buscador. Hoje, tenho ido direto aos chatbots comerciais, baseados em grandes modelos de linguagem (LLM). Apenas pergunto, da forma como faria a uma pessoa, ainda que não confunda os dois.

E por que fazer pesquisas à moda antiga? Não importa qual buscador se use, os resultados são similares — quando não os mesmos — e quase sempre ruins. Páginas genéricas, enganosas, com respostas enterradas em textos prolixos que assim o são “porque o Google gosta” e porque o dinheiro da exibição de anúncios tem prioridade. O conteúdo vira coadjuvante — ou, como diz o velho ditado, o rabo (anúncios) abana o cachorro. A maior parte da web apodreceu. Os buscadores apenas refletem isso.

Para respostas diretas, uma IA retorna a síntese — aquele parágrafo que estaria perdido entre toneladas de lero-lero e anúncios invasivos no quinto ou sexto link que eu tentasse a partir da página de resultados do buscador.

Existem preocupações válidas com a IA enquanto negócio. Isso não significa, porém, que a tecnologia deva ser descartada. O problema não é a tecnologia. São as empresas, o discurso megalomaníaco/delirante delas; o modelo de negócio, a bolha; o uso da IA como bode expiatório para demissões e outras decisões equivocadas das empresas; a corrida para construir data centers sem considerar os efeitos colaterais, em muitos casos super danosos.

Tratar a IA como uma tecnologia normal é uma postura com a qual eu e outros (como Cory Doctorow) simpatizamos. No meu caso, que passei a simpatizar porque a utilidade delas é inegável.

A IA, por si só, não vai acabar com o mundo nem nos levar ao nirvana da experiência humana. Esses desfechos apocalípticos ou utópicos decorrem do mundo dos negócios. É do interesse das empresas do setor pintarem uma tecnologia normal como excepcional e apostar tudo na ideia de que a IA resolve todos os problemas, mesmo que isso custe o nosso futuro e o do planeta. Não precisa ser assim.

***

O uso que faço de IAs/LLMs se restringe a dúvidas triviais ou relacionadas à minha atividade profissional e à geração de alguns códigos simples, que eu não conseguiria escrever, mas entendo ao menos em parte o que significam.

Até hoje, fiz dois projetos maiores com a assistência da versão gratuita do Claude.

O primeiro foi o painel de comentários deslizante neste Manual. Funcionou, mas no fim era algo incongruente com a simplicidade confiável que é característica deste saite.

No início da semana, meio que do nada, lembrei-me de uma antiga vontade: converter o meu blog pessoal do Jekyll para o Hugo. Ambos são geradores de saites estáticos, só que um é feito em Ruby, outro em Go. (Essas são linguagens de programação.)

Converti ele do WordPress para o Jekyll em 2017. Na época, peguei um tema padrão do Jekyll e personalizei-o tanto que ele deixou de ter qualquer relação com o original. Não sabia direito o que estava fazendo. Só consegui na base de muita tentativa e erro e lendo tutoriais esparsos na web. Com o passar do tempo, familiarizei-me com o código, entendi melhor o Jekyll e aprendi a fazer as edições que queria.

Com o Hugo, nunca me dei bem. A sintaxe e a lógica são diferentes das do Jekyll, mais difíceis de entrar na minha cabeçona.

Migrar do Jekyll para Hugo estava longe de ser uma prioridade. Faltava tempo, vontade de aprender o funcionamento de outro CMS e a absoluta ausência de vantagens que justificassem o esforço. O Jekyll funciona bem. Desagrada-me seu sistema de dependências (“gems”), o oposto do Hugo, que é só um binário, e… bem, só isso.

Pelo meu blog ser dos mais simples e com um escopo bem definido (e limitado), resolvi tentar a sorte com a IA. Apontei o repositório da versão em Jekyll ao Claude e pedi:

Tenho este blog, feito em Jekyll. Queria convertê-lo para Hugo, uma conversão perfeita, mantendo as categorias (notinhas, imagens, textoes etc) e o leiaute. Ao final, gere um arquivo compactado com todos os arquivos necessários

Debatemo-nos com os filtros por tipo de post. Após algumas idas e vindas, deu certo. Outra manobra que tive que fazer foi pedir à IA para me passar o script em Python para converter os posts em si do padrão (o front-matter) do Jekyll para o do Hugo. O Claude estava tentando fazer ele mesmo, ou seja, nos servidores da Anthropic, e sempre falhava. Localmente, foi o trabalho de chamá-lo no terminal com o comando python3 convert_posts.py e ver todos os 364 posts serem convertidos em menos de um segundo.

Você pode ler a nossa conversa.

Com o site funcionando, recorri ao buscador para aprender a hospedá-lo na Cloudflare, que desde que subi meu último site removeu o serviço “Pages”, mais simples, para concentrar tudo em “Workers”, o que demanda alguns códigos de execução que não tinha ideia de como criar. O próprio site do Hugo tem a receita de bolo.

Ainda não me debrucei no código gerado. É muito provável que haja pontos de melhoria. De cara, notei que um dos arquivos do leiaute, o list.html, estava repetido em dois diretórios. Perguntei se podia apagar um deles. Podia.

De resto, funcionou. E dentro do esperado. Baseio esta afirmação no tempo para compilar o saite estático, que caiu ~77% na versão em Hugo. Nada surpreendente (o Hugo é mais rápido que o Jekyll), mas se a redução não tivesse sido tão dramática, seria sinal de que havia algo errado.

***

É possível dizer que o meu novo saite é fruto do trabalho compartilhado de milhares de programadores que publicaram os seus feitos em Jekyll e fizeram e responderam perguntas no StackOverflow ao longo de anos.

O enfoque dos incomodados com a IA generativa — desenvolvedores, editoras, jornais e o meu também, por um bom tempo — diverge do que penso e tento praticar. O meu problema não é com a violação da propriedade intelectual. É com a maneira com que essas empresas aspiraram o conhecimento da humanidade para revendê-lo; é com a mercantilização do conhecimento comum.

Se existisse uma IA da Wikipédia ou do Archive.org (pública, gratuita e de acesso universal) ou se as empresas comerciais não cobrassem pelo acesso, para retribuir o conteúdo amealhado de todo o mundo sem autorização e qualquer compensação, eu teria zero problema em ceder o corpus do Manual do Usuário ao treinamento dessa IA. (Na real, parei de me importar com isso… quem acessa este blog não o faz pelos mesmos motivos que levam alguém a usar uma IA.)

A propriedade intelectual, os direitos autorais, são barreiras ao conhecimento e ao desenvolvimento intelectual de cada um de nós, impostos e defendidos pelo potencial gerador de receita. Criam castas, geram desigualdade. São perniciosos. Não à toa, é uma bandeira defendida (quando convém) por grandes empresas e, por consequência, por pessoas que precisam se defender delas para sobreviverem do que sabem e gostam de fazer. Pessoas que produzem trabalho intelectual precisam ter um retorno, sim, mas pare e perceba que quem costuma fazer valer os direitos de propriedade são a Disney, conglomerados de mídia, as grandes editoras.

No plano concreto, porém, propriedade intelectual e empresas vampirescas — como OpenAI, Google e Anthropic — existem, o que justifica as tentativas de bloqueio a seus robôs sanguessugas e os processos multimilionários que outras empresas enormes movem contra elas. Do meu lado, na minha insignificância, escolhi ceder.

***

PS: Alguns dias atrás, li um artigo do Scott Jenson propondo um futuro diferente em que lidamos mais com SLMs (pequenos modelos de linguagem), rodando localmente e para tarefas específicas, em especial de modo transparente. Gosto dessa ideia.

PS2: Pela primeira vez, neste texto, usei uma IA de editora. Escolhi a DeepSeek, que nunca havia usado. Como esperado, ela encontrou vários errinhos ortográficos, mas o que me surpreendeu foi a identificação de uma falha na lógica do meu raciocínio no trecho sobre propriedade intelectual.

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2 comentários

  1. também uso IA para coisas básicas, e que para isso, cumprem bem o papel. Usos que faço:

    – Como sou contador e meu trabalho está sujeito as normas da ANEEL, subo os manuais e quando tenho dúvidas, em vez de procurar nas mais de mil páginas dos arquivos, pergunto a IA e ela me devolve o que quero e onde o trecho foi tirado, aí consigo revisar na íntegra;
    – Às vezes preciso somar números aleatórios até chegar em determinado valor, peço para a IA chegar no resultado;
    -Me ajuda com alguns entendimentos de CPC e IFRS.

    Mas não é pq faço uso que não sou crítico da tecnologia.

    OBS: Ghedin, pode mandar o código fonte do seu blog? Lembro que tinha antes, e eu queria muito me basear no seu, pois o acho lindão, rs