Uma análise detalhada da jornada de trabalho em home office

Foto de cima, mostrando teclados (do notebook e o mecânico), mouse, HD externo e mousepad.

Para o grupo que desde março de 2020 transformou a própria casa em escritório, uma pequena revolução está em curso.

Antes da pandemia, quando alguém falava que trabalhava em casa, era comum as pessoas reagirem com um suspiro e frases como “eu não conseguiria, ficaria no sofá o dia inteiro”. O que muitas delas perceberam, na prática, é que o maior problema não é ter espaços de lazer no ambiente de trabalho, mas o contrário — ter o escritório sempre disponível, a poucos passos de distância.

Outro contra é que no ambiente doméstico as distrações comuns no escritório, como o cafezinho com os colegas ou aquela enrolada para dar a hora de bater o ponto, inexistem. Há também a ânsia de mostrar serviço feito, que passou a ser a única “prova” de que se está trabalhando. Parece que acabamos nos dedicando mais ao trabalho, o que se reflete, nos números frios, em aumento de produtividade, algo percebido pelos gestores.

“O que a gente tem percebido é que a produtividade dos seus funcionários tem aumentado com o home office. Isso é nítido”, diz Márcia Giubertoni, consultora do Sebrae-PR. A observação dela, balizada no próprio Sebrae e nas empresas atendidas pela entidade, vai de encontro a opiniões subjetivas que se ouvem facilmente nas videochamadas e redes sociais há pouco mais de um ano. Ganhamos mais tempo ao nos livrarmos dos deslocamentos, mas parece que nunca trabalhamos tanto.

Eu sempre tive curiosidade em relação a isso, às horas trabalhadas.

Até novembro de 2018, eu atuava em redação, com horário de entrada e de saída que resultavam em oito horas diárias dedicadas ao trabalho. Desde então, à frente deste Manual do Usuário, faço meu próprio horário e, embora não tenha dados para uma comparação direta, tinha a impressão de que trabalhava mais quando tinha horário a cumprir.

Monitorei cada segundo

Print do aplicativo Tim, mostrando um gráfico de barras coloridas das sete semanas do experimento.
A média diária de horas trabalhadas difere do que consta no texto porque o Tim faz o cálculo em cima dos dias com atividades, excluindo os sem atividade. Imagem: Manual do Usuário.

Motivado por isso e por toda essa conversa sobre trabalho em home office1, fiz um experimento: durante sete semanas, monitorei com precisão todo o tempo que passava trabalhando. Embora eu já fosse um trabalhador de home office pré-pandemia, queria me usar como parâmetro para saber se nessa condição trabalha-se mais do que indo e voltando de um escritório todo dia — a parte do trabalho, não a de permanecer no escritório à toa ou fazendo coisas não relacionadas.

Com a ajuda do aplicativo Tim (acima), para macOS, registrei entre os dias 5 de abril e 23 de maio todas as atividades que desempenhei relacionadas ao site. Aquelas que fazia em outro dispositivo (basicamente, leituras e pesquisas no tablet), anotava o início e o fim e depois lançava no Tim.

Quando digo que registrei minha rotina profissional “com precisão”, é porque tentei ser o mais rigoroso possível: assim que notava que estava distraído, lendo a timeline do Twitter ou me indignando com o noticiário político, eu interrompia o contador de tempo. Um efeito colateral que não havia antecipado é o quanto essa postura é disciplinadora: passei a fazer muitas tarefas chatas ou não tão legais de modo consistente, apenas para manter os dados do experimento limpos.

O primeiro e mais importante dado que eu extraí dessa coleta foi o da jornada diária. Em média, trabalho 4 horas e 12 minutos por dia considerando a semana completa. Normalmente, a única coisa que faço aos fins de semana é editar e disparar uma newsletter no sábado de manhã, mas há ocasiões em que mexo num texto ou testo algum novo recurso para o site no sábado ou domingo.

A minha semana de trabalho tem, pois, 29 horas e 21 minutos. Espalhado pelos cinco dias úteis, isso dá uma média de 5 horas e 52 minutos por dia.

Gráfico em barras com o tempo trabalhado em cada semana e, ao final, numa cor diferente, a média semanal.
Gráfico: Manual do Usuário.

Meu dia mais atribulado é a quinta-feira (média de 6h49min), o que é compreensível — é às quintas que disparo a newsletter, publico matérias especiais (quando tem) e gravo o podcast Guia Prático. As sextas costumam ser mais leves, com 4h03min de trabalho. Apesar de oficialmente eu “estar fechado” aos fins de semana, em média trabalhei 1h36min em cada sábado e domingo do período analisado.

Isoladamente, as tarefas que mais consomem o meu tempo são o trabalho interno (26%), seguido de pesquisas e leituras (20%). Apesar disso, ainda gasto mais tempo escrevendo do que fazendo qualquer outra coisa — 30%, entre notinhas, newsletters e matérias. Poderia ser mais, mas fiquei contente de perceber que quase ⅓ do meu tempo trabalhado é no core business da coisa.

Minha jornada de trabalho é menor que a dos brasileiros trabalhando em home office que responderam a uma pesquisa da Oracle2 — trabalho 26,6% menos tempo do que eles. Isso era esperado. Minha expectativa, porém, estava na comparação com os funcionários de escritório nos escritórios.

Uma pesquisa da Workfront feita nos Estados Unidos em 2016 com 600 funcionários descobriu que eles eram produtivos em apenas 39% do tempo em que estavam trabalhando. Numa jornada de 8 horas, esse percentual representa pouco mais de 3 horas. As distrações, segundo os próprios funcionários, eram derivadas do próprio trabalho: coisas como reuniões, e-mails e tarefas administrativas, como trocar a senha do computador. A procrastinação raiz, ou seja, distrações não relacionadas ao trabalho, ocupava só 8% do tempo, ou pouco mais de 38 minutos.

Outro estudo, também de 2016, mas feito no Reino Unido pela Vouchercode com quase 2 mil trabalhadores, concluiu que em uma jornada de 8 horas, eles só eram produtivos por 2h53min, valor muito próximo ao do estudo norte-americano do parágrafo anterior.

Fiquei um pouco aliviado em saber que, mesmo tendo a impressão de que trabalho menos do que alguém em um escritório, na média e nas atuais circunstâncias a realidade é o contrário — e, sim, ciente de que são base comparativas frágeis. E considerando que estamos passando pela pior pandemia do último século, que alterou radicalmente o nosso estilo de vida e incluiu preocupações existenciais, como a de não contrair um vírus contagioso e potencialmente mortal, talvez a devêssemos pegar mais leve com nós mesmos.

Uma das maiores sacadas corporativas nos primórdios da Revolução Industrial foi a de que o ser humano pode render mais trabalhando menos. Em 1914, a Ford, uma das pioneiras do taylorismo, limitou a jornada de trabalho a 8 horas diárias (na época, variava de 10 a 16 horas) e dobrou os salários dos funcionários. Em dois anos, o lucro da montadora dobrou.

Vez ou outra sabemos de experimentos que reduzem a semana de trabalho a quatro dias, ou as horas diárias a cinco ou seis. Os resultados, quase sempre, são positivos. Estudos na Austrália e na Suécia suportam cientificamente as conclusões desses experimentos, de que jornadas semanais de 25 horas, por exemplo, são benéficas a trabalhadores e empresas.

Há um descompasso entre essas descobertas e o aumento do trabalho em home office. Se por um lado ganhamos em conveniência e conforto, por outro não deveríamos estar trabalhando mais.

“O ser humano precisa ter algumas rotinas”, diz Marcia Giubertoni, do Sebrae-PR. “Se a pessoa não se controlar direito, desregrar totalmente, terá algumas perdas e até problemas de saúde. Tem que ter esses cuidados.”

Há dores e delícias em se trabalhar de casa, que decorrem de vários critérios: se seu home office é adequado, se o deslocamento até a empresa é rápido ou demorado, se você tem predisposição para o trabalho isolado ou no meio de mais gente. De qualquer maneira, e apesar de tudo, o trabalho em casa é uma opção e deveria — e deverá, esperamos — ser mais considerado. Naquela pesquisa da Oracle em que a maioria dos brasileiros revelou estar sobrecarregada trabalhando de casa, 62% deles disseram que consideram o trabalho remoto mais atraente agora do que antes da pandemia.

Detalhamento da rotina de trabalho

Gráfico de coluna em camadas com a divisão de tarefas no dia a dia fazendo o Manual do Usuário.“Ter um site” não explica, em detalhes, o que eu faço no dia a dia. Imagino que muitos pensam que se resume a sentar na frente do computador e escrever; queria eu que fosse apenas isso. Para ter uma visão mais detalhada da minha rotina e me explicar melhor aos leitores aqui, nesta matéria, na hora de lançar os registros de atividades as dividi em sete áreas:

  • Comercial: Prospecções, reuniões e a produção de materiais para os posts patrocinados veiculados no site. Calhou do período de monitoramento ser um atipicamente movimentado nessa frente.
  • Guia Prático: O nosso podcast semanal. Aqui o trabalho consiste na preparação, gravação e edição. No meio do experimento, a edição foi terceirizada.
  • Interno: A categoria coringa, que engloba tudo o que não cabia nas demais. Entram aqui, entre outras coisas, o e-mail, o relacionamento com leitores, ajustes, melhorias e correções no site, desenvolvimento de novas ideias etc.
  • Pesquisa: Leituras de sites de tecnologia, materiais de apoio para reportagens e de coisas que indico nas newsletters da casa.
  • Matérias: A produção, efetivamente, dos textos mais longos do site, como reportagens especiais e artigos de opinião semanais.
  • Newsletters: Produção e envio das newsletters — com exceção do artigo de opinião, que entra no item Matérias.
  • Notinhas: A redação das notinhas diárias que são publicadas no site. Só a redação — a leitura prévia das fontes entra no item Pesquisa.
  • Tecnocracia: Edição do texto do Guilherme antes dele gravar e, depois, edição do texto no site e do áudio para o podcast.
  • Vídeos: Todo o processo, da roteirização à publicação, passando pela captura e edição dos vídeos do nosso canal.

Este artigo foi editado por Alexandre Orrico e publicado em parceria com o Núcleo Jornalismo.

  1. Mesmo nos países onde a vacinação avança, o retorno aos escritórios não é dado como certo. Em algumas empresas, o home office permanente foi instituído já no ano passado. Para outras, como Google e Petrobrás, o legado da pandemia será um modelo híbrido, com a semana do funcionário dividida entre o escritório da empresa e sua própria casa. Segundo uma pesquisa da Cushman&Wakefield com 122 empresas de diversos setores localizadas em São Paulo e no Rio de Janeiro, 40,2% delas que não tinham trabalho remoto anteriormente passarão a adotá-lo no pós-pandemia.
  2. Uma feita pela Oracle em outubro de 2020, com 12 mil trabalhadores de 11 países, deu números concretos a tantas impressões. Quase metade dos brasileiros consultados (42%) afirmaram estarem trabalhando mais de 40 horas por semana e 60% do total afirma fazer 5 horas extras ou mais no mesmo período. Os dois percentuais estão acima das médias globais, de 35% e 52%, respectivamente.Um em cada dez brasileiros, ainda segundo a pesquisa da Oracle, afirmaram que 2020 foi o ano mais estressante de suas vidas. Não parece ser uma boa propaganda para o home office — ao menos não do ponto de vista dos trabalhadores.

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2 comentários

  1. Mudei de empresa durante a pandemia, uma coisa que persebi também foi como a quantidade de vagas pelo menos para TI 100% home office aumentou, antes quase não tinha vaga desse tipo, hoje em dia vejo a grande maioria como 100% home office.
    Sobre a produtividade, também acredito que sou mais produtivo em casa, no emprego antigo, sempre tinha muita reunião e era a referencia do time, toda hora tinha que levantar da mesa pra ajudar alguém quando fomos pra casa ficou mais fácil era só compartilhar a tela resolvia e pronto, quando já não deixava agendado o período para ajudar. Na empresa nova posso ficar mais focado nas minhas atividades geralmente sobra tempo.

  2. Sempre me senti mais produtivo no home office. Na empresa que trabalho atualmente, já tinha política de trabalho remoto, eram alguns dias (três para ser exato) e sempre sentir que entregava mais, muito pelo o deslocamento e também por gostar de trabalhar “mais isolado”.

    Acredito que é preciso ter bastante disciplina para gerenciar o tempo. É difícil, mas com o tempo é possível gerenciar.

    E ainda tem detalhe importante: vai depender da empresa. Nem todas ainda entendem que trabalhar em casa ñ é fazer extra. Espero que os gestores mudem esse pensamento sobre o trabalho em casa.

    Parabéns pelo o artigo e experimento.

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