Para a Microsoft, o futuro está na realidade aumentada do HoloLens

HoloLens, os óculos de realidade aumentada da Microsoft.

No evento marcado para revelar a face comercial do Windows 10, o que eu, você e tantos outros estaremos usando no final de 2015, a Microsoft se mostrou ambiciosa.

Em mais de duas horas de apresentação, fez oito anúncios: o novo Windows para computadores, (o mesmo) novo Windows para smartphones, novo navegador, apps universais, Cortana em todo canto, Xbox no PC e vice-versa, uma tela gigante e uns óculos futuristas que, a empresa acredita, têm potencial para ser a próxima revolução da computação pessoal.

https://www.youtube.com/watch?v=hQXE4_CB3ts

Pintem-me de cético ou coisa parecida, mas na porção software o que vimos foi uma acelerada abrupta para tapar buracos em relação à concorrência e, ao mesmo tempo, corrigir tropeços do Windows 8. Coisa que, aliás, a Microsoft começou a fazer já na versão menor seguinte, a 8.1.

A proposta de um sistema para vários formatos de dispositivos não foi abandonada; o Windows 10 é, basicamente, o mesmo sempre, seja para smartphone, seja para o Surface Hub, um telão de 84 polegadas destinado a salas de conferência de grandes empresas também anunciado ontem. O que muda é a abordagem, agora mais “líquida”: a adaptação a diferentes tamanhos de tela e acessórios conectados é mais drástica, não permanece tão amarrada a uma experiência que até então parecia ser (sabe-se lá por qual motivo) homogênea.

A cereja do bolo são os apps universais, que parecem mais robustos e menos “Metro” — logo, mais úteis. Os apps modernos têm sido um desastre até agora. Eles são limitado e não trazem benefícios que justifiquem abdicar dos antigos, aqueles mesmos que usamos desde sempre e que rodam na área de trabalho. Essa nova safra, mais madura junto ao próprio sistema, pode marcar uma virada.

O mais importante é que o Windows 10 será gratuito para quem tem Windows Phone 8, Windows 8/8.1 e Windows 7. É um belo incentivo, principalmente aos mais reticentes que ainda usam esse último sistema, lançado em 2009.

O meu futuro não está no HoloLens

Gibis 3D em 1953.
Via 1950s Unlimited.

A última revelação da Microsoft, trazida por Alex Kipman, o brasileiro que concebeu o Kinect alguns anos atrás, foi um capacete de realidade aumentada, o HoloLens. Ele roda Windows 10, o que significa que desenvolver apps não é tão complicado, e é um dispositivo independente, ou seja, dispensa cabos e não precisa estar conectado a um smartphone ou computador para funcionar.

As demonstrações da Microsoft são de tirar o fôlego, mesmo as que demonstram o produto em uso real (essas são um pouco menos incríveis que os vídeos bonitinhos e editados de divulgação, como o que está logo abaixo), e quem testou ficou maravilhado. Mas será que no futuro trocaremos nossas atuais telas por duas lentes super avançadas no rosto que ouve o que dizemos e interpreta nossos gestos?

Li críticas de gente falando que é um negócio grande, feio e desengonçado. A mim, esse não parece ser um ponto relevante. Primeiro porque é uma tecnologia nova, então há espaço para, em versões futuras, a concepção de um design menor e mais elegante. E segundo que, pelos casos de uso demonstrados, o HoloLens não parece ser algo que você usa na rua, ou enquanto pega um ônibus. É um equipamento para ambientes internos, para modelar objetos no trabalho e, depois do expediente, jogar um Minecraft na sala de estar.

Essa dualidade, entre produtividade e diversão, está bem acentuada no discurso e no material de divulgação do HoloLens. E não é por acaso, já que são cenários propícios para algo do tipo. Manipular coisas tridimensionais na tela bidimensional de um computador não é algo tão simples; exige um nível de abstração que está muito além do que uma pessoa comum é capaz. E os jogos… bem, faz todo o sentido do mundo.

https://www.youtube.com/watch?v=aThCr0PsyuA

Imagino (e só me resta isso daqui, longe e sem ter acesso ao protótipo) que o HoloLens seja um negócio muito legal. A tecnologia embutida ali e suas características são, sem dúvida, impressionantes. Mas daqui, e tomando a história da interface como parâmetro, é difícil ver algo do tipo se tornando mainstream. Há muita fricção e, além disso, as atividades-chave apresentadas parecem exigir muita energia do usuário. As que não, como se jogar no sofá para ver um filme na Netflix, bem… aquela tela gigante na nossa sala, também conhecida como TV, já serve muito bem a esse propósito e dispensa o uso de um capacete.

O que quero dizer com tudo isso é que o HoloLens não deve ser uma revolução da computação pessoal, mas (mais um) produto de nicho. O Kinect, que tinha uma proposta similar, porém limitada em escopo (jogos), mas justamente por isso mais clara e pragmática, vendeu horrores quando foi lançado só que não foi para frente. Hoje? Está meio que na geladeira após ser promovido a companheiro indispensável do Xbox One — e ter atrapalhado as vendas do console.

Pense no HoloLens como o acessório perfeito para aquele amigo que gosta de “fuçar” nas coisas, o equivalente moderno do antigo micreiro. O cara que, se já não tem, está louco para comprar uma impressora 3D, ou então que gastou o valor de um carro usado para montar seu PC gamer. Quantos assim você conhece? Mesmo na indústria e com a NASA querendo usar o HoloLens para controlar robôs em Marte, tudo ainda é uma incógnita. Esse app de modelar brinquedos em 3D e mandá-los à impressora terá o mesmo poder que um AutoCAD da vida? Se a resposta for “não”, nenhum estúdio o adotará. Essa premissa vale para todos os outros segmentos.

Joe Belfiore, Alex Kipman e Terry Myerson.
Foto: Elaine Thompson/AP.

As empresas de tecnologia estão alucinadas em busca do próximo iPhone — leia-se um produto de massa que venda horrores e que tenha uma boa margem de lucro. É por isso que vemos tantos relógios inteligentes sendo lançados mesmo sem a recíproca da demanda, e capacetes de realidade virtual ou aumentada ganhando tanta atenção (embora, nesse caso, puxados pelo Oculus Rift, aparentemente o primeiro do tipo a resistir à promessa de entregar um mundo virtual imersivo crível). A Microsoft, que saiu dos trilhos no final da década passada e perdeu a (lucrativa) estação da computação móvel, tem bons motivos para tentar adivinhar o que será extremamente popular amanhã. Isso, claro, sem esquecer do hoje — e daí deriva a atenção quase maternal que ela dispensa ao feedback dos “insiders”, os beta testers do Windows 10, e todo o peso que está sendo dado a esse lançamento próximo.

Eu fiquei com muita vontade de experimentar o HoloLens (quando? por quanto? “No prazo do Windows 10”, preço não revelado), mas não de tê-lo que usar todo dia para cumprir meu trabalho. Nesse sentido um notebook mais fino, com uma tela de maior resolução e um teclado confortável, ou ainda um Windows melhor, me são muito mais chamativos. Henry Ford diria que quero cavalos mais rápidos, mas e daí? É careta? Antiquado? Talvez. O problema nem é tanto esse, é que o HoloLens não traz indício algum de que será o Model T que me livrará dos meus amigos equinos.

Não é fácil mudar o paradigma da computação e prova maior disso é ainda hoje usamos variações de metáforas e interfaces que Engelbart, Kay, Sutherland e outros pioneiros pensaram há décadas, nos anos 1960/1970. Não me parece que um par de óculos de realidade aumentada, por mais legal e futurista que seja, vá suplantar ideias tão antigas e consolidadas no nosso dia a dia.

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16 comentários

  1. Quando penso no Holo Lens me vem a mente:
    -> Bateria
    -> Taxa de radiação SAR incidindo diretamente no meu cérebro.
    -> Matérias primas raras do planeta que estão com dias contados.

  2. Ainda acho que o HoloLens vai acabar como o Surface Hub (paineis tateis que a globo usa), com nicho bem empresarial, tal como a NASA deseja. Principalmente nesses primeiros anos, mas desejo muito que dê certo =)

  3. Um produto fantástico. Seu grande erro é se apresentar como a grande revolução da computação, chegue humildemente, mostre sua utilidade e ganhará seu espaço no mercado.

  4. Antes era controles motion (Wii), depois TVs 3D, hoje é Oculus Rift, ta todo mundo correndo atrás disso…

    Ghedin, você foi o melhor artigo sobre o produto que li. Todo outro site (Meiobit) que li babaram o aparelho como se fosse a outra evolução do mundo, comentei que não via muito futuro no produto (como a revolução apresentada) disseram que estou perdido na vida, não serei ninguém :)

    Parabéns Ghedin, parabéns

      1. Eu não lembro disso exatamente, mas quando escrevi “vice-versa”, foi no sentido de levar partes-chave do Xbox One ao computador através do novo app, dos vídeos e streaming. (Corrijam-me se eu estiver errado, mas essas atividades poderão ser feitas num PC também, certo?)

    1. Foi em outra parte, outro produto, mas foi dito sim.

      Mas da integração do Windows 10 com o Xbox One.

    2. Na verdade o streaming é do Xbox One no PC. Na apresentação a funcionalidade era só essa. Depois vi uma notícia que eles estão estudando fazer o contrário também!

  5. Concordo com vc Ghedin quando diz que é difícil se tornar mainstream. Mas eu achei a proposta da Microsoft a mais acertada para que essa tecnologia daqui a alguns (muitos) anos se torne realmente popular. A realidade virtual tem que chegar aonde realmente ela se faz necessária, nos escritórios de design, arquitetura, hospitais etc. E não no meio da rua pra pipocar notificação, coisa que nossos celulares ja fazem que foi a proposta apresentada pelo Google. Torço muito pra que o Hololens dê certo, mas para onde realmente precisa disso, para o trabalho, afinal foi assim que o computador, o rádio e tantas outras tecnologias começaram, antes de chegar nas nossas casas passaram por uso militar e ou uso empresarial.

  6. Jogos, eu quero isso pra jogos! hehe. Se ele aprender a conversar com o Xbox pra criar uma área em volta da TV, já vai ser lindo

  7. Cara, eu discordo um pouco. Não vejo o HoloLens como algo que vai mudar a forma como a gente relaciona com o PC/smartphone em tudo. É um complemento.

    Adoraria chegar em casa e poder jogar aquele game que tem no filme Her, por exemplo, através de um acessório como esse. Pelos hands-on que vi, o Skype nele é fantástico. Sem contar a aplicação profissional.

    E pra mim ele se diferencia, e muito, do Google Glass justamente por não querer ser onipresente em sua vida. Não é um produto feito pra ir ao restaurante com ele. É pra momentos de foco em atividades específicas. E esse é o principal ponto que o torna mais promissor.

    Mas não tenho esperança de testar um antes de 2018… rs

    1. Pra mim ele resolve as três grandes falhas do Google Glass: (1) aplicativos simples, sem grande utilizade [desnecessários e acho que até incômodos se você tem um smartphone no bolso], (2) necessidade de um dispositivo auxiliar, como um smartphone ou tablet e (3) desejo de ser onipresente, de estar na cara de todos a todo o tempo.

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