Foto do Guilherme Felitti.

Como o programador Guilherme Felitti trabalha


19/7/19 às 8h45

Nota do editor: Nesta seção, a cada 15 dias entrevisto profissionais de diferentes áreas a respeito de produtividade e da relação deles com a tecnologia. Veja os anteriores.
  • Nome: Guilherme Felitti.
  • Cidade onde mora: São Paulo (SP)
  • Emprego atual: Sócio do estúdio de data analytics Novelo.
  • Computador: MacBook Pro e e Acer Aspire GX-783-BR13.
  • Celular: iPhone 5S.
  • Gadget favorito: Trek Dual Sport 1, minha bicicleta e método principal de locomoção. E lapiseiras 0.7 — tenho uma em cada cômodo da minha casa..

Como você chegou onde está?

Ainda na faculdade de jornalismo caí no jornalismo de tecnologia por conhecer bastante sobre o assunto — no colégio, eu e um grande amigos ganhávamos dinheiro fazendo sites para uns clientes em Jundiaí. Nunca pensei em escrever sobre tecnologia, mas eu tinha facilidade, gostavam do que eu escrevia e fui ficando. Acabei trabalhando 13 anos como jornalista de tecnologia e negócios, mais focado em internet. Passei pelo IDG e pela Editora Globo, tive coluna na CBN, publiquei para alguns veículos como freela. Lá por 2015, comecei a achar a vida de jornalista repetitiva demais e me propus aprender uma linguagem de programação. Quanto mais eu estudava Python, mais eu queria aprender. Claramente, a programação tinha ocupado o tesão profissional que eu senti anos antes pelo jornalismo. No fim de 2016, fui demitido da Globo para meu grande alívio e, naquele processo de pensar no que fazer dali em diante, formulei a ideia da Novelo.

A Novelo nasceu calcada na premissa que há uma inegável defasagem técnica nas empresas para lidar com dados, mas que a programação não é o único problema. Existe uma incapacidade de analisar e comunicar direito as descobertas. Na Novelo, a gente acredita que toda análise bem feita é artesanal — você não consegue identificar os insights mais valiosos de forma automatizada. Em menos de um ano de operação, a Novelo já tem clientes como Contente, RMA, Netshoes, Airbnb e Greenpeace.

Passado o discurso oficial, minha geração de jornalistas chegou às redações com a sombra que a internet projetava no modelo de negócio das editoras. É inédito para mim trabalhar num mercado que está crescendo. Jornalistas, é ótimo. Vocês deveriam tentar um dia.

Como é um dia típico de trabalho seu?

Foto da área de trabalho/computador que Guilherme usa.
Guilherme diz: “Esse teclado é uma merda. Preciso trocar.” Foto: Arquivo pessoal.

Não tenho muito horas separadas para tarefas específicas. Se a Novelo precisa entregar um projeto, vou me dedicar ao(s) projeto(s) na maior parte das minhas horas acordadas. Isso envolve coordenar colaboradores, programar, escrever relatórios, fazer PowerPoints e conversar com advogado e contador. (E eu achando que ia começar a Novelo só para programar…) Com essa rotina de trabalho independente, descobri uma nova hora muito produtiva perto das 19h. Trabalho majoritariamente no meu escritório, mas de vez em quando fujo para cafés quando marco reunião com alguém ou só quero trabalhar num lugar novo. A ferramenta que mais uso — de longe — é o Google Drive. Programo no Jupyter Notebook ou VS Code.

Minha organização é pelo calendário do iPhone — jamais vou entender a fixação de geral com os invites de Google Calendar; pô, entra lá e marca sozinho — e por um grande bloco de papel que fica ao lado do meu computador. Todo domingo à noite eu arranco a página anterior e escrevo o que não fiz e o que preciso fazer de novo na semana. Conforme faço, vou riscando. É bem analógico. Já tentei Tasks, Evernote e o escambau, mas não me adaptei.

Sobre o Tecnocracia, tenho um arquivo no Google Drive com ideias de temas que vão se desenvolvendo com o passar das semanas. Penso num tema, escrevo lá. Acho uma notícia que poderia ser usada, colo lá. De vez em quando sento e faço uma arrumação: junto temas, deixo uns para depois, deleto outros. Na semana anterior ao episódio, decido qual vai ser e guardo um dia inteiro da semana (normalmente segunda-feira) para fazer o roteiro. Dou pausas na escrita para não ficar bitolado e vou passear com o cachorro ou nadar — isso sempre rende abordagens novas ou frases de efeito. Essas pausas são um padrão no meu método de trabalho, seja para escrever uma reportagem, escrever um script ou analisar um banco de dados enorme. Volto, releio, corto, edito, corrijo, até que julgo estar razoavelmente redondo. Sento numa poltrona e gravo de uma vez só o áudio.

Alguma fixação recente?

Tem dois canais nada tecnológicos do YouTube dos quais gosto muito:

  • O do Matthew Posa, um sujeito que vai acampar no meio do mato com seu cachorro por uma semana e publica vídeos de duas horas montando barraca, fazendo fogueira, cozinhando… É hipnotizante.
  • E o do Nando Reis, em que ele conta um monte de história da carreira dele, sobre como escreveu tal música e como tomou uns porres com o tipo de honestidade e atenção aos detalhes não muito comum a músicos e artistas.

E minha fixação física em São Paulo é o Centro Cultural São Paulo. Tem uma biblioteca enorme, os atendentes são super gentis, tem Wi-Fi rápido e lugar para parar bike. Tenho a impressão que muita gente na cidade não conhece ou tem preguiça.


As principais notícias de tecnologia e indicações de leituras no seu e-mail. Assine a newsletter (é grátis!):


Você dá muita atenção à produtividade? Se sim, de que maneiras práticas isso se traduz em sua rotina?

Não. Acho que minha geração tem uma fixação perigosa com produtividade. Precisa sempre estar fazendo algo, produzindo algo. Algum Tecnocracia do futuro vai falar sobre isso, com foco no livro Sociedade do cansaço, do Byung-Chul Han. Enquanto não chega, o artigo da Eliane Brum sobre o livro toca em pontos bem interessantes. Já fui mais neurótico com vigiar as tarefas. Hoje anoto o que tenho que fazer no meu bloco e vou riscando. Se não deu para fazer e não é urgente, fica para amanhã.

Foto do cachorro de Guilherme durante um passeio pelas ruas de São Paulo.
“Passear com cachorro é das melhores horas para organizar o que você precisa escrever ou codificar”. Foto: Arquivo pessoal.

Qual o seu lifehack (atalho/dica/facilitador) favorito?

Usar a bicicleta como método de transporte em São Paulo é um enorme lifehack. Há alguns anos escrevi uma reportagem sobre executivos que pedalavam até o trabalho, antes da construção das ciclovias. Um dos sujeitos me contou que tinha começado a ir de bicicleta por se sentir mal fisicamente no trânsito. Achei uma bobagem na época, mas hoje entendo totalmente. O trânsito é de uma violência brutal tanto na relação com os outros motoristas como nas longas horas passadas em congestionamentos, mas a gente assumiu como uma experiência corriqueira, normal. A bicicleta tem suas desvantagens — pedalar na chuva é ruim e, ainda que sejam minoria, ainda existem motoristas escrotos que avançam contra a bike. Mas eu só comecei a me programar de verdade e não depender dos humores do trânsito com ela. Sem contar que a endorfina no fim é ótima.

Outro lifehack é assinar palavras cruzadas. É barato, é muito melhor para as horas de tédio que ficar horas navegando a esmo no Instagram e você ainda aumenta seu vocabulário ao descobrir palavras como parturiente, trinchante e estrepe.

Você consegue se desconectar de vez em quando?

Consigo. Bloqueei a timeline do Facebook, tirei os apps de Facebook e Twitter do celular, deletei as contas do Instagram e do Last.fm. As únicas redes sociais que uso são o Twitter (só no computador), o Reddit e o Goodreads. O FOMO ainda se manifesta de vez em quando, mas passei da zona de arrebentação, aquela pior fase de abstinência. É foda, mas dá para passar.

Quais aplicativos não saem da tela inicial do seu celular?

Spotify, WhatsApp (esse é foda de largar), Goodreads, Reddit, Safari.

Você tem algum projeto paralelo? Se sim, fale um pouco sobre ele.

Além dos clientes da Novelo e do Tecnocracia, eu, outro jornalista e um estúdio estamos preparando uma série documental sobre o desenvolvimento da internet no Brasil. Deve sair ano que vem.

O que você está lendo no momento?

Estou terminando O Imperador, um livro no qual o jornalista polonês Ryszard Kapuściński (eu colei esse nome, meu teclado não tem tanto acento assim) conta como o império do Haile Selassie, da Etiópia, implodiu depois de décadas de um governo com uma elite corrupta e riquíssima e um povo morrendo de fome. É um dos principais livros do que se convencionou chamar de “jornalismo literário”: o repórter apura, entrevista e conta a história como um romance. É interessante. Se você se interessa pelas entranhas do poder, é uma boa opção.

Pratica atividade física (qual?) e/ou tem algum cuidado especial com a saúde?

Além de pedalar, nado e faço yoga.

Que conselhos você daria a alguém interessado em seguir carreira na tua área?

Depende da carreira.

Se quiser ser jornalista, parar de replicar notícias idiotas de site gringo e começar a fomentar fonte. Manda mensagem para o(a) executivo(a) ou criador(a) de um serviço e chama para tomar café. Jornalismo real taí. Assessoria ajuda, mas não determina.

Se quiser ser cientista de dados, aprender a estudar. Tem tanto curso — e, principalmente, tanto curso bosta — que é fácil perder o foco. Encontrei uma rotina de estudos criada por um cientista de dados do Airbnb que é genial. Copie sem dó. Eu copiei.

Guilherme Felitti é programador. Encontre-o no Twitter e na Novelo.

Foto do topo: Arquivo pessoal.

Colabore
Assine o Manual

Privacidade online é possível e este blog prova: aqui, você não é monitorado. A cobertura de tecnologia mais crítica do Brasil precisa do seu apoio.

Assine
a partir de R$ 9/mês

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

30 comentários

  1. Ótima entrevista, gosto muito do trabalho do Guilherme e recomendo para todos que me pedem dicas de podcast. Acho um exemplo de conteúdo, junto com o do Cris Dias, o Boa Noite Internet.
    Já li a maioria dos livros do Kapuściński que infelizmente não são muitos e os que mais gostei são Ébano e Imperium, sensacionais.
    Também sou adepto da bicicleta mas pedalo antes do dia de trabalho por que em cidade praiana se for de bike, chego molhado, então não dá. E tem as visitas a clientes, rotina minha…
    Sou um ativista contra redes sociais e tenho lido cada vez mais como a influência delas no cotidiano tem impactado a humanidade, desde humor até relações. Acho que em breve veremos como essa fase da internet foi ruim.

    1. “Sou um ativista contra redes sociais “

      Cara, não por mal, mas não resisto: área de comentários também pode ser considerada uma forma de rede social.

      1. he he he, é verdade Ligeirinho… vou refrasear então: sou um ativista contra redes sociais que usam seus dados de forma irresponsável e ativa e passivamente manipulam informações e principalmente tem ações que visam unicamente o lucro fomentado discórdia que começam com F, Y ou I. Talvez T. 😁

  2. Ótima entrevista, parabéns pelo ótimo trabalho.Que surpresa vê a imagem do Guilherme,adoro seus tecnocracias acho hiper dinâmico sua composição.gosto bastante da digressão realizada por ele,as suas notas bibliográficas.achei bem curioso ainda utilizar o iPhone 5s.Temos uma coisa em comum que é o uso da bike.adorei essa entrevista ghedin,desde que eu comecei a acompanhar o manual do usuário que faz um tempo relevante, porém essa é a primeira vez que faço um comentário.um abraço

  3. Não costumo comentar aqui, apenas ler, basicamente porque tenho preguiça de “logar” toda vez e voltar pra acompanhar as respostas (eu entendo as restrições com o Disqus, mas é o que eu uso com prazer, não me julguem).

    Mas precisava escrever aqui pra agradecer o Guilherme por cada dica quinzenal que recebo, em especial a de largar as redes sociais.

    Tô nessa jornada, com um FOMO bem pequeno, mas mentalmente eu precisava, tive um colapso nervoso por conta de problemas familiares e do trabalho no começo do ano e calhou de ter descoberto o Tecnocracia ali. Já ouvi e reouvi algumas vezes cada episódio, sempre tirando uma dica nova.

    Moro na ZL, mas trabalho do lado (literalmente só tem uma empresa ali, fica a dica) do Centro Cultural, passo ali por dentro todo dia desejando poder aproveitar mais…

    Torcer pra um dia tropeçar ali dentro e pegar um autógrafo num guardanapo hahaha brincadeira. Mas que talvez fosse legal trocar uma ideia, aí sim.

    Abraço e bom fim de semana a todos.

    1. Meu parâmetro para considerar se o Tecnocracia está dando certo é a galera que me escreve falando que tem diminuído o uso das redes sociais após ouvi-lo. Espero que te ajude a passar por essas fases difíceis que a vida trás para gente sem avisar, Thalles.

      Estou sempre pelo CCSP. Chamaí que marcamos um café lá.
      Abs,

  4. Quando eu fui editor de uma revista científica eu tinha exatamente esse mesmo método de organização de tarefas: uma folha A4 em branco pra semana onde eu ia riscando as coisas que eu fiz.

    Foi de longe o melhor método que eu já tive (hoje eu não preciso mais de tanta organização) e algo que me fez questionar porque as pessoas tem tanta fixação por aplicativos para fazer coisas simples como essa.

    Eu nunca fui fá de calendários no telefone/computador. Até hoje meu modo de não esquecer compromissos é colocá-los anotados no quadro branco que fica na frente do meu computador.

    1. Também tenho usado o método “caderninho de papel ao lado do computador”, mas para compromissos recorro à agenda do celular. Tem algumas vantagens interessantes, como lembretes, visualização mais fácil e convites.

      O de listas de tarefas uso para coisas mais mundanas, como tarefas burocráticas/rápidas que terei que fazer daqui a alguns dias (cadastro com lembrete/alarme) e listas de compras (mercado e livros, basicamente).

      1. Listinha de mercado eu também uso papel. Normalmente um papel que eu usei pra outra coisa. Acho mais prático do que levar o telefone pro mercado. E normalmente antes de passar no caixa eu faço uma conta mental de quanto deu (pra evitar de levar calculadora e telefone pro mercado, também).

        Pra não dizer que não uso calendário de telefone/email, eu uso pra lembretes de cancelar assinaturas, principalmente aqueles com 30 dias grátis.

          1. A galera fica assustada quando alguém deixa o celular em casa, né? Já notei isso.

    2. Eu vejo videos no yt de pessoas que são obcecadas por organização e usam tantos apps de organização que precisam se organizar pra isso.

      Outros eu penso que nem tem o que organizar. É só pra parecer moderninho mesmo.

      1. Exatamente. Muitos destes métodos e apps acabam colocandom uma camada a mais. É como estar na pindaíba e comprar livro ou curso que “ensina” a enriquecer: no fim, você ficou pior do que quando começou.

        Tem outra coisa também: essa explosão de apps e métodos de organização dão a falsa impressão que a pessoa está muito atarefada, o que soa positivo e importante na minha geração. É uma caipirice enorme

      2. Olha, até hoje (com 28 anos), nunca senti necessidade de nenhum processo sofisticado para lidar com tarefas e compromissos.

        Agenda eu uso para reuniões e eventos no trabalho, pessoalmente só uso lembretes muito eventualmente para consultas e afins, mas tipo 2-3 vezes no ano.

        Aplicativo de tarefas, eu uso o Evernote/OneNote como repositório de informações para projetos da empresa e algumas coisas pessoais (IR, reforma, documentos, etc…), mas nunca como algo que atualizo/acesso todo dia e tals.

        Talvez seja a dinâmica do meu trabalho, mas quando eu chego de manhã é sempre claro o que vou fazer no dia e as prioridades. Durante graduação/mestrado também, sempre estava mapeada a próxima tarefa na cabeça.

        Quando eu morar sozinho…acredito que terei listas de compras e tals, mas não imagino toda essa parafernália de livros, metodologias e apps. Olhando assim, parece que todo mundo é executivo com viagens e compromissos para todos os dias.

        1. Exatamente. Parece que todo mundo é hiper ocupado com viagens e afazeres.

          Minhas rotinas como freelance ficam num quadro branco e envolvem apenas as datas de entrega de alguns documentos que estou traduzindo. As vezes (quando tem muitos documentos soltos) eu coloco as datas de entrega de cada segmento como controle pessoal (raramente pedem uma entrega fracionada de documentos). E deu.

  5. Que maravilha ver o iPhone 5S figurando. :3

    Será que o Guilherme pensa em substituir por um modelo mais recente agora que o iOS 13 não será compatível com o 5S?

      1. que pensamento interessante.

        eu to pensando em trocar o meu pq mandei pro conserto (o conector ficou ruim e parou de carregar) e desde então a bateria ficou ruim, antes eu carregava uma vez por dia, hoje em dia carrego duas, mas como trabalho em escritório não sinto falta porque tenho tomada a minha disposição e nos finais de semana quase não uso então dura um dia.

        estou revendo meu uso, obrigado, rs.

        1. Se quiser se livrar da barra superior, a extensão Dash to Panel faz o trabalho magistralmente. :)

          1. Matheus, uso o Dash To Panel em conjunto com o Arc Menu no Ubuntu e Debian. Da outra vida ao GNOME.