Montagem com fotos do iPhone 6 Plus, Mi5 e Galaxy S7 edge.

A guerra das plataformas: placar final


11/8/16 às 9h28

A guerra das plataformas de smartphone basicamente terminou e a Apple e o Google venceram. Mas é interessante, de passagem, observar o resultado e refletir sobre o que ele significa.

Globalmente, algo em torno de 5 bilhões de pessoas (com margem de erro de 250 milhões para mais ou para menos) têm um aparelho móvel, de um total médio de 5,5 bilhões de pessoas com mais de 16 anos. (Esse número não é exato porque muita gente tem mais de um SIM card/chip de operadora.) Esse número subirá para próximo de 6 bilhões nos próximos anos na medida em que a população e a penetração nesse mercado crescem.

A apple disse em janeiro de 2016 que tem “1 bilhão” de dispositivos ativos (um número redondinho), o que inclui Mac, iPhone, iPad, iPod, Apple TV e o Apple Watch. Desses, são aproximadamente 90 milhões de Macs (Tim Cook falou em 80 milhões no começo de 2014), um pouco mais de 10 milhões de smartwatches, algo perto de 20 milhões de Apple TV e talvez o mesmo tanto de iPod ainda em uso. Isso deixa aproximadamente 900 milhões de iPhone e iPad. A Apple vendeu 318 milhões de iPad — se considerarmos um ciclo de vida de três anos para o iPhone e de quatro anos para o iPad, isso nos leva a uma base instalada em dezembro de 2015 de 630 milhões de iPhone e 250 milhões de iPad, ou 880 milhões no total — perto o suficiente. Dado que as vendas de iPad e iPhone estabilizaram desde então, esse número provavelmente não mudou muito.

A operadora China Mobile afirmou que no primeiro trimestre de 2016, 15% da sua base ativa de 830 milhões estava usando iPhone — ou seja, 125 milhões daqueles 630 milhões de iPhone. A China Mobile tem 60% das assinaturas de linhas móveis chinesas (como observado acima, esse não é o mesmo número de usuários per se), mas por ser a operadora premium, ela tem 73% do 4G do país, o que é provavelmente mais relevante. Isso implica em cerca de 175 milhões de iPhone na China em todas as três operadoras. É mais iPhone do que nos EUA. (Observe que nem todos esses foram vendidos na China — isso também inclui aparelhos importados de segunda mão.)

No geral, as operadoras móveis chinesas reportaram 591 milhões de assinantes de 4G no segundo trimestre de 2016 e 808 milhões de usuários de 3G e 4G combinados no final de 2015, quando o governo chinês divulgou haver 620 milhões de usuários da Internet móvel no país (crescendo um pouco acima de 2% por trimestre). É preciso ser muito cauteloso ao combinar dados de fontes diferentes obtidos com metodologias diferentes, mas isso implica que se havia 175 milhões de iPhone no primeiro trimestre, ficamos com talvez 450 milhões de dispositivos Android (ou, pelo menos, dispositivos Android que se conectam à Internet). Obviamente, esse é o Android chinês — não é um fork, mas sem nenhum serviço do Google e excluído das estatísticas do Google. Enquanto isso, o governo também divulgou que 220 milhões de pessoas usam tablets para se conectar à Internet (veja a note da rodapé). Não está claro quantos deles são compartilhados, então devemos arredondar esse número um pouco para baixo.

Temos ainda o Android do Google (em oposição ao Android chinês). O Google tem sido sempre construtivamente opaco sobre as estatísticas do Android, usando métricas mutantes que nem sempre se harmonizam entre si. A última vez que ele nos deu um número sólido da base ativa foi setembro de 2015, quando afirmou que havia 1,4 bilhão de usuários do Android do Google. De acordo com o painel de desenvolvedores Android à época, aproximadamente 10% da base ativa tinha uma tela grande ou extra grande — pressupõe-se que sejam tablets –, então, 1,25 bilhões de smartphones e 150 milhões de tablets, arredondando. Quanto esse número aumentou desde então? Bem, na maioria das estimativas as vendas de smartphones têm sido bem estáveis nos últimos trimestres, com quaisquer vendas marginais surgindo no segmento de entrada (o preço de um smartphone Android já está abaixo dos US$ 50). Então essa base deve ter aumentado em (digamos?) 100 milhões, mas provavelmente não mais do que isso. Colocando tudo em um gráfico (apenas com os números arredondados do Google apresentados em eventos), um número em março de 2016 de 1,5 bilhão de Android do Google, disso sendo 1,35 bilhão de smartphones, parece plausível.

Gráfico com a base de usuários do Android do Google até dezembro de 2015.

Resumindo, para março de 2016:

  • 630 milhões de iPhone e 250 milhões de iPad, num total de 880 milhões;
  • Entre 1,3 e 1,4 bilhão de smartphones com Android do Google, mais 150 a 200 mihões de tablets com Android do Google;
  • Talvez 450 milhões de smartphones Android adicionais e 200 milhões de tablets Android na China, não conectados aos serviços do Google;
  • Para um total de 2,4 a 2,5 bilhões de dispositivos iOS e Android, e (digamos) 600-750 milhões de tablets Android.

Alguns desses números estão bastante distantes do que as pessoas que não estão analisando minuciosamente os dados imaginam. Publique esta enquete nada científica no Twitter semana passada e encontrei os resultados a seguir, extremamente errados. A resposta correta é pouco mais de 2,5 vezes, mas 2/3 das pessoas votaram por mais de 4x, o que exigiria 2,5 a 3 bilhões de smartphones com o Android do Google.

Print de um tweet enquete de Benedict Evans sobre a quantidade de smartphones Android em relação a iPhone há em uso no mundo.

Esses números ilustram a mudança fundamental na escala que a transição para o mobile representa para a indústria de tecnologia. As vendas anuais de smartphones vão crescer para perto de 2 bilhões de unidades e as vendas de PCs vão diminuir para próximo de 200 milhões, enquanto a base instalada de smartphones vai subir de 2,5 bilhões para próximo de 5 bilhões e a base instalada de PCs cairá do 1,5 bilhão atual para algo mais próximo de 1 bilhão (se é que chegará a isso). O mobile tem dez vezes o volume de unidades e cinco vezes a base instalada — “o bilhão é o novo milhão”. Esse é o motivo pelo qual todo o investimento da indústria está sendo deslocado do ecossistema Wintel para o ecossistema ARM/iOS/Android.

Enquanto isso, agora é perfeitamente claro que tanto a Apple quanto o Android têm escala suficiente para viabilizar seus ecossistemas (incluindo o subconjunto de Android na China) e que ninguém mais a tem. Mas, ao mesmo tempo, uma vez que você alcança essa escala, mudanças adicionais na divisão do mercado não são muito significativas. Não importa para um gerente de produtos de um grande banco americano quantos usuários de Android existem na China nem para um gerente de produtos começando na Índia quantos iPhone existem na Califórnia. Onde seus usuários estão, quais usuários você deseja e quais usuários gastam mais é o que importa.

Isto é, a guerra acabou. Sim, nós iremos de 2,5 bilhões de smartphones para 5 bilhões, mas a dinâmica dos dois ecossistemas não mudará muito com esse crescimento. A Apple talvez ganhe alguns usuários, enquanto o Android vai converter a maioria desses próximos 2,5 bilhões, mas a maioria dessas pessoas estão em mercados emergentes e vai comprar smartphones abaixo de US$ 50 e certamente abaixo dos US$ 100.

Em vez disso, as mudanças e as coisas a se pensar vêm de outras direções — realidade virtual e realidade aumentada de um lado, inteligência artificial e aprendizagem de máquina do outro. Eles podem mudar o equilíbrio entre a Apple e o Google, mas é mais provável que eles tornem essa distinção algo sem graça. Eu parei de atualizar os meus modelos da Nokia, da BlackBerry e da Microsoft há algum tempo — os meus modelos do Android e da Apple também estão ficando cada vez mais próximos do fim da minha lista de prioridades.

Nota 1: Se você pensa que toda essa metodologia é vaga e imprecisa, você está certo, mas é assim que a salsicha é feita. Escrevi um artigo longo sobre esses problemas aqui (em inglês).

Nota 2: Tanto os números de tablets com o Android do Google e com o Android chinês que eu mencionei são explicitamente de aparelhos que se conectam à Internet. Existe uma lacuna significativa entre os números de Android que são vistos online e os números que são informados como vendidos aos consumidores. O cerne disso é que existem de fato dois mercados de tablets: a visão de “substituto do PC” da Apple e de tablets Android high-end, e outro mercado praticamente separado para tablets genéricos baratos de plástico preto que não duram muito e/ou nunca ou raramente se conectam à Internet – eles devem aumentar a base em pelo menos um terço, talvez mais.


Publicado originalmente no blog do Benedict Evans em 25 de julho de 2016.

Tradução por Leon Cavalcanti Rocha.
Fotos do topo: TechStage/Flickr.

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