Gravidade: sozinho no espaço, somente a superação pode salvá-lo


18/10/13 às 14h18

Sandra Bullock em um traje espacial, no filme Gravidade.
Foto: Warner Bros/Reprodução.

Com um plano sequência inicial de quase 20 minutos digno de figurar entre os mais sensacionais da história do cinema, Gravidade diz logo de cara que não é um filme convencional. Dirigido por Alfonso Cuarón, com Sandra Bullock e George Clooney no (enxuto) elenco, ele usa o vácuo do espaço para filosofar sobre assuntos bem mundanos, sobre superação e renascimento.

O filme conta a luta pela sobrevivência da Dra. Ryan Stone e do comandante Matt Kowalsky, que ficam à deriva no espaço após o ônibus espacial onde estavam ser atingido por uma tempestade de detritos vinda de um satélite russo destruído ali perto.

Na solidão do espaço, sem contato com a Terra e com recursos finitos, Gravidade insere angústia e tensão em cenários que, em outro contexto, em outra situação, seriam talvez alguns dos lugares mais contemplativos que o ser humano conheceu. Em uma das falas iniciais, a Dra. Stone diz que o que mais gosta do espaço é o silêncio. “Eu poderia me acostumar a isso”.

Mas quando tudo vai pelos ares, como mostra o trailer, e a inexperiente médica rodopia sem rumo, afastando-se da Terra, sem retorno na comunicação, com a respiração ofegante, Gravidade se revela. É um filme sobre o fascinante espaço, também, mas é muito mais uma história sobre o medo da morte, sobre enfrentamentos e, por fim, renascimento.

Tecnicamente, Gravidade é um feito e tanto. As cenas espaciais são de tirar o fôlego, a tensão nos momentos-chave em que a vida fica em risco, e eles não são poucos, prendem o espectador de um jeito único. Eventos naturais, como o nascer e o pôr do Sol, a aurora boreal, a imensidão do espaço, são retratações que, embora não possa classificar como perfeitas por motivos óbvios, conseguem entregar o que eu e acho todos nós imaginamos deva ser o espaço: um infinito absorto na quietude, uma beleza que fascina e amedronta.

Levou um bocado de tempo para que a tecnologia para filmar Gravidade madurasse o suficiente, e essa espera valeu a pena: ele leva o nível dos efeitos especiais no cinema a um novo patamar. Saber que as cenas “externas”, das caminhadas espaciais, são inteiramente digitais com exceção dos rostos dos atores, dá uma boa ideia do quão espetacular é esse trabalho. Os planos, que variam de uns bem abertos, pondo em perspectiva a insignificância de um ser humano lá em cima, até trechos em primeira pessoa, dentro do capacete da Dra. Stone, formam um balé suave na tela. A trilha sonora alterna o silêncio do espaço com músicas crescentes, tudo na hora certa, na medida exata. É um trabalho irretocável.

A imensidão do espaço em Gravidade.
Foto: Warner Bros/Reprodução.

Fosse apenas 90 minutos de lindas cenas do espaço polvilhadas com um pouco de ação aqui e ali, Gravidade já se justificaria. Mas há uma história por trás. Não uma profunda; ela é bem simples, na real. O roteiro, inclusive, se limita ao mínimo para se fazer entender (com uma exceção que peca pelo excesso de didática cinematográfica), e não faz uso de recursos como flashbacks para contextualizar o dilema central a quem assiste, uma saída que, nas circunstâncias em que a história se apresenta, seria fácil imaginar sendo posta em prática. Aqui, não. São 90 minutos ininterruptos no agora, coisa rara de se ver e uma delícia de se presenciar.

Cuarón diz que Gravidade é sobre “renascer ante as adversidades”, tanto que coloca no centro da história uma protagonista inexperiente, que não é daquele universo, que sai da sua zona de conforto e se vê obrigada a lidar com situações extremas em uma sucessão rápida. Essa metáfora, do renascimento, se faz presente em vários pontos ao longo do filme. É emblemática ao vermos a Dra. Stone, após quase morrer por falta de oxigênio em seu traje espacial, adentrar a Estação Espacial Internacional e, cheia de vida novamente, contorcer-se até ficar em posição fetal, com o Sol ao fundo, uma cena particularmente bela. Daria para discorrer mais aqui, não sem dar (mais) spoilers.

A 600 quilômetros da superfície da Terra, no espaço, a vida não pode existir. Mas pode renascer. Gravidade é um filme lindo. Assista.

Matt tenta acalmar a Dra. Stone.
Foto: Warner Bros/Reprodução.

Alguns links legais para se aprofundar no filmaço de Cuarón:

  • Bate-bola esperto entre Noel Murray e Tasha Robinson no The Dissolve. Ela, aliás, bate muito na tecla de que ver Gravidade em 3D é uma experiência melhor — Alexandre Inagaki também viu assim e reforça a recomendação. Eu vi em 2D e fiquei me perguntando se a dimensão extra é capaz de tornar o que já é espetacular ainda melhor.
  • Entrevista bacana com Sandra Bullock, no Omelete. Se você tem algum tipo de preconceito com ela, e não dá para negar que há motivos, esqueça-os em Gravidade: sua atuação é brilhante.
  • No io9, Alfonso Cuarón discute o final de Gravidade. É bem significativo. Só leia isso, claro, depois de ver o filme. Em outra entrevista no mesmo site, ele fala de várias coisas muito legais sobre o filme, incluindo a linguagem mais elaborada que não se esforça para dar tudo mastigado ao espectador e o difícil trabalho de conciliar ficção/entretenimento com fidelidade científica.
  • E falando em fidelidade científica, se você é do coro dos que reclamam que um filme (um filme, veja bem; não é um documentário) não é fiel à realidade, Neil DeGrasse Tyson e Marcos Pontes deram seus pitacos técnicos sobre Gravidade. Ambos, porém, disseram que curtiram muito o filme.

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6 comentários

  1. O filme realmente é fantástico. Agora sobre o 3D, o que não gostei foi que, como o filme tem algumas cenas escuras, o 3d não ajuda muito, fica mais escuro ainda. Não sei se é só no cinema que fui, mas de resto, com os planos fundos fiquei impressionado.

  2. Realmente, um filme com roteiro simples que vai direto ao ponto sem enrolações, quanto aos efeitos, realmente são muito bonitos e assistir em 3d aumenta a imersão, mas este filme é para ser visto “em qualquer dimensão”.

  3. Gostei da resenha. Confesso que não dei tanta atenção à história da dra Stone ao ver o filme. Talvez tenha me preocupado mais em prestar atenção nos detalhes técnicos – o plano sequência da cena inicial me deixou maluco – e na tensão do filme. Apesar de ter achado exagerado no quesito ‘desastres’ gostei muito.
    Uma coisa que eu achei realmente muito estranha, no entanto, foi a falta de efeitos 3D. Depois da sessão até tinha me esquecido que o filme era em 3D. Não me incomodou durante o filme porque eu simplesmente esqueci desse detalhe. E não é a primeira vez que isso acontece: já ficou comum ir ao cinema, botar os óculos, não ver nada demais no filme em termos de efeitos tridimensionais e depois esquecer que fui ver em 3D.

    1. Acho que existem duas explicações para quando “esquecemos” que estamos vendo um filme 3D. A primeira, ruim, é de que os efeitos não agregaram à experiência, não fizeram diferença. Senti isso com Toy Story 3, só não esqueci do 3D porque os óculos incomodavam um bocado. A outra é quando o 3D funciona e se torna natural. Avatar, dos que vi, foi o único que alcançou esse estado. Então, não sei. Talvez não ter percebido esse detalhe seja um ponto positivo.