Gravidade: sozinho no espaço, somente a superação pode salvá-lo

Sandra Bullock em um traje espacial, no filme Gravidade.
Foto: Warner Bros/Reprodução.

Com um plano sequência inicial de quase 20 minutos digno de figurar entre os mais sensacionais da história do cinema, Gravidade diz logo de cara que não é um filme convencional. Dirigido por Alfonso Cuarón, com Sandra Bullock e George Clooney no (enxuto) elenco, ele usa o vácuo do espaço para filosofar sobre assuntos bem mundanos, sobre superação e renascimento.

O filme conta a luta pela sobrevivência da Dra. Ryan Stone e do comandante Matt Kowalsky, que ficam à deriva no espaço após o ônibus espacial onde estavam ser atingido por uma tempestade de detritos vinda de um satélite russo destruído ali perto.

Na solidão do espaço, sem contato com a Terra e com recursos finitos, Gravidade insere angústia e tensão em cenários que, em outro contexto, em outra situação, seriam talvez alguns dos lugares mais contemplativos que o ser humano conheceu. Em uma das falas iniciais, a Dra. Stone diz que o que mais gosta do espaço é o silêncio. “Eu poderia me acostumar a isso”.

Mas quando tudo vai pelos ares, como mostra o trailer, e a inexperiente médica rodopia sem rumo, afastando-se da Terra, sem retorno na comunicação, com a respiração ofegante, Gravidade se revela. É um filme sobre o fascinante espaço, também, mas é muito mais uma história sobre o medo da morte, sobre enfrentamentos e, por fim, renascimento.

Tecnicamente, Gravidade é um feito e tanto. As cenas espaciais são de tirar o fôlego, a tensão nos momentos-chave em que a vida fica em risco, e eles não são poucos, prendem o espectador de um jeito único. Eventos naturais, como o nascer e o pôr do Sol, a aurora boreal, a imensidão do espaço, são retratações que, embora não possa classificar como perfeitas por motivos óbvios, conseguem entregar o que eu e acho todos nós imaginamos deva ser o espaço: um infinito absorto na quietude, uma beleza que fascina e amedronta.

Levou um bocado de tempo para que a tecnologia para filmar Gravidade madurasse o suficiente, e essa espera valeu a pena: ele leva o nível dos efeitos especiais no cinema a um novo patamar. Saber que as cenas “externas”, das caminhadas espaciais, são inteiramente digitais com exceção dos rostos dos atores, dá uma boa ideia do quão espetacular é esse trabalho. Os planos, que variam de uns bem abertos, pondo em perspectiva a insignificância de um ser humano lá em cima, até trechos em primeira pessoa, dentro do capacete da Dra. Stone, formam um balé suave na tela. A trilha sonora alterna o silêncio do espaço com músicas crescentes, tudo na hora certa, na medida exata. É um trabalho irretocável.

A imensidão do espaço em Gravidade.
Foto: Warner Bros/Reprodução.

Fosse apenas 90 minutos de lindas cenas do espaço polvilhadas com um pouco de ação aqui e ali, Gravidade já se justificaria. Mas há uma história por trás. Não uma profunda; ela é bem simples, na real. O roteiro, inclusive, se limita ao mínimo para se fazer entender (com uma exceção que peca pelo excesso de didática cinematográfica), e não faz uso de recursos como flashbacks para contextualizar o dilema central a quem assiste, uma saída que, nas circunstâncias em que a história se apresenta, seria fácil imaginar sendo posta em prática. Aqui, não. São 90 minutos ininterruptos no agora, coisa rara de se ver e uma delícia de se presenciar.

Cuarón diz que Gravidade é sobre “renascer ante as adversidades”, tanto que coloca no centro da história uma protagonista inexperiente, que não é daquele universo, que sai da sua zona de conforto e se vê obrigada a lidar com situações extremas em uma sucessão rápida. Essa metáfora, do renascimento, se faz presente em vários pontos ao longo do filme. É emblemática ao vermos a Dra. Stone, após quase morrer por falta de oxigênio em seu traje espacial, adentrar a Estação Espacial Internacional e, cheia de vida novamente, contorcer-se até ficar em posição fetal, com o Sol ao fundo, uma cena particularmente bela. Daria para discorrer mais aqui, não sem dar (mais) spoilers.

A 600 quilômetros da superfície da Terra, no espaço, a vida não pode existir. Mas pode renascer. Gravidade é um filme lindo. Assista.

Matt tenta acalmar a Dra. Stone.
Foto: Warner Bros/Reprodução.

Alguns links legais para se aprofundar no filmaço de Cuarón:

  • Bate-bola esperto entre Noel Murray e Tasha Robinson no The Dissolve. Ela, aliás, bate muito na tecla de que ver Gravidade em 3D é uma experiência melhor — Alexandre Inagaki também viu assim e reforça a recomendação. Eu vi em 2D e fiquei me perguntando se a dimensão extra é capaz de tornar o que já é espetacular ainda melhor.
  • Entrevista bacana com Sandra Bullock, no Omelete. Se você tem algum tipo de preconceito com ela, e não dá para negar que há motivos, esqueça-os em Gravidade: sua atuação é brilhante.
  • No io9, Alfonso Cuarón discute o final de Gravidade. É bem significativo. Só leia isso, claro, depois de ver o filme. Em outra entrevista no mesmo site, ele fala de várias coisas muito legais sobre o filme, incluindo a linguagem mais elaborada que não se esforça para dar tudo mastigado ao espectador e o difícil trabalho de conciliar ficção/entretenimento com fidelidade científica.
  • E falando em fidelidade científica, se você é do coro dos que reclamam que um filme (um filme, veja bem; não é um documentário) não é fiel à realidade, Neil DeGrasse Tyson e Marcos Pontes deram seus pitacos técnicos sobre Gravidade. Ambos, porém, disseram que curtiram muito o filme.

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6 comentários

  1. O filme realmente é fantástico. Agora sobre o 3D, o que não gostei foi que, como o filme tem algumas cenas escuras, o 3d não ajuda muito, fica mais escuro ainda. Não sei se é só no cinema que fui, mas de resto, com os planos fundos fiquei impressionado.

  2. Por enquanto não vi, mas até agora a maioria das resenhas só são elogios.

  3. Realmente, um filme com roteiro simples que vai direto ao ponto sem enrolações, quanto aos efeitos, realmente são muito bonitos e assistir em 3d aumenta a imersão, mas este filme é para ser visto “em qualquer dimensão”.

  4. Gostei da resenha. Confesso que não dei tanta atenção à história da dra Stone ao ver o filme. Talvez tenha me preocupado mais em prestar atenção nos detalhes técnicos – o plano sequência da cena inicial me deixou maluco – e na tensão do filme. Apesar de ter achado exagerado no quesito ‘desastres’ gostei muito.
    Uma coisa que eu achei realmente muito estranha, no entanto, foi a falta de efeitos 3D. Depois da sessão até tinha me esquecido que o filme era em 3D. Não me incomodou durante o filme porque eu simplesmente esqueci desse detalhe. E não é a primeira vez que isso acontece: já ficou comum ir ao cinema, botar os óculos, não ver nada demais no filme em termos de efeitos tridimensionais e depois esquecer que fui ver em 3D.

    1. Acho que existem duas explicações para quando “esquecemos” que estamos vendo um filme 3D. A primeira, ruim, é de que os efeitos não agregaram à experiência, não fizeram diferença. Senti isso com Toy Story 3, só não esqueci do 3D porque os óculos incomodavam um bocado. A outra é quando o 3D funciona e se torna natural. Avatar, dos que vi, foi o único que alcançou esse estado. Então, não sei. Talvez não ter percebido esse detalhe seja um ponto positivo.