App Mensagens no notebook e smartphone.

Google tentará emplacar (mais um) app de mensagens


20/4/18 às 10h35

O Google deve reformular (de novo) seu app mensagens nos próximos meses. Uma nova tecnologia, chamada Chat, trará ao app de SMS padrão do Android recursos comuns em apps do gênero mais modernos, como recibos de leitura, grupos, transferência de arquivos e conteúdo multimídia (imagens em alta definição, áudios e vídeos).

Chat é o nome comercial do Rich Communication Services (RCS), uma iniciativa da indústria para modernizar o SMS, proposta inicialmente em 2007. Para isso, o Google conta com a colaboração de fabricantes de smartphones e operadoras do mundo inteiro e abdicará do protagonismo: as mensagens trocadas não ficarão em seus servidores e o Chat sequer tem “Google” no nome.

A “conversão” do atual app de SMS do Android dependerá das operadoras, que precisam habilitar o Chat/RCS em suas redes. Isso sempre foi um entrave para a implementação do RCS, pois, até então, as operadoras que aderiram ao formato, como a norte-americana Sprint, faziam modificações no padrão que quebravam a compatibilidade com outras redes.

A solução para esse problema é algo chamado “Perfil Universal”. Segundo a GSMA, associação global das operadoras, trata-se de “um conjunto de recursos e habilitações técnicas desenvolvido para simplificar o desenvolvimento do produto e a liberação global do RCS”. O Google confia nisso para tornar a sua visão do RCS, o Chat, competitivo frente a rivais fortes como iMessage, WhatsApp e Facebook Messenger.

Quando em funcionamento, serão necessários smartphones e operadoras compatíveis para funcionar plenamente. Caso algum não seja, o sistema recorre ao velho SMS como “plano B”, mais ou menos como acontece com o iMessage, da Apple.

O site The Verge conseguiu acesso antecipado ao app Mensagens já com suporte à tecnologia Chat. Visualmente, ele não deve divergir muito do atual, mas terá figurinhas e os já citados outros recursos comuns em apps do tipo. Haverá, também, uma versão web, para uso no computador, similar ao WhatsApp Web.

Mais um?

Tela do GTalk para Windows.
Sdds GTalk.

Em maio de 2016, o Google lançou dois apps de mensagens: Allo, para mensagens em texto escrito, e Duo, para vídeo chamadas. O Allo tem como grande chamariz a presença da inteligência artificial do Google, que fica à espreita para sugerir interações em conversas com outros seres humanos e tem uma tela especial para dialogar com o usuário.

Até agora, menos de 50 milhões de usuários do Android instalaram o Allo. O número parece enorme, porém desaparece perto do bilhão de usuários que WhatsApp e Facebook Messenger têm, ou mesmo do iMessage, que é padrão em todo iPhone vendido.

Anil Sabharwal, designado pelo Google para liderar o desenvolvimento do Chat, disse ao The Verge que os trabalhos no Allo serão interrompidos e que os esforços e equipe alocados nesse app serão migrados para o app padrão de SMS, o Mensagens, que abrigará as conversas em cima da tecnologia Chat.

Agora vai? Diz o Google que sim, mas, dado o retrospecto, isso não passa mais confiança. Afinal, a mesma coisa foi dita de todos os apps de mensagens que o Google tentou emplacar desde o lançamento do Android, em 2008.

Foram, pelo menos, quatro em dez anos — sem contar as trocas de nomes e reposicionamentos pelo caminho.

O primeiro de todos, e dos mais bem sucedidos, foi o Google Talk, ou GTalk. Era um app extremamente simples e, talvez por isso, funcional. Ele se integrava ao Gmail, tinha um app próprio para Windows e esteve no Android em seus primórdios. No Brasil, foi provavelmente o mais popular do Google, embora boa parte da sua história tenha se desenrolado em uma era pré-smartphones.

Em 2013, foi a vez do Hangouts, então parte do Google+, uma camada social que permeou todos os produtos e serviços do Google. O Hangouts substituiu o GTalk e o expandiu, com vídeo chamadas e um acabamento melhor. O grande problema foi que essas melhorias deixaram o app lento e isso, somado a todos os erros do Google+, colocou o app em segundo plano.

Em 2016, o Google deu atenção ao app padrão de mensagens do Android. Ele foi rebatizado para Messenger, criando alguma confusão com o app homônimo do Facebook e… apenas isso.

Com um intervalo de três meses, Allo e Duo foram lançados. A promoção do Allo foi forte, como deveria ser em um estágio tão avançado, com WhatsApp e iMessage enraizados em boa parte do mundo. Mesmo com anúncios em horário nobre na TV, o Allo não caiu no gosto do público.

Em 2017, o app padrão de SMS do Android ganhou um novo nome, Mensagens, em preparação para a chegada do padrão RCS. Nesse mesmo ano, o Hangouts virou Hangouts Chat e foi reposicionado para o mercado corporativo, como uma espécie de concorrente do Slack — outro flanco que o Google perdeu para a concorrência.

Chegamos a 2018. Embora não haja um novo app em si, com o Chat, é como se fosse um recomeço para o app padrão de mensagens do Android.

Pouco e tardio

Imagem de divulgação do Allo.
Desenvolvimento do Allo será “pausado”. Imagem: Google/Divulgação.

Nos Estados Unidos, apenas a Sprint, uma operadora média, já suporta o padrão RCS. AT&T e Verizon, as duas maiores de lá, sinalizaram que suportarão o RCS, mas não deram data para a disponibilidade. Por aqui, três das grandes operadoras (Claro, Oi e Vivo) já anunciaram que adotarão a tecnologia.

As operadoras têm um incentivo grande para promoverem essa tecnologia, já que, se bem sucedida, ela traria de volta ao guarda-chuva o segmento de mensagens de texto, perdido para apps “over the top” (OTT) nos últimos anos. Desde 2014, a ascensão do WhatsApp impactou significativamente a receita com SMS das operadoras. Além disso, o Chat/RCS suporta “perfis comerciais”, funcionalidade com potencial para abrir uma nova frente de receita para as operadoras.

Esse caminho, porém, é complexo. O grande trunfo do Mensagens/Chat é vir pré-instalado no Android, sistema que domina quase todos os mercados mundiais de smartphones — no Brasil, respondeu por 93,2% dos smartphones vendidos em dezembro de 2017, segundo a Kantar. Essa vantagem pode não ser suficiente, porém, dada a penetração que o WhatsApp tem no país, algo que costuma se repetir em outros locais com diferentes apps. O Telegram, com 200 milhões de usuários e bastante atenção da imprensa, é apenas o nono app de mensagens mais usado do mundo.

Fora isso, para o novo Mensagens funcionar, é preciso a cooperação de muitas partes: do Google, de algumas fabricantes e de incontáveis operadoras. É um equilíbrio difícil de alcançar e bastante frágil no longo prazo. E há uma ausência significativa (mais importante nos EUA do que aqui): a Apple. Com o iMessage, a empresa resolveu esse problema no iPhone há anos e não há, à primeira vista, nenhum incentivo para que ela mexa no iMessage e passe a suportar o Chat/RCS.

Para o usuário final, o novo Mensagens não oferecerá nada exatamente novo e ainda carecerá de alguns recursos atualmente valorizados, em especial a criptografia de ponta a ponta. Na prática, o Chat/RCS será tão inseguro quanto o SMS — e o SMS é bastante inseguro. Talvez funcione? A possibilidade sempre existe.

Atualizado às 11h13: o texto inicial dava a entender que “Chat” seria um novo app. Na verdade, trata-se de uma tecnologia que alterará o funcionamento do app padrão Mensagens, do Android. O texto foi atualizado para refletir isso.

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