Homem de Mad Men caindo em fibra ótica.

Quantos gigabytes uma pessoa gasta, por mês, numa conexão de banda larga fixa


4/3/16 às 13h56

Puxadas pela Vivo, operadoras que vendem conexão fixa à Internet de banda larga começaram a se movimentar no sentido de instituir ou fazer valerem as franquias de dados previstas em contrato. A exemplo do que já acontece com a Internet móvel, se isso for para frente em breve será preciso ficar de olho no consumo da sua conexão residencial sob pena de, extrapolando o limite contratual, ser desconectado ou ter a velocidade severamente reduzida.

Para o consumidor, é um claro retrocesso. Mais que isso, é uma dificuldade extra ter que mensurar esse tipo de consumo e fazer contorcionismos para não passar da cota estabelecida. Ao contrário da conexão móvel, geralmente restrita ao smartphone ou, se muito, a ele e mais um ou outro dispositivo (tablet, notebook), a Internet via conexão fixa alimenta uma multiplicidade de dispositivos que, se hoje já pode ser grande, com a Internet das Coisas despontando tende a se tornar enorme. Assim como hoje é impossível contar quantos produtos equipados com um chip temos em casa, num futuro bem próximo não saberemos dizer, de pronto, quantos estarão conectados.

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O pior é que a Anatel, que deveria fiscalizar e coibir tentativas de degradar a qualidade dos serviços oferecidos pelas telecom, afirmou em nota que a imposição de limites à banda larga fixa é “benéfica” ao consumidor. Segundo Carlos Baigorri, superintendente de competição da Anatel, “não existe um único consumidor, então para quem está abaixo da média, consome menos, o limite é melhor. E pior para quem consome muito”.

A justificativa é fraca porque esbarra em conceitos vagos. “Muito”, “pouco”, o que isso significa em termos de banda larga? E, ainda que esses termos subjetivos sejam convertidos em números exatos, invariavelmente será pior do que “não ter limite”. Hoje, mesmo com a NET e a Oi tendo a previsão de franquia em contrato, são raríssimos os casos de aplicação a quem ultrapassa esses limites.

Além de termos mais dispositivos conectados à rede, o próprio uso que se faz dela depende cada vez mais de dados. Streaming de alta qualidade, jogos pesados, colaboração em tempo real por vídeo… tudo isso pede mais e mais dados. Hoje a única chateação de baixar um jogo no Steam, por exemplo, é a demora no download, fruto do único critério de diferenciação nos preços praticados pelas operadoras, a velocidade do acesso. Paga-se mais para ter uma conexão mais rápida.

Cabos de rede.
O irônico desta imagem é que nenhum dispositivo meu está conectado à Internet por cabo. Foto: Andrew Hart/Flickr.

Nos novos planos da Vivo a franquia varia de acordo com o plano contratado, ou seja, velocidade e limite de tráfego andam juntos. As franquias variam de 10 GB por mês, o que é patético, porém adequado à igualmente ruim velocidade de 200 Kb/s — o que, na real, nem deveria ser englobada no conceito de “banda larga” –, a 130 GB, que podem ser baixados a 25 Mb/s. (Fazendo download na velocidade máxima, atingiria-se o limite em curtíssimas 11 horas, 49 minutos e 58 segundos.)

Sem pensar muito, sem recorrer a cálculos, já dá para sacar que esses limites são baixos. Mas eu queria saber o quão baixos eles são. Então colhi alguns dados e me submeti a uma mensuração quase manual do meu consumo de dados a fim de ter uma resposta mais precisa. Vamos aos números?

Sopa de números

A NET diz que informa no painel do cliente, em tempo real, o consumo de dados do mês. A Vivo garante que uma ferramenta similar será disponibilizada aos clientes quando o limite de franquia entrar em vigor, algo previsto para o início de 2017.

Tabela de consumo de dados da NET.
Tabela de consumo mensal da NET. Imagem: @_MrMouse/Twitter.

De outro modo, é preciso correr atrás de ferramentas que façam esse monitoramento.

A maneira mais fácil depende do seu roteador. Alguns modelos contam com um monitor de consumo embutido, então basta entrar na área administrativa dele para conferir quantos gigabytes já foram baixados e enviados em determinado período. Firmwares de terceiros como o famoso DD-WRT também oferecem o recurso, mas aqui o problema é colocar em risco o equipamento numa operação delicada; se está tudo funcionando bem, não há motivo para tanto.

Gráfico de consumo via DD-WRT.
Gráfico do DD-WRT. Imagem: @LucasBraga/Twitter.

O meu roteador não tem um monitor de tráfego e, como ele nunca me deu dor de cabeça, não cogito trocar seu firmware pelo DD-WRT. Assim, optei por uma ferramenta num nível superior na arquitetura da rede: a da aplicação.

Há desvantagens claras em monitorar o tráfego via apps, sendo a maior delas a incapacidade de alcançar todo o tráfego da rede. No teste que conduzi, restringi-me ao computador. Existem alguns aplicativos que fazem esse monitoramento e, no caso do OS X, o sistema operacional da Apple, o Monitor de Atividade faz isso nativamente.

Monitorando o tráfego de dados na Internet.

Durante uma semana, antes de dormir, abri o Monitor de Atividade e anotei o consumo do dia num bloquinho — como faziam os antigos. Ficou assim:

  • 24/2: DOWN, 1,95 GB; UP, 206 MB.
  • 25/2: DOWN, 1,36 GB; UP, 178 MB.
  • 26/2: DOWN, 985 MB; UP, 129 MB.
  • 27/2: DOWN, 1,86 GB; UP, 238 MB.
  • 28/2: DOWN, 319 MB; UP, 34 MB.
  • 29/2: DOWN, 1,34 GB; UP, 157 MB.
  • 1/3: DOWN, 2,25 GB; UP, 147 MB.

Somando o consumo de download e upload e, depois, tirando a média, no computador eu gasto 1,59 GB de dados por dia. Multiplicando por 30 (dias no mês), chegamos a 47,7 GB. Pelas ofertas da Vivo segundo a velocidade da minha conexão eu já estaria muito perto do limite mensal — 50 GB na conexão de 4 Mb/s; a minha, da GVT-em-breve-Vivo, é de 5 Mb/s.

Meu uso no computador é relativamente leve. Não jogo, não vejo Netflix, o que mais faço é navegação web, e-mail e Twitter. Nem YouTube eu vejo muito; os canais que acompanho e vídeos maiores — leia-se com mais de cinco minutos — costumo ver na TV. Isso é importante porque, como disse ali em cima, o computador é só parte do dia a dia.

Quanto a Netflix consome? O próprio serviço responde: até 3 GB por hora de conteúdo em alta definição. Quase todo dia vejo alguma série ou vídeo, ali ou no YouTube, por cerca de uma hora. Assim, podemos colocar na conta mais 3 GB diários.

Spotify também é outro. Sendo assinante da modalidade Premium, o app me dá a opção de fazer streaming de alta qualidade, de arquivos com taxa de bits de 320 Kb/s. Aqui a conta é simples: 320 * 60 (segundos) / 8 (conversão de bits para bytes) = 2400 KB, ou 2,4 MB por minuto. Multiplica-se o resultado por 60 e chegamos a 115,2 MB por hora, que é o tanto, na média, que ouço de música todo dia.

Há outros fatores que acrescentam. Smartphone, por exemplo. Em tempos de WhatsApp centralizando a vida digital de muita gente e servindo de central de recebimento e distribuição de fotos e vídeos, Facebook com vídeo automático no feed e upload de fotos e vídeos em segundo plano para a nuvem, não é uma fatia dispensável.

1 GB de dados móveis em dois meses.

Não encontrei nenhuma ferramenta para smartphones que monitore o tráfego do Wi-Fi. Por trabalhar em casa, uso relativamente pouco a conexão de dados da operadora, o 3G/4G. Para não deixar esse importante campo em branco, abri o histórico de consumo de dados da operadora que o próprio sistema gera. Ali indica que desde 28 de dezembro, há dois meses, portanto, baixei e envie 1 GB de dados. Fazendo uma extrapolação com base no que, proporcionalmente, uso o smartphone em casa (no Wi-Fi), multipliquei por quatro esse valor, chegando a 2 GB/mês. Note que, creio eu, essa é uma estimativa conservadora. Não me surpreenderia descobrir que consumo mais que isso em cada mês, no smartphone, via Wi-Fi.

Atualização (14h30): Após a publicação do post, alguns leitores indicaram apps para iOS que fazem esse trabalho. São eles: My Data Manager (grátis) e WifiMan (US$ 3,99). Agradecimentos ao Paulo Higa e Bernardo Ferrari!

Ainda tenho um tablet e, vez ou outra, amigos e familiares passam em casa e usam o Wi-Fi. Desconsiderando eles, somente eu consumo quase 5 GB por dia, ou 150 GB por mês, acima do plano mais generoso que a Vivo oferece em novos contratos, que é de 130 GB.

Meu perfil é econômico e excluí, da conta, eventos esporádicos — atualizações de sistema e download de apps, por exemplo. Também não contei as partidas online de FIFA/Need for Speed e atualizações de jogos. Aliás, imagine alguém que compre pelo menos um jogo AAA por mês, o que não é algo de outro mundo. O simples download dele é capaz de acrescentar algumas dezenas de gigabytes à conta — The Division, no momento o jogo mais vendido do Steam, ocupa 40 GB de espaço.

E mais: eu vivo sozinho. Segundo o último censo do IBGE, de 2010, em média 3,34 pessoas moram em cada domicílio. Ainda que consumo que eu auferi seja cortado pela metade, multiplicado por três ele fica maior — essa hipotética casa com três pessoas que consomem metade do que eu consumo chegaria ao fim do mês com 225 GB gastos.

130 GB não é o bastante

O motivo desse exercício foi a mera curiosidade. Quando o assunto chegou à pauta, motivado pelos novos planos da Vivo, perguntei-me quanto eu gastava. Lá no fundo pensava que, talvez, a justificativa da Anatel, de que as pessoas não consomem tanto e que, portanto, poderiam ser beneficiadas com descontos em franquias menores, fizesse algum sentido. Não parece ser o caso e, mais que isso, a tendência é que o uso de dados aumente com tudo virando digital e muitas coisas do dia a dia, incluindo produtos comuns de casa, se conectando à Internet. Perguntei a quem me segue no Twitter qual o consumo deles e as mensagens acima mostram que, de fato, eu sou exceção — na realidade, consumo poucos dados.

Felizmente o Ministério Público já começou a investigar essa movimentação em torno das franquias na Internet fixa, pedindo esclarecimentos à Vivo, Oi e NET/Claro, empresas que preveem limites do tipo em seus contratos — a TIM, que comercializa conexão de banda larga fixa via Live TIM, não estabelece franquias. É desanimador, de qualquer forma, que no momento em que o mundo começa a falar em 5G, a Internet das Coisas se fortalece e conexões gigabit à Internet se tornam banais em mercados mais maduros, nós tenhamos que lutar para não ter a Internet cortada após consumir uma quantia claramente insuficiente para as demandas contemporâneas.

Foto do topo: Surian Soosay/Flickr.

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