Gamers e governos são a esperança do setor de PCs brasileiro

Menino jogando um game de tiro em um computador gamer.

O mercado brasileiro de computadores cresceu apenas 0,3% no segundo trimestre de 2019. Em números absolutos, foram vendidos 1,448 milhão de máquinas que geraram receita de R$ 4,1 bilhões, valor 12% maior que o do mesmo período do ano passado. Os números são da consultoria IDC, que também aponta onde se concentra a esperança de crescimento do setor: no governo e nos gamers.

Wellington La Falce, analista de mercado da IDC, deu mais detalhes desse cenário em uma conversa com o Manual do Usuário. O setor vem de dois anos de recuperação — 15% em 2017 e 9% em 2018 — após meia década de quedas brutais — de 15,4 milhões de unidades vendidas em 2011 para 4,5 milhões em 2016.

Essa retomada, explicou La Falce, se deu por três fatores: a defasagem das máquinas compradas no “boom” dos computadores no Brasil, em 2010–2011; incentivos do governo, como a liberação de parte do saldo do FGTS no segundo semestre de 2017; e a volta dos computadores abaixo de R$ 1 mil em 2015, faixa mais acessível que havia sido abandonada pelas fabricantes.

Apesar disso, o analista ressalva que “não temos grandes perspectivas para o segmento de computadores como um todo. A gente não vê motivos para haver grande crescimento em termos de unidades”. A curva descendente da venda de computadores no Brasil é oposta à do crescimento de celulares — a chamada “era pós-PC”. No segundo trimestre de 2019, foram vendidos 12,1 milhões smartphones e 852 mil feature phones segundo a própria IDC.

Para o resto do ano, o potencial de crescimento dos computadores se concentra em alguns nichos, como o dos gamers e de clientes governamentais.

Computador gamer para todos

A demanda maior por computadores gamers reflete o aumento do interesse do consumidor brasileiro por jogos eletrônicos, puxado pelos e-sports. Nesse sentido, os computadores de mesa (desktops) têm se destacado desde 2018 por serem mais acessíveis. “O principal motivo é que os desktops são a primeira saída àquele público que está iniciando no mundo de games, o adolescente na faixa de 11 a 14 anos que quer muito [jogar] e já está imbricando no mundo gamer, mas que ainda, naturalmente, não tem o poder de decidir a compra”, explica La Falce. Esses jovens tentam convencer os pais a gastarem mais em um computador potente e dessa negociação resultam compras de equipamentos na faixa dos R$ 2.500–2.600. A título comparativo, o preço base de um notebook gamer é ~45% maior, de cerca de R$ 3.600.

A IDC não abre o percentual de computadores gamers por estratégia comercial — a consultoria vende relatórios detalhados a players da indústria —, mas La Falce revela que o crescimento do nicho de desktops gamers no segundo semestre de 2019 foi de 20%, o dobro do dos desktops em geral.


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Apesar do avanço, desktops são uma fração dos computadores vendidos no varejo. Do total de 912 mil computadores comercializados, apenas 141 mil eram desktops. Ainda assim, o aumento da categoria foi de 12% no trimestre, enquanto as vendas de notebooks caíram 1%, chegando a 771 mil unidades. Quando somadas, o resultado foi uma retração de 0,5% em relação ao mesmo período de 2018.

Mudanças ideológicas, menos computadores

A outra área promissora para o futuro próximo é a das vendas para o governo. “O segmento de governos [na compra] de computadores no Brasil tem sofrido um pouco desde o início de 2019, o que é natural: em toda troca de governo, principalmente quando há uma ruptura tão grande de ideologia e forma de trabalhar como a gente teve, o governo realmente trava os investimentos”, diz La Falce. “O governo primeiro para de girar a roda, a máquina, para fazer uma avaliação interna de gastos”.

No primeiro semestre de 2019, o Poder Público comprou 150 mil computadores contra 220 mil no mesmo período do ano passado, queda de 32%. Apesar da perspectiva de melhora até o fim do ano, a IDC prevê que 2019 terá uma queda de 25% nas vendas ao governo em relação a 2018. “Governo”, nesse contexto, inclui compradores das três esferas — municipal, estadual e federal.

No mercado corporativo (que inclui as compras do governo), o segundo trimestre teve alta de 2%. Foram vendidas 536 mil máquinas, sendo 290 mil desktops e 246 mil notebooks.

Concomitantemente, empresas privadas — especialmente as de médio e grande porte, mais resilientes ao cenário de crise — têm ajudado a levantar as vendas de notebooks. Para atender a tendência do teletrabalho (“home office”) e otimizar os custos de aluguel de espaços, elas têm optado pela substituição de desktops por notebooks. “A mobilidade, além de ser importante ao negócio em si, é também ao funcionário, individualmente falando”, diz La Falce. “Você permite que o funcionário trabalhe de casa e produza mais porque economiza muitas vezes três, quatro horas de trânsito. Além de cansar e estressar o funcionário, esse tempo que seria gasto com transporte passa a ser usado para produzir”.

Foto do topo: BrasilGame Show/Flickr.

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8 comentários

  1. Taí nos comentários uma pauta negligenciada, Ghedin! Mercado de eletrônicos usados e PCs montados. Será que é possível conseguir dados sobre ele?

  2. Não sei se li errado ou não está escrito mas aparentemente a IDC não contabiliza peças. 100% das pessoas que conheço que se denominam gamers compram peças avulsas. Gabinete, monitor, a RAM, o ssd, a fonte, e principalmente a placa de vídeo.
    Conheço o mercado relativamente de perto e tenho como melhor exemplo a ChipArt de Estância Velha que ganhou muito com o boom da mineração de criptomoedas e agora continua lucrando com o aumento de pessoas que querem jogar.
    O mercado de monitores também está crescendo e as empresas apresentando novas tecnologias e formatos. Computador montado hj só notebook que vejo mais, e ainda sim há uma parcela que compra e já atualiza colocando um SSD que sai mais em conta que comprar direto com o SSD.

    1. Ah, isso com certeza. Muitos anos atrás eu me lembro de ter visto que a HP ou a Dell eram as maiores vendedoras de desktops no Brasil e fiquei pensando quando eu tinha visto um desktop “de marca” numa residência. Acho que só um conhecido meu tinha ganhado de presente da madrinha um desses Dell montados via site, o resto era tudo “Frank”.

  3. Não entendo a falta de foco dos indicadores econômicos no mercado de usados. Falta uma “tabela FIPE” no mercado dos PCs para poder ajudar.

    Há um alto número de equipamentos usados que giram o mercado por baixo destes números, atendendo a parcela da população que não pega PCs acima de R$ 1 mil.

    Outro ponto, isso quanto ao governo e empresas, é entender agora como está o giro de gerações de PC. Quem tem i5 de primeira ou segunda geração tem provavelmente a partir deste ano a intenção de troca (já são quase 10 anos das séries iX). Computadores que deram uma estabilização na evolução de tecnologias, diga-se de passagem.

    Governos compram computadores conforme a necessidade também, mas não só. Também vale se os softwares estão em dia. Há governos que ainda trabalham com software de 20 anos atrás, nisso dispensando uma atualização de geração de hardware parruda.

    Pergunte a policiais os requisitos para entrar em um sistema de acesso governamental? (Spoiler: precisa de Java para tal!).

    1. Mercado de usados, principalmente notebook (gamers ou não), é bem aquecido no meu entendimento. Mas isso não interessa nem ao IDC e nem às fabricantes, afinal, o lucro deles não vai ser impactado (nem pra mais; nem pra menos) com um usado sendo vendido.

      Tabela FIPE de computadores seria muito bom. Alguns anos atrás o MacMagazine tinha algo mais ou menos assim pros Macs usados no Brasil. A maioria dos vendedores de Macs usados nunca seguiu (eles inflacionam o preço até o limite, sempre, principalmente no ML), mas mesmo assim era um bom indicativo de um preço mais ou menos justo.

      Os ciclos de troca dos computadores está muito mais longo do que era no passado. 4GB de RAM é suficiente pra imensa maioria das aplicações, por exemplo (dando um exemplo superficial apenas) e a maioria dos desktops e notebook vendidos de 2015 pra cá vai ter esses 4GB de RAM. Anos atrás, aí por 2005, ter 1GB de RAM era luxo e o pulo que se tenha com 2GB era imenso em termos de performance. Esse tempo se foi e os updates vão ser cada vez mais demorados. Sem falar que pra jogar (o que mais impacta em updates domésticos) um troca de GPU dá uma sobrevida muito grande pra um processador antigo.

      Isso deve rolar com telefones em breve. A gente vive os “anos 2000” dos telefones, quando os potentes ainda estão caros demais pra maioria das pessoas (ainda que, cada vez mais os telefones médios tenham 2/3 GB de RAM) e os baratos ainda precisam de trocas constantes por conta da defasagem programados dos Androids. Quando isso se estabilizar e tivermos telefones com bons preços (menos de R$600) com 3/4GB de RAM as pessoas vão trocar cada vez menos de telefone (updates não importam pra maioria das pessoas, nem em desktop nem em telefones) e o mercado deve estagnar do mesmo modo.

      ~~

      Sobre os programas e requisitos do governo, é normal que se tenha sistemas antigos (legados de até 40 anos) que custam muito caro pra atualizar e envolvem muitas horas de trabalho por pessoa (e os serviços públicos estão sendo sucateados num ritmo bastante rápido, então, não vejo um cenário favorável no curto prazo). Manter as coisas feitas em Java é padrão corporativo ainda. A maioria das vagas de desenv0lvedor ainda pedem Java ou C#, por exemplo. Exigir Java não é um problema.

      Sem falar que esses sistemas precisam ser muito estáveis e estarem sempre disponíveis (a troca de sistema da CEF deixou agências às escuras por quase 24h ano passado, por exemplo). As instabilidades que vemos nos sistemas normalmente não são do lado do código e sim do lado da rede/infra das estatais (sucateamento e tal) e das redes móveis do Brasil.

      1. Não que agregue a discussão, mas é bom pontuar que a maioria das aplicações Java e C# novas são para o backend…o cliente que acessa o sistema só precisa de um navegador geralmente.

        Applets e instaláveis de C# costumam ser coisas legadas mesmo…inclusive é cada vez mais complicadas executa-las em browser por exemplo.

        1. Me corrija se eu estiver errado, mas, mesmo applets/backend precisam da JRE instalada né? Acho que era disso que o @Ligeiro estava falando, da necessidade de se ter instalado o JRE para usar esses sites.

          Eu vejo cada vez mais pedidos de conhecimentos em C# e .NET em geral nas vagas que estão sendo anunciadas aqui POA e uma estabilização de PHP e Java (e um crescimento muito tímido de Python, provavelmente por conta da onda de data mining e NLP).

          1. Tinha sites que baixavam um .jar e rodavam local, esses precisam da JRE instalada localmente.

            Os “novos” geralmente usam tecnologia web para conectar com o cliente, então o usuário só precisa de browser…tanto faz se é Python, Java ou Ruby que está fornecendo as páginas. Sistemas novos não deveriam exigir JRE do usuário…só JDK para o dev.

            De fato, o Python cresceu. bastante nos últimos tempos devido ao “boom” de ciência. de dados, mas também tem outros fatores como DevOps por exemplo: https://stackoverflow.blog/2017/09/14/python-growing-quickly/

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